quarta-feira, outubro 05, 2011

Ocaso


O homem de meia idade veste um robe vermelho de seda, com um belo dragão chinês bordado nas costas. Os raios do poente emolduram a bela imagem do dragão nas costas do homem amarelo. O bigode castanho, espesso, cobre o lábio superior daquele rosto cavado e duro. Duro como o mogno lavrado. Seus dentes dourados brilham qual o pôr do sol em seu apogeu incendiante.
As horas foram sacrificadas naquele momento escasso. O homem está só, régio, ainda que cercado por estátuas de magnitudes inferiores. Amortecido e estagnado, tudo parece morrer em atenta exasperação. Somente o dragão parece vivo, com suas garras de cores quase predadoras. O robe deixa exposto o peito coberto de pêlos castanhos e lisos que parecem ser de um homem jovem. Uma cicatriz escapa furtiva, um risco sofrido que ainda sangra por dentro. O peito do homem sofre múltiplos ocasos a cada segundo esvaído.

É o dragão, triste entidade, que anseia a liberdade. Suas garras abertas com energia, quase irrompendo das costas do homem. A cauda sinuosa se estende ao longo do robe vermelho, sua ponta quase tocando o chão. A formidável criatura debate-se num delicado mar de sangue. Sua morte é plástica, estética, arquetípica. Vivo, o dragão é o que mais sofre a cicatriz do homem sorridente. É o impulso vazio do fogo. É o desejo ardente, enlouquecido pelas horas solitárias. O poente a tudo toma, expande-se no assoalho amarelado, na pele também amarela dos presentes, nos dentes amarelos expostos em cada sorriso.

Foi no momento em que as figuras voltaram a se mover que todos entenderam. Era o ocaso necessário para que o dragão pudesse enfim alçar vôo. As posições se alternaram, alguns inevitavelmente não puderam compreender. Somente sabiam. O sol mergulhou no horizonte, rebatendo enfim a última revoada da existência. 

07/07/2005

5 comentários:

Dora Delano disse...

não sei pq, mas ao ler esse texto, me veio a forte impressão de ter algo a ver com religião. Confere?

Fefa Rodrigues disse...

Para mim pareceu uma cena de suicidio....

Tyr Quentalë disse...

Na verdade, acho que foi um dos textos mais complexos que li. Há o homem e o Dragão. O Dragão preso em um homem e o homem preso a um dragão. O desejo de liberdade de ambos e a dor de ambos. Se houve realmente uma morte, ambos morreram nessa batalha de prisão e liberdade, pois ambos precisam um do outro, mas estão cansados um do outro.
...
Nerito, você foi o cara com esse texto.

Nerito disse...

Oi amigas Dora, Fefa e Tyr. Realmente esse texto é um pouco enigmático. Há morte no texto? Sim. Há suicídio? Talvez. Uma vez que alguém causa o próprio fim em busca de um desejo, mesmo sendo esse alguém o próprio desejo.

Existem coisas que dizemos em nossos escritos que nos escapa. Talvez deixei um pouco da religião resvalar pelo texto (não foi intencional).

Tyr Quentalë, você foi incrível. Fez uma análise tão acertada do texto que fico até sem jeito. De fato você é a leitora que mais me conhece. Afinal, acho que é a pessoa que mais leu tudo o que eu já escrevi!

Simone Teodoro disse...

Belíssimo!