segunda-feira, novembro 29, 2021

O Embate - Parte IV de V

Ir para O Embate - Parte III de V

Três pavilhões dos mortos-vivos se uniram num perfeito sincronismo, formando um "v" invertido, a vanguarda como uma ponta de lança, que se estendia pelos dois flancos. Os lançadores de dardos claudicavam por cima da infantaria que ocupava a linha de frente. Os toques de ataque dos exércitos aliados foram simultâneos. "Pelo visto, eles querem mesmo ser heróis." pensou Seridath, ao ver praticamente todo o efetivo da Companhia mover-se rumo ao inimigo. Os arqueiros fizeram suas flechas descerem como uma chuva cortante contra os mortos-vivos, que ignoraram e mantiveram a marcha na direção da cidadela.
Vendo que o exército maligno estava decidido a ignorar as duas forças, o Senhor de Dhar sorriu ante a arrogância de seus inimigos. Deu ordem para que o esquadrão de magos entrasse em ação. Uma coluna organizada postou-se atrás da infantaria e iniciou uma série de invocações. Em segundos o céu tornou-se mais escuro e os últimos traços de claridade desapareceram sob espessas nuvens. Do céu, fortes relâmpagos desceram sobre as linhas inimigas, destroçando kowas, mortos-vivos, argros e qualquer outra criatura, viva ou não, embora os gigantescos tominaros e os pálidos seiranes tivessem permanecido inabaláveis. Nenhum dos gigantes ou dos seres de branco caiu.
Outra sequência de palavras arcanas surgiu dos lábios daquela poderosa multidão de conhecedores de magia. Esferas flamejantes surgiram do alto da cabeça de cada um deles e partiram rumo aos inimigos. Os arqueiros dispararam em conjunto e o céu cintilou com flechas incandescentes, fortalecidas e inflamadas pela magia.

Continua...

sexta-feira, novembro 26, 2021

Água de Barrela - Sangue e dor na luta por um futuro


Quem foram nossos ancestrais? O que fizeram? Como viveram? Se fosse possível traçar nossas árvores genealógicas e resgatar a história de cada pessoa nelas, o que descobriríamos? Encontraríamos atos heroicos ou crimes hediondos? Será que nos arrependeríamos de buscar as histórias dessas pessoas?

O romance Água de barrela talvez tenha surgido de alguma das perguntas acima. Escrito por Eliana Alves Cruz, este romance histórico é um primoroso trabalho de pesquisa histórica e criação literária. De início, não sabia o que era barrela. Posteriormente, soube que é uma mistura feita para alvejar as roupas, usado pelas mulheres escravizadas para lavar as roupas de seus senhores. Após a declaração da abolição, essas mesmas mulheres continuaram nesse trabalho, como se esse fosse o destino inevitável para elas. 

O livro me encantou já de início, quando vi árvore genealógica que vai de Ewá (Helena), passando por Anolina, Martha, Damiana, Celina, até chegar à Eliana, a autora desse romance histórico que mostra o Brasil a partir da Bahia e das vidas de uma família marcada pela escravização.

Enquanto lia, meus olhos da mente criavam imagens de um país que se transformou de um império colonial a uma república de fachada, como se os tais valores republicanos nada mais fossem do que a tinta que caia um sepulcro. Afinal, essa democracia tão defendida pelos maiores intelectuais brasileiros não alcançou a grande maioria da população, que continuou vítima da exploração, da violência e do preconceito.

Com o objetivo de ultrapassar as barreiras sociais e alcançar ainda que o mínimo de liberdade e dignidade, uma família recorreu à educação. Apesar disso, foi a duras penas e muita roupa lavada que as matriarcas Martha e Damiana foram mudando os destinos dessa família.

Foi através desse livro que conheci Juliano Moreira, médico, um dos maiores do seu tempo. E negro. também conheci Matheus Cruz, grande mecânico, que até os 83 anos lecionava no Liceu Artes e Ofícios.

Mas esse livro é principalmente sobre mulheres. Sobre Martha e Damiana, que vendendo quitutes e lavando roupas foram buscando um futuro melhor para as filhas. Sobre Dodó, explorada até a morte pelo mesmo clã que no passado escravizou, torturou e estuprou suas ancestrais. É sobre Celina, corajosa professora, capaz de enfrentar o risco do cangaceiro Lampião, sem no entanto esmorecer.

Ao terminar o romance, senti culpa por minha branquitude, pelos privilégios estruturais que carrego na minha pele. Senti tristeza por saber que o país continua matando jovens negros. Senti também uma profunda comoção ao ver a justiça de Xangô, que nos descendentes de Ewá, Anolina, Martha, Damiana e Celina elevou essas heroínas, imortalizando-as nesse livro potente e profundo.


Ficha Técnica

Água de barrela

Eliana Alves Cruz

ISBN-13: 9788592736408

ISBN-10: 8592736404

Ano: 2018 

Páginas: 322

Idioma: português

Editora: Malê

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/agua-de-barrela-743875ed834219.html

quinta-feira, novembro 25, 2021

Obituário

Ontem aqui

Morreu um homem.

Sem referência.

Sem juventude.

Na borda do Centro e

No silêncio das horas

Ele morreu.

Seu corpo 

Isolado e sem luto

Como que revelava seu estado

De abandonada humanidade.

Ontem tombou outro 

A regurgitar do destino o

Cálice.

BH, 03 de abril de 2018

quarta-feira, novembro 24, 2021

Lágrimas de luz

Imagem de WikimediaImages por Pixabay 

O Brasil é o país com maior incidência de raios. Em todo o mundo. Os estados Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre são os que mais recebem essas descargas elétricas. Isso me faz pensar no que causaria esse fenômeno. Seria o karma?

Afinal, a Amazônia tem sido atacada continuamente, queimada, invadida, explorada, rechaçada. O Pantanal, também. Quem sabe as deusas antigas não estariam lançando suas lágrimas incandescentes ao prantear a natureza impiedosamente destruída?

Em uma das tradições indígenas, o raio é manifestação de Tupã. Seriam dos guaranis. Não me lembro. O que me lembro é que os 500 anos de invasões continuam, com os povos originários sendo assassinados, perseguidos e caluniados. Era de se esperar que Tupã revidasse.

terça-feira, novembro 23, 2021

Boa noite

Para S.T.

eu que pensava

que havia laços inquebráveis

negava qualquer

muro ou 

precipício 

intransponível

Eu que achava

impossível

estar sozinho

de repente 

me vi

no pântano

de uma angústia imerecida.

Pois agora

sinto que há

amizades de um só lado.

Revirei minhas memórias

em busca

de uma imagem

que pudesse 

ser salva.

Mandarei sempre lembranças

mas de longe.

Também

posso fazer

meu papel 

de morto.

Pois assim

mais uma vez 

eu me apago.

Sentirei falta

e muita.

O rombo em meu peito

é insondável.


Janeiro de 2017

segunda-feira, novembro 22, 2021

O Embate - Parte III de V

Ir para O Embate - Parte II de V

As trombetas dos arautos da Companhia iniciaram uma seqüência de toques, tentando comunicar-se com os seus aliados. O exército de Dhar respondia com os toques de suas imponentes trombetas de prata, enquanto suas bandeiras davam repetidas voltas, em sinais combinados. Lucan conhecia aqueles sinais, mas ficara no pé da árvore.
– Os mortos estão em desvantagem – comentou Thin, com seu olhar aguçado.
– Isso é óbvio. – replicou Seridath, ríspido – Se o exército da Companhia for sacrificado, a vitória será garantida, já que o inimigo terá que lutar em duas frentes.
– Pelo que ouvi de Berak, o chefão que vocês mataram, – continuou dizendo Thin, com indolência – esse exército vem de Quirite-mon. Mas correm boatos de que há muito mais. Outro exército bem maior desses fedorentos partiu direto para o sul, para as planícies drenadas do reino de Marzan.
– A sombra se estende com rapidez. – replicou Aldreth entre um ar sombrio e infantil – O que faremos mestre?
– Nada por enquanto. – respondeu Seridath.
O rapaz via-se em difícil situação. Era evidente que Lorguth continuaria a contrariá-lo se ele não entrasse nessa batalha. O exército inimigo mantinha sua marcha constante e logo alcançaria os portões de Arnoll. Mas Seridath não deu ordem nenhuma aos seus homens. Por enquanto, estaria lá, observando. O exército de Dhar e a Companhia responderam à mobilização inimiga assumindo suas formações ofensivas. A batalha já era uma realidade.



Continua...

domingo, novembro 21, 2021

Conluio

O Capetão 

andava por uma estrada

e numa encruzilhada 

encontrou um

Gonoral 

Com ele disse que seria 

Presidoente

Declarou

Quem não militar 

Agente alicia

ou então

Milícia


sábado, novembro 20, 2021

sexta-feira, novembro 19, 2021

Torto arado - Um talho profundo na alma


Bibiana e Belonísia são irmãs. Filhas de Salustiana e do curador Zeca Chapéu Grande, as duas meninas são precoces, tendo de sobra inteligência e curiosidade. Com elas mora Donana, mãe de Zeca, uma mulher com muitos mistérios e uma mala onde esconde uma preciosa faca de prata. Até que um dia as duas meninas resolvem brincar com o objeto proibido e essa decisão muda para sempre a vida das duas.

Assim tem início Torto arado, romance de Itamar Vieira Júnior. Trata-se de um livro forte, pungente, com uma narrativa em primeira pessoa que aproxima o leitor a um nível íntimo com a trama que se desenrola. O livro está dividido em 3 partes, sendo cada uma conduzida por uma narradora diferente. Pelas palavras delas nós vamos conhecendo a dura realidade da família, moradora do da fazenda Água Negra. Nela, várias pessoas vivem em regime análogo à escravidão, trocando trabalho por moradia e um pedaço de terra para cultivar. 

Talvez o arranjo pareça razoável. Porém, não é o que acontece. As pessoas são obrigadas a trabalhar de graça nas colheitas dos donos das fazendas, de domingo a domingo, não tendo tempo para cuidar de seus roçados. Para garantir sua subsistência, as esposas e filhos dos lavradores precisam se dedicar ao roçado da família. As casas dos trabalhadores não podem ser construídas com material de alvenaria. A proibição existe para que as construções não durem. Sendo assim, as famílias precisam de tempos em tempos construir casas novas, usando o mesmo barro que cobre o chão. Além desses abusos, de tempos em tempos as famílias são extorquidas pelo gerente da fazenda, que rouba suas produções.

É nesse ambiente que crescem Bibiana e Belonísia. Ambas dividem sua vida através do fio prateado da faca de Donana. O pai delas, Zeca Chapéu Grande, é um grande curador e líder espiritual, que conduz as cerimônias espirituais do Jarê, onde os encantados como Iansã e o Velho Nagô se manifestam. Sua história é dura, árdua, desde o nascimento em pleno canavial até a loucura que o acometeu em sua juventude. Assim vão se desdobrando os dramas, as lutas e as potências dessa família. 

No fio da faca de Donana a história é traçada. Esse fio deixa um sulco por onde escorre a água e o sangue. A faca de prata é como um arado a talhar fundo em nós. A agudeza da faca é como a dureza da vida dessas pessoas cujo romance nos faz testemunhas. E não apenas isso. Somos feitos testemunhas e também vítimas. Sendo assim, ninguém sai incólume da leitura desse romance. Ninguém sai ingênuo. Ao fim do romance é impossível ficar alheio a esse Brasil subterrâneo, silenciado e, muitas vezes, amputado.

Vencedor dos prêmios Leya, Jabuti e Oceanos, com sua narrativa poderosa e profunda, Torto arado é um romance desafiador que marca o leitor, deixando sua alma ferida, talhada. Um romance que nos atravessa de ponta a ponta.


Torto arado

Itamar Vieira Junior

ISBN-13: 9786580309313

ISBN-10: 6580309318

Ano: 2019 

Páginas: 264

Idioma: português

Editora: Todavia

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/torto-arado-915037ed921450.html

quinta-feira, novembro 18, 2021

O sumiço

Dez filhos

E um marido desaparecido.

No fogão, panelas vazias

como bocas abertas

da fome. 

Sabe que o marido

não fugiu.

Andou falando no trabalho

Sobre direitos 

Justiça

Protestos

E só 

com essas palavras proibidas

Como mágica 

Desapareceu.

quarta-feira, novembro 17, 2021

Qual a minha cara

Certo dia, estava encerrando uma visita escolar lá na Biblioteca. Um menino perguntou qual era mesmo o meu nome. Eu isse bem alto:

- Eu sou Samuel, cara de papel!

No que uma menina retrucou:

- Não é nada! Você é Samuel, cara de barba!

Em outro dia, também numa visita escolar, fiz a mesma brincadeira. Mais tarde, depois da leitura compartilhada, foi o momento das crianças explorarem os livros. Um menino se aproxima e diz: Cara de pau, posso pegar aquele livro ali?

terça-feira, novembro 16, 2021

Lançamento da antologia "Novo Decameron"

Olá a todas e a todos. Hoje trago para vocês uma excelente novidade. O selo Editorial Starling lançará, no próximo dia 18, uma antologia da qual faço parte. A antologia poética Novo Decameron conta com a participação de diversas autorias. São textos literários que buscam refletir sobre o nosso tempo, tão convulso e complexo.

O lançamento será celebrado através de uma transmissão ao vivo pelo canal JARS Consultores no YouTube.

Conto com sua participação!


segunda-feira, novembro 15, 2021

O Embate - Parte II de V


Havia uma linha imensa das bizarras criaturas sem pernas e com braços mais longos que o corpo, aqueles malditos lançadores de dardos. Thin comentou rapidamente que eles eram chamados de ragrarans, os espinhentos. Atrás desses seres, estavam enfileirados zumbis uniformizados e armados com machados, martelos, clavas, maças e machetes. Eram colunas compactas, formadas por oito fileiras de vinte soldados cada. Logo além desses zumbis havia uma desorganizada turba de criaturas homanóides, embora tivessem um rosto que mais assemelhava-se ao de um suíno. Eram os kowas, homens-porco habitantes de Nareg, terra inóspita no extremo oeste. Misturados com os homens-porco estavam os seres abomináveis, de forma mutável, que carregavam espadas curtas. No momento, assumiam braços e pernas humanos, embora seus rostos exibissem feições perturbadoras de olhos e bocas que se misturavam. Eram chamados de Scliabs, mas também conhecidos como flagelos de Nibala, a Deusa da Loucura e do Engano. Mais para o interior de cada pavilhão, além dos desorganizados kowas e horrendos Scliabs, estavam os verdadeiros terrores daquele exército. Os gigantescos tominaros, que talvez chegassem a cinco ou seis metros de altura. Eram eles que tocavam os tambores. Vestiam calças revestidas com placas de ferro, embora mantivessem o tronco nu da cintura para cima. Tinham negros e longos cabelos, bem como barbas densas e revoltas. Seus rostos pareciam feitos de puro ódio, com olhos sombrios e ferozes.
Junto aos gigantes, contrastando com a cor escura do exército maligno, estavam homens e mulheres vestidos de mantos brancos e leves. Aliás, tudo neles era alvo como algodão, seus compridos e lisos cabelos, bem como sua pele. Ainda que parecessem humanos, qualquer que os visse negaria com veemência sua humanidade. Eram representantes de uma raça antiga, exilada há milênios de seu próprio mundo. Os seiranes, os portadores do poder, os jurados, também chamados de meio-gênios.
Nos espaços entre cada pavilhão, bandos de argros andavam de um lado para o outro, como se não tivessem lugar. Era uma força considerável. O exército inimigo chegava a quase doze mil seres.

Continua...

domingo, novembro 14, 2021

Arhur Medina, 40 anos

Quando mais precisei 

de um pai, 

você foi 

minha figura paterna.

Como podia? 

Um menino 

quase da minha idade

tamanha

responsabilidade?

Mesmo assim, 

com muito amor, 

você me carregou. 

E quando a noite 

era mais escura 

e o medo 

mais profundo, 

segurou minha mão 

para que eu pudesse

dormir.

29 de junho de 2020

sábado, novembro 13, 2021

Ela

Para Pâmela Bastos Machado

Aquela que

me leva a escutar

que toca meu peito

Mesmo nos momentos mais

Cinzentos

Seu rosto é âncora

Os olhos farol

Sem ao menos perceber

Os gestos dela

As palavras

Ou a simples presença

Devolve ao mundo

Sua cor.

30 de outubro de 2020