quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Uma Voz Que Se Cala



Quarta-feira de cinzas. Na estrada, eu estava ansioso pelo retorno a Belo Horizonte. Não sabia que me aguardava uma terrível notícia: Maria Lúcia dos Santos Miranda, incomparável colaboradora da Biblioteca onde trabalho, havia morrido naquela madrugada, vitimada por um crime hediondo.

Acredito que nunca uma quarta-feira havia sido tão cinzenta. O fim do carnaval prenunciava também o fim de uma voz que por tanto tempo encheu de vida e alegria as histórias de tanta gente.

Maria Lúcia nem aparentava a idade que tinha. Era enérgica, combativa e extremamente independente. Sem mencionar seu talento para a culinária. Tanta energia nunca foi desperdiçada. Advogada, cantora seresteira, atriz, contadora de histórias. Tinha inúmeras formas de ser atuante, voluntariando-se em diversas causas e participando não apenas da história de seu bairro, o Carlos Prates, mas também ajudando a construir a história da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, onde fazia parte do Grupo de Contadores de Histórias.

Demonstrava seu cuidado com grupo até mesmo no lanche, pelo qual sempre zelou, contribuindo diversas vezes com seus famosos quitutes. Além disso, Maria Lúcia continuamente prestigiava seus colegas contadores, comparecendo em suas apresentações no evento semanal da Biblioteca Infantil e Juvenil, chamado "Era Uma Vez...", além de estar presente nas diversas atividades da Biblioteca.

Queria ter estado mais tempo com a Maria Lúcia. Ainda tinha muito a aprender com ela. Sua partida foi prematura, traumática. Ela deixou um vazio e um profundo silêncio.

Cabe a nós clamar por justiça. Cabe a nós não deixar que a voz de Maria Lúcia seja silenciada.

E que nossas vozes perpetuem seu legado.

5 comentários:

Lourdinha Viana disse...

Samuel, é este meu sentimento também, mas eu ainda não tinha conseguido expressá-lo, vc traduziu meu sentimneto: queria ter passado mais tempo com ela....tinha muita coisa mais a prender com ela.Foi muito bom vc ter escrito esse bonito texto, estou me sentindo desconcertada, vazia de palavras.Um abraço de Lourdinha

Maria Celia Nunes disse...

Samuel, eu posso me envaidecer, pois convivi de perto com ela e muito pude aprender, não só na arte de ler e contar histórias, mas tb sobre a vida, com sua extrema generosidade, sua incrível capacidade de agregar pessoas, a forma com que sempre se prontificava para realizar trabalhos voluntários. Com ela só não dei conta de aprender a cantar e a cozinhar, mas os seus atributos eram tantos, que por maior que fosse o tempo que passássemos juntas, não seria suficiente para aprender, pelo menos um pouquinho do muito que ela sabia e se dispunha a ensinar.
Não podemos silenciar, por mais que sua passagem nos entristeza. Teremos que prosseguir em nossa trajetória, agora ainda com mais força e segurança, pois temos a convicção de que ela, esteja onde estiver, estará nos guiando e orientando, com seu espírito de luz.

Nerito disse...

A verdade é essa, Lourdinha e Maria Célia. Ainda me lembro de como ela ficou feliz ao saber que eu queria aprender a contar "O Macaco e a Velha".

Fico triste por não pode testemunhar a aprovação dela quando eu apresentasse esse texto que ela gosta tanto. Realmente, não podemos deixar que a voz dela permaneça no silêncio.

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Só tenho uma coisa a dizer: sinto muito pela sua perda.

Licia Soares disse...

Samuel, você conseguiu expressar meu sentimento e acho que de todos que tiveram a felicidade de conviver com a Maria Lúcia. Eu também não estava em BH. Vi a notícia no face book e custei a acreditar. Não achava possível que uma pessoa tão importante para tantos, tão comprometida com as causas sociais, tão agregadora ,generosa e amiga pudesse ter sua vida encerrada de forma tão cruel e covarde.