sexta-feira, outubro 28, 2011

Fahrenheit 451 - Porque guardar é preciso

Quando comecei a ler Fahrenheit 451, senti uma profunda estranheza. As imagens presentes no texto, embora um tento poéticas, eram confusas em diversos trechos. Eu não me sentia parte daquele texto. Era como se eu fosse uma espécie de clandestino naquelas linhas.

Um dos motivos para que eu me sentisse dessa forma talvez tenha sido a maneira com que o protagonista, Guy Montag, é apresentado logo no início do romance. Ele é um bombeiro que vive em um mundo em que os bombeiros não têm mais a obrigação de apagar incêndios. Agora, as casas dificilmente pegam fogo e, por isso, outra função é dada aos profissionais que antes combatiam as chamas.

Ray Redbury, autor de Fahrenheit 451, dá forma a uma obra densa e opressiva, cujo enredo está situado em um suposto futuro. No romance, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a sociedade desenvolve um forte imediatismo, de forma que as fontes de conhecimento mais tradicionais, como os livros, passam a ser descartados e, por fim, temidos. Afinal, o governo começa a considerar o acesso aos livros uma perigosa forma de autonomia.

Com isso, os bombeiros são arregimentados para dar fim ao legado de Gutemberg. Atendendo a denúncias anônimas, eles seguem o mesmo tradicional protocolo de vestirem macacões, descer pelo corrimão ao andar de baixo, subir no caminhão e partir rumo ao chamado. Só que as mangueiras que eles carregam não cospem água e sim querosene.

Guy Montag, protagonista da história, é um bombeiro com dez anos de serviço. Fiel ao seu serviço, sente orgulho por fazer parte da corporação. Logo que ele entra em ação, é com prazer que observa os livros sendo transformados em cinzas. Tudo muda quando ele tem um fortuito contato com uma vizinha, uma menina de 17 anos que provoca nele um incômodo tão grande que Montag passa a ver tudo ao seu redor de uma forma diferente.

O mundo descrito por Ray Redbury carece de detalhes, de forma que, ainda que narrado em um universo futurístico, os conflitos são profundamente psicológicos. Este fato se torna cada vez mais forte nas duas últimas partes do romance, quando os diálogos se tornam cada vez mais profundos e significativos.

É importante destacar que a mudança em Montag é gradual e, como é de se esperar, acaba por trazer sérias consequências tanto para sua saúde física quanto para sua própria sanidade mental. Da mesma maneira que no mito da Caverna de Platão, quando ele tem seus olhos abertos, passa a considerar inconcebível que as pessoas ao seu redor continuem alheias, acreditando nas transmissões de seus televisores e nas propagandas insaciáveis. Montag passa a ter outros anseios, mais urgentes e também mais profundos.

Desafiador, profundo e poético, Fahrenheit 451 é uma obra inesquecível. Um chamado a todos aqueles que querem viver além da superfície.

Segue abaixo um pequeno trecho do livro e que particularmente me inspirou, pois traduz um pouco do espírito deste blog:

Um deles tinha de parar de queimar. Por certo o Sol não pararia. Dessa forma, era como se tivesse de ser Montag e as pessoas com quem ele havia trabalhado até algumas horas antes. Em algum lugar, o ato de salvar e guardar teria de começar novamente, e alguém tinha de se encarregar de salvar e guardar, de um modo ou de outro, nos livros, nos discos, na cabeça das pessoas, do jeito que fosse, desde que fosse seguro, livre de mariposas, traças, ferrugem e mofo, e de homens com fósforos.

Ficha técnica

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Redbury
Editora: Globo de Bolso
ISBN: 9788525046444
Ano: 2009
Páginas: 256
Tradutor: Cid Knipel

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/136

3 comentários:

Tyr Quentalë disse...

Isso em certo ponto me lembrou tanto o filme Equilibrium. Você já viu esse filme? Eu indico!!! Vae a pena conferir! No mais, por conta da similaridade, fiquei tão curiosa...
Te adoro meu amigo, por conta de suas indicações literárias ;)

Nerito disse...

Tyr, eu não assisti o filme Equilibrium, mas vou dar uma conferida. Valeu pela dica!

E obrigado pelo elogio! ^_^

Alison Barbosa disse...

Eu, como responsável por esse encontro do Samuel com o livro de Ray, sinto-me na obrigação de postar minha impressão. Cabe ressaltar que um simpósio seria pouco para extrairmos dessa obra tudo que ela pode proporcionar. É de uma riqueza e complexidade tamanha que causa estranheza, como bem colocado pelo Samuel no começo. São tantas as similaridades com situações que vivemos hoje que nos indagamos se as reflexões colocadas pelo Capitão não seriam as reais intenções do cotidiano que temos atualmente. Ademais, esta provocação a partir da leitura reforça o caráter subvertedor da literatura em nosso modo de ver e pensar o mundo.