quinta-feira, junho 12, 2014

A Grande Marcha: a tirania do kitsch

Quebrando o jejum de resenhas, sinto a imensa satisfação de poder falar sobre o livro A Grande Marcha, do autor estreante Ewerton Martins Ribeiro. Porém, junto à alegria, há um sentimento de incerteza. Afinal, como escrever uma resenha à altura da prosa do Ewerton? Como deixar patente para o leitor o poder desse texto?
Em primeiro lugar, a prosa presente em A Grande Marcha não é uma narrativa linear. É como um livro e ao mesmo tempo um cubo mágico. Cabe ao leitor captar trechos de acontecimentos e criar sua combinação, encontrar os pontos em que os conflitos se interligam, perceber as ironias e fazer uso das mesmas para construir em conjunto com o narrador essa obra tão forte e polissêmica.
Ainda sobre a prosa, a linguagem assume por vezes um tom ensaístico, quase professoral. E nesse ponto o domínio de Ewerton sobre a escritura se faz mais forte, pois ele consegue construir um texto equilibrado, profundo mas dinâmico, tomando para si o grande desafio de tentar conceituar o termo kitsch. Em nenhum momento a leitura me pareceu pesada ou enfadonha. Por vezes, tinha que parar, mas para refletir sobre os conceitos e exemplos apresentados e não por ter tropeçado do texto.
Ewerton, contudo, não para por aí. Ele vai mais. Além de abordar um tema espinhoso (afinal, o que é o kitsch? falsidade? demagogia? idealização? enganação? ingenuidade? futilidade? superficialidade?), desenha sua trama e o conflito do anti-herói do texto como uma grande analogia aos conceitos arduamente desenhados. Esse conflito é inserido então em um dos mais contundentes e atuais momentos de nossa história: as manifestações contra a Copa das Confederações em 2013. 
Nesse momento, a prosa de Ewerton ganha um dinamismo impressionante, mantendo um ritmo quase frenético, como se o próprio narrador fosse um jornalista obcecado por registrar exaustivamente esse momento histórico. E o leitor embarca também nessa viagem, troca de pele com o narrador e os personagens e vive (ou revive) a marcha como mais um manifestante.
Após a leitura ávida desse livro, pude refletir um pouco sobre essa onda de protestos que atravessou o Brasil no ano passado e tem se erguido este ano. 
As pessoas mais próximas de mim sempre ouviram minha desconfiança em relação a essas manifestações. Quando me perguntavam, porém, eu não conseguia responder com clareza. Dizia apenas que achava que os protestos não tinham pauta clara, reivindicações consistentes e objetivas. Tudo parecia muito solto, desarticulado. Cheguei a comparecer a uma dessas marchas, embora não me sentisse como parte daquelas vozes. Continuava, porém, sem conseguir argumentar com clareza sobre os motivos que me afastavam dessa grande marcha.
A Grande Marcha deu-me a clareza para entender de fato oque me incomodava. Consegui dessa forma solidificar minha opinião sobre as manifestações. Opiniões que não compartilharei no momento. Talvez em outra hora.
Por fim, quero recomendar a todos que conheçam essa obra de estreia de Ewerton Martins Ribeiro. Com sua escrita primorosa, seu rigor argumentativo e seu domínio sobre a linguagem, A Grande Marcha sem dúvida já nasceu uma grande obra.

Ficha Técnica
Edição: 1
Editora: Circuito
ISBN: 9788564022447
Ano: 2014
Páginas: 98

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