sábado, outubro 01, 2011

Um menino, um homem e uma jornada

Ao terminar As aventuras de Huckleberry Finn, a sensação foi de ter chegado ao fim de uma longa viagem. Com a certeza de que a viagem, embora longa, fora repleta de humor e nem um pouco cansativa. 

Escrito por Mark Twain e publicado em 1884, o livro narra a jornada de um garoto pobre, quase um menino de rua que, após rejeitar a adoção de uma velha fazendeira, escapa com um escravo fugido. Os dois então empreendem uma jornada por todo o rio Mississippi, enfrentando ladrões, caloteiros e, acima de tudo, as poderosas forças da natureza que dominam aquelas águas.

Incorrigível por natureza, Huck Finn mente a todo o momento, nunca diz seu verdadeiro nome, sempre inventa uma história diferente para cada pessoa que encontra. É um menino que precisou aprender muito cedo as artes da malícia para sobreviver do pai bêbado, que o espancava. 

Huck é um dos personagens mais importantes em um livro anterior de Twain, As aventuras de Tom Sawyer. Escrito dez anos depois de seu predecessor, As aventuras de Huckleberry Finn é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Huck, num modo quase oral. Twain busca inclusive reproduzir a oralidade das personagens que surgem a cada curva do rio.

Mas o que me encantou profundamente nesta obra foi a capacidade de Twain criar imagens e sua descrição dos fenômenos naturais. Sem falar do humor construído com ironia e inteligência do protagonista e de seu companheiro de viagem, Jim.

Uma marca forte na concepção do livro é a inocência presente em toda a narrativa. Talvez por ser narrado por uma alma jovem, infantil. Podemos perceber no texto a busca pela bondade, pela honestidade, ou melhor, pela ética além da moralidade. Huck, apesar de trapaceiro e ladrão, tem seus arroubos de consciência e busca a cada momento justificar seus atos através de diálogos internos. O pragmatismo do protagonista acaba sempre vencendo, sempre batendo de frente com a moral cristã protestante que dá base à sociedade do sul dos Estados Unidos no século XIX.

A tradução de Maura Sardinha, além de competente, manteve uma graciosa cadência à narrativa, tornando a leitura agradável, mesmo nos momentos em que as personagens mais difíceis falavam! 

Para encerrar, gostaria de deixar um pequeno trecho, que me arrebatou pela beleza de suas imagens:

“Aí começou a chover, e choveu violentamente, e eu nunca tinha visto o vento soprar com tanta força. Era uma verdadeira tempestade de verão. Lá fora tava tão escuro que chegava a ficar preto-azulado, e lindo; e a chuva batia com tanta força que as árvores pareciam embaçadas, como se tivessem cobertas de teias de aranha; às vezes uma lufada de vento fazia as árvores se dobrar e mostrar a cor mais clara do avesso das folhas; logo depois, uma forte rajada fez os ramos balançar como se tivessem enlouquecidos; e depois, quando o preto-azulado tava bem forte – fsst –, um brilho glorioso deixou a gente ver as copas das árvores balançando no meio da tempestade, muitos metros adiante do que se via antes; depois, num segundo, ficava tudo novamente escuro como o pecado, e se ouvia outra vez o estrondo do trovão que roncava, resmungava e caía do céu até os confins da terra, como barris vazios rolando uma longa escada abaixo.”

Ficha técnica
Título: As Aventuras de Huckleberry Finn
Autor: Mark Twain
Edição: 1
ISBN: 9788577992287
Editora: BestBolso
Ano: 2011
Páginas: 352

4 comentários:

Tyr Quentalë disse...

Huck Finn, em outras mídias é bem conhecido como o malandro incorrigível, mas no fim das contas, acho que muitas crianças invejaram as aventuras que ele teve.
Você está me superando na quantidade de livros lidos, mas o que eu posso fazer, meu caro amigo, se a faculdade desvia meus olhos para as apostilas acadêmicas?
Beijos da amiga barda ;)

Kelly Christine disse...

Ah, Sam. Lembra daquela coleção de banca da qual comprei o Crime e Castigo? Pois é. Nesta mesma coleção saiu o Tom Sawyer, que eu li já adulta e querendo voltar a ser criança. Nunca li o Huck Finn, mas você me deixou com uma vontade danada... Obrigada pela lembrança.

Dora Delano disse...

Eu só vi o filme...se o mestrado largar do meu pé, eu deixo Marx por um instante e leio esse. =)

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Oi Samuel!

Fernanda de novo. Eu ainda não li esse livro, mas me deu muita vontade depois de ler a sua resenha. Acho que pela olhada rápida no meu blog, deu para perceber que eu leio um pouco de tudo;D

Beijos e obrigada pela visita. Apareça sempre!

Fernanda


PS: eu respondi o seu comentário no meu blog mesmo. Beijos!