quinta-feira, dezembro 31, 2015

Para um ano melhor

Formatura: alunos e mestres


Eis que 2015 chega ao fim. Um ano que a mídia previa ser de crise para a economia brasileira, com a expectativa - posteriormente concretizada - de queda do PIB. Um ano que se fez através de desgraças como o Estado Islâmico, o Boko Haram, os atentados na França, o menino afogado, a morte do Rio Doce. 
A questão econômica foi alardeada o ano inteiro como tragédia anunciada, algo que me incomodou desde o início. Decidi então buscar formas de ir contra o fluxo. Como disse no início do ano, a economia poderia encolher, mas não meu coração. E foi sob essa diretriz que segui este turbulento ano.
Não foi como eu queria, admito, mas foi mais do que esperava. Sempre queremos mais de nós mesmos. E no caso de 2015, eu quis dar mais. Sou contador de história há anos, mas sempre me senti carente de um melhor preparo. Queria mais qualidade do que oferecia ao público.
Dia da Alegria Aletria
Assim, iniciei o curso "A Arte de Contar Histórias", realizado pelo Instituto Cultural Aletria. Foi uma jornada em que mais recebi do que dei. Através dos textos que li, das pessoas que conheci e, sobretudo, pela presença magnífica da escritora e narradora Rosana Mont'Alverne, além de outros incríveis escritores que conduziram as aulas no segundo módulo. Faço questão de citar Carlos Roberto Barbosa, Beatriz Myhrra e especialmente a maravilhosa Sandra Lane. Foi muito bom ter a oportunidade de aprender com esses mestres.
Pude também praticar o que ia aprendendo. Contei histórias em ONGs, creches e escolas, sempre como voluntário. Confesso que pouco falei dos meus livros, mas cada venda que fiz foi especial, pois os leitores me procuraram e pediram seus exemplares.
Por fim, este ano de aprendizado foi coroado com a formatura do segundo módulo acontecendo na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil, lugar mais que especial para mim. Tive o prazer e a alegria de abrir aquela maravilhosa noite do dia 16 de dezembro. Para encerrar este texto, deixo mais uma vez o desejo de que 2016 seja melhor; sejamos melhores. 

* Aproveito para compartilhar aqui a gravação em que narro Uma ideia toda azul, magnífico conto de Marina Colasanti que me cativou desde a infância.


quarta-feira, outubro 14, 2015

A Princesinha Astronauta


Para Joana Silveira

Era uma vez um planetinha verde perdido lá na imensidão do espaço. Nesse planeta, as plantas eram gente também. Essas plantas tinham lindas flores. No interior de cada flor uma pessoa se desenvolvia. Depois de um tempo, ela despertava, deixava a flor e ganhava o mundo para realizar muitas coisas maravilhosas.
E então, no alvorecer do primeiro dia de um novo ano, despontou uma linda florzinha que preguiçosamente estendeu suas pétalas. Lá no fundo, dormia uma princesinha, coberta de cetim. E sonhava imagens maravilhosas, conjunções estelares, viagens astrais. Pois a flor, desperta, transmitia à princesinha imagens e conhecimentos, mistérios e ensinamentos, para que ela estivesse pronta, completa, ao despertar.
E ela sonhava todas as maravilhas que seria quando despertasse. Assim como acontecia com qualquer habitante desse planeta, quando as pétalas de sua morada caíssem, a princesinha despertaria.
Aconteceu que uma frota de naves alienígenas atacou o belo planetinha verde, roubando os sonhos das pessoas ainda dormentes. E nossa princesinha teve seus sonhos roubados por perversos alienígenas.
Quando as pétalas de sua flor despencaram, ela despertou sentindo-se vazia e triste, assim como muitas de suas companheiras. Seus sonhos foram roubados e ela agora não via mais um belo futuro.
A princesinha, porém, não se abateu. Tinha na memória os resquícios daqueles sonhos tão belos. Com persistência e muito trabalho, construiu uma nave espacial. Um foguete da cor das margaridas.
Nossa heroína se lançou no infinito espaço. Enfrentou o vazio, o escuro e o medo, até chegar ao planeta frio e moribundo dos asquerosos alienígenas que lhe tinham roubado os sonhos.
E naquele lugar lúgubre e friorento, a princesinha descobriu que os alienígenas cinzentos usavam os sonhos roubados para aquecer seus corações. Quando não estava viajando pelo espaço, viviam em sonolência, sorvendo sonhos alheios.
Muito engenhosamente, a princesinha invadiu a morada dos alienígenas e destruiu suas máquinas, liberando os sonhos. Eles eram como esferas luminosas, pérolas de todas as cores. A princesinha também destruiu as naves dos ladroes de sonhos, para que não pudessem mais atacar outros planetas. Satisfeita por ter recuperado seus sonhos, a princesinha se preparou para partir.
Mas ao ver os alienígenas cinzentos tão desolados, ela desistiu de partir. Animada por seus sonhos, ela começou a contar histórias. Os alienígenas escutavam com cuidado. Em pouco tempo, alguns já dormiam, tendo seus próprios sonos.
E assim a princesinha astronauta, depois de recuperar seus preciosos sonhos, descobriu como fazer os ouros sonharem, e passou a cruzar as estrelas contando histórias, tornando-se então uma semeadora de sonhos.

terça-feira, outubro 13, 2015

Vídeo de Terça: Conselho Amigo, de Olégario Mariano

Olá! Esta é a primeira participação convidada no canal. Poema recitado por Brenda Linda Lages, ao som do cantar de uma cigarra. Espero que gostem!

Conselho Amigo, de Olegário Mariano. 
Intérprete: Brenda Linda Lages.

quinta-feira, outubro 08, 2015

Pequenas pérolas do presente


Depois das leituras, um menino pede para beber água e eu o levo ao bebedouro. Ele me diz que misturou a água gelada com a natural. Pergunto que gosto tem e ele responde que é gosto normal. Pergunto que gosto tem água normal. Ele me responde: gostosa salvável... ^_^

*   *   *

Uma turminha de uns dez a doze anos chega fazendo aquela algazarra. Alguns acenam e me chamam pelo nome. Uma menina se aproxima e fala: que saudade, você não estava aqui na quinta.
É impossível não sorrir.

*   *   *

E de repente, o saguão da Biblioteca Infantil e Juvenil de Belo Horizonte fica cheio daquela alegre meninada. É como se uma brisa refrescante invadisse o lugar. Uma das crianças me intima: conte uma história! E respondo que vou contar a história do chapéu.
Imediatamente, elas entoam em coro: "Meu chapéu sumiu! Quero o meu chapéu de volta!"
S2

terça-feira, outubro 06, 2015

Vídeo de Terça: Apresentando: Fábulas para adulto perder o sono

Boa noite! Chegou o dia de mais um vídeo. Talvez vocês se assustem com minha cara neste, pois estou bem diferentes. Não se enganem, porém. Eu ainda estou com barba e cabelo comprido.

Esse vídeo vem de um projeto que abandonei antes mesmo de começar. Então, vasculhando meus arquivos, encontrei este em que apresento o livro Fábulas para adulto perder o sono, da magnífica Adriane Garcia.

Só não garanto que farei vídeos apresentando livros com grande frequência. Afinal, não quero diversificar demais os vídeos do canal.

Então, aí vai o vídeo. Aproveitem!


sexta-feira, outubro 02, 2015

Ausência

Eu me liquefaço. 
Transbordo-me, excedo-me. 
Perco um outro tipo de sangue; o primeiro. 
Fogo a consumir as 
entranhas. 
Estou 
borbulhando. 
É bem maior 
a pressão aqui 
dentro.
E meus dois grandes poros,
esses traidores,
deixam escorrer seu suor. 
São incansáveis 
mensageiros do meu 
âmago 
e sua menagem é clara: 
Falta.

quarta-feira, setembro 30, 2015

Estatuto da família ou família sem amor com política sem ética

Foi aprovado em sessão especial o tal estatuto da família. Muitos se levantaram a favor, outros tantos firmaram pé contra. Estou entre eles. Fiquei um pouco reticente, apenas apoiando em silêncio os protestos de tantos amigos esclarecidos. Enquanto isso, acumulava em meu peito um apanhado de ideias e questões sobre esse momento tão complicado. Resolvi então ler um pouco.
Enquanto pesquisava sobre o termo "estatuto da família", descobri que havia um primeiro objetivo, com o "estatuto das famílias", de Lícide da Mata, de justamente fazer o contrário do estabelecido no texto atualmente aprovado, pois se buscava ampliar o conceito de família para além da união entre homem e mulher. E de repente, a escalada da intolerância e do conservadorismo ameaça logar fora a água do banho com o bebê junto. Ao estabelecer a família como um princípio quase dogmático, acaba por ser excludente, marginalizando parcelas da sociedade que devem ter seu direito garantido.
É evidente que um estatuto como esse apenas passa verniz sobre uma ideia antiquada e retrógrada, tentando dar-lhe a aparência de digna. Apenas procura institucionalizar a hipocrisia de tantos que colocam seu desejo por poder e influência acima do direito e da ética.
Enquanto isso, continuo dando vazão à minha perplexidade ao me lembrar que as personagens bíblicas Rute e sua sogra Noemi seriam excluídas desse estatuto bizarro, assim como Ester e seu primo Mordecai. O que me faz crer que essa tal bancada evangélica só lembra dos trechos da bíblia que lhes interessam, esquecendo o resto.

terça-feira, setembro 29, 2015

segunda-feira, setembro 28, 2015

O Usuário Modelo

O homem de negócios, calvo e de meia-idade, chega em seu apartamento. Aparenta um ar cansado, oprimido. Deixa a pasta em um canto do escritório. A mulher e as crianças estão fora, na casa dos pais dela. Ele sente o alívio e o leve comichão da oportunidade. Como é sexta-feira, ele tem a noite inteira.
Liga o computador e senta em frente à máquina, enquanto afrouxa a gravata. Poderia até preparar alguma coisa para comer, um lanche rápido. Mas prefere aproveitar cada minuto de privacidade. Talvez mais tarde peça algo por telefone. 
A tela brilha, carregando o sistema. O executivo não perde tempo e faz logo a conexão, abrindo o navegador da Internet. Usuário e senha digitados.
- Boa noite, senhor Oscar. - A página inicial carrega esses dizeres em imagens efusivas de boas-vindas.
Oscar suspira. Tinha esquecido completamente da Internet 2.0, "nova solução interativa que veio para revolucionar a vida das pessoas". O slogan era bem chamativo: "Internet 2.0 - A Vida  em um novo Hiperlink". Oscar chega a murmurar um "boa-noite" enviesado, enquanto lembra que na verdade basta apenas clicar no luminoso OK que domina o centro da tela. Quase olha de soslaio para verificar se alguém percebeu o ato falho, enquanto se lembra que está sozinho. A cada minuto passado nessa nova era digital, o executivo de meia-idade se sente cada vez mais idiota. Um alerta vem arrebatá-lo de suas ligeiras impressões.
– O senhor possui 30 mensagens não lidas em seu e-mail. O usuário modelo não tem mensagens pendentes. Não será possível continuar antes de executar esta tarefa.
O suspiro passa à crescente irritação. Agora a Internet 2.0, com sua interatividade, exibia uma série de tarefas necessárias "a uma navegação de qualidade". 
Uma hora depois de ter ligado o computador, Oscar acaba de deletar o último e-mail. Terá liberdade, enfim. Mas percebe que está enganado. 
– O senhor tem cinco notícias pendentes. O usuário modelo é sempre bem informado!
Oscar quase xinga a máquina insensível. Não poderá continuar enquanto não tiver lido ao menos cinco matérias online. E fornecidas pela Internet 2.0 através de algum critério obscuro, de nenhum interesse a Oscar. Lidas as notícias, uma nova etapa:
– Senhor Oscar, há um post pendente em seu blog. O usuário modelo mantém seu blog atualizado!
Mais um pedágio: o blog obrigatório. Oscar nunca se considerou alguém com dotes para a escrita. Mas de alguma forma tem que alimentar no mínimo 250 caracteres para que a Internet 2.0 aceite o seu post.
Depois de cumprido mais um ritual, depara-se com o navegador já disponível para uso. Agora pode de fato surfar e buscar o que deseja na rede. Acessa o maior portal de pesquisa e digita "sexo". O navegador retorna uma lista enorme de sites eróticos. Fotos, vídeos de ensaios, sites de relacionamento, serviços de acompanhantes. Oscar clica no primeiro link da lista, um famoso site com vídeos amadores. A Internet 2.0 emite um sinal de alerta:
– Atenção, este sítio não pode ser acessado por conter material impróprio.
Oscar tenta outro site, com conteúdo parecido. A negativa é a mesma. Faz uma terceira tentativa, clicando no link de um site com as últimas fotos das revistas masculinas mais famosas. 
– Atenção, conteúdo familiar ativado. Não será possível continuar.
Oscar desiste, exasperado. A sensação de que há mais alguém no escritório fica muito forte. Uma nova imagem brilha no computador:
– Mensagem de violação enviada para karminha@hotmail.com.
O alarme na mente do executivo se manifesta como um início de enxaqueca. Um breve texto abaixo do aviso detalha: “A Internet 2.0 prepara sua família contra os abusos e perigos. Se o seu filho estiver usando a rede para tentar acessar sítios suspeitos, você será avisado.” E a destinatária é Carmen, esposa de Oscar. Mas o homem de negócios percebe que tudo aquilo é apenas o início. A Internet 2.0 informa que os dados postados no blog são “insuficientes”. Para garantir a suficiência de atualização, o próprio sistema se encarrega de enviar para a rede uma série de fotos de família, dados médicos e até informações dos gastos e rendimentos de Oscar. 
O homem quase tem um ataque. Agora é questão de vida ou morte. Lembra-se do e-mail que um colega de trabalho enviara, com umas fotos provocantes de uma atriz de novela. A desforra será acessando esse e-mail proibido e completamente particular.
Mas Osca sente um profundo desânimo quando a Internet 2.0 avisa: 
– Atenção: e-mail com conteúdo suspeito removido.
Derrotado, Oscar ainda observa por alguns segundos a tela com a mensagem proibitiva. Suspira. Desliga a máquina.

Este texto foi produzido durante uma oficina de escrita ministrada pelo escritor Sérgio Fantini.

sexta-feira, setembro 25, 2015

Uma surpreendente viagem a um mundo de sombras


Algumas animações são como um profundo mergulho em um reino de quimeras. E recentemente, passei por uma dessas terríveis e maravilhosas experiências. Estava na Biblioteca conversando com minha amiga Lara, quando descobrimos que gostamos dos mesmos desenhos animados. Por indicação dela, quase que uma intimação, fui levado a conhecer a animação Over The Garden Wall.
Criada por Patrick McHale para o Cartoon Network e contando com apenas dez episódios, a animação apresenta os dois irmãos Wirt e Greg que estão perdidos em uma floresta sombria sem saber como lá teriam chegado. Encontrando diversos personagens bizarros e enfrentando situações nonsense, os dois meninos buscam o caminho de casa.
Uma das características mais legais desse trabalho é justamente sua concisão. Uma narrativa gostosa e pungente se desenvolve naturalmente, sem longas explicações. O texto todo está no campo do implícito, da sugestão onírica. E a própria música de introdução mostra esse jogo de absurdos, enquanto imagens como a de um peixe a pescar em um pântano ilustram a bela melodia.
Outro ponto muito positivo da série é justamente o arranjo melódico. São canções ora melancólicas, como a da intro, ora leves e divertidas, como aquela que Greg canta enquanto mistura purê de batata com melado, no refeitório de uma escola repleta de filhotes de animais vestidos com roupas humanas. O detalhe é que, apesar da postura e das roupas, nenhum desses filhotes realmente fala, embora estejam sendo ensinados a ler e escrever nessa inusitada escola no meio da floresta.
Há muitos outros momentos da narrativa em que situações absolutamente absurdas vão se delineando para o espectador. E nesse absurdo sua beleza se revela, como a curtíssima melodia do assaltante (The Highway Man). 
E assim chegamos ao terceiro ponto positivo da animação: a primorosa dublagem. Inclusive em português. As melodias foram traduzidas de forma que se buscasse perder o mínimo da essência da versão original. Logicamente, recomendo que os mais interessados assistam tanto a versão com dublagem nacional quanto a original. Ambas são maravilhosas.
Assim, como uma jornada por terras imersas em bruma, Over The Garden Wall é uma experiência ímpar, repleta de sombras e mistérios, além de perigos e belezas.

quinta-feira, setembro 24, 2015

Percurso da mágoa

Acessei a rede social. Queria ver sua foto uma primeira vez. É sempre uma primeira vez quando te vejo. E meus olhos, antes tão secos, aguaram a tua ausência.
Escorri através de meus olhos. Esvaí-me em líquidos lamentos. Sobrou uma casca. Esta agora que passeia pelas teclas.
Deixo marcas etéreas em telas de plasma. Nem imagino que plasma sou. Lânguido e fluido escorro-me.
E nessa pequena jornada em que sou a fonte, depois de tímidos volteios, lanço meu último lamento. Afinal, você não será aquela a ler estas palavras. E minha essência, tornada lamento lacrimoso, em seu fim de passeio, será recolhida finalmente pelo ralo.

quarta-feira, setembro 23, 2015

Primeira Bienal do Livro de Contagem

Olá, pessoal! Ontem tive uma excelente notícia! Fui convidado a participar da mesa sobre Literatura Fantástica, junto com o escritor na Primeira Bienal do Livro de Contagem.

O evento acontecerá nos dias 25 a 27 de setembro, no próximo final de semana. Então, quem tiver um tempinho, não deixe de passar lá em Contagem! ^_^

Local: 4 Elementos Sítio Escola. Rua Barbacena, 55 - Alvorada - Contagem.
Hora: 15h.
Espaço Livro de Bolso.

Mais informações e programação completa aqui.



terça-feira, setembro 22, 2015

Vídeo de terça: Leilão de Jardim, Cecília Meireles

Olá, pessoal! Enquanto prossigo nesse vácuo criativo, dou continuidade dos vídeos poemas. Hoje, "Leilão de Jardim", de Cecília Meireles.

Então, até a próxima! ^^

terça-feira, setembro 15, 2015

Vídeo de terça: trecho de A Pele, de Curzio Malaparte

Olás! Hoje trago para vocês a leitura de um trecho que achei maravilhoso. Está no livro A Pele, de Curzio Malaparte. Ainda não terminei a leitura, mas decidi fazer algo diferente nos vídeos de terça. Espero que gostem! ^_^


terça-feira, agosto 04, 2015

De volta com os vídeos de terça!

Olá, pessoal, boa noite! Estou retomando os vídeos de terça. Hoje trago para vocês o poema "Tombo", do livro Borda, da excelentíssima poeta Norma de Souza Lopes.

Apreciem sem moderação!


sexta-feira, julho 03, 2015

Dom Quixote - do que há de trágico e triste mas muito divertido

Desde criança alimentava um certo fascínio por Dom Quixote. Acho que a semente de tal fascínio veio por uma certa identificação comum. Afinal, desde criança eu era apaixonado por histórias de cavalaria. Ficava inebriado pela imagem das armaduras de placas, os estandartes, as justas. O código dos cavaleiros davam um tom heroico a esses guerreiros e isso fazia com que os admirasse ainda mais. Isso foi muito antes de ter lido Bernard Cornwell, com seus cavaleiros beberrões, assassinos e estupradores. Foi numa época em que assistia clássicos sobre o Rei Arthur e seus cavaleiros para, depois disso, ir brincar no quintal fingindo ser Lancelot (todo mundo sempre quis ser Lancelot!).
Pensar que um homem já na meia-idade teria a audácia de assumir um comportamento assim sem dúvida foi um fator sedutor para sempre ter Dom Quixote como uma espécie de companheiro de brincadeiras. Além disso, como todos os grandes clássicos, somos alcançados por seus símbolos mesmo não os tendo lido. E por isso a imagem do Quixote e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, visitaram meu imaginário desde cedo.
Havia, porém, algo que me contrariava. Eu não havia lido a obra de Cervantes. Ainda não. Cheguei a adquirir o Novelas Exemplares, o qual não li. Sentia que seria um absurdo ler qualquer coisa de Cervantes antes de ter me aventurado pelos caminhos do Cavaleiro da Triste Figura.
Em meu último aniversário fui presenteado com os dois volumes do Quixote. Trata-se de uma nova tradução, feita por Ernani Ssó, um projeto tão engenhoso quanto o próprio fidalgo da Mancha, publicado pelo selo Penguin Companhia. Embora tendo finalmente os livros em meu poder, decidi esperar um pouco mais.
Neste ano, então, lancei-me de cabeça nessa aventura. E como foi deliciosa! Conheci o herói que, de tanto ler livros de cavalaria, procurou se fazer cavaleiro e partiu pelo mundo a reparar injustiças. O problema era que a mente distorcida do herói via problemas onde não havia, criando situações que tanto têm de comédia quanto de tragédia. O Quixote é teimoso, voluntarioso e também um pouco perigoso. Em muitos momentos esteve a ponto de cometer terríveis enganos, por conta de sua loucura. Para seu bem, tanto a sorte quanto a vontade no narrador trataram de salvar nosso herói de tantas enrascadas auto-impostas.
Chegando ao final do primeiro volume, estava um pouco cansado. Situações tristes haviam me deixado muito desmotivado e isso interferiu minha leitura. Mesmo assim, decidi iniciar o segundo volume e como fui recompensado! A continuação das aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança é ainda mais divertida que a primeira narrativa. Nele, Sancho chega a receber maior atenção por parte do narrador, sendo ele protagonista de algumas das melhores passagens da narrativa.
Assim, garanto que ler O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha é mais do que a obrigação de ler um clássico. É a garantia de humor inteligente, refinado, da genialidade de um escritor morto há quase quatro séculos e que permanece eterno. 

Ficha Técnica
ISBN-13: 9788563560551
ISBN-10: 8563560557
Ano: 2012 
Páginas: 1328
Idioma: português 
Editora: Penguin Companhia

terça-feira, junho 30, 2015

Vídeo de Terça: As Trapalhadas de Zé Bocoió

Boa noite! Compartilho com vocês o vídeo da minha apresentação na formatura do primeiro módulo do curso "A Arte de Narrar Histórias", realizado pelo Instituto Cultural Aletria.



E então, o que acharam? Se tiverem gostado, ajudem a divulgar o canal e o blog, ok? ^_^

quinta-feira, junho 11, 2015

Distraídas astronautas - uma jornada de sentidos

Já falei algumas vezes sobre a maravilhosa poesia de Simone Teodoro. Sinto-me como um pupilo clandestino dessa grande poeta. E por isso, falar de sua obra de estreia se torna tão desafiador para mim.
Aprendi muito sobre poesia participando de um projeto criado pela Simone, chamado Estação da Poesia. Sobretudo, pude aprender ainda mais lendo Simone. E minha proximidade com a autora permitiu testemunhar um longo e profícuo período de fazer poético e que culminou no livro Distraídas astronautas.
O leitor que se aventura em Distraídas astronautas é convidado a uma experiência estética que não se priva da força do desejo, da entrega e da dor. Um desejo carregado de um homoerotismo sinuoso, refinado. Uma voz que prima pelo feminino, pelo jogo de claro e escuro da relação romântica.
Ler Simone é para mim uma jornada silenciosa. Esse silêncio, contudo, é polifônico, rico, diverso, plural. Silêncios que bradam. É navalha cortando igualmente carne e seda. São poemas intimistas, muitos deles doloridos, revelando um eu lírico aturdido ante o absurdo da realidade, mas também maravilhado com belezas singelas que essa mesma realidade reserva para os olhares mais argutos.

Ficha técnica:
Ano: 2014
Páginas: 100
Editora: Patuá

terça-feira, junho 09, 2015

Vídeo de terça: Deserto


A tarde se fratura.
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.

O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.

Melancolias alcoólicas te povoam.

Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.

Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.

Estás só, estática esfinge
sem enigma.


Deserto, Simone Teodoro. In: Distraídas astronautas, São Paulo: Editora Patuá.

quarta-feira, junho 03, 2015

Exercício de método

Marca na pele.
A dor do fogo
é como uma constante memória.
A dor do fogo
nunca deixa de acontecer
Meu dedo passeia pela ferida.
Crostas fazendo vez de
cordilheira.
Meu pequenino
himalaia.
Alcanço o meio da ferida
e com o indicador
perfuro a casca. Aperto.
Aperto.
Até que se derrame
um pequeno
trecho de
mim.

terça-feira, junho 02, 2015

Vídeo de terça: Sentimento do mundo


Olá! Trago para vocês mais um vídeo-poema. Neste eu declamo Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Espero que gostem!

sexta-feira, maio 29, 2015

Rio 2054: sobre um futuro que se quer esquecer

Há muito li Rio 2054, de Jorge Lourenço, e me cobrava uma resenha. Fui agraciado por um exemplar do livro em uma promoção feita pelo próprio autor. Recebi um duplo presente.
Sim, afirmo que foi duplo. Além do livro, fui brindado com uma narrativa equilibrada, enxuta, vívida e ligeira. O narrador criado por Lourenço é econômico sem cair no minimalismo. Seus cenários são facilmente visualizados pelo leitor: um mundo decadente, onde a distância entre ricos e pobres torna-se quase surreal. Uma distopia repleta de elementos tecnológicos verossímeis. 
Outro ponto muito bacana são os personagens, com destaque em Miguel, o protagonista, que assume a posição de anti-herói, alguém que vive à margem dessa sociedade mas que lentamente percebe estar no olho de uma tempestade que irá sacudir seus fundamentos.
Para deixar mais forte o suspense, tentei ser o mais econômico possível em relação ao enredo desse ótimo livro. Destaco apenas que um dos pontos fortes é a ação quase vertiginosa, alucinada. Além disso, os chamados geeks e demais amantes da cultura pop irão reconhecer diversas referências a clássicos do gênero, desde mangás/animes até obras literárias e cinematográficas.
Imerso em um vívido universo ciberpunk, Rio 2054 certamente é uma das melhores narrativas futuristas escritas em solo brasileiro. Uma obra quase premonitória sobre um futuro que deveria ser esquecido.

Ficha Técnica:

Rio 2054
Os filhos da revolução
ISBN-13: 9788576798644
ISBN-10: 8576798646
Ano: 2013
Páginas: 374
Editora: Novo Século

quarta-feira, maio 27, 2015

Perfis

I

Era pequenina e linda. Seus olhos de um castanho forte, vívido, acompanhavam o tom dos seus cabelos. Sua cor mais forte, o vinho.
Tinha uma enorme aliança de noivado. Era a imagem do desejo interdito. Ele, de longe, suspirava.
Até que, certa manhã, ela surgiu no trabalho sem a aliança. Uma fagulha de possibilidade surgiu no peito dele. 
A rotina do dia os envolveu, até que os pôs lado a lado. No meio da intensa correria ela apertou a manga da camisa dele, sussurrando algo suavemente. 
Ele não entendeu de pronto. Inclinou-se para ouvir melhor. E arquejante ela repetiu o sussurro: "Você quer casar comigo?"

II

Olhos atentos, rosto sempre sério, ela escondia sua doçura sob uma dissimulada austeridade. 
Calada, dizia-se tímida, embora para ele essa timidez se mesclasse a um fortuito desinteresse.
O que ele mais amava nela eram aqueles cabelos que negros toldavam seus ombros. Davam a ela um ar de Minerva.
E ele nunca soube seus reais pensamentos. Os olhos negros engoliam qualquer questão, qualquer esboço de ideia. Tragavam o que ele pudesse pensar.
Ela, esfinge.

III

Um rosto completo. Não haveria melhor definição para ela, a plenitude em pessoa. Seu sorriso era de Senhora, embora fosse ainda tão moça.
Os óculos realçavam o ar de autoridade, de alguém douta em vida.
Mas para ele olhá-la era ser fogo.
Seu porte altivo, sua voz suave, seu olhar potente, tudo isso para ele se transmutava em pura chama. Até mesmo toda a franqueza dela tornava o fogo ainda mais selvagem. E impossível.
Afinal, sua Senhora por outro firmara o compromisso. Era apenas a amiga, alta, esguia, forte. Noiva. Ele maldizia sua sina de amar noivas.
E o fogo, a cada momento mais forte, quase a o engolir. Uma chama que a tudo consome. 
De repente, não trabalhavam mais juntos. Ela precisava de total dedicação ao casamento. Longe dela, sem seu altivo olhar e porte tão sublime, ele sentiu o fogo perder força até se extinguir. Ainda que tentasse avivá-lo com a memória, seus esforços foram inüteis. Ao morrer, esse fogo nada deixou, sequer cinzas para untar sua tristeza.

IV

Feroz, a imagem dela o devorava. Ele, tiras de carne, o vazio. O olhar dela o aniquilava. Paralisado, inebriado pelo veneno que a imagem dela transmitia.
Com toda a sua doçura ela não escondia suas garras. Simples e múltipla. Uma força da natureza.




terça-feira, maio 26, 2015

Complexo de Ana Júlia

Já ouvi dizer que o maior azar da banda Los Hermanos foi justamente fazer sucesso com a música "Ana Júlia". Poxa, acho isso uma injustiça. Não que a música em si seja boa. Na verdade é um chiclete que não sai do ouvido. Porém, não deixa de ter o seu quinhão. Talvez por retratar uma situação tão comum, provocando em várias pessoas um laço de identificação.
E por isso, dou o valor devido à música, por sua letra tão verdadeira. Principalmente para esta pessoa que vos escreve. Sim, sou mais um de tantos rapazes "bonzinhos" que sofrem o fatídico complexo de Ana Júlia. 
Veja bem: você é um jovem sensível, educado, tem alguma cultura e tudo isso o faz achar que seja um bom partido para as garotas. Geralmente, você acaba se identificando com os protagonistas atrapalhados das comédias românticas, mesmo que você não seja o tipo ridículo, quase idiota, que aparece nesses filmes. Ainda assim, você é aquele que quer ficar com Mary. 
Ela pode ser uma amiga, uma conhecida, ou até mesmo alguém que você encontra circunstancialmente. Isso pode acontecer de primeira ou pode ir lentamente tomando forma em sua mente. A verdade é que em algum momento você toma a consciência de que ela é a pessoa. Começa então seu lento caminho a uma dolorosa porém inevitável decepção.
No fundo, você já suspeita disso. Contudo, como um bom produto da civilização calcada na cultura de massa, acredita que pode viver uma grande história de amor. Você chega a pensar que merece isso. E essa ideia o faz fantasiar noites e noites uma vida que nunca será sua. 
Então, lentamente, você vai tomando coragem. Ou não. Pode ser que tudo fique no nível platônico e que vocês nunca tenham uma vida em comum. Mas também você pode até viver um período de relativa felicidade ao lado dela, situação geralmente destinada aos mais afortunados. Até ela perceber que você não é quem ela quer.
Chega então o terceiro ato dessa tragicomédia. É quando você finalmente a vê com outro cara. Um cara. Para você, o cara não parece merecê-la. Ele não chega a seus pés, embora toque violão, ou tenha um carro, ou simplesmente um sorriso melhor que o seu. Ou talvez ele não tenha nada visível que o diferencie de você, a não ser o escolhido dela.
Sim, chegamos ao ponto crucial desta crônica: a escolha dela. Não importa que ele seja alguém sem carinho. Não importa que seja um espinho no coração dela. Pois isso não vai fazer com que ela goste de você. Estar com ele foi escolha dela e pronto, E se não for com ele, será com outro, menos com você.
Então, meu amigo, não adianta cantar "Ana Júlia", pois ela não ficará comovida. Você apenas parecerá mais patético. O que você deve fazer é esquecer tudo e seguir em frente. E esperar heroicamente a próxima decepção.

sexta-feira, maio 22, 2015

Viril



Sou homem,
não mereço confiança.
Sou fruto de um erro cósmico.
Materialidade da ideia
de força, insânia
e pedra bruta.
Humano não é chancela
para qualquer virtude
ou talento,
apenas se for húmus,
adubo para
o verdadeiro sexo.
Sou homem,
tenho em minhas mãos
o peso de tantos atos
contra elas.
E que meu corpo, ainda que de
macho,
seja sacrifício,
sirva de alimento

a todas as viúvas.

quarta-feira, maio 20, 2015

Sobre preciosas surpresas

Na sexta passada, recebi à tarde uma galerinha de 4 anos. No calor da apresentação que fazia da biblioteca, esqueci o livro que leria para as crianças. Meio afobado, corri o olho pelos livros mais próximos expostos no espaço lúdico e me deparei com o lindíssimo "Estrela do céu, estrela do mar", da Anna Göbel. Um livro de imagens. Seria minha primeira experiência de leitura compartilhada de uma obra assim. Foi uma maravilhosa surpresa quando, ao terminar a leitura, uma menininha deu um sonoro suspiro e sorriu. Os aplausos vieram em seguida. Fiquei simplesmente encantado.

O grupo foi bem grande nesta quarta. Vieram para a Roda de Leitura. Depois de cumprir o desafio de ler quadrinhos para eles, fomos conduzi-los para a mesa de leituras. Um dos meninos parou perto de mim e ordenou: Para a mão! Pensei: Ih, deve ser alguma brincadeira... Resignado, estendi a mão. E o menino depositou em minha palma uma bala de caramelo, a mesma que o meu avô adorava. Comovido, resolvi deixá-la para depois do almoço. Foi a melhor sobremesa do ano!

quinta-feira, maio 14, 2015

Invernal



Cego meu peito
de um eu inflexível
a ponta da lança
fere a terra
e sangra
Mutismo é fome
estão tristes
todas as estrelas.
Sinto falta do que nunca foi
do que poderia ter sido.
E dos olhos que se.
distanciam.
Meu eco é seco,
oco, um gemido lúgubre
e frio.

terça-feira, maio 05, 2015

Plano


Porque deus amou o mundo
de tal maneira
que deu seu filho unigênito
para que TODO aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna.

Agora, siga-me nesta brincadeira
faça uma pequena operação.
Tire o TODO e ponha o SOMENTE.
E depois troque pelo APENAS
e a equação não deixará resto.
E o sentido ainda será o mesmo.

sexta-feira, maio 01, 2015

Sobre liberdade de expressão em mídias sociais


Fiquei aturdido com a quantidade de pessoas denunciando bloqueios e textos excluídos no Facebook. Muita gente, tanto quem apoia ou se solidariza em relação aos professores do Paraná quanto quem critica o movimento.
Isso me deixa preocupado, pois penso que uma mídia social deveria atuar como uma terceira via, permitir o debate a a circulação de ideias. Lógico que não estou falando da veiculação de discursos de ódio e intolerância.
Agora, o que senti ao ver fotos, vídeos e relatos com o que aconteceu no Paraná, o que senti foi HORROR. Ficou claro o uso da força das instituições, dos três poderes, para coibir e massacrar uma manifestação. E para piorar, os massacrados são justamente professores lutando contra o assalto à sua aposentadoria.
Entrei em claro este primeiro de maio. Tive uma das minhas febres de consciência. Devorei uma penca de textos sobre intolerância. Sobre pessoas que sofrem diretamente o discurso de ódio, em especial por criticá-lo.
E assim, fiquei cansado. Parecia que tinha tomado uma surra. Pois um pouco da minha ingenuidade e do meu idealismo continua se assustando com pessoas que defendem o uso da força e sustentam ideias que beiram o surreal.
Bem, enquanto nossa quitina não fica exposta, continuaremos fingindo sermos feitos de carne, sangrando nossos medos, nossos ódios, lutando contra o peso da bota que nos esmaga. Enquanto parte de nós faz o papel de peso dessa mesma bota.

#somostodosprofessores

quarta-feira, abril 29, 2015

Superfície

Sob os nossos pés
impávidos, incansáveis
correm rios de fezes
urina e dejetos
a cultura do inútil
a desgraça em
produto
Acima, luzes,
o fulgor de uma nova era
a imagem multiplicada
à enésima potência
enquanto lama pútrida
escorre
longe de olhares mais
sensíveis
não nos bastou
a podridão de nossas entranhas
passamos então a despejar
nas entranhas da terra
nossa miséria.

quarta-feira, abril 15, 2015

Metafísica

Sonhar é também perder-se
e o amor é mais um
tipo de sonho.
Sonhar é também olhar-se
através do espelho de Alice
é também amar-se
mas sobretudo
deixar se perder.
Perder-se é também 
achar-se
na falta,
em outro lugar.

quarta-feira, abril 08, 2015

Tá com pena? Leva pra casa!

O primeiro que encontrei foi o Adriano, mais conhecido como Manchinha. Esse menino era um terror. A primeira vítima foi meu irmão. Assaltado e agredido.
Tomando as dores dele, fiz questão de um dia, passando de bicicleta, ameaçar que pegaria o menino. Não sabia que ele tinha vários colegas por perto. Bastou um assobio para que eu fosse cercado. Tive que suplicar para ser solto, sem contudo deixar de levar uma pedrada nas costas.
Morávamos no pé da favela do Boiadeiro, em Teófilo Otoni. Como o Manchinha e sua turma também era dessa favela, passamos pro maus bocados para não nos encontrarmos com ele.
Depois de altos e baixos, passamos a morar em um bairro distante chamado São Jacinto. Minha mãe, que já havia ensaiado a política de "levar para casa", começou a atuar efetivamente acolhendo as crianças "infratoras" da cidade.
Aquele mesmo menino, o Adriano, o Manchinha, dividiu conosco o pão e o café com leite. Não apenas ele, mas alguns dos seus irmãos, como o Adão, o Tobinha e o Marco Antônio. Este chegou a morar conosco por um tempo.
Sei que o Adriano está morto. Não chegou aos dezoito anos. Dos demais não tenho notícias. Por conta da saúde de minha mãe, deixamos Teófilo Otoni e os programas sociais. E até hoje, quando alguém na televisão faz esse comentário babaca sobre levar um criminoso para casa, não respondo. Essas pessoas não fazem ideia do que estão falando.

terça-feira, abril 07, 2015

Vídeo de terça: finalmente de volta!



Estrela Bela

Ouvir sua voz é como ter o sol pra mim
A luz que vem do teu olhar me faz tão bem!
Sentindo o teu doce toque eu posso reparar
que o calor que de ti vem bem ao meu lado está...

Olhar ao teu lado e ver como o nascer do sol
Radiante e linda, brilha igual farol
Pedaço do sonho no meu caminhar
Ao teu lado estrela bela eu quero andar.


Esta melodia foi composta há anos, mas finalmente pude contar com a parceria do meu irmão João Emílio Medina para instrumentalizá-la.

domingo, abril 05, 2015

Vestindo memórias


Gastamos parte da nossa manhã contemplando os telhados do bairro pela varanda. Ela parecia curiosa com os próprios pés, ou com as reentrâncias de sua alma, eu não saberia dizer. Minha curiosidade não conseguiu vencer as barreiras de rugas e tempo. Ao menos a princípio.
Fiz-me à sua disposição. Larguei livro, celular, qualquer coisa que me distraísse dela, que disputasse com ela a atenção. Ela então começou a comentar sobre sapatos perdidos. E eu me perguntando se não seriam metáforas para os filhos, pelo menos para os irremediavelmente perdidos.
De repente, ela ergueu a cabeça. Seus olhos pareciam perfurar os meus. Contou-me sobre o fogo que devorou parte de sua história. E contou-me mais. Falou de sua luta para trabalhar. Das dificuldades da distância. Das cartas que meu avô lhe escrevia, uma por dia. 
E senti um desejo enorme de mergulhar nessas memórias deles, em fazer parte deles, além do simples DNA. Queria banhar-me em suas almas. Eu queria me vestir de suas vidas. Queria pra mim aquelas cartas.

quarta-feira, abril 01, 2015

Reconhecimento

Não é mera frieza,
Nem desdém.
Sou um daqueles abortados
para fortes sentimentos.
Os sonhos que alimento
há muito perderam a validade.
Nada que eu faça
trará qualquer calor.
No frio da decomposição
alimento meus dramas.
Minha paixão é fogo-fátuo.

quarta-feira, março 25, 2015

Alternativo

Estou na beira
Boiando na superfície.
Tudo o que eu vejo e sinto
Não passa de senso comum
Ainda que pareça diferente
Profundo ou chocante
Nada mais é que puro
eco.

quarta-feira, março 18, 2015

Atrito


O telefone toca
é mais um som
a romper o sentido
a ferir outros sons
a impor outras urgências
mais um pouco do artificial
no atemporal da angústia.
O tempo não existe,
mas é uma faca a 
arrancar uma veia,
perfurar um osso,
amainar a alma.
Enquanto isso,
o telefone toca
pausadamente
metodicamente
ironica...
mente.

sexta-feira, março 13, 2015

Desejo Heroico

 
Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela.
Mateus 5:28.

Foi de relance, quando atravessava a rua, quando viu capa de um DVD erótico. Ergueu os olhos, desconcertado. Pediu perdão por ter pecado, ainda que seu olhar tivesse durado apenas um instante.
Mesmo nos quarteirões seguintes, a caminho do restaurante em que almoçava todos os dias, ele ainda pensava na imagem que ficara gravada em sua mente. Duas moças, uma morena e outra loira, ambas nuas e de costas, exibindo toda a fartura de suas nádegas, com as marcas deixadas pelos minúsculos biquínis definindo os contornos de suas peles bronzeadas. Balançou cabeça com força, como se assim conseguisse turvar essa imagem única, imperiosa.
Ergueu os olhos mais uma vez, enquanto seus lábios moviam-se numa prece inaudível. Não conseguia entender o que acontecia em seu interior. Nunca havia sentido o mínimo interesse nesses materiais duvidosos. Para ter sido atingido tão profundamente, no mínimo, já havia pecado e não se dera conta disso. E esse pecado oculto e ignorado seria consequência de seu afastamento espiritual. Desesperado, passou a tarde toda pelos cantos, no escritório onde trabalhava, em orações fervorosas que visavam purificar sua alma.
No caminho de volta para casa, em pé dentro do ônibus lotado, distraiu-se com o longo percurso e teve por fim alguns minutos sem ser assaltado pelas fantasias avassaladoras, ataques do demônio. Mas em casa, quando já tinha feito sua oração ao pé da cama, vestido com seu pijama, ele foi novamente invadido pelas mesmas imagens, sendo acompanhadas por um misto de expectativa, desejo e vergonha. Afastou novamente aquele turbilhão de pensamentos.
As imagens, contudo, não o abandonaram. Bastava passar perto da banca de jornais que seus olhos como que instintivamente buscavam a dupla exposta na capa do DVD. Para não alimentar a tentação, o jovem passou a evitar a banca, passando por outro caminho para chegar ao restaurante.
O desejo porém crescia cada vez mais intenso, as imagens cada vez mais vívidas. Passava noites em claro mergulhado em fantasias, sempre no martírio de sentir-se a criatura mais suja do mundo. A culpa era então novamente encoberta por imagens da pele morena, bronzeada, das marcas dos biquínis fazendo um jogo de claro-escuro.
Até que em certa noite, quando ele pensou que enlouqueceria, veio a resolução, clara como uma revelação divina, junto com uma expectativa infantil e por fim o sono reparador. Não havia mais imagens para torturá-lo, somente aquele silêncio que sucede a plena certeza. Quando a manhã chegou inexorável, a caminho para o trabalho, não foi mais assaltado por desejos irrefreáveis. Quem o visse até diria que seu rosto revelava uma maturidade marcante, de alguém que alcançara a sabedoria. Foi direto para a banca de jornais. Pediu logo o DVD erótico com simplicidade comedida, quase sereno. Recebeu o material, pagou e atravessou a rua olhando para o lado errado. O cobiçado DVD num instante escapou de suas mãos e um caminhão que passava no momento selou seu destino.

quinta-feira, março 12, 2015

A juventude massacrada pelo preconceito

Ele era um garoto. Não era como eu. Nos separava a idade, a cor da pele, configuração familiar. Mesmo assim, era para ser como eu. Em minha mente, nenhuma diferença conta quando somos humanos. Ou toda a diferença conta, para mais.
Era um menino. Seu rosto machucado, coberto de ataduras, escondido pelo tubo de respiração artificial, olhos cerrados. Ignorava que morria. Enquanto isso, as mãos violentas de um discurso insano, assassino, tentavam limpar-se do sangue tão jovem. Tão meu.
Um menino. Mais uma vítima de um monstro chamado intolerância. Uma besta alimentada pelo hipócrita discurso a favor de uma família de plástico, uma família que cobre com cera as pústulas de sua luxúria. Que pinta com esmalte de "amor" suas caras sedentas por sangue. Mentes que clamam pelo escândalo, pela arena, pelo auto de fé.
Um simples garoto. Agora, ícone de minha revolta. Sua imagem ferida, inconsciente, atravessa minha garganta. Filho de um casal homoafetivo. Filho de um casal gay, filho de uma família. 
Não o conheci, mas seu sofrimento reverbera em meus ouvidos, por cada vez que alguém sofre por ser ele mesmo. Por cada vez que o desrespeito se torna navalha, punho, marreta. 
Estou nauseado, mortificado. Ele era apenas um menino, gente! E morreu por não ter sua família lavrada em estatuto.

quarta-feira, março 11, 2015

Sonda















Perfurar a palavra
extrair dela o seu sentido
fazer dela um
outro algo mais,
uma nova fronteira
e alcançar o 
nada deve haver
sequer o som,
que não passe de
um efeito
defeito nosso 
de existir.

segunda-feira, março 09, 2015

O Assalto - Parte II de III

Ir para O Assalto - Parte I de III

 Os portões foram abertos. De dentro surgiram rapidamente homens montados a cavalo, que circundaram os supostos camponeses, deixando-os isolados das carroças. O chiado das espadas sendo desembainhadas ecoou em coro. Um homem alto, loiro, guiou seu cavalo até parar à frente de Balgata, que segurava em sua mão direita um pequeno saco de couro. O bandido parecia ser tão alto quanto o capitão, e a montaria acentuava seu tamanho de forma assustadora. Estava coberto de uma bela cota de malha e a empunhadura prateada de sua espada refulgia. Seu rosto era longo, com as faces levemente encovadas e os olhos pequenos e estreitos. O cabelo loiro estava muito bem aparado e o homem cobria-se com uma capa verde-musgo impecável. Suas botas de cano longo, com caneleiras de ferro, eram novas. Era o segundo no comando do bando, homem de confiança de Berak, e agora usava uma das melhores vestimentas do Conde de Arnoll.
– Deixa eu ver seu pagamento, homem! – disse o cavaleiro, tomando o saco da mão do capitão com a ponta de sua espada. Balgata manteve silêncio.
O homem abriu avidamente o saco de couro. Sua expressão de ganância foi desaparecendo e dando lugar a perplexidade. Ele voltou o rosto indignado a Balgata.
– Que merda e essa?! – Perguntou, lançando o saco de couro aos pés de Balgata.
Dentro do saco estavam guardadas diversas pontas de metal, usadas para as flechas dos arqueiros. Furioso, o bandido ordenou ataque. Balgata, em contrapartida, bradou:
– Formação circular, homens! Unir escudos!
Instantaneamente, dos trapos velhos surgiram escudos que se uniram, formando uma barreira contra as lâminas inimigas. Sobre a cabeça daqueles que fechavam os escudos, os arqueiros ergueram-se e iniciaram seus disparos. Pela proximidade dos inimigos, não havia como errar. Duas supostas crianças, robustas, retiraram suas capas, revelando suas barbas grisalhas, e lançaram suas esferas explosivas contra alguns homens perto do portão. A explosão levou consigo três bandidos, deixando dois seriamente feridos. Os cavalos dos demais se assustaram com o estrondo e empinaram, relinchando. Homens caíram para a morte sob as espadas dos atacantes. O bandido loiro também foi derrubado, mas conseguiu se defender com habilidade, puxando o seu escudo redondo para junto do corpo e bloqueando a espada de Balgata. O capitão trocou golpes rápidos com seu oponente, fazendo as lâminas emitirem sons agudos e melancólicos. Era o choro da morte. Com habilidade, Balgata rebateu a estocada veloz e tratou de enfiar a lâmina de sua espada no ventre do inimigo, aquele homem alto e loiro que logo abandonou sua expressão altiva. O capitão lançou o corpanzil do oponente contra os demais bandidos e deu um brado de guerra, dando alguns passos para trás, de volta à relativa segurança da formação de escudos.
O assalto começara. Agora faltava a ajuda de Seridath e seus malignos servos.

Continua...

domingo, março 08, 2015

Caleidoscópio

Recolha em teu seio meus rostos
espalhados
espelhados
pelo prisma de teus olhos
Breves faces espectrais
ícones
soltos
em segundos que se apagam
qual velas trôpegas
e gotas arquejantes passageiras
não
quero mais que tudo
mais que quero
você
não
deixo
de querer-te
toda
inteira
e não diluída em momentos
quero você na pura essência
excelência
de mulher

sexta-feira, março 06, 2015

quarta-feira, março 04, 2015

Miragem

Você sabia que te espero?
Covarde, sempre.
Observo as nuvens
em suas formas aleatórias
e em todas 
imagino seu rosto.
E ainda assim,
você não me responde.
Sua voz não galga o vento
e os campos
nunca lembram seus cabelos.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Rani e o Sino da Divisão - Conheçam os incríveis Animais de Festa

Quem acompanha tanto meu trabalho na Biblioteca quanto meus percursos pela escrita, sabe que eu sou um grande admirador da literatura de fantasia, sobretudo a nacional. Já passaram por este blog alguns escritores contemporâneos que tive o prazer de conhecer, fosse pessoalmente ou por meios digitais. E foi com grande satisfação que pude conhecer o trabalho de Jim Anotsu. Mais especificamente, seu romance Rani e O Sino da Divisão.

Narrado pela protagonista, uma adolescente headbanger, o romance de pronto nos apresenta a cidade de Graúna por um viés meio sombrio. A caminho da escola, Rani tem um encontro inusitado com um menino esquisito, principalmente por seu tênis verde fluorescente. Esse é o Pietro, um dos grandes parceiros de Rani em sua jornada xamânica.

Sim, Rani é uma xamã, embora não o saiba no início de sua narrativa. Seu encontro com o Pietro, um vampiro nada convencional, inaugura uma série de incidentes sobrenaturais bem como seu ingresso entre os Animais de Festa, uma espécie de fação contra-cultura no mundo sobrenatural. A vida de Rani está em perigo, pois um poderoso xamã conhecido como Aiba está assassinando e devorando o coração de outros xamãs. Com a ajuda de seus novos amigos e de Marina, sua colega de sala e companheira de banda de garagem, Rani terá que encontrar o Sino da Divisão, o único objeto capaz de deter seu poderoso inimigo.

O mais impressionante no romance de Anotsu é que ele é muito mais do que uma sinopse pode sugerir. Ao abrir o livro, prepare-se para uma enxurrada de referências musicais e culturais, com animes, quadrinhos, bandas, filmes, seriados, livros, tudo permeado com um senso de humor genuíno. Os personagens criados por Anotsu, sejam eles desconhecidos ou retirados de algum panteão mitológico, são espirituosos, refinados e originais. As referências várias estão lá, mas claramente o autor fez mais do que inseri-las: deu-lhes alma própria. 

Há uma surpreendente sinergia entre os personagens, até mesmo entre Aiba e Rani, e isso torna o livro ainda mais cativante. Não posso deixar de falar de Marina, responsável por alguns dos melhores momentos do livro, com destaque à interpretação da música "God Save The Queen", do Sex Pitols. 

Vale destacar também como a narradora é capaz de despertar profunda empatia, mesmo com seu humor sardônico, suas dúvidas, inseguranças, sua enorme capacidade de criar as mais pessimistas metáforas que se pode imaginar. Ao ser advertida de que precisa limpar a negatividade em sua mente, ela responde: "Isso vai ser complicado. Eu sou uma garota do século XXI, noventa por cento do meu DNA é constituído de sarcasmo e negatividade."

Talvez isso seja o mais atraente no texto de Jim Anotsu. Rani é uma adolescente que busca não mentir para si mesma, que entende que está em uma das fases mais cruciais de sua vida e que precisa de mais maturidade do que aparenta ter. Isso aproxima muito o leitor, que sente acompanhar a história de uma pessoa real, com dramas reais.

Enfim, eu poderia continuar escrevendo, estender essa resenha a infinitos parágrafos e não vou conseguir dar forma ao que eu senti ao ler Rani e O Sino da Divisão. Garanto, contudo, que o leitor que tiver esse livro em mãos terá também a oportunidade de uma experiência divertida e ao mesmo tempo profunda. Um rito de passagem de uma jovem xamã rumo ao autoconhecimento.

Ficha técnica:
ISBN: 9788582351871
Ano: 2014 / Páginas: 320
Idioma: português 
Editora: Gutenberg


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Areia

"Porque derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca..." Isaías 44:3

A lâmpada incandescente vacila. Mais um efeito da maldita estiagem. No barraco de um cômodo, a mãe ora. Faz três dias que a água falta no morro. As roupas, amontoadas sem lavar. O marido, recém-empregado, já não tem camisa limpa. As crianças, sem tomar banho. Ela, no fim de uma menstruação, sentindo-se imunda. O último balde de água acabara no dia anterior, para fazer comida. E agora, junto com a falta d'água, a ameaça do racionamento da eletricidade.
Suspirou, pensando novamente no marido. Na época em que ele conseguira o emprego de porteiro de um edifício na Savassi, a alegria quase virou aflição. Temia perder o benefício do governo, o único provento que impedira que a família de seis pessoas passasse fome. Felizmente, não foi preciso; o salário do marido não era alto o suficiente para causar o corte do benefício.
Do barraco sobe um odor acre, mistura de comida velha, urina e suor. Banheiro sem lavar, quase faltando água até para beber. Quem sabe no dia seguinte a prefeitura manda um caminhão pipa para abastecer as casas do morro? Quando ainda não havia saneamento, a água era fornecida assim. O caminhão pipa chegava e despejava água em vários tonéis de plástico. Seus donos então vendiam a água aos moradores retardatários, muitas vezes munidos apenas de latas de tinta ou panelas para guardar o mínimo de água para seu uso.
E então, de repente, havia máquinas revirando o chão do morro, cavando, plantando no chão enormes blocos de concreto. E no morro passou a ter água encanada e esgoto. Mas o que realmente mudou a vida da família, quando antes eles eram obrigados a contar com a simpatia e solidariedade de outros, foi a tal bolsa. Já não eram obrigados a comer só farinha com café pra enganar a fome. Podiam, com dignidade, comprar seu alimento.
Mas agora tudo parecia incerto. Boatos corriam de que o benefício poderia ser cortado. O noticiário anunciava uma enorme crise. E para piorar, a estiagem provocando o racionamento de água e energia. 
Puxando mais um suspiro, ela apoia os braços na janela, olhando ao longe a escuridão que termina nos limites do morro. Lá em baixo, na Savassi, a luz mantém sua presença, forte e pungente. No prédio em que o marido trabalha não faltará energia. Lá ele poderá assistir seu futebol na televisão portátil comprada com o primeiro salário. Lá o elevador não para, o comércio não dorme e a beleza passeia em casulos metálicos hiperluminosos. Na Savassi, as fontes não secam e a luz não se apaga. 
E nesse momento, como numa epifania, ela se vê num gigantesco monte de areia. Lá embaixo, a rocha. Lá, onde tudo é mais vívido, nítido, em alta definição. Enquanto os barracos, o morro, ela, os filhos e vizinhos, o morro todo são a sombra, a falta, a incerteza. Um absurdo monte de areia. Uma enorme duna que numa insaciável voragem traga de si para si todas as coisas.