segunda-feira, novembro 21, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XIV

É confirmada a identidade da pessoa que mais tem ajudado Kain em sua jornada em meio aos edifícios labirínticos da Cidade Suspensa. Mais aspectos da Verdade estão prestes a ser revelados...

Kain e sua inusitada companheira caminharam apressadamente por caminhos cada vez mais escuros e úmidos. Segundo Scarlate, o aqueduto levava diretamente a um torreão e este para uma escada secreta que dava diretamente na câmara do Rei da Cidade Suspensa. Não havia garantias de que a entrada não estaria vigiada, mas a Cortesã contava com o fato de que quase ninguém conhecia essa passagem. 

"Ao que parece," comentou a jovem, "nem o Rei sabe que essa passagem existe."

"Isso é bom demais para ser verdade, Sofia" ofegou Kain. "Ainda me pergunto se isso tudo não é uma armadilha."

"Você me ofende com essas palavras, Kim. Mas me ofende mais ainda ao me chamar por esse nome. Eu deixei de ser Sofia há muito tempo. Só voltarei a atender por esse nome quando você tiver de volta seu coração."

Kain fez um muxoxo, enquanto acompanhava Scarlate, que havia transformado o passo rápido em ligeira corrida. Não confiava na Cortesã, nem em seu agente, o Ambulante Chinês. Ao que parecia, o oriental havia ajudado a moça por todo o tempo que ela passara lá, inclusive garantindo seu ofício na taberna. Com as décadas se tornando séculos, a antiga dona do lugar cedeu o direito de propriedade à cortesã mais bela e talentosa, a moça cujo nome antes fora Sofia e que agora chamava-se Scarlate. 

Toda essa história fora contada às pressas para o viajante, que não conseguia abrir mão de sua desconfiança. Era fato de que nomes e rostos misteriosamente surgiam como sendo familiares. Havia alguém, uma imagem no passado que insistia em pregar peças na mente do viajante, mas ele tentava resistir. Precisava concentrar-se, cumprir sua ambição, para depois partir para sempre daquele lugar. Sem ter seu coração de volta, seria sempre um Vazio, uma sombra, um escravo sem identidade, fugindo de senhores poderosos, que brincavam com a vida de homens e outras criaturas.

No fim do aqueduto, Scarlate levou Kain por uma porta oculta na escuridão. A porta era de fato imperceptível, seu contorno só tornou-se visível quando a cortesã tocou algumas pedras na seqüência do que parecia ser uma senha. Logo que a passagem abriu, os dois entraram com rapidez, chegando a uma escadaria íngreme e perigosa, que subia pela parede externa do torreão central. 

Os dois subiram em silêncio. Nada se ouvia, a não ser o som de suas respirações ofegantes. Scarlate era a que mais ofegava, segurando a saia para que não tropeçasse em sua barra. Kain olhava por sobre os ombros da cortesã e lembrava do coração marcado de mordidas. Era delicioso e ao mesmo tempo completamente asqueroso. Algo então chamou sua atenção. Já estavam a uma altura considerável. O Torreão Real parecia ser mais alto até mesmo que a Biblioteca. Assim, o viajante pôde ter uma visão panorâmica da cidade, de seus titânicos edifícios e formidáveis fornalhas. Era imensa, vasta, como um Mal impossível de se extinguir. A visão foi tão perturbadora que Kain estacou entre os degraus, sentindo vertigem. Só não caiu porque foi agarrado por Scarlate.

"É incrível, não é mesmo?" comentou a cortesã, em um tom de malicioso desinteresse. "Essa é a Cidade. A Cidade dos Sonhos que todos almejam alcançar. Dizem que todos aqueles que acabam nos abismos mais profundos almejam um dia morar aqui. Neste lugar, uma pessoa pode negociar sua alma pelo mundo inteiro ou o mundo inteiro por uma alma nova.

Kain permaneceu calado. De qualquer forma, tudo o levava a crer que sua existência estava intimamente ligada àquela cidade. Talvez ele fosse um completo faz-de-conta. Talvez apenas reminiscências do corpo desse "Kim" fizessem parte do viajante e que a busca de um coração fosse algo completamente impossível e sem sentido. Uma alma artificial. Era bem provável que ele fosse apenas isso, um retalho de almas alheias. Mas Scarlate dizia algo importante e Kain resolveu prestar atenção.

"Está vendo aquelas enormes fornalhas? Já devem ter te falado que elas movimentam a Cidade e aquecem as caldeiras. Sabe o que mantém aquele fogo vivo? A magia dos corações negociados nesta cidade. Os corações vendidos por aqueles que querem trocar de alma e não têm posses para tanto. Esses corações são penhorados e, em seguida, transportados ao Banco, que os resgata. Em seguida, o Banco os vende ao Senhor das Fornalhas, que os usa para nunca deixar o fogo morrer. Por isso, acho que é quase impossível resgatar seu coração sem luta. O Rei da Cidade será nosso inimigo."

"Não importa" respondeu Kain, com secura. "Não cheguei tão longe para desistir. Se precisar medir forças com o Rei, que assim seja."

Com um sorriso enigmático, Scarlate agarrou a mão esquerda de Kain e puxou-o escadaria acima. Em um segundo, o viajante olhou para baixo e viu que seus pés estavam suspensos e os degraus pairavam alguns metros abaixo. Aterrado, ele viu que Scarlate tinha agora um par de asas de um vermelho vivo, intenso. Instantes depois eles já estavam no alto do torreão. Scarlate pousou graciosamente em uma sacada, enquanto sorria. Estavam diante de um enorme portão que dava para o gabinete particular real.

"Esta é tua última batalha, meu querido" disse ela, com um sorriso doce. "Não se esqueça, alcance seu objetivo e volte para mim."

Dizendo isso, a Cortesã beijou suavemente os lábios do viajante e, antes que o rapaz desse conta, ela já havia alçado voo, tomando distância entre as nuvens de fuligem que saíam das chaminés. Kain respirou fundo. Tudo aquilo poderia ser um embuste, mas não havia mais tempo para outras medidas. A noite findava. Lá embaixo, em algum lugar, o Vazio o aguardava. Se havia alguma chance de reaver seu coração, havia chegado a hora. Sem hesitar, Kain marchou corajosamente rumo ao portão e o abriu. Sua jornada havia chegado ao fim.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Éden - um mundo de sentidos


Ninguém imagina o que as coisas são apenas como aparentam. Certo, algumas pessoas podem defender o materialismo com unhas e dentes, mas até mesmo estes irão concordar que as coisas que existem vão além de como as vemos, ou interpretamos.

Assim é a obra do quadrinista argentino Kioskerman (http://www.kioskerman.com.ar/). Apropriando-se de elementos comuns às fábulas e aos contos de fadas, ele reconstrói o sonho do paraíso perdido, batizando-o de Éden. Contudo, sua obra ultrapassa as barreiras de conceitos religiosos ou mitológicos. Ele apenas os utiliza como referência, para então dar asas a seus devaneios, mas de forma tão genial que cada devaneio do artista toca o devaneio de seus leitores, tornando sua obra universal.

A nostalgia, o inestimável valor do momento, a família e o amor são alguns dos temas abordados com simplicidade e lirismo. 

Passear por Éden é uma oportunidade de ver-se de outra forma, como uma criatura mágica, habitante de um mundo bucólico e paradisíaco. Éden não é perfeito, mas é um paraíso por dar forma a sonhos e ideais, além de permitir que os fatos comuns do dia-a-dia sejam vistos através de uma perspectiva mágica, transformadora. 

Tive a oportunidade de conhecer Kioskerman no 7º Festival Internacional de Quadrinhos. Apesar da barreira dos idiomas, pudemos bater um papo muito legal. E ainda por cima ganhei uma tirinha feita sob medida! 

Por fim, acredito que nada melhor para falar de Éden que o booktrailer feito pelo próprio autor, abaixo:


Como afirmado no site da editora Zarabatana, que publicou Éden no Brasil, tenho certeza que cada leitor que tiver contato com este livro terá, ao fim de sua leitura, a certeza de ter sido um afortunado viajante no paraíso.

Ficha técnica:
Título: Éden
Autor: Pablo Holmberg (Kioskerman)
Edição: 1
Editora: Zarabatana
ISBN: 9788560090280
Ano: 2010
Páginas: 120
Tradutor: Claudio Roberto Martini


Link para o livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/144905


quarta-feira, novembro 16, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XIII


Um misterioso bilhete leva Kain a uma busca noturna e a um confronto maligno. Usando sua experiência, ele escapa, embora sabendo que por pouco não foi derrotado. Agora, o objetivo de sua jornada está para ser revelado...

Kain se esgueirou por um bom tempo pelas ruelas escuras da Cidade Suspensa. Não sabia se havia alcançado sucesso em despistar seu perseguidor, mas nem ao menos queria olhar para trás e conferir. Seu tempo era curto e ele procurava aproveitá-lo da melhor forma possível. 

Logo ele alcançou o local de encontro. Um vulto o aguardava, mas não era o mesmo sinistro inimigo. A silhueta delicada revelava um corpo de mulher. Ao perceber a chegada do viajante, o vulto saiu das sombras, revelando sua identidade. Scarlate, a Cortesã, trazia uma capa escura sobre os ombros, escondendo o corpete fino. Kain fitou-a com seus olhos frios. 

Scarlate ensaiou alguns passos indecisos na direção do forasteiro, que mantinha-se impassível. Ainda vacilante, a Cortesã começou a falar:

"Antes, não tinha certeza que você era meu Kim, mas agora não me restam dúvidas. No começo, não te reconheci, seu rosto não é mais o mesmo. Só que alguma coisa me dizia que eu já te conhecia e essa certeza foi crescendo e hoje é absoluta. Mesmo que não se lembre, você é o meu Kim."

"Moça, você está me confundindo com outro alguém" disse Kain, com frieza. "Nossos nomes podem ser até parecidos, mas eu te afirmo que não sou quem você procura."

Scarlate abaixou a cabeça por um momento, para esconder os olhos tristes. Logo em seguida, porém, ela ergueu-os, desafiadores.

"O que você veio fazer aqui, então? Não foi pra resgatar seu coração que você veio à Cidade Suspensa? Para reaver o coração que você vendeu para o Demônio de Gelo? E eu sei que você viria. Esperei todos esses séculos, aluguei tentas vezes meu coração... Não, nunca o vendi. Resgatei-o várias vezes, tantas quantas foi preciso, só pra ter o momento de te encontrar."

Confuso, Kain pôs as mãos sobre o rosto. Como aquela mulher sabia tanto sobre ele? Mas alguns dados não batiam. Ele vendera seu coração para um demônio, era verdade, mas um demônio de gelo? Estava lembrado de ter negociado com um demônio de fogo. Era certo que parte da sua alma, ou toda ela, era artificial. Ele era igual ao seu perseguidor, um Vazio, um agente a serviço daqueles que comandavam planos superiores e inferiores. Mas então um nome que antes parecia desconhecido brotou de seus lábios:

"Sofia!?"

A cortesã esboçou um sorriso triste diante do perplexo viajante.

"Há muito tempo eu não uso esse nome, mas não nos resta luxo para mais nostalgias. Temos que chegar ao Rei antes que este pesadelo em forma de cidade te expulse daqui."

domingo, novembro 13, 2011

O Retorno da Batalha

Amigos...

Só estou passando por aqui para dizer que não me esqueci de vocês... Estou vivo, sim. Muito cansado, porém. Infelizmente, terei que atrasar um pouco a publicação de A Cidade Suspensa.

O Festival acabou, mas agora temos que desmontar tudo. Ainda tenho dois dias de muita correria. Peço muitas desculpas.

Conto com a paciência de vocês! Abraços!

quarta-feira, novembro 09, 2011

FIQ! Mode On

Amigos, muitos devem estranhar que eu esteja atualizando o blog quase "de modo automático". Peço desculpas. Quase não tenho respondido comentários ou acessado os blogs de meus amigos. O motivo está no link abaixo:

http://www.fiqbh.com.br/

Isso mesmo. Durante estes dias, até o dia 14 de novembro, todos os meus esforços estarão voltados ao 7º Festival Internacional de Quadrinhos. Vou tentar não atrasar A Cidade Suspensa. Acredito, porém, que não haverá resenha de livro na sexta-feira. Afinal, trabalhar em um evento de 8h às 22h durante 5 dias é uma verdadeira maratona!

Abraços e para todos que estiverem em Belo Horizonte, espero vê-los no FIQ!

segunda-feira, novembro 07, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XII

Embora considerasse impossível, Kain começa seu trabalho na Biblioteca. Impelido por um misterioso bilhete, o viajante parte rumo à escuridão da noite.


Kain movia-se silenciosamente por um beco escuro, já bem longe da Biblioteca. Pôs a mão direita sobre o peito, lembrando-se da súbita sensação que teve ao ler aquele estranho pedaço de papel. Que sensação fora aquela? Palpitação? Coração agitado? O viajante deu um sorriso de deboche, meio que escarnecendo de si mesmo. “Como se alguém na minha situação tivesse coração.” murmurou. As letras do bilhete marcavam como fogo sua memória, pregando peças em sua mente ao provocar aquela desagradável sensação.

A verdade era que Kain estava encurralado. No bilhete dizia que o Bibliotecário estava sendo pressionado a rejeitar o trabalho do viajante e que a Cidade iria pousar ao raiar da manhã. Kain não tinha muito tempo a perder. O autor do bilhete afirmava conhecer um atalho para o Palácio Real, para dentro da própria câmara do Rei da Cidade. Era a única chance de Kain para conseguir o que procurava.

O viajante seguiu pela estreita viela, perdido em seus pensamentos e desconfianças. E se fosse uma armadilha? E se aqueles que o queriam impedir estivessem prontos para pegá-lo? De qualquer maneira, Kain deveria arriscar e ele sabia que, desde o momento em que pusera os pés na Cidade, sua vida passara a não valer absolutamente nada. Ele já estava arriscando tudo a partir daquele momento.

A atenção de Kain foi atraída para uma figura que estava alguns passos à frente, próxima à saída do beco. Parecia ser aquele mesmo desconhecido que estivera no ponto de embarque do bonde. A excelente memória de Kain nunca esquecia um fato, por mais corriqueiro. O viajante diminuiu o passo, cauteloso. Era uma coincidência grande demais aquela mesma silhueta estar naquele lugar, aguardando. Kain estava bem próximo à saída do beco e ao seu destino, onde era esperado pelo autor do bilhete.

O desconhecido então gemeu. O som penetrou Kain como uma lança de gelo. Parecia o suspiro resignado de alguém que nunca conheceu paz ou alegria. Mas o viajante entendeu imediatamente o que era aquilo. Era um feitiço. Erguendo suas defesas, Kain resistiu ao melancólico e doloroso ataque da criatura que o havia emboscado. Era difícil, pois seu inimigo parecia ser conhecedor de profundas maldições, usando-as de maneiras que ele nunca imaginara. Suas mentes não se chocaram em nenhum momento, mas Kain sentia-se dilacerado pelos gemidos do outro.

A batalha pode ter durado segundos ou séculos, ninguém irá saber, a não ser aqueles dois, que descobriram conhecer muito mais um do outro. O agressor era um Vazio, alguém que fazia o mesmo serviço que Kain fizera durante longos anos. Aquele, porém, era tão ou mais experiente que o viajante, que estava tendo dificuldades em manter o equilíbrio da luta. Lentamente, suas forças eram drenadas, as maldições iam penetrando pouco a pouco suas defesas, petrificando suas juntas, apertando sua garganta, como algo invisível que quisesse sufocá-lo.

Com resignação, Kain deixou o seu sobretudo cair ao chão. Seu corpo então mudou rapidamente de forma, assumindo a estranha consistência de piche, como um ser pseudópode. O oponente fez o mesmo e, por segundos, duas massas disformes lutaram entre si, medindo forças em movimentos espalhafatosos, um tentando esmagar o outro.

Enquanto isso, Kain tomava distância, ofegante. Esperava que seu caçador ficasse distraído com aquela ilusão por tempo suficiente para o viajante escapar. Não podia ficar perdendo tempo enfrentando Vazios. Tinha que chegar ao Palácio Real o mais rápido possível. Enfraquecido pela última batalha, Kain cambaleou até o local onde o autor da carta aguardava, escondido nas sombras de um muro, com o rosto coberto por uma capa. Kain apoiou-se no mesmo muro e olhou, inquiridor, para aquela pessoa, sem reconhecê-la. O desconhecido então lentamente retirou o capuz que lhe cobria a cabeça, revelando sua identidade. O viajante deixou escapar apenas uma palavra:

“Você!...”

sexta-feira, novembro 04, 2011

Sombras de Reis Barbudos - um labirinto de palavras

Neste mundo de mídias de massa, muitas obras acabam assumindo uma roupagem mais "homogênea", visando alcançar o cidadão comum. E dessa forma, os conflitos abordados acabam sendo também os mais banais, de forma a "poupar" o leitor, já tão estressado pela insegurança das notícias econômicas, das catástrofes, da política. Ficamos então, em muitos casos, com um material meio morno, que serve mais para entretenimento. Principalmente quando o livro é dirigido a todas as idades.

Mas de vez em quando somos surpreendidos com trabalhos que, embora despretenciosos, carregam uma mensagem contundente em uma linguagem simples e extremamente acessível. Este é o caso de Sombras de Reis Barbudos, de José J. Veiga. Narrado por uma criança, mas recomendável a pessoas de qualquer idade, o livro conta sobre Lucas, um garoto morador de uma pequena cidade interiorana. Já no início da narrativa, a vida do garoto muda com a chagada do tio Baltazar, o abastado parente que há tempos não aparecia. O fato marcante decorrente da chegada de tio Baltazar é a criação da Companhia, uma fábrica que promete mudar a vida de todos os moradores da pequena cidade.

A princípio, todos estão felizes e satisfeitos com a onda de prosperidade. Mas tio Baltazar é obrigado a afastar-se da Companhia e então o terror começa. Os ameaçadores fiscais são recrutados e enviados para impedir que qualquer pessoa descumpra as regras da Companhia. À medida que o tempo passa, mais regras são criadas, muitas delas tão absurdas como os muros que são gradativamente erguidos, transformando a cidade em um labirinto claustrofóbico. 

A narrativa se desenvolve repleta de lacunas e sugestões, nos moldes de um pesadelo, de forma a deixar sempre um mistério no ar: O que a Companhia realmente faz? O que ela quer de verdade? Mas Lucas, enquanto conta sua história, mostra que já sabe a resposta, e também deixa a entender que ela não pode ser pronunciada.

Embora opressivo e labiríntico, Sombras de Reis Barbudos é uma obra excepcional, com uma escrita leve e muito gostosa, que pode ser lida por qualquer pessoa. É um trabalho genial de alguém que, em plena ditadura, deixou um forte apelo contra os desmandos do Poder.

Confira abaixo um trecho que dita o tom do texto:
Eu estive enganado o tempo todo. Tio Baltazar passava muito bem. A reunião era uma festa para comemorar a torre que ele acabava de construir, obra nunca vista e muito importante encomendada por uma comissão de reis barbudos. Como prêmio tio Baltazar ia ser nomeado rei também, aquela gente toda estava ali para ajudá-lo a experimentar a roupa, a coroa e a barba postiça que ele ia usar enquanto não crescesse a verdadeira.

Tia Dulce passou por mim vestida de rainha e pintando as unhas com esmalte, o cabelo comprido voando para trás e largando um perfume de rainha. Corri atrás dela para falar dos presentes que eu tinha levado, ela desapareceu entre as colunas do corredor comprido e largo, cansei de procurá-la, por onde eu olhava só via chão de mármore e colunas a perder de vista, e lá muito longe a claridade bonita do luar.

Tio Baltazar estava me esperando na torre, queria a minha opinião antes da festa, mas com aquele saco de presentes inúteis nunca que eu chegava a tempo, e ele na certa ia ficar com raiva de mim, cortar relações, me demitir de sobrinho, agora como rei ele tinha poderes. Também que idéia de mamãe me obrigar a carregar aquele saco tão cheio de coisas da horta, batata, quiabo, jiló, mangarito, jacutupé, eu já estava quase achatado debaixo do saco. E que idéia a minha também de sair à rua em dia de festa vestido só com uma camisa curta, e num frio daquele.

Quando tudo parecia perdido alguém me carregou nos braços, me deitou num jirau macio e estendeu um cobertor por cima de mim.


Ficha técnica:

Título: Sombras de Reis Barbudos
Autor: José J. Veiga
Edição: 27

Editora: Bertrand Brasil
ISBN: 9788528603200
Ano: 2008
Páginas: 142




Confira a página do livro no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/798

quarta-feira, novembro 02, 2011

Reticências


Nem o futuro nem o presente existem. Nem se pode dizer que os tempos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse melhor dizer que os tempos são: o presente do passado; o presente do presente; o presente do futuro. E estes estão na alma; não os vejo alhures. O presente do passado é a memória, o presente do presente é a percepção, o presente do futuro é a expectativa. Santo Agostinho 


Um dia todos nós vamos nos encontrar. E isso se dará em uma dessas esquinas esquecidas e cinzentas, onde funciona um café que parece que parou no tempo há cinqüenta ou sessenta anos atrás. Iremos entrar, alguns juntos, rindo, tirando os casacos por causa do calor aconchegante de dentro em contraste com o frio intenso do inve(te)rno lá fora. Outros chegarão depois, quando já estiver nevando, mas sobretudo antes de escurecer.

Será inevitável, contudo, que falte alguém. Um que nunca irá aparecer, ainda que o aguardemos. E deixaremos seu lugar vago, na vaga esperança de que a porta se abra, trazendo uma lufada de vento frio e a imagem de uma espera enregelada. Estaremos todos a conversar, como que ignorando a falta tão presente desse amigo. Nossos sorrisos escondendo os olhos tristes, consolando-se por ainda termos uns aos outros. Até mesmo o fantasma, o ausente.

E não faltará literatura. E tabaco. Sim, o capuccino correrá solto junto com a cerveja escura e o vinho quente. Logo todos nós estaremos a cantar as proezas dos poetas já mortos; aventureiros sem ter mais o que desbravar. Nossas gargantas ficarão apertadas, a comoção fará com que as lágrimas se misturem ao conhaque. Mas ainda estaremos vivos. E sóbrios. Não essa sobriedade disfarçada, social, moralizada. Olharemos a vida com a verdadeira consciência, ébrios no físico, mas sãos em natureza. Mesmo aqueles que não beberem serão tomados por essa embriaguez, uma embriaguez literária, onde as palavras enlouquecem junto com o fogo e a noite. Muitos de nós, sem nos conhecermos de fato, iremos nos amar como irmãos; ou como amantes; o que pedir a ocasião. Não haverá misérias que não sejam choradas e memórias que não sejam lembradas. Mesmo as inexistentes serão evocadas e criadas por aqueles que nunca as tiveram. Seremos um só, uma só noite, a perpetuar nossas escuridões nas palavras e nos silêncios de nós mesmos...

Texto dedicado a todos os ausentes, num dia que tanto sentido faz para minha própria existência.

terça-feira, novembro 01, 2011

A Cidade Suspensa - Notícias

Desta vez, resolvi sair um pouco do usual e escrever algo diferente no blog. Como já disse anteriormente, em As muitas razões de ser, eu expliquei um pouco do objetivo destes meus escritos. Ah, não podemos nos esquecer também da descrição no cabeçalho acima, que expressa a alma deste blog.

Bem, aproveitando esse clima dialógico que temos estabelecido aqui, com tantos comentários e respostas, bem como a aceitação de A Cidade Suspensa, pensei então em registrar aqui um pouco do processo criativo e aproveitar para contar algumas novidades.

A primeira é que A Cidade Suspensa está terminando. Sim, faltam 4 postagens para o fim. E isso significa que o episódio anterior marcou a chegada à reta final. 

Outra coisa é que há algum tempo tenho pensado sobre a possibilidade de uma ilustração para A Cidade Suspensa. Assim, pedi ao meu amigo Daniel Werneck que me ajudasse em um desenho que expressasse de certa forma o conceito que esta narrativa encerra. Particularmente, gostei muito do resultado:



É um primeiro teaser. Mas por enquanto, sempre que sair um novo episódio, esta imagem será utilizada como ilustração. 

Aproveitando um comentário presente no episódio atual, como é possível perceber, inseri nessa narrativa uma série de referências, ou homenagens, às histórias que mais me envolveram. Como homenageada principal está a Literatura em sua essência.

A última coisa que gostaria de falar é sobre o resultado da enquete. Um resultado interessante que expressa a visão dos leitores em relação a um dos personagens mais enigmáticos da trama. E sinto tristeza em não aproveitar melhor o Ambulante Chinês.

Bem, minha intenção era registrar algumas ideias sobre A Cidade Suspensa. Espero que vocês me acompanhem mais um pouco nesta travessia, testemunhando a jornada do proscrito Kain rumo ao seu objetivo.

domingo, outubro 30, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XI


Embora acreditasse impossível, Kain consegue um trabalho na Biblioteca da Cidade Suspensa. Ele sabe, porém, que o cargo é provisório e que ainda há muito a conquistar...

O tempo era confuso na Cidade Suspensa, mas pelas observações de Kain, fazia dois ou três dias desde que ele fora abrigado na biblioteca. Apesar disso, sua situação ainda era incerta. Sua admissão como intendente não era formal, de modo que logo que a Cidade Suspensa pousasse novamente, ele seria expulso da cidade. Bem, talvez expulso não fosse a palavra mais adequada e sim expelido. O viajante procurava não pensar nisso, lançando-se com afinco ao novo trabalho, procurando aprender e aplicar os conhecimentos que já possuía.

A Biblioteca era fascinante. Uma torre cilíndrica, gigantesca e cada andar era incrivelmente extenso. As escadas que levavam aos andares superiores eram retas e não acompanhavam o formato circular do edifício. Cada andar era composto de um salão de livros, uma sala de leitura e dormitórios, que poderiam ser coletivos ou individuais, como o de Kain. 

Os volumes eram ainda mais fascinantes que o prédio. Um visitante inadvertido, ao abrir um livro, não encontraria palavra que fizesse sentido. Logo no primeiro dia, o Bibliotecário havia explicado que o acervo era protegido com uma magia poderosa. O conhecimento neles encerrado era destinado aos iniciados.

O salão de livros era composto por estantes de madeira escura, baús e prateleiras, onde as escrituras eram armazenadas. Os iniciados que residiam na Biblioteca, aprendizes do Bibliotecário, vagavam entre as estantes, buscando os escritos que mais lhes interessavam, para poderem desfrutá-los na sala de leitura. Alguns não aguentavam a ansiedade e já se entregavam ao vício da leitura logo que punham as mãos no livro. Por vezes, estudiosos se esbarravam por não olharem o caminho à frente.

Quando um estudioso procura um livro e não sabe como encontrá-lo, a solução sempre estará no grande catálogo em posse do intendente. Kain era consultado o tempo todo. Havia muito trabalho a fazer. Auxiliar o bibliotecário a catalogar os livros novos, conferir cada códex, cuidar para que os pergaminhos não fossem arruinados pelo clima. Quase não havia tempo para bisbilhotar o que estava escrito em cada livro que eles manuseavam. 

Kain também raramente encontrava Marília. A jovem permanecia quase o tempo todo no alto da torre, no andar privado do Bibliotecário. Muitas histórias rondavam a figura da moça. Diziam que ela e o pai viveram nos campos, criando gado, quando ela era uma adolescente. Naquela época, o Bibliotecário havia decidido aposentar-se para cuidar melhor da filha. O ambiente era repleto de campos verdejantes e ar puro, bem diferente dos sufocantes edifícios, cobertos de fuligem, da Cidade Suspensa. Mas não era somente o ambiente campestre que fazia a garota feliz. Naqueles dias, Marília tinha um amor.

Era um jovem pastor que compartilhava os mesmos sonhos e aspirações que a garota. Viviam pelos campos, juntos, como irmãos. Diziam que ele era excelente músico e encantava a garota com suas melodias. Mas um dia, quando Marília estava em casa e seu amado pastoreando nos campos, um trágico acontecimento fez com que o rapaz fosse perdido para sempre. Desse desastre, Marília nunca se recuperou. Buscando afastar sua filha das lembranças amargas, o Bibliotecário revogou a aposentadoria e retomou imediatamente o trabalho na Biblioteca. Marília nunca se recuperou do choque.

Kain pensava no trágico destino da moça, enquanto dirigia-se para seu quarto. Estava muito cansado, e a história de Marília não saía de sua cabeça. Mas o que Kain queria mesmo era uma boa soneca. Ainda estava pelo meio da tarde, mas ele e o Bibliotecário haviam passado a noite e a manhã trabalhando em indexar novos itens para o acervo. Os ombros de Kain doíam e seus olhos estavam pesados. Ele teria desabado na cama se não tivesse percebido um pequeno e estranho pedaço de papel depositado sobre o colchão.

Sem demora, Kain pegou o papel e desdobrou-o, lendo com avidez o conteúdo. O viajante oscilou à beira da cama. Seus sentimentos se misturaram, revolvendo seu peito. Depois de tudo, aquele era o momento. Deveria partir sem demora.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Fahrenheit 451 - Porque guardar é preciso

Quando comecei a ler Fahrenheit 451, senti uma profunda estranheza. As imagens presentes no texto, embora um tento poéticas, eram confusas em diversos trechos. Eu não me sentia parte daquele texto. Era como se eu fosse uma espécie de clandestino naquelas linhas.

Um dos motivos para que eu me sentisse dessa forma talvez tenha sido a maneira com que o protagonista, Guy Montag, é apresentado logo no início do romance. Ele é um bombeiro que vive em um mundo em que os bombeiros não têm mais a obrigação de apagar incêndios. Agora, as casas dificilmente pegam fogo e, por isso, outra função é dada aos profissionais que antes combatiam as chamas.

Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451, dá forma a uma obra densa e opressiva, cujo enredo está situado em um suposto futuro. No romance, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a sociedade desenvolve um forte imediatismo, de forma que as fontes de conhecimento mais tradicionais, como os livros, passam a ser descartados e, por fim, temidos. Afinal, o governo começa a considerar o acesso aos livros uma perigosa forma de autonomia.

Com isso, os bombeiros são arregimentados para dar fim ao legado de Gutemberg. Atendendo a denúncias anônimas, eles seguem o mesmo tradicional protocolo de vestirem macacões, descer pelo corrimão ao andar de baixo, subir no caminhão e partir rumo ao chamado. Só que as mangueiras que eles carregam não cospem água e sim querosene.

Guy Montag, protagonista da história, é um bombeiro com dez anos de serviço. Fiel ao seu serviço, sente orgulho por fazer parte da corporação. Logo que ele entra em ação, é com prazer que observa os livros sendo transformados em cinzas. Tudo muda quando ele tem um fortuito contato com uma vizinha, uma menina de 17 anos que provoca nele um incômodo tão grande que Montag passa a ver tudo ao seu redor de uma forma diferente.

O mundo descrito por Ray Bradbury carece de detalhes, de forma que, ainda que narrado em um universo futurístico, os conflitos são profundamente psicológicos. Este fato se torna cada vez mais forte nas duas últimas partes do romance, quando os diálogos se tornam cada vez mais profundos e significativos.

É importante destacar que a mudança em Montag é gradual e, como é de se esperar, acaba por trazer sérias consequências tanto para sua saúde física quanto para sua própria sanidade mental. Da mesma maneira que no mito da Caverna de Platão, quando ele tem seus olhos abertos, passa a considerar inconcebível que as pessoas ao seu redor continuem alheias, acreditando nas transmissões de seus televisores e nas propagandas insaciáveis. Montag passa a ter outros anseios, mais urgentes e também mais profundos.

Desafiador, profundo e poético, Fahrenheit 451 é uma obra inesquecível. Um chamado a todos aqueles que querem viver além da superfície.

Segue abaixo um pequeno trecho do livro e que particularmente me inspirou, pois traduz um pouco do espírito deste blog:

Um deles tinha de parar de queimar. Por certo o Sol não pararia. Dessa forma, era como se tivesse de ser Montag e as pessoas com quem ele havia trabalhado até algumas horas antes. Em algum lugar, o ato de salvar e guardar teria de começar novamente, e alguém tinha de se encarregar de salvar e guardar, de um modo ou de outro, nos livros, nos discos, na cabeça das pessoas, do jeito que fosse, desde que fosse seguro, livre de mariposas, traças, ferrugem e mofo, e de homens com fósforos.

Ficha técnica

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Globo de Bolso
ISBN: 9788525046444
Ano: 2009
Páginas: 256
Tradutor: Cid Knipel

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/136

quarta-feira, outubro 26, 2011

Sobre amores desiguais

Há alguns dias terminei a leitura do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Em breve deixarei aqui uma resenha sobre esse livro. Gostaria, contudo, de comentar um trecho que me fez refletir por um bom tempo.

O livro fala de Ema Bovary e sua busca incessante por um significado para além do cotidiano, uma perseguição do ideal de paixão e felicidade. Nessa busca, Ema se envolve com amantes, estabelecendo um clima de tensão que vai ficando cada vez mais forte ao longo da narrativa. O trecho que me fez refletir fala sobre a relação entre Ema e seu amante Léon:

"Não discutia as ideias dela e aceitava-lhe todos os gostos; ele era mais amante dela do que ela o era sua."

Cheguei ao final dessa frase com a indagação sobre tantos casais que vivem uma situação semelhante, ou pelo menos têm impressão dessa desigualdade de sentimentos.

A verdade é que não há justa medida para o amor. Não há sentimento que possa ser medido, ou mesmo definido. Amamos, simples assim. Tentamos mensurar esse sentimento pelas angústias que nascem de nossas expectativas. É impossível aceitar que o amor do outro seja insondável, imensurável. E isso nos incomoda na proporção inversa de nossa segurança.

Numa sociedade regida pela imagem, desde os ícones pop até os gráficos estatísticos, o ato de comparar é quase natural. As consequências ficam a cargo das pessoas comuns, incapazes de manter o ritmo dessa força inexorável e retroalimentada que atua como modelo social.

A insegurança é um problema, pois provoca comparações que geram ainda mais insegurança. É importante, porém, assumir que quanto mais envolvidos estivermos em um relacionamento, maior peso daremos a nossas comparações.

Mas esse mesmo excesso de envolvimento pode também provocar um enganoso excesso de confiança. Carlos Bovary, marido de Ema, era tão devoto à esposa que sequer imaginava ser possível qualquer traição. Não fosse a convenção social ela já o teria abandonado. Carlos vai ao cúmulo da ignorância, ao encontrar um antigo bilhete de um outro amante. Ao ler as palavras comprometedoras, ele declara: "Amavam-se platonicamente."

Talvez seja inevitável – até necessário – comparar. Ou de repente o melhor é jogar tudo para o alto, esquecer ou ignorar qualquer diferença (ou semelhança), deixar-se levar. Quem sabe um pouco dos dois. Não deixando, porém, que a segurança descambe para a insensibilidade. Ou que comparações, sempre subjetivas, estraguem algo que transcende qualquer comparação.

segunda-feira, outubro 24, 2011

A Cidade Suspensa – Parte X


Após perceber o erro de uma atitude temerária, Kain deposita toda as suas esperanças em um possível apoio do Bibliotecário...

O Bibliotecário causou forte impressão logo que Kain o viu. Era um homem alto e magro, de nariz adunco e o cabelo cinzento que denunciava o loiro dos anos verdes. Para o homem mais poderoso do lugar, tinha um olhar bem franco, quase bondoso. Mas o que surpreendia Kain era o ar de familiaridade que aquele senhor lhe lançava. O Bibliotecário assentiu levemente e saudou o viajante. 

“Bem-vindo, senhor forasteiro. Ainda que o senhor ignore, alguns dos Príncipes desta cidade estão devidamente informados de sua chegada. Está de posse da insígnia?”

Apesar de Kain ter ficado levemente surpreso, aquilo era de se esperar dos chamados “grandes” da Cidade. Lembrando-se da recomendação de Marília, o viajante logo pôs-se de joelhos. 

“Distinto senhor,” começou a dizer, enquanto estendia o medalhão, “apresento-me em busca de um trabalho. Não desejo me vangloriar, mas disponho de talentos que seriam no mínimo interessantes ao senhor e à Biblioteca.”

Em sua pose distinta, porém simpática, o Bibliotecário caminhou pausadamente até tocar o medalhão. O objeto começou a brilhar, como se aquecido e, num instante, desfez-se em fagulhas luminosas. O austero senhor fez um muxoxo e soltou um discreto murmúrio de satisfação.

"Creio que no caminho até este recinto o senhor tenha visto o número de trabalhadores à minha disposição. Não preciso de mais um, por mais talentoso que seja."

Era curioso, mas Kain já imaginava resposta como aquela. Fez menção de ficar de pé, mas o Bibliotecário tocou seu ombro, indicando que o viajante deveria continuar naquela posição incômoda. Pelo visto, o líder da Biblioteca ainda não havia acabado. 

“No entanto, o cargo de intendente está vago e não acredito que um daqueles idiotas lá de baixo estejam aptos a assumi-lo. A insígnia que o senhor viajante trouxe revela uma procedência de qualidade incontestável. Acredito, portanto, ser interessante recebê-lo como aprendiz, até que seu prazo na cidade acabe. Se eu aprovar o trabalho, o cargo será seu."

Não deixava de ser uma surpresa, mas Kain manteve-se impassível. O Bibliotecário deu rápidas instruções para que o guia levasse o viajante para os aposentos que ele ocuparia temporariamente. O grave funcionário da Biblioteca foi silenciosamente seguido até uma pequena saída de serviço, escondida em uma extremidade do recinto, onde se via a entrada para uma escada em espiral. Kain ainda olhou para trás uma vez, para observar o ar melancólico da filha do Bibliotecário. Marília era como um dos títulos guardados naquele edifício. Um daqueles tomos com capa bordada e repleto de iluminuras. Inalcançável. Balançando a cabeça para afastar esses pensamentos, Kain tratou se seguir seu guia até o recinto a ele destinado.

Era uma cela minúscula, contendo uma cama rústica com o colchão e cobertor grosseiros, uma pequena mesa de canto e um castiçal para uma só vela. Não havia janelas. Era tudo bem simples, mas bastava para Kain. O viajante foi deixado sozinho após um grave cumprimento do guia. Sobre a pequena mesa, havia uma tigela de caldo, um copo de leite e pão fresco. Era estranho, parecia que ele já era aguardado. 

Sempre desconfiado, chegou a ponderar se haveria veneno nos alimentos. Testou-os com magia e não encontrou alteração. Deu de ombros. Afinal das contas, havia dois dias que não tinha uma refeição decente e desde a sua chegada à Cidade Suspensa não comera nada. Seu corpo doía pela noite mal dormida, cochilando sentado no bonde noturno. Cansado demais para mais desconfianças, Kain comeu com voracidade para, em seguida, desabar na cama e entregar-se a um sono sem sonhos.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Uma menina em busca de vingança


"Ninguém põe fé que uma menina de catorze anos possa sair de casa e viajar em pleno inverno para vingar a morte do pai, mas na época não pareceu tão estranho, embora eu deva reconhecer que isso não acontece todo dia. Eu tinha só catorze anos quando um covarde que atende pelo nome de Tom Chaney meteu uma bala em meu pai lá em Fort Smith, Arkansas, e roubou sua vida, seu cavalo e 150 dólares em dinheiro, mais duas moedas de ouro da Califórnia que ele levava em uma faixa na cintura."


Resolvi iniciar a resenha de Bravura Indômita com as primeiras palavras do romance, deixando que a própria Mattie Ross fale por si, pois a corajosa menina de 14 anos dita o tom do enredo, sendo ela a Guardiã desta história.

Charles Portis deu forma a este romance em 1968, ambientando sua história ocorrida por volta de 1870 no autêntico faroeste. Mattie, em busca de vingança pela morte de seu pai, contrata o destemperado e implacável agente federal Rooster Cogburn e parte com ele em uma incansável caçada contra o assassino, Tom Chaney. LaBoeuf, um texas ranger, acompanha o agente federal e a menina, interessado em uma outra recompensa por Chaney.

O maior mérito de Portis ao escrever o romance foi deixar claro que Mattie é uma mulher inteligente, porém não uma literata. Já adulta quando conta essa história, Mattie lida bem com as palavras, mas sem se prender em criar belas imagens ou construir metáforas de efeito. Coisa muito comum na literatura norte-americana.

Não que Bravura Indômita não tenha belas imagens. Elas apenas estão entrelaçadas pela narrativa precisa e pragmática de Mattie e se revelam muitas vezes clandestinamente, como paisagens capturadas pelos olhos da menina e revividas através da memória da mulher.

Rooster Cogburn é um anti-herói, com seu charme próprio e postura incorrigível, no tradicional estilo "mocinho cafageste", embora sua história seja bem mais humana e menos glamourosa. Sua decadência é marcante, principalmente na descrição que Mattie faz de sua vida e no destaque que ela dá ao tapa-olho do velho agente federal. LaBeouf se contrasta com Rooster por suas roupas cuidadas e atitude engomada.

Assim como seria de se esperar em um ambiente hostil como os Estados Unidos costurado recentemente pela guerra civil, os personagens são todos homens com moral deturpada e a boca maior que os atos. Chega a ser cômico em certo momento Rooster, bêbado, disputar com LaBoeuf atirando em broas de fubá, tentando provar sua bela pontaria.

E justamente cenas como esta deixam o desfecho do romance ainda mais saboroso. Vale comentar que o livro teve duas adaptações para o cinema. A primeira, de 1969, foi estralada por John Wayne e dirigida por Henry Hathaway. Em 2010 foi lançada a segunda adaptação, estralada por Jeff Bridges e dirigida pelos irmãos Coen. Não sei da primeira, mas a segunda adaptação segue fielmente o roteiro do romance.

A escolha do desfecho de Charles Portis pode ser estranho para alguns, mas considero perfeito para a proposta do romance. Principalmente porque, ao final da leitura, você pode ficar com um pouco de vontade de embarcar naquele trem rumo ao Arkansas, em busca de sua própria aventura.

Ficha Técnica


Título: Bravura Indômita
Autor: Charles Portis
Edição: 1
Editora: Alfaguara
ISBN: 9788579620430
Ano: 2011
Páginas: 187
Tradutor: Cassio de Arantes Leite

Link para a página no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/146195/

quarta-feira, outubro 19, 2011

As muitas razões de ser

Enquanto meus dedos deslizam nas teclas, a janela do apartamento à frente ressoa músicas ininteligíveis, num coro de vozes bêbadas entoando suas canções. Algo que lembra um pouco do sertanejo brega que fez tanto sucesso na década de 1990. É domingo, 19h43 da noite. 

Como sempre posto um relato ou uma reflexão toda quarta-feira, pretendia levantar outras questões neste post ao invés de elogiar meus vizinhos tão educados. Por exemplo, queria falar sobre os comentários do blog. Agradecer, em primeiro lugar, a todos que comentam. E também dizer que leio todos os comentários. O fato de não respondê-los não diminui sua importância. Afinal, escrevo e publico especificamente porque espero que as pessoas leiam. Por isso minhas ideias, por piores ou melhores que sejam, não ficam guardadas na gaveta ou na página da agenda.

Embora não necessariamente, este blog é seriamente novo. Digo, ele existe desde 2005, mas com uma proposta diferente. Nasceu na tentativa de contar uma história de fantasia onde um gnomo perdido em um mundo quase morto conta suas memórias e analisa sua vida. Tanto a ideia inicial quanto sua sustentação morreram. Tudo por falta de comentários. 

Decidi, em seguida, criar uma outra história, onde um cavaleiro maligno resgata uma espada igualmente maligna para aos poucos ter sua vida transformada enquanto encontrava inúmeros personagens. A história se manteve sem comentários até o sétimo capítulo. Fiquei desmotivado e praticamente abandonei o blog.

As músicas continuam. Acredito que os vizinhos querem me convencer a cantar também. Se não fosse isso, não estariam gritando tão alto. Talvez seja a deixa para desligar este computador, bater na porta e pedir um prato de salgadinhos e uma bebida...

Ah, sim, estava falando do meu blog abandonado. Quase um ano depois, voltei e encontrei um comentário no último post. Ávido acessei o link e fiquei maravilhado com as palavras de uma pessoa que nunca vi. Essa pessoa dizia que lamentava que a história tivesse parado sem uma conclusão. Esse comentário me deu força a continuar uma história que durou mais de 2 anos, sendo dividida em duas partes: a primeira com 29 capítulos e a segunda com 35.

Depois de um tempo, pensei que essa leitora nunca mais voltaria. O blog foi reformulado, passei a postar resenhas, de forma a qualificar minha leitura. Acreditei que não mais postaria textos literários no blog. Hoje publico A Cidade Suspensa e cada comentário é como um impulso incandescente a inflamar minhas veias e me fazer pular de alegria. Sério. Às vezes saio do trabalho pulando, louco pra voltar a digitar aqui, continuar a relatar as dificuldades de Kain.

Agora o pessoal lá de fora está uivando. Fico imaginando se eles estão ensaiando algum rito ancestral pra chamar a chuva. Tenho que avisá-los que não é preciso. Já choveu ontem e hoje. Provavelmente choverá amanhã...

Não vou me estender demais. Aliás, acho até difícil. Para acompanhar os uivos, aumentaram o som. Creio que fizeram isso porque estavam gritando tanto que já não conseguiam escutar a música. Enfim, isso acontece.

Para encerrar, gostaria novamente de agradecer a todos que se aventuram por estas páginas. Mesmo aqueles que não registram sua passagem através de um comentário. Estas histórias estarão sempre aqui, guardadas para vocês.

E um agradecimento especial para Tyr Quentalë. A primeira leitora do blog e a grande responsável por salvar a alma de um escritor, aprisionada no peito de um ser humano.