quarta-feira, novembro 10, 2021

Mitologias familiares

Levei da vó Conceição uma colherada na testa, por ter passado correndo na cozinha, enquanto ela fazia o almoço. Doeu um bocado. E na lembrança da dor veio também da sensação do pé descalço nos ladrilhos brancos e frios.

Vó Conceição não era braveza pura. Num dia, sentou-se ao meu lado e cantou de um ribeirão que secou e do alecrim, flor do campo. No sabiá que fugiu da gaiola ela tirou lágrimas de meus olhos.

Não eram apenas as canções que enchiam meus sonhos, mas muitas histórias. Falava da casa mal-assombrada onde pedaços de gente caíam do alto e se juntavam, até formar uma pessoa inteira. Ou da história do Galo Pelado, que assombrava tropeiros nas trilhas de Minas.

- Vó, por que o Tio Vando é careca? - perguntei sobre a calvície do seu filho mais velho.

- Foi quando ele carregou o melado quente no alto da cabeça, vindo da feira. Balançou o pote de melado que caiu na cabeça dele. Mandei ele raspar o melado pra frente, mas ele raspou pra trás. 

Nessas e noutras histórias, Vó Conceição me embalava. E assim dava lastro à minha imaginação. Vó Conceição fundou meu mundo de fantasias.

terça-feira, novembro 09, 2021

Capital

Pelos corpos sem vida 

nenhum lamento. Apenas 

covardia.

Todos 

vão morrer 

um dia

setencia. 

Não é coveiro, mas 

carrasco. 

Cai sua máscara. 

Já defendeu extermínio. 

Exaltou tortura. 

Com seu histórico de atleta, 

bate em quem 

pede explicação. 

Fazer nada

também mata.

É melhor mesmo

Jair 

morrendo.

Voraz

Temos fome 

de amor 

mas no fim 

ele é o mais 

voraz o 

Amor nos devora 

Sobram 

a penas

ossos

Samedi

segunda-feira, novembro 08, 2021

O Embate - Parte I de V


Ir para Reminiscências - Parte IV de IV

Os cinco subiram a colina. Uri negou-se a escalar a árvore e Lucan não estava em condições para isso. Os outros três chegaram ao topo com facilidade. Na verdade, quando Aldreth e Seridath chegaram, Thin já os esperava calmamente, com um sorriso matreiro. Eles observaram a campina por algum tempo. Nenhum dos blocos se movia. O pequeno exército de Serpente Flamejante não poderia alcançar seu aliados antes de ser rechaçado pelas forças sombrias, marcando o fim da Companhia. Seria mais lógico que o exército de mortos os atacasse primeiro.
A atenção dos três aumentou quando viram que o exército inimigo começava a se mover. E, incrivelmente, não foi na direção da Companhia, e sim de Arnoll. Ambos os exércitos aliados tocaram suas trombetas, indicando prontidão de armas. As lâminas desembainhadas refletiram a luz das tochas e dos feitiços nos estandartes.
Do centro do exército inimigo surgiu uma coluna de chama mágica. Logo em seguida, outra chama surgiu, em outro ponto da massa sombria. Outras três chamas surgiram, em pontos diferentes do exército maligno. Cada coluna de chama parecia marcar um pavilhão. Mas, estranhamente, essas colunas de fogo não pareciam iluminar absolutamente nada. O exército de mortos parecia tão escuro quanto antes, talvez até mais. 


Continua...

domingo, novembro 07, 2021

Composto

Meu corpo

É 70 por cento água

E 90 por cento mágoa

Samedi

Uma leitura entre lágrimas

Plena manhã na Biblioteca, duas oficinas realizadas e de repente eu decido me debruçar sobre este livro. Eu estava no balcão de atendimento, mas o trânsito de leitores nesse sábado ameno havia diminuído, depois de um fluxo intenso mais cedo.  Tanto que deu pra ler tudo sem interrupções. Ao final da leitura, pensei em tantas crianças deslocadas, refugiadas, traficadas, despejadas, escravizadas, afogadas... E o Mediterrâneo escapou de meus olhos em plena manhã. Foi um choro desamparado, órfão, assim como muitas dessas crianças. Tive que abaixar a cabeça e me esconder atrás do balcão para que ninguém testemunhasse meu pranto. Para que ninguém me pegasse de peito aberto.

Livro: Um outro país para Azzi

Autora: Sarah Garland

Tradução: Érico Assis

Editora: Pulo do Gato

Descrição: Desenho de uma menina com vestido azul e casaco vermelho. Ela olha para trás enquanto corre e segura um urso de pelúcia. Ao fundo, ruínas de prédios.

14 de abril de 2018



Pena de morte

Quanto mais definitiva a pena, maior a possibilidade de injustiça.

Quanto vale a morte de um inocente? A execução de um inocente compensaria a de vários criminosos?

Castração química. Como definir quem merece e quem não merece? E se houver a mínima chance de a pessoa ser inocente?

Tentando me afastar da hipocrisia, tentando não ser hipócrita, penso que eu nunca perdoaria quem ferisse alguém que amo. Porém, eu estaria disposto a aceitar a morte de um inocente sequer para que aquele criminoso que odeio por ter matado quem eu amo fosse executado? Eu poderia viver com essa possibilidade? Não acredito que a vida seja quantificável. 

27 dez 2014

sábado, novembro 06, 2021

Responsáveis

Vocês votaram nele

mesmo depois de ouvirem

que ele pregava o extermínio

e defendia a tortura.

Mesmo quando defendeu

uma ditadura

Ele disse "e daí?"

quando as pessoas começaram a morrer.

E vocês não deixaram de apoiá-lo.

Não se esqueçam:

esse monstro assassino genocida é culpa de

Vocês.

Aperto

A alvorada me pegou desprevenido

Em meio a culpas e medos

Senti o arrepio na espinha

O peso no peito

O aperto na

Garganta.

E o tempo pareceu piche 

A envolver meu corpo e 

Puxar-me para o fundo.

Madrugada e manhã 

Disputaram meu corpo inerte

Mas quem ganhou o direito de devorá-lo

Foi mesmo a 

Tristeza.

sexta-feira, novembro 05, 2021

Figura pétrea

Ele era um gigante. Enorme, de pele marrom e pouco cabelo na cabeça. Sempre muito sério, adorava falar em inglês. Conhecia outros idiomas, mas esse era o seu predileto. Diziam que aprendera sozinho, memorizando um dicionário. Achava essa história fabulosa e titânica. Sim, ele era um titã para mim.

Sua voz era grave, meio rouca. Uma voz que lembrava risada de Papai Noel. Além disso, sua voz também era forte, estrondosa. Ao chegar em casa, gritava: "Open the gate!" e nós corríamos para abrir o portão e recebê-lo. 

Ele também gostava de gritar com os âncoras do jornal. Sempre que algum deles falava algo que o contrariava, gritava: "Mentira!" Geralmente, tinha razão. Sua revolta era gerada pela hipocrisia que conseguia perceber nas falas de repórteres e entrevistados.

Meu avô nunca chorava e sorria pouco. Era um homem sisudo, sempre sério. Enérgico no que acreditava, muitas vezes chamou minha atenção dizendo que eu deveria aprender a falar inglês e outros idiomas. Sinto demais não tê-lo escutado.

Certo dia, cheguei à casa de meus avós e soube que a irmã do meu avô, chamada Rosa, tinha falecido. Fui até a sala onde meu avô estava. Ele se mantinha sentado em sua poltrona favorita, imóvel, como se fosse feito de pedra. Olhava fixamente para frente, sem dizer uma palavra. Respeitoso, perguntei como ele estava. Meu avô nada disse e eu não insisti.

Foi então que vi escorrer de seu olho esquerdo uma única lágrima. Ele não fez menção de enxugá-la. Deixou-a escorrer livre, até o queixo, onde se perdeu ao pingar na camisa. 

Essa única lágrima foi a primeira que vi no rosto de meu avô. 

quinta-feira, outubro 28, 2021

Acerto de Contas

Sérgio recebeu uma inusitada visita em seu consultório. Um sujeito de meia-idade chegou anunciando ser deus. Se bem que ele disse ser aquele com "D" maiúsculo. Porém, por razões políticas, decidi grifá-lo com o "d" minúsculo.

Era um dia quente, daqueles que clamam por chuva. Sérgio praguejava por causa do ar-condicionado quebrado. Foi aí que entrou o homem que se anunciou "deus". Disse que estava lá para acertar uma pendência.

Irritado e incrédulo, Sérgio disse que estava trabalhando e que se não fosse um paciente, que se retirasse. Diante da recusa de seu interlocutor, o dentista correu até a sala externa ao consultório para brigar com a secretária. Como ela deixou um doido daqueles entrar?

Com a negativa da moça, que alegou não ter visto ninguém entrar, Sérgio pensou que estaria enlouquecendo.

Na verdade, "deus" realmente só era visível pra ele. O divino disse que estava lá para punir o dentista. Não por seu ateísmo corrente, sua atual incredulidade obstinada. Não pelo afastamento surgido no fim da juventude, nem pela postura niilista e zombeteira diante da vida. O homem, quando criança, havia caído na risada durante a aula de Ensino Religioso, após um colega fazer piada com o Espírito Santo.

Sérgio bem se lembrava. Tendo crescido em uma família terrivelmente evangélica, passara noites em claro, chorando, com a certeza de que havia sido condenado ao inferno, já que, ao rir de uma blasfêmia contra o "espírito de deus", teria sido cúmplice e não teria perdão.

O dentista abandonou o consultório, sendo seguido por "deus". Tentou evitar o confronto. Afinal, era "deus". O problema foi que o todo-poderoso não saiu de perto de Sérgio, não deixava o pobre homem em paz. E mais ninguém via o cujo. Como um amigo invisível inconveniente, ficava falando e falando, garantindo que só o deixaria em paz se ele o enfrentasse. 

Para dar um fim à tétrica situação, resolveu enfrentar "deus" no braço. A cidade subitamente se esvaziou  Em uma ponte, "deus" o aguardava. O tempo já não clamava, profetizava tempestade. Os dois se embateram no centro da ponte. Brigaram na chuva, durante um temporal que escureceu o mundo.

Sem acreditar, Sérgio conseguiu acertar um bom soco em "deus". Espancou o altíssimo. Arrancou-lhe os dentes na base do soco e viu um arco-íris surgir no céu, enquanto "deus" desaparecia em uma nuvem de contradição.

terça-feira, outubro 12, 2021

O menino trincado

Aquele menino tinha uma rachadura. Não era grande. Quem olhasse de longe, nem notaria. Essa rachadura só poderia ser vista bem de perto.

O menino também não se incomodava. A rachadura estava lá desde que o menino se lembrava. Não sabia qual acidente a teria causado. Foi no futebol? Na aula de educação física? Ou será que foi no recreio, quando brincava de queimada? A verdade era que o menino simplesmente não sabia. Um certo dia, simplesmente notou a tal rachadura.

Quando deu por si, lá estava ela. Uma linha irregular que começava no umbigo e subia pelo peito até o pescoço. Não doía. Nem parecia estar lá. Mas ao tocá-la, era possível senti-la na ponta do dedo, percebendo o desnível na pele.

Acontece que depois que percebeu a rachadura, o menino não conseguiu mais parar de pensar nela. Será que traria algum problema? As outras crianças também seriam trincadas? Teriam rachaduras ao longo do corpo? E se fosse a única criança assim? Seria levada para longe, para ser estudada igual os alienígenas da televisão?

Resolveu esconder essa rachadura. Evitava de todo o jeito tirar a camisa na frente de alguém. Os pais achavam que era simplesmente timidez.

Um menino trincado que cresceu evitando choques e encontrões. Cercado pelo medo de um leve toque pudesse transformar a rachadura em seu peito num monte de estilhaços.

segunda-feira, setembro 06, 2021

Adivinhação 1


"Eu sou dado e sou tomado

Eu estava lá no seu primeiro suspiro

Você não pediu por mim,

Mas eu sigo você até a morte."

* Adivinha retirada do filme "A invocação do mal 2".

(Descrição da imagem: em fundo preto, homem idoso de perfil direito sentado em poltrona. À direita, um abajur aceso e logo em seguida uma mulher de costas.)

quarta-feira, setembro 01, 2021

Camadas



Meditou tão profundamente que visitou suas memórias com total vivacidade.  Era como se estivesse mesmo lá, revivendo seu passado, sentindo com precisão tudo que antes havia sentido. Ao retornar da meditação, passou a desconfiar. O que experimentava agora era de fato a realidade ou mais uma memória?