quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Areia

"Porque derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca..." Isaías 44:3

A lâmpada incandescente vacila. Mais um efeito da maldita estiagem. No barraco de um cômodo, a mãe ora. Faz três dias que a água falta no morro. As roupas, amontoadas sem lavar. O marido, recém-empregado, já não tem camisa limpa. As crianças, sem tomar banho. Ela, no fim de uma menstruação, sentindo-se imunda. O último balde de água acabara no dia anterior, para fazer comida. E agora, junto com a falta d'água, a ameaça do racionamento da eletricidade.
Suspirou, pensando novamente no marido. Na época em que ele conseguira o emprego de porteiro de um edifício na Savassi, a alegria quase virou aflição. Temia perder o benefício do governo, o único provento que impedira que a família de seis pessoas passasse fome. Felizmente, não foi preciso; o salário do marido não era alto o suficiente para causar o corte do benefício.
Do barraco sobe um odor acre, mistura de comida velha, urina e suor. Banheiro sem lavar, quase faltando água até para beber. Quem sabe no dia seguinte a prefeitura manda um caminhão pipa para abastecer as casas do morro? Quando ainda não havia saneamento, a água era fornecida assim. O caminhão pipa chegava e despejava água em vários tonéis de plástico. Seus donos então vendiam a água aos moradores retardatários, muitas vezes munidos apenas de latas de tinta ou panelas para guardar o mínimo de água para seu uso.
E então, de repente, havia máquinas revirando o chão do morro, cavando, plantando no chão enormes blocos de concreto. E no morro passou a ter água encanada e esgoto. Mas o que realmente mudou a vida da família, quando antes eles eram obrigados a contar com a simpatia e solidariedade de outros, foi a tal bolsa. Já não eram obrigados a comer só farinha com café pra enganar a fome. Podiam, com dignidade, comprar seu alimento.
Mas agora tudo parecia incerto. Boatos corriam de que o benefício poderia ser cortado. O noticiário anunciava uma enorme crise. E para piorar, a estiagem provocando o racionamento de água e energia. 
Puxando mais um suspiro, ela apoia os braços na janela, olhando ao longe a escuridão que termina nos limites do morro. Lá em baixo, na Savassi, a luz mantém sua presença, forte e pungente. No prédio em que o marido trabalha não faltará energia. Lá ele poderá assistir seu futebol na televisão portátil comprada com o primeiro salário. Lá o elevador não para, o comércio não dorme e a beleza passeia em casulos metálicos hiperluminosos. Na Savassi, as fontes não secam e a luz não se apaga. 
E nesse momento, como numa epifania, ela se vê num gigantesco monte de areia. Lá embaixo, a rocha. Lá, onde tudo é mais vívido, nítido, em alta definição. Enquanto os barracos, o morro, ela, os filhos e vizinhos, o morro todo são a sombra, a falta, a incerteza. Um absurdo monte de areia. Uma enorme duna que numa insaciável voragem traga de si para si todas as coisas.

4 comentários:

Norma de Souza Lopes disse...

Lindo seu conto, querido!

Nerito disse...

Norma, sua linda, obrigado! Um elogio de você vale mais que ouro!

Ana Cristina Rocha disse...

Gostei do texto e da sua forma de escrever! *-*

http://somundomeu.blogspot.com/

Nerito disse...

Obrigado, Ana! Um abração! ^^