segunda-feira, outubro 17, 2011

A Cidade Suspensa – Parte IX

Kain chega enfim à Biblioteca, uma das mais poderosas instituições da Cidade Suspensa. Ele agora espera contar com a influência do Bibliotecário para alcançar seus interesses...

Kain penetrou naquele salão. Não havia janelas, apenas estreitas aberturas bem próximas ao teto, que estava a uns vinte metros de distância do chão. Após perder alguns segundos contemplando o teto distante, o viajante voltou sua atenção ao aposento, que era de fato grandioso, porém de uma frieza quase sepulcral. A lareira à direita nem parecia cumprir sua função de dar calor ao ambiente. Próxima à lareira, uma jovem de tez pálida, olhos cinzentos e cabelos loiros permanecia sentada em uma poltrona. Ela fez menção de levantar-se, mas o guia de Kain adiantou-se, erguendo as mãos em um gesto conciliador.

“Não precisa se levantar, senhora. Este forasteiro apenas está aqui para ver o seu pai.”

A moça voltou a acomodar-se na poltrona e virou o rosto para a lareira, ficando a observar o fogo. Logo além, à esquerda de onde estava a jovem, havia uma pequena porta do que parecia o gabinete privado do Bibliotecário. O guia de Kain pediu para que ele aguardasse e atravessou o salão, sumindo além daquela porta.

O viajante olhou interessado para a jovem. Como que percebendo o olhar, a garota tirou os olhos do fogo e fitou Kain com aquelas duas esferas cinzentas. Era uma bela moça. Tinha uma beleza diferente da que Scarlate ostentava. A cortesã era selvagem, enquanto essa jovem tinha uma aparência domesticada.

“Sou Kain, sou novo na cidade” começou a dizer, para quebrar o silêncio. A moça suspirou e respondeu:

“Marília. Filha do Bibliotecário.”

O interesse de Kain aumentou. Lembrou-se de uma das condições de ficar na cidade: devorar o coração de alguma moça, mas somente se o coração nunca tivesse sido mordido. A filha de um distinto senhor, administrador de uma instituição daquele porte, seria a presa ideal. Marília olhava Kain como se já conhecesse as intenções dele.

“Não vai adiantar, forasteiro,” disse a moça, “você não é o primeiro que me olha desse jeito.”

Kain quase engasgou com a própria saliva. Desconcertado, ele pôs a mexer nos botões do sobretudo. Marília então tirou os olhos dele e voltou a contemplar o fogo. Parecia que a jovem havia por fim perdido o momentâneo e superficial interesse no visitante.

Mas Kain habilmente preparava um feitiço. Se não fosse por bem, aquela garota iria ser dele por outros meios. Era temerário, de fato, usar magia no gabinete do Bibliotecário, mas Kain estava realmente desesperado para conseguir estadia fixa na cidade.

“Se parar imediatamente o que está fazendo,” advertiu Marília, sem virar o rosto para Kain, “vou desconsiderar essa afronta. Mas se insistir, terei de comunicar meu pai e os favores que você poderia conseguir se tornarão definitivamente impossíveis.”

O viajante largou os botões e murmurou um pedido de desculpas, enquanto dispersava o feitiço. Marília, porém, não parecia brava ou contrariada, apenas cansada demais para se enraivecer. 

“É sempre a mesma coisa, sempre. Sempre os mesmos indivíduos buscando um caminho mais rápido para ter a Biblioteca. Isso me dá nojo.”

“Mas meu objetivo não é a Biblioteca...” retrucou Kain. “Quero apenas um jeito de ficar aqui na cidade.”

A moça voltou o rosto para ele, cética. Kain então ponderou sobre a importância daquela instituição, a Biblioteca. Muitos já deveriam ter tentado enfeitiçar o coração da moça para herdarem o controle daquele complexo e de todo o conhecimento nele guardado. O viajante percebeu o erro que cometera. Curvou-se sobre o joelho direito.

“Fui precipitado e inconseqüente. Peço perdão, senhora.”

“Você não deve se ajoelhar diante de mim” disse Marília, com um muxoxo. “Faça isso diante do meu pai. Ele já vem aí.”

Nesse momento, a porta do gabinete privado abriu-se e o guia saiu, acompanhado do Bibliotecário. Kain levantou-se de supetão. Sentia-se despreparado, mas suspirou fundo. Lamentou-se do erro cometido minutos atrás. Para conseguir o que algo daquele lugar, precisava do maior número possível de aliados.

7 comentários:

Dora Delano disse...

ao ler esse capítulo, só que eu pensava era: "homens, sempre tão previsíveis...".

Mas ainda sim, to cheia das perguntas...

Tyr Quentalë disse...

Kain na verdade apenas foi levado pelo impoulso desesperado de se manter na cidade, quando na verdade ele mal conhece os verdadeiros fios que o rodeiam. Alguns erros servem apenas para conhecer os pontos fracos de sua estratégia ;)
Mas Kain ainda tem muito a ofertar, assim como a filha do Bibliotecário.

Nerito disse...

Oi Dora... Sim, Kain é homem e todos os sentidos! rsrsrs...

Tyr, amiga, Kain ainda fará algumas de suas peripécias...

Simone Teodoro disse...

Então, me sinto lendo Borges misturado com Neil Gayman e com pitadinhas de Miyazaki.
Teu texto funcionaria muito bem também como um roteiro de quadrinhos!!!
Masssaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!

Nerito disse...

Oi Si, vc é uma baita de uma escritora e citou um monte de caras puta feras. Assim vou começar a ficar inchado... Eu já pedi pro D.Werneck fazer uma ilustração da Cidade pra mim. Quem sabe rola futuramente uma HQ? Lógico q to sonhando... rsrsrs...

Teixeira disse...

Bibliotecário rules!
Você tinha que ter esperado esse cara aparecer melhor pra fazer aquela enquete, uai!

Nerito disse...

Teireira, foi uma jogada planejada lançar a enquete antes do surgimento do Bibliotecário. É a mesma coisa que um mestre deixar a gente jogar com um personagem apelão... Esse não vale!