domingo, outubro 30, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XI


Embora acreditasse impossível, Kain consegue um trabalho na Biblioteca da Cidade Suspensa. Ele sabe, porém, que o cargo é provisório e que ainda há muito a conquistar...

O tempo era confuso na Cidade Suspensa, mas pelas observações de Kain, fazia dois ou três dias desde que ele fora abrigado na biblioteca. Apesar disso, sua situação ainda era incerta. Sua admissão como intendente não era formal, de modo que logo que a Cidade Suspensa pousasse novamente, ele seria expulso da cidade. Bem, talvez expulso não fosse a palavra mais adequada e sim expelido. O viajante procurava não pensar nisso, lançando-se com afinco ao novo trabalho, procurando aprender e aplicar os conhecimentos que já possuía.

A Biblioteca era fascinante. Uma torre cilíndrica, gigantesca e cada andar era incrivelmente extenso. As escadas que levavam aos andares superiores eram retas e não acompanhavam o formato circular do edifício. Cada andar era composto de um salão de livros, uma sala de leitura e dormitórios, que poderiam ser coletivos ou individuais, como o de Kain. 

Os volumes eram ainda mais fascinantes que o prédio. Um visitante inadvertido, ao abrir um livro, não encontraria palavra que fizesse sentido. Logo no primeiro dia, o Bibliotecário havia explicado que o acervo era protegido com uma magia poderosa. O conhecimento neles encerrado era destinado aos iniciados.

O salão de livros era composto por estantes de madeira escura, baús e prateleiras, onde as escrituras eram armazenadas. Os iniciados que residiam na Biblioteca, aprendizes do Bibliotecário, vagavam entre as estantes, buscando os escritos que mais lhes interessavam, para poderem desfrutá-los na sala de leitura. Alguns não aguentavam a ansiedade e já se entregavam ao vício da leitura logo que punham as mãos no livro. Por vezes, estudiosos se esbarravam por não olharem o caminho à frente.

Quando um estudioso procura um livro e não sabe como encontrá-lo, a solução sempre estará no grande catálogo em posse do intendente. Kain era consultado o tempo todo. Havia muito trabalho a fazer. Auxiliar o bibliotecário a catalogar os livros novos, conferir cada códex, cuidar para que os pergaminhos não fossem arruinados pelo clima. Quase não havia tempo para bisbilhotar o que estava escrito em cada livro que eles manuseavam. 

Kain também raramente encontrava Marília. A jovem permanecia quase o tempo todo no alto da torre, no andar privado do Bibliotecário. Muitas histórias rondavam a figura da moça. Diziam que ela e o pai viveram nos campos, criando gado, quando ela era uma adolescente. Naquela época, o Bibliotecário havia decidido aposentar-se para cuidar melhor da filha. O ambiente era repleto de campos verdejantes e ar puro, bem diferente dos sufocantes edifícios, cobertos de fuligem, da Cidade Suspensa. Mas não era somente o ambiente campestre que fazia a garota feliz. Naqueles dias, Marília tinha um amor.

Era um jovem pastor que compartilhava os mesmos sonhos e aspirações que a garota. Viviam pelos campos, juntos, como irmãos. Diziam que ele era excelente músico e encantava a garota com suas melodias. Mas um dia, quando Marília estava em casa e seu amado pastoreando nos campos, um trágico acontecimento fez com que o rapaz fosse perdido para sempre. Desse desastre, Marília nunca se recuperou. Buscando afastar sua filha das lembranças amargas, o Bibliotecário revogou a aposentadoria e retomou imediatamente o trabalho na Biblioteca. Marília nunca se recuperou do choque.

Kain pensava no trágico destino da moça, enquanto dirigia-se para seu quarto. Estava muito cansado, e a história de Marília não saía de sua cabeça. Mas o que Kain queria mesmo era uma boa soneca. Ainda estava pelo meio da tarde, mas ele e o Bibliotecário haviam passado a noite e a manhã trabalhando em indexar novos itens para o acervo. Os ombros de Kain doíam e seus olhos estavam pesados. Ele teria desabado na cama se não tivesse percebido um pequeno e estranho pedaço de papel depositado sobre o colchão.

Sem demora, Kain pegou o papel e desdobrou-o, lendo com avidez o conteúdo. O viajante oscilou à beira da cama. Seus sentimentos se misturaram, revolvendo seu peito. Depois de tudo, aquele era o momento. Deveria partir sem demora.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Fahrenheit 451 - Porque guardar é preciso

Quando comecei a ler Fahrenheit 451, senti uma profunda estranheza. As imagens presentes no texto, embora um tento poéticas, eram confusas em diversos trechos. Eu não me sentia parte daquele texto. Era como se eu fosse uma espécie de clandestino naquelas linhas.

Um dos motivos para que eu me sentisse dessa forma talvez tenha sido a maneira com que o protagonista, Guy Montag, é apresentado logo no início do romance. Ele é um bombeiro que vive em um mundo em que os bombeiros não têm mais a obrigação de apagar incêndios. Agora, as casas dificilmente pegam fogo e, por isso, outra função é dada aos profissionais que antes combatiam as chamas.

Ray Redbury, autor de Fahrenheit 451, dá forma a uma obra densa e opressiva, cujo enredo está situado em um suposto futuro. No romance, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a sociedade desenvolve um forte imediatismo, de forma que as fontes de conhecimento mais tradicionais, como os livros, passam a ser descartados e, por fim, temidos. Afinal, o governo começa a considerar o acesso aos livros uma perigosa forma de autonomia.

Com isso, os bombeiros são arregimentados para dar fim ao legado de Gutemberg. Atendendo a denúncias anônimas, eles seguem o mesmo tradicional protocolo de vestirem macacões, descer pelo corrimão ao andar de baixo, subir no caminhão e partir rumo ao chamado. Só que as mangueiras que eles carregam não cospem água e sim querosene.

Guy Montag, protagonista da história, é um bombeiro com dez anos de serviço. Fiel ao seu serviço, sente orgulho por fazer parte da corporação. Logo que ele entra em ação, é com prazer que observa os livros sendo transformados em cinzas. Tudo muda quando ele tem um fortuito contato com uma vizinha, uma menina de 17 anos que provoca nele um incômodo tão grande que Montag passa a ver tudo ao seu redor de uma forma diferente.

O mundo descrito por Ray Redbury carece de detalhes, de forma que, ainda que narrado em um universo futurístico, os conflitos são profundamente psicológicos. Este fato se torna cada vez mais forte nas duas últimas partes do romance, quando os diálogos se tornam cada vez mais profundos e significativos.

É importante destacar que a mudança em Montag é gradual e, como é de se esperar, acaba por trazer sérias consequências tanto para sua saúde física quanto para sua própria sanidade mental. Da mesma maneira que no mito da Caverna de Platão, quando ele tem seus olhos abertos, passa a considerar inconcebível que as pessoas ao seu redor continuem alheias, acreditando nas transmissões de seus televisores e nas propagandas insaciáveis. Montag passa a ter outros anseios, mais urgentes e também mais profundos.

Desafiador, profundo e poético, Fahrenheit 451 é uma obra inesquecível. Um chamado a todos aqueles que querem viver além da superfície.

Segue abaixo um pequeno trecho do livro e que particularmente me inspirou, pois traduz um pouco do espírito deste blog:

Um deles tinha de parar de queimar. Por certo o Sol não pararia. Dessa forma, era como se tivesse de ser Montag e as pessoas com quem ele havia trabalhado até algumas horas antes. Em algum lugar, o ato de salvar e guardar teria de começar novamente, e alguém tinha de se encarregar de salvar e guardar, de um modo ou de outro, nos livros, nos discos, na cabeça das pessoas, do jeito que fosse, desde que fosse seguro, livre de mariposas, traças, ferrugem e mofo, e de homens com fósforos.

Ficha técnica

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Redbury
Editora: Globo de Bolso
ISBN: 9788525046444
Ano: 2009
Páginas: 256
Tradutor: Cid Knipel

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/136

quarta-feira, outubro 26, 2011

Sobre amores desiguais

Há alguns dias terminei a leitura do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Em breve deixarei aqui uma resenha sobre esse livro. Gostaria, contudo, de comentar um trecho que me fez refletir por um bom tempo.

O livro fala de Ema Bovary e sua busca incessante por um significado para além do cotidiano, uma perseguição do ideal de paixão e felicidade. Nessa busca, Ema se envolve com amantes, estabelecendo um clima de tensão que vai ficando cada vez mais forte ao longo da narrativa. O trecho que me fez refletir fala sobre a relação entre Ema e seu amante Léon:

"Não discutia as ideias dela e aceitava-lhe todos os gostos; ele era mais amante dela do que ela o era sua."

Cheguei ao final dessa frase com a indagação sobre tantos casais que vivem uma situação semelhante, ou pelo menos têm impressão dessa desigualdade de sentimentos.

A verdade é que não há justa medida para o amor. Não há sentimento que possa ser medido, ou mesmo definido. Amamos, simples assim. Tentamos mensurar esse sentimento pelas angústias que nascem de nossas expectativas. É impossível aceitar que o amor do outro seja insondável, imensurável. E isso nos incomoda na proporção inversa de nossa segurança.

Numa sociedade regida pela imagem, desde os ícones pop até os gráficos estatísticos, o ato de comparar é quase natural. As consequências ficam a cargo das pessoas comuns, incapazes de manter o ritmo dessa força inexorável e retroalimentada que atua como modelo social.

A insegurança é um problema, pois provoca comparações que geram ainda mais insegurança. É importante, porém, assumir que quanto mais envolvidos estivermos em um relacionamento, maior peso daremos a nossas comparações.

Mas esse mesmo excesso de envolvimento pode também provocar um enganoso excesso de confiança. Carlos Bovary, marido de Ema, era tão devoto à esposa que sequer imaginava ser possível qualquer traição. Não fosse a convenção social ela já o teria abandonado. Carlos vai ao cúmulo da ignorância, ao encontrar um antigo bilhete de um outro amante. Ao ler as palavras comprometedoras, ele declara: "Amavam-se platonicamente."

Talvez seja inevitável – até necessário – comparar. Ou de repente o melhor é jogar tudo para o alto, esquecer ou ignorar qualquer diferença (ou semelhança), deixar-se levar. Quem sabe um pouco dos dois. Não deixando, porém, que a segurança descambe para a insensibilidade. Ou que comparações, sempre subjetivas, estraguem algo que transcende qualquer comparação.

segunda-feira, outubro 24, 2011

A Cidade Suspensa – Parte X


Após perceber o erro de uma atitude temerária, Kain deposita toda as suas esperanças em um possível apoio do Bibliotecário...

O Bibliotecário causou forte impressão logo que Kain o viu. Era um homem alto e magro, de nariz adunco e o cabelo cinzento que denunciava o loiro dos anos verdes. Para o homem mais poderoso do lugar, tinha um olhar bem franco, quase bondoso. Mas o que surpreendia Kain era o ar de familiaridade que aquele senhor lhe lançava. O Bibliotecário assentiu levemente e saudou o viajante. 

“Bem-vindo, senhor forasteiro. Ainda que o senhor ignore, alguns dos Príncipes desta cidade estão devidamente informados de sua chegada. Está de posse da insígnia?”

Apesar de Kain ter ficado levemente surpreso, aquilo era de se esperar dos chamados “grandes” da Cidade. Lembrando-se da recomendação de Marília, o viajante logo pôs-se de joelhos. 

“Distinto senhor,” começou a dizer, enquanto estendia o medalhão, “apresento-me em busca de um trabalho. Não desejo me vangloriar, mas disponho de talentos que seriam no mínimo interessantes ao senhor e à Biblioteca.”

Em sua pose distinta, porém simpática, o Bibliotecário caminhou pausadamente até tocar o medalhão. O objeto começou a brilhar, como se aquecido e, num instante, desfez-se em fagulhas luminosas. O austero senhor fez um muxoxo e soltou um discreto murmúrio de satisfação.

"Creio que no caminho até este recinto o senhor tenha visto o número de trabalhadores à minha disposição. Não preciso de mais um, por mais talentoso que seja."

Era curioso, mas Kain já imaginava resposta como aquela. Fez menção de ficar de pé, mas o Bibliotecário tocou seu ombro, indicando que o viajante deveria continuar naquela posição incômoda. Pelo visto, o líder da Biblioteca ainda não havia acabado. 

“No entanto, o cargo de intendente está vago e não acredito que um daqueles idiotas lá de baixo estejam aptos a assumi-lo. A insígnia que o senhor viajante trouxe revela uma procedência de qualidade incontestável. Acredito, portanto, ser interessante recebê-lo como aprendiz, até que seu prazo na cidade acabe. Se eu aprovar o trabalho, o cargo será seu."

Não deixava de ser uma surpresa, mas Kain manteve-se impassível. O Bibliotecário deu rápidas instruções para que o guia levasse o viajante para os aposentos que ele ocuparia temporariamente. O grave funcionário da Biblioteca foi silenciosamente seguido até uma pequena saída de serviço, escondida em uma extremidade do recinto, onde se via a entrada para uma escada em espiral. Kain ainda olhou para trás uma vez, para observar o ar melancólico da filha do Bibliotecário. Marília era como um dos títulos guardados naquele edifício. Um daqueles tomos com capa bordada e repleto de iluminuras. Inalcançável. Balançando a cabeça para afastar esses pensamentos, Kain tratou se seguir seu guia até o recinto a ele destinado.

Era uma cela minúscula, contendo uma cama rústica com o colchão e cobertor grosseiros, uma pequena mesa de canto e um castiçal para uma só vela. Não havia janelas. Era tudo bem simples, mas bastava para Kain. O viajante foi deixado sozinho após um grave cumprimento do guia. Sobre a pequena mesa, havia uma tigela de caldo, um copo de leite e pão fresco. Era estranho, parecia que ele já era aguardado. 

Sempre desconfiado, chegou a ponderar se haveria veneno nos alimentos. Testou-os com magia e não encontrou alteração. Deu de ombros. Afinal das contas, havia dois dias que não tinha uma refeição decente e desde a sua chegada à Cidade Suspensa não comera nada. Seu corpo doía pela noite mal dormida, cochilando sentado no bonde noturno. Cansado demais para mais desconfianças, Kain comeu com voracidade para, em seguida, desabar na cama e entregar-se a um sono sem sonhos.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Uma menina em busca de vingança


"Ninguém põe fé que uma menina de catorze anos possa sair de casa e viajar em pleno inverno para vingar a morte do pai, mas na época não pareceu tão estranho, embora eu deva reconhecer que isso não acontece todo dia. Eu tinha só catorze anos quando um covarde que atende pelo nome de Tom Chaney meteu uma bala em meu pai lá em Fort Smith, Arkansas, e roubou sua vida, seu cavalo e 150 dólares em dinheiro, mais duas moedas de ouro da Califórnia que ele levava em uma faixa na cintura."


Resolvi iniciar a resenha de Bravura Indômita com as primeiras palavras do romance, deixando que a própria Mattie Ross fale por si, pois a corajosa menina de 14 anos dita o tom do enredo, sendo ela a Guardiã desta história.

Charles Portis deu forma a este romance em 1968, ambientando sua história ocorrida por volta de 1870 no autêntico faroeste. Mattie, em busca de vingança pela morte de seu pai, contrata o destemperado e implacável agente federal Rooster Cogburn e parte com ele em uma incansável caçada contra o assassino, Tom Chaney. LaBoeuf, um texas ranger, acompanha o agente federal e a menina, interessado em uma outra recompensa por Chaney.

O maior mérito de Portis ao escrever o romance foi deixar claro que Mattie é uma mulher inteligente, porém não uma literata. Já adulta quando conta essa história, Mattie lida bem com as palavras, mas sem se prender em criar belas imagens ou construir metáforas de efeito. Coisa muito comum na literatura norte-americana.

Não que Bravura Indômita não tenha belas imagens. Elas apenas estão entrelaçadas pela narrativa precisa e pragmática de Mattie e se revelam muitas vezes clandestinamente, como paisagens capturadas pelos olhos da menina e revividas através da memória da mulher.

Rooster Cogburn é um anti-herói, com seu charme próprio e postura incorrigível, no tradicional estilo "mocinho cafageste", embora sua história seja bem mais humana e menos glamourosa. Sua decadência é marcante, principalmente na descrição que Mattie faz de sua vida e no destaque que ela dá ao tapa-olho do velho agente federal. LaBeouf se contrasta com Rooster por suas roupas cuidadas e atitude engomada.

Assim como seria de se esperar em um ambiente hostil como os Estados Unidos costurado recentemente pela guerra civil, os personagens são todos homens com moral deturpada e a boca maior que os atos. Chega a ser cômico em certo momento Rooster, bêbado, disputar com LaBoeuf atirando em broas de fubá, tentando provar sua bela pontaria.

E justamente cenas como esta deixam o desfecho do romance ainda mais saboroso. Vale comentar que o livro teve duas adaptações para o cinema. A primeira, de 1969, foi estralada por John Wayne e dirigida por Henry Hathaway. Em 2010 foi lançada a segunda adaptação, estralada por Jeff Bridges e dirigida pelos irmãos Coen. Não sei da primeira, mas a segunda adaptação segue fielmente o roteiro do romance.

A escolha do desfecho de Charles Portis pode ser estranho para alguns, mas considero perfeito para a proposta do romance. Principalmente porque, ao final da leitura, você pode ficar com um pouco de vontade de embarcar naquele trem rumo ao Arkansas, em busca de sua própria aventura.

Ficha Técnica


Título: Bravura Indômita
Autor: Charles Portis
Edição: 1
Editora: Alfaguara
ISBN: 9788579620430
Ano: 2011
Páginas: 187
Tradutor: Cassio de Arantes Leite

Link para a página no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/146195/

quarta-feira, outubro 19, 2011

As muitas razões de ser

Enquanto meus dedos deslizam nas teclas, a janela do apartamento à frente ressoa músicas ininteligíveis, num coro de vozes bêbadas entoando suas canções. Algo que lembra um pouco do sertanejo brega que fez tanto sucesso na década de 1990. É domingo, 19h43 da noite. 

Como sempre posto um relato ou uma reflexão toda quarta-feira, pretendia levantar outras questões neste post ao invés de elogiar meus vizinhos tão educados. Por exemplo, queria falar sobre os comentários do blog. Agradecer, em primeiro lugar, a todos que comentam. E também dizer que leio todos os comentários. O fato de não respondê-los não diminui sua importância. Afinal, escrevo e publico especificamente porque espero que as pessoas leiam. Por isso minhas ideias, por piores ou melhores que sejam, não ficam guardadas na gaveta ou na página da agenda.

Embora não necessariamente, este blog é seriamente novo. Digo, ele existe desde 2005, mas com uma proposta diferente. Nasceu na tentativa de contar uma história de fantasia onde um gnomo perdido em um mundo quase morto conta suas memórias e analisa sua vida. Tanto a ideia inicial quanto sua sustentação morreram. Tudo por falta de comentários. 

Decidi, em seguida, criar uma outra história, onde um cavaleiro maligno resgata uma espada igualmente maligna para aos poucos ter sua vida transformada enquanto encontrava inúmeros personagens. A história se manteve sem comentários até o sétimo capítulo. Fiquei desmotivado e praticamente abandonei o blog.

As músicas continuam. Acredito que os vizinhos querem me convencer a cantar também. Se não fosse isso, não estariam gritando tão alto. Talvez seja a deixa para desligar este computador, bater na porta e pedir um prato de salgadinhos e uma bebida...

Ah, sim, estava falando do meu blog abandonado. Quase um ano depois, voltei e encontrei um comentário no último post. Ávido acessei o link e fiquei maravilhado com as palavras de uma pessoa que nunca vi. Essa pessoa dizia que lamentava que a história tivesse parado sem uma conclusão. Esse comentário me deu força a continuar uma história que durou mais de 2 anos, sendo dividida em duas partes: a primeira com 29 capítulos e a segunda com 35.

Depois de um tempo, pensei que essa leitora nunca mais voltaria. O blog foi reformulado, passei a postar resenhas, de forma a qualificar minha leitura. Acreditei que não mais postaria textos literários no blog. Hoje publico A Cidade Suspensa e cada comentário é como um impulso incandescente a inflamar minhas veias e me fazer pular de alegria. Sério. Às vezes saio do trabalho pulando, louco pra voltar a digitar aqui, continuar a relatar as dificuldades de Kain.

Agora o pessoal lá de fora está uivando. Fico imaginando se eles estão ensaiando algum rito ancestral pra chamar a chuva. Tenho que avisá-los que não é preciso. Já choveu ontem e hoje. Provavelmente choverá amanhã...

Não vou me estender demais. Aliás, acho até difícil. Para acompanhar os uivos, aumentaram o som. Creio que fizeram isso porque estavam gritando tanto que já não conseguiam escutar a música. Enfim, isso acontece.

Para encerrar, gostaria novamente de agradecer a todos que se aventuram por estas páginas. Mesmo aqueles que não registram sua passagem através de um comentário. Estas histórias estarão sempre aqui, guardadas para vocês.

E um agradecimento especial para Tyr Quentalë. A primeira leitora do blog e a grande responsável por salvar a alma de um escritor, aprisionada no peito de um ser humano.

segunda-feira, outubro 17, 2011

A Cidade Suspensa – Parte IX

Kain chega enfim à Biblioteca, uma das mais poderosas instituições da Cidade Suspensa. Ele agora espera contar com a influência do Bibliotecário para alcançar seus interesses...

Kain penetrou naquele salão. Não havia janelas, apenas estreitas aberturas bem próximas ao teto, que estava a uns vinte metros de distância do chão. Após perder alguns segundos contemplando o teto distante, o viajante voltou sua atenção ao aposento, que era de fato grandioso, porém de uma frieza quase sepulcral. A lareira à direita nem parecia cumprir sua função de dar calor ao ambiente. Próxima à lareira, uma jovem de tez pálida, olhos cinzentos e cabelos loiros permanecia sentada em uma poltrona. Ela fez menção de levantar-se, mas o guia de Kain adiantou-se, erguendo as mãos em um gesto conciliador.

“Não precisa se levantar, senhora. Este forasteiro apenas está aqui para ver o seu pai.”

A moça voltou a acomodar-se na poltrona e virou o rosto para a lareira, ficando a observar o fogo. Logo além, à esquerda de onde estava a jovem, havia uma pequena porta do que parecia o gabinete privado do Bibliotecário. O guia de Kain pediu para que ele aguardasse e atravessou o salão, sumindo além daquela porta.

O viajante olhou interessado para a jovem. Como que percebendo o olhar, a garota tirou os olhos do fogo e fitou Kain com aquelas duas esferas cinzentas. Era uma bela moça. Tinha uma beleza diferente da que Scarlate ostentava. A cortesã era selvagem, enquanto essa jovem tinha uma aparência domesticada.

“Sou Kain, sou novo na cidade” começou a dizer, para quebrar o silêncio. A moça suspirou e respondeu:

“Marília. Filha do Bibliotecário.”

O interesse de Kain aumentou. Lembrou-se de uma das condições de ficar na cidade: devorar o coração de alguma moça, mas somente se o coração nunca tivesse sido mordido. A filha de um distinto senhor, administrador de uma instituição daquele porte, seria a presa ideal. Marília olhava Kain como se já conhecesse as intenções dele.

“Não vai adiantar, forasteiro,” disse a moça, “você não é o primeiro que me olha desse jeito.”

Kain quase engasgou com a própria saliva. Desconcertado, ele pôs a mexer nos botões do sobretudo. Marília então tirou os olhos dele e voltou a contemplar o fogo. Parecia que a jovem havia por fim perdido o momentâneo e superficial interesse no visitante.

Mas Kain habilmente preparava um feitiço. Se não fosse por bem, aquela garota iria ser dele por outros meios. Era temerário, de fato, usar magia no gabinete do Bibliotecário, mas Kain estava realmente desesperado para conseguir estadia fixa na cidade.

“Se parar imediatamente o que está fazendo,” advertiu Marília, sem virar o rosto para Kain, “vou desconsiderar essa afronta. Mas se insistir, terei de comunicar meu pai e os favores que você poderia conseguir se tornarão definitivamente impossíveis.”

O viajante largou os botões e murmurou um pedido de desculpas, enquanto dispersava o feitiço. Marília, porém, não parecia brava ou contrariada, apenas cansada demais para se enraivecer. 

“É sempre a mesma coisa, sempre. Sempre os mesmos indivíduos buscando um caminho mais rápido para ter a Biblioteca. Isso me dá nojo.”

“Mas meu objetivo não é a Biblioteca...” retrucou Kain. “Quero apenas um jeito de ficar aqui na cidade.”

A moça voltou o rosto para ele, cética. Kain então ponderou sobre a importância daquela instituição, a Biblioteca. Muitos já deveriam ter tentado enfeitiçar o coração da moça para herdarem o controle daquele complexo e de todo o conhecimento nele guardado. O viajante percebeu o erro que cometera. Curvou-se sobre o joelho direito.

“Fui precipitado e inconseqüente. Peço perdão, senhora.”

“Você não deve se ajoelhar diante de mim” disse Marília, com um muxoxo. “Faça isso diante do meu pai. Ele já vem aí.”

Nesse momento, a porta do gabinete privado abriu-se e o guia saiu, acompanhado do Bibliotecário. Kain levantou-se de supetão. Sentia-se despreparado, mas suspirou fundo. Lamentou-se do erro cometido minutos atrás. Para conseguir o que algo daquele lugar, precisava do maior número possível de aliados.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Os ventos que prenunciam a Tempestade: A Fúria dos Reis

Fonte: divulgação.
A tempestade começou, prenunciada por uma ensolarada calmaria de uma primavera próspera. Agora, os ventos sopram, indicando que a Tormenta está para vir.

Como o próprio nome indica, A Fúria dos Reis é um livro atribulado e violento. Continuação de A Guerra dos Tronos, o romance prossegue acompanhando a família Stark, bem como a jovem princesa exilada Danny e o nobre rejeitado Tyrion.

Eu já havia falado do primeiro livro aqui. As observações que fiz, porém, devem ser retratadas neste post. A Tormenta de Espadas demonstra claramente a competência de Geroge R.R. Martin em guiar um roteiro, bem como um maior conforto do autor com o gênero romance. E assim como o antecessor, podemos acompanhar de perto alguns personagens-chave, embora neste temos o acréscimo de Theon Greyjoy e do ex-pirata Davos Seaworth. 

Enquanto três reis lutam pelo Trono de Ferro, a família Stark corre perigo, principalmente as duas meninas Sansa e Arya, enquanto Catelyn deverá continuar separada seus filhos e, reunindo toda sua fibra, partir em uma jornada para tentar salvar o que restou de sua família.

Com Davos, temos pela primeira vez um plebeu em destaque, e a visão equilibrada entre a fidelidade apaixonada e o ceticismo experiente dá base a um personagem tão humano e complexo quanto a princesa Daenerys Targaryen ou Tyrion Lannister, o Duende.

Dessa forma, Martin habilmente faz com que uma história da nobreza se aproxime da miséria e dos sofrimentos que os camponeses enfrentam. Não somente por Davos, mas também pela própria situação dos dois personagens citados acima e de uma terceira personagem, que é obrigada a viver em uma posição servil, praticamente de escravidão. Não revelo o nome (acredito que a maioria saberá quem é) para não estragar o prazer da descoberta durante a leitura.

Com um enredo maduro e envolvente, George R.R. Martin realiza o excelente A Fúria dos Reis, mais um episódio de uma história inesquecível.

Ficha técnica
Título: A Fúria dos Reis
Autor: George R.R. Martin
Edição: 1
Editora: LeYa
ISBN: 9788580440270
Ano: 2011
Páginas: 656
Tradutor: Jorge Candeias


Página do livro no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/16061

quarta-feira, outubro 12, 2011

O Menino e o Sonho


O menino chega a um corredor de livraria. Não sabe como chegou lá. Apenas lembra que atravessou morros verdes, repletos de tons alourados pelo sol entre nuvens brancas. Horas de viagem, observando a paisagem por dentro de uma janela embaçada.

Outra lembrança: mãos enormes, morenas, segurando a pequena mão do menino, guiando seus passos trôpegos e fracos de criança adoentada. Criança acostumada a crescer encolhida em espaços pequenos, escondida em cantos silenciosos onde pudesse deixar sua mente mais livre que suas pernas. Uma criança que várias vezes foi repreendida por abrir portas de papel, repletas de escrituras.

Agora o menino se vê entre essas estantes. De ambos os lados livros parecem quase tocar o céu, tão alto chegam nas prateleiras. Um livro em especial chama a atenção de seus pequenos olhos: Na capa, um garotinho segura uma espada, enquanto uma menina está ao seu lado. Ao fundo, um cavaleiro de armadura completa domina a paisagem.

O menino não sabe, mas seus olhos brilham de entusiasmo. É aquela porta que procura, tem quase certeza! Ninguém sabe, mas o menino busca essa porta há anos, desde que havia conhecido a história de uma borboleta apaixonada por um grilo; desde que viajara para um sítio divertido e repleto das mais incríveis criaturas. Essas visitas a cada um desses mundos deixavam o menino extasiado, mas ele sabia que não pertencia a esses lugares. Queria encontrar o lugar a ele destinado. Talvez aquela seja a porta!

Ao depositar, esperançoso, o livro sobre as mãos morenas, uma decepcionante surpresa: Não pode! Esse livro, não! Está cheio de imagens perigosas para uma criança, seres "malignos". O menino não acredita, sabe que, por maiores que sejam aquelas mãos morenas, elas não sabem tudo. Mas o menino deixa passar e silenciosamente aceita.

Os anos passam. Muitos. O menino cruza montes verdejantes inúmeras vezes. Viaja a diversos outros mundos e, por suas próprias forças, busca encontrar aquele mundo para si. Ainda tem esperança.

Um dia, descobre em uma biblioteca secreta não só aquele livro desejado, mas outros seis! Seis livros incríveis, seis portas mágicas que o guiam para uma outra porta: um guarda-roupa. E por anos o menino vive entre mundos, feliz. Demora a descobrir que esse mundo não é somente dele, mas de muitos outros. Descobre também que não precisa passar somente pelo bosque dos lagos, mas pode circundar o canto do quarto e chegar ao Lugar do Meio. Sem falar naquele misterioso Castelo que nunca fica parado!

O menino acaba também por descobrir que não são sete livros que podem levá-lo a Seu Mundo, mas muitos outros. Muitos.

Sem perceber, esse mesmo menino continua a buscar. Ele impulsiona o homem a continuar atravessando os morros verdejantes, mesmo que eles se tornem cinzentas montanhas. Ele está chegando lá, ao seu Mundo, aquele que o espera além das fronteiras do Sonho.

Este post faz homenagem aos autores: Lúcia Machado de Almeida, Monteiro Lobato, C.S. Lewis e Diana Wynne Jones, que fizeram da criança a parte mais importante do homem.







segunda-feira, outubro 10, 2011

A Cidade Suspensa – Parte VIII

Em um bonde estranho, num itinerário sombrio e revelador, Kain descobre alguns segredos sobre a Cidade Suspensa. Diante de um curioso companheiro de viagem, teme dizer mais do que deveria...


O viajante virou-se para Salomão, a fim de dar qualquer resposta, tentar inventar alguma coisa e desviar a atenção de seu companheiro, mas viu que o rapaz dormia, recostado ao vidro sujo. Fazendo um muxoxo, Kain cruzou os braços e relaxou os ombros, enquanto fechava os olhos, buscando o auxílio do sono. O bonde de repente rangeu de forma assustadora e deu um solavanco, quase lançando Kain de seu assento. 

Os primeiros raios de sol venceram as silhuetas dos prédios e atravessaram o vidro fosco das janelas do bonde. A Cidade Suspensa destacou-se, ainda mais escura ante os raios dourados e o céu azul. O solavanco violento parou e Kain constatou que estava tudo bem, seu aparente cochilo se arrastara pelas horas da noite. Salomão, seu companheiro de viagem, continuava adormecido.

O bonde fez sua primeira parada e Kain desembarcou. Enquanto o viajante observava a fachada de pedra do prédio à sua frente, o bonde retomava o movimento, em seu tortuoso caminho por trilhos que surgiam e desapareciam logo em seguida.

O prédio era gigantesco, destacando-se das demais construções. Era uma estrutura cilíndrica que subia vertiginosamente, dando a impressão de uma altura infindável. Acima do portão, como se dominasse toda a fachada, Kain reconheceu a insígnia que estava gravada na medalha que recebera de Scarlate. Então aquele rapaz, Salomão, estava realmente certo. Aquele símbolo representava a Biblioteca.

Ao aproximar-se do portão, Kain avistou um homem muito alto, vestido de um uniforme cinzento e carregando um bastão. Era o porteiro, que estendeu a mão em sinal proibitivo para o viajante. Kain estacou e retirou a medalha do bolso do capote. O homem, sem dizer uma palavra, olhou com interesse para Kain. Em seguida, tocou com seu bastão onde os dois lados do enorme portão se encontravam. Com um rangido, a entrada abriu-se para Kain, que distinguiu apenas um caminho reto a perder de vista.

Sem vacilar, o viajante penetrou na Biblioteca. O portão se fechou logo às suas costas. Candeias iluminavam o caminho de forma parca. Kain continuou a seguir em linha reta por algum tempo, até que chegou a uma outra porta, bem menor e feita de madeira. Um velho vestido de uma longa túnica e com a cabeça coberta por um capuz cumprimentou-o com uma reverência, para em seguida empurrar a porta de madeira, abrindo o par da direita. Kain seguiu aquele que, ao que parecia, seria seu guia na visita à Biblioteca.

Além da porta de madeira, o ambiente era outro. Estantes dispunham-se de forma aleatória, todas abarrotadas de livros de todos os tipos e datas. Sujeitos vestidos de longas túnicas passeavam silenciosamente entre as estantes, lendo e meditando nos livros que carregavam. Alguns deles murmuravam entre si as impressões de suas leituras. O guia de Kain levou-o entre as estantes e os murmuradores até uma outra porta, que dava em um segundo corredor em linha reta. No fim do corredor, mais uma sala, com estantes e murmuradores. O viajante percebeu que em cada sala a disposição aleatória dos móveis sugeria a complexidade de um labirinto.

Kain e seu guia seguiram por mais diversas salas e corredores, de modo que o viajante já não sabia se orientar naquele ambiente. Chegaram  por fim em um outro portão, guardado por outro guia. Acima, havia uma plaqueta de madeira onde estava escrito "Bibliotecário" logo abaixo da insígnia da Biblioteca. Kain em segundos estaria diante do homem que dominava toda aquela estrutura. Sua jornada se aproximava de um momento crucial.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Uma narradora incomum


Que tal um encontro íntimo com a Morte? Calma! Não precisa ficar assustado. Estou falando de A menina que roubava livros, romance de Markus Zusak, escritor australiano. 

A narrativa, que ocorre em plena Alemanha Nazista, acompanha a comovente história de Liesel Meminger, uma garotinha órfã que é adotada por um casal de meia-idade. E para contar essa história, ninguém mais do que a própria Morte. 

“Aquela que ninguém quer ver” havia se encontrado com Liesel por três vezes. E por três vezes a sagaz e espirituosa funcionária do “outro lado” surpreende-se com a garota. Na terceira, um livro cai das mãos da menina, chamada pela narradora de “roubadora de livros”. Esse livro perdido é na verdade um diário, onde Liesel expressa seus pensamentos, gerados por uma verdadeira fascinação pela palavra. A Morte resgata o livro, resgatando também as vivas experiências da Heroína.

A narrativa acompanha bem de perto os passos da garota em seu crescimento, que ocorre em plena Segunda Guerra. E esse singelo trecho da vida de Liesel, naquele período tão conturbado, é uma sucessão de alegrias e dores, capazes de comover até mesmo a ilustre narradora.

A menina que roubava livros é uma obra que fala da força das palavras em uma época em que os discursos e as ideologias levaram multidões à loucura. Mas também fala de como essas mesmas palavras podem ser a ponte a aproximar pessoas criando mundos de encantamento e beleza.


Ficha técnica
Título: A menina que roubava livros
Autor: Markus Zusak
Edição: 1
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078175
Ano: 2007
Páginas: 480

quarta-feira, outubro 05, 2011

Ocaso


O homem de meia idade veste um robe vermelho de seda, com um belo dragão chinês bordado nas costas. Os raios do poente emolduram a bela imagem do dragão nas costas do homem amarelo. O bigode castanho, espesso, cobre o lábio superior daquele rosto cavado e duro. Duro como o mogno lavrado. Seus dentes dourados brilham qual o pôr do sol em seu apogeu incendiante.
As horas foram sacrificadas naquele momento escasso. O homem está só, régio, ainda que cercado por estátuas de magnitudes inferiores. Amortecido e estagnado, tudo parece morrer em atenta exasperação. Somente o dragão parece vivo, com suas garras de cores quase predadoras. O robe deixa exposto o peito coberto de pêlos castanhos e lisos que parecem ser de um homem jovem. Uma cicatriz escapa furtiva, um risco sofrido que ainda sangra por dentro. O peito do homem sofre múltiplos ocasos a cada segundo esvaído.

É o dragão, triste entidade, que anseia a liberdade. Suas garras abertas com energia, quase irrompendo das costas do homem. A cauda sinuosa se estende ao longo do robe vermelho, sua ponta quase tocando o chão. A formidável criatura debate-se num delicado mar de sangue. Sua morte é plástica, estética, arquetípica. Vivo, o dragão é o que mais sofre a cicatriz do homem sorridente. É o impulso vazio do fogo. É o desejo ardente, enlouquecido pelas horas solitárias. O poente a tudo toma, expande-se no assoalho amarelado, na pele também amarela dos presentes, nos dentes amarelos expostos em cada sorriso.

Foi no momento em que as figuras voltaram a se mover que todos entenderam. Era o ocaso necessário para que o dragão pudesse enfim alçar vôo. As posições se alternaram, alguns inevitavelmente não puderam compreender. Somente sabiam. O sol mergulhou no horizonte, rebatendo enfim a última revoada da existência. 

07/07/2005

segunda-feira, outubro 03, 2011

A Cidade Suspensa – Parte VII


Para escapar dos estranhos seres que vagam entre as ruas desertas, Kain busca abrigo em um bonde noturno. Em uma viagem quase macabra, ele está prestes a descobrir alguns inusitados segredos sobre a Cidade Suspensa...


O bonde sacudiu freneticamente enquanto alguns passageiros soltavam exclamações de sobressalto. Mesmo desconfiando da integridade do veículo, Kain mantinha sua costumeira serenidade. O barulho e as convulsões externas ao bonde tinham amainado e a atenção do viajante voltou-se então para a paisagem bizarra que se constituía na Cidade Suspensa. Kain pôde perceber grandes edifícios com chaminés e formidáveis fornalhas. O fumo que as mesmas despejavam, invisível na escuridão, tornava-se distinto por segundos, quando era iluminado pelo calor do fogo das chaminés.

Eram quilômetros e mais quilômetros do que parecia ser um complexo industrial no coração da Cidade. Kain olhou para baixo e percebeu que alguns blocos dessa região não estavam ligados pela base. Dava para ver as nuvens passando por debaixo de uma espécie de fenda, que era mantida unida por uma grossa corrente de ferro. Olhando ao longe, podia-se observar que essa corrente repetia-se por toda a extensão dessa fenda, mantendo a unidade daquela seção da Cidade.

“Impressionante, não?” comentou alguém ao lado de Kain. Desinteressado, ele virou-se e notou que um rapaz negro, de olhos vivos e cabelo rastafari o olhava com um sorriso brincalhão. Percebendo a mudez de Kain, o rapaz continuou:

“São as fornalhas. Elas são tudo aqui na cidade. Impulsionam as máquinas das fábricas, deixam as caldeiras aquecidas para os banhos dos turistas, mantêm toda a cidade flutuando...”

“Banhos? Turistas?” perguntou Kain, saindo de sua taciturna mudez.

“Sim, banhos e turistas. Alguns deuses gostam muito de nossos hotéis e boates, repletos de saunas, massagens e banhos. Ninguém fala abertamente, mas eu já vi uns anjos também. Sempre chegam disfarçados, pra não ficarem com a imagem comprometida...”

O bonde continuava a se mover pelos trilhos, os quais faziam uma ponte para transpor a enorme fenda que separava os blocos da cidade. O companheiro de Kain olhou para baixo, para o infinito de montanhas, vales e rios que passavam com rapidez sob a cidade.

“Eu nunca me acostumo com isso” comentou o jovem. “Tem uns outros lugares em situação bem pior. Só cabos de eletricidade, um punhado de gatos, prendendo quarteirões inteiros. Se cortarem um fio, já era.”

“Mas as pessoas não têm medo?” perguntou Kain.

“Medo? Pode ter medo quem não tem alma? Ou tem uma falsificada? Muitos vendem o próprio coração para ter uma alma artificial, feita aqui na Cidade. Com ela, não é preciso ter medo. Ou se tiver, ele será muito mais saboroso. A propósito, sou Salomão.”

“Kain.”

“Belo nome, meu caro,” riu Salomão. “Com certeza um nome ideal.”

Kain não entendeu o comentário do outro, nem sua entonação, mas permaneceu calado. Sentia-se estranhamente nervoso. Tinha a sensação de que estava sendo procurado, e que seu caçador já deveria estar nas imediações da Cidade. Para disfarçar o nervosismo, Kain pegou a medalha que ele tinha guardado no bolso direito do sobretudo e começou a girá-la entre os dedos. Salomão olhou com interesse aquele pedaço de metal.

“A insígnia da Biblioteca!” comentou o rapaz, admirado. “O senhor é representante do Bibliotecário?”

“O quê?” Kain ficou bastante confuso com a pergunta. Salomão, pelo contrário, mudou sua expressão, como se tivesse acabado de entender.

“Sim, sim, quer dizer que você é um emissário então. Tem passe livre para a Biblioteca. Pode me dizer o que vai buscar lá?”

Kain entrou em alerta. A cada momento naquela cidade Kain testemunhava estranhas personagens interessadas em sua missão. Esse inusitado interesse despertava a desconfiança do viajante. “A cada encontro que temos com alguém, realizamos um nó na linha de nossas vidas”, lembrou-se. Temia ficar enlaçado. Talvez a misteriosa sombra que havia ficado para trás, no ponto, seria apenas mais um dos perigosos nós que Kain deveria enfrentar.

sábado, outubro 01, 2011

Um menino, um homem e uma jornada

Ao terminar As aventuras de Huckleberry Finn, a sensação foi de ter chegado ao fim de uma longa viagem. Com a certeza de que a viagem, embora longa, fora repleta de humor e nem um pouco cansativa. 

Escrito por Mark Twain e publicado em 1884, o livro narra a jornada de um garoto pobre, quase um menino de rua que, após rejeitar a adoção de uma velha fazendeira, escapa com um escravo fugido. Os dois então empreendem uma jornada por todo o rio Mississippi, enfrentando ladrões, caloteiros e, acima de tudo, as poderosas forças da natureza que dominam aquelas águas.

Incorrigível por natureza, Huck Finn mente a todo o momento, nunca diz seu verdadeiro nome, sempre inventa uma história diferente para cada pessoa que encontra. É um menino que precisou aprender muito cedo as artes da malícia para sobreviver do pai bêbado, que o espancava. 

Huck é um dos personagens mais importantes em um livro anterior de Twain, As aventuras de Tom Sawyer. Escrito dez anos depois de seu predecessor, As aventuras de Huckleberry Finn é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Huck, num modo quase oral. Twain busca inclusive reproduzir a oralidade das personagens que surgem a cada curva do rio.

Mas o que me encantou profundamente nesta obra foi a capacidade de Twain criar imagens e sua descrição dos fenômenos naturais. Sem falar do humor construído com ironia e inteligência do protagonista e de seu companheiro de viagem, Jim.

Uma marca forte na concepção do livro é a inocência presente em toda a narrativa. Talvez por ser narrado por uma alma jovem, infantil. Podemos perceber no texto a busca pela bondade, pela honestidade, ou melhor, pela ética além da moralidade. Huck, apesar de trapaceiro e ladrão, tem seus arroubos de consciência e busca a cada momento justificar seus atos através de diálogos internos. O pragmatismo do protagonista acaba sempre vencendo, sempre batendo de frente com a moral cristã protestante que dá base à sociedade do sul dos Estados Unidos no século XIX.

A tradução de Maura Sardinha, além de competente, manteve uma graciosa cadência à narrativa, tornando a leitura agradável, mesmo nos momentos em que as personagens mais difíceis falavam! 

Para encerrar, gostaria de deixar um pequeno trecho, que me arrebatou pela beleza de suas imagens:

“Aí começou a chover, e choveu violentamente, e eu nunca tinha visto o vento soprar com tanta força. Era uma verdadeira tempestade de verão. Lá fora tava tão escuro que chegava a ficar preto-azulado, e lindo; e a chuva batia com tanta força que as árvores pareciam embaçadas, como se tivessem cobertas de teias de aranha; às vezes uma lufada de vento fazia as árvores se dobrar e mostrar a cor mais clara do avesso das folhas; logo depois, uma forte rajada fez os ramos balançar como se tivessem enlouquecidos; e depois, quando o preto-azulado tava bem forte – fsst –, um brilho glorioso deixou a gente ver as copas das árvores balançando no meio da tempestade, muitos metros adiante do que se via antes; depois, num segundo, ficava tudo novamente escuro como o pecado, e se ouvia outra vez o estrondo do trovão que roncava, resmungava e caía do céu até os confins da terra, como barris vazios rolando uma longa escada abaixo.”

Ficha técnica
Título: As Aventuras de Huckleberry Finn
Autor: Mark Twain
Edição: 1
ISBN: 9788577992287
Editora: BestBolso
Ano: 2011
Páginas: 352