segunda-feira, outubro 10, 2011

A Cidade Suspensa – Parte VIII

Em um bonde estranho, num itinerário sombrio e revelador, Kain descobre alguns segredos sobre a Cidade Suspensa. Diante de um curioso companheiro de viagem, teme dizer mais do que deveria...


O viajante virou-se para Salomão, a fim de dar qualquer resposta, tentar inventar alguma coisa e desviar a atenção de seu companheiro, mas viu que o rapaz dormia, recostado ao vidro sujo. Fazendo um muxoxo, Kain cruzou os braços e relaxou os ombros, enquanto fechava os olhos, buscando o auxílio do sono. O bonde de repente rangeu de forma assustadora e deu um solavanco, quase lançando Kain de seu assento. 

Os primeiros raios de sol venceram as silhuetas dos prédios e atravessaram o vidro fosco das janelas do bonde. A Cidade Suspensa destacou-se, ainda mais escura ante os raios dourados e o céu azul. O solavanco violento parou e Kain constatou que estava tudo bem, seu aparente cochilo se arrastara pelas horas da noite. Salomão, seu companheiro de viagem, continuava adormecido.

O bonde fez sua primeira parada e Kain desembarcou. Enquanto o viajante observava a fachada de pedra do prédio à sua frente, o bonde retomava o movimento, em seu tortuoso caminho por trilhos que surgiam e desapareciam logo em seguida.

O prédio era gigantesco, destacando-se das demais construções. Era uma estrutura cilíndrica que subia vertiginosamente, dando a impressão de uma altura infindável. Acima do portão, como se dominasse toda a fachada, Kain reconheceu a insígnia que estava gravada na medalha que recebera de Scarlate. Então aquele rapaz, Salomão, estava realmente certo. Aquele símbolo representava a Biblioteca.

Ao aproximar-se do portão, Kain avistou um homem muito alto, vestido de um uniforme cinzento e carregando um bastão. Era o porteiro, que estendeu a mão em sinal proibitivo para o viajante. Kain estacou e retirou a medalha do bolso do capote. O homem, sem dizer uma palavra, olhou com interesse para Kain. Em seguida, tocou com seu bastão onde os dois lados do enorme portão se encontravam. Com um rangido, a entrada abriu-se para Kain, que distinguiu apenas um caminho reto a perder de vista.

Sem vacilar, o viajante penetrou na Biblioteca. O portão se fechou logo às suas costas. Candeias iluminavam o caminho de forma parca. Kain continuou a seguir em linha reta por algum tempo, até que chegou a uma outra porta, bem menor e feita de madeira. Um velho vestido de uma longa túnica e com a cabeça coberta por um capuz cumprimentou-o com uma reverência, para em seguida empurrar a porta de madeira, abrindo o par da direita. Kain seguiu aquele que, ao que parecia, seria seu guia na visita à Biblioteca.

Além da porta de madeira, o ambiente era outro. Estantes dispunham-se de forma aleatória, todas abarrotadas de livros de todos os tipos e datas. Sujeitos vestidos de longas túnicas passeavam silenciosamente entre as estantes, lendo e meditando nos livros que carregavam. Alguns deles murmuravam entre si as impressões de suas leituras. O guia de Kain levou-o entre as estantes e os murmuradores até uma outra porta, que dava em um segundo corredor em linha reta. No fim do corredor, mais uma sala, com estantes e murmuradores. O viajante percebeu que em cada sala a disposição aleatória dos móveis sugeria a complexidade de um labirinto.

Kain e seu guia seguiram por mais diversas salas e corredores, de modo que o viajante já não sabia se orientar naquele ambiente. Chegaram  por fim em um outro portão, guardado por outro guia. Acima, havia uma plaqueta de madeira onde estava escrito "Bibliotecário" logo abaixo da insígnia da Biblioteca. Kain em segundos estaria diante do homem que dominava toda aquela estrutura. Sua jornada se aproximava de um momento crucial.

8 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

Sabe o que eu gosto desse conto?? É qu além de todo mistério a cada passo de Kain, vc sempre termina o capitulo de uma forma que aguça a curiosidade... se o conto estivesse publicado em forma de livro,s eria daqueles que a gente não consegue parar de ler... vira a noite com os olhos grudados, sempre querendo saber o que está por vir!!!

Fefa

Dora Delano disse...

Concordo com a moça acima. Tem sempre um quê de suspense que nos instiga.

Agora comentário de uma leitora chata: curioso como todos sabem o que kain quer fazer na cidade. Digo, como Scarlate sabia que ele precisava ir à biblioteca e ele, não? Será que este é o caminho que todo viajante deve fazer para fincar raízes na cidade? To doida para saber o que ele foi fazer nessa cidade... e pq NESSA cidade...

Tyr Quentalë disse...

Bibliotecas sempre costumam ser bons labirintos se forem de tamanhos maiores do que imaginamos. Mas não nos perdemos apenas por conta da quantidade de estantes, mas devido a quantidade de conhecimento que entranha em nosso corpo sendo o verdadeiro sussurro dos murmuradores. Um murmurio que entorpece a mente e o sentido de direção, não é mesmo? Mas como eu já dizia. a Cidade Suspensa sempre tem seus mistérios, sempre deixa um gosto de ansiedade, uma 'gula' bem conhecida de meus contos e seus contos. Ai Ai... quando é que votarei a escrever contos? Acho que estou te devendo, não é mesmo?

Tyr Quentalë disse...

votarei = voltarei

Fefa Rodrigues disse...

Ééé... isso eu não tinha percebido... vou prestar atenção no próximo... será assim também?

E eu esqueci de comentar sobre o Davos, também estou gostando dele... ainda estou um pouco antes do meio do livro hehehe... mas estou amando!!!

Vc ja leu o 3º??

Fefa Rodrigues disse...

HUmmm e essa biblioteca me lembrou o Cemitério dos Livros Esquecidos da obra A Sombra do Vento.

Teixeira disse...

Será que eles usam Pergamum?

Fátima disse...

Kain está procurando o que mesmo???? Adoro suspense.