sexta-feira, maio 10, 2019

Pílulas azuis - quando o real não é deserto

Por vezes, nos percebemos por acaso buscando um sentido maior em nossas vidas. Consideramos que a rotina diária, muitas vezes alienante, é insatisfatória. Assim, acabamos reféns de um ideal de transcendência por vezes enganoso, como se o real não nos bastasse.

E então, narrativas como a graphic novel Pílulas azuis nos mostram como a simplicidade da vida, com seus dilemas e desafios, pode em si representar essa transcendência. Não precisamos de uma pílula vermelha, de um choque para além da realidade. Não são necessárias conspirações governamentais, tramas internacionais ou invasões extraterrestres. A realidade, mesmo simples e ao rés-do-chão, pode nos transformar em seres maiores que nós mesmos.

Desenhado e roteirizado por Frederik Peeters, quadrinista suíço, Pílulas azuis é um relato autobiográfico sobre a jornada que o autor atravessou ao se relacionar com Cati, uma colega que por um fortuito acaso se torna amiga e depois amante. Já de início, Frederik deixa claro que havia, por parte dele, uma atração profunda, além de uma admiração, pela moça jovial e aventureira que Cati parecia ser. Tinham amigos em comum e essa proximidade permitia a Frederik a condição de silencioso observador. 

E de repente, ele descobre que a admiração é recíproca. Cati também observa - e acompanha - Frederik de uma distância segura. Ambos haviam se afastado, seguido com suas vidas, sem porém perderem de vista a trajetória um do outro. Numa festa, por fim, eles acabam se aproximando e dando início a um cauteloso romance.

É nesse momento que Cati, entre a honestidade e o receio, conta a Frederik que é soropositiva. E além disso, ela tem um filho, fruto de um casamento já encerrado. O menino, ainda bem novo, também tem o HIV. Cabe agora a Frederik a decisão: continua com Cati e aceita todos os riscos dessa relação, ou encerra esse namoro ainda incipiente?

De forma franca e simples, Frederik vai contando ao leitor suas dúvidas e medos. Aos poucos, ele vai conhecendo um pouco mais do universo em que Cati e seu filho estão inseridos. Com coragem e respeito, ele vai também aprendendo e reagindo, à medida que cresce o seu conhecimento.

A narrativa de Frederik é sincera e intimista. Suas dúvidas e questionamentos vão se colocando. Ao mesmo tempo, ele procura despojar sua narrativa de qualquer exagero dramático. Assim, ele demonstra sua intenção - muito acertada - de mostrar aos leitores que o que eles têm em mãos é a história de pessoas reais, nada mais que isso.

Há uma clara referência a Matrix. No longa-metragem, ao protagonista é apresentada uma escolha: tomar uma pílula azul, o que significaria esquecer seu desconforto e retornar à rotina; ou aceitar a pílula vermelha, lançando-se assim em uma jornada rumo a um épico desconhecido. No trabalho de Frederik, porém, não há essa necessidade. Não há um dilema que obrigue o protagonista a uma ruptura com a rotina e com a normalidade. O real, com seus dilemas, basta. E pode ser mágico.

Com um traço por vezes carregado mas geralmente leve, Pílulas azuis é um belíssimo relato de uma história de amor, com todos os seus percalços e pequenas vitórias. Uma obra singular, que em sua simplicidade atesta, com maestria, a grandiosidade da vida.

Ficha Técnica
Editora Nemo
Ano: 2015
Páginas: 208
Página do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/512405ED518848

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