domingo, abril 25, 2021

sexta-feira, abril 23, 2021

Os netos de Lobato - A leitura de brancos para brancos


Conheci a Pâmela Bastos Machado quando ela fazia sua pesquisa de mestrado. Bibliotecária, ela estava em busca de crianças para entrevistar. Sua pesquisa buscava verificar se ainda havia crianças que liam Monteiro Lobato. Também pretendia observar como se dava essa leitura, se no ambiente familiar ou escolar, por exemplo, bem como perceber a apropriação do texto "lobateano" pelas crianças.

O resultado de sua pesquisa foi a dissertação Netos de Lobato: modos de ler o Sítio do Picapau Amarelo no século XXI. A obra discorre inicialmente sobre as dificuldades impostas à pesquisadora. Em seguida, há um mapeamento teórico que foi consultado para dar lastro à pesquisa. Por fim, apresenta a metodologia usada. A autora se vale da análise documental de entrevistas feitas com 9 crianças entre 7 e 11 anos.

A partir da pesquisa feita pela Pâmela, é possível observar a preponderância do papel do núcleo familiar para apresentar Monteiro Lobato às crianças. Há também a escola, embora esta geralmente busque indicar obras mais atuais. Sendo assim, a leitura de Lobato acaba por ser uma "herança familiar". 

A pesquisadora observou também que nenhuma criança tocou no assunto do racismo em Lobato. Esse apontamento nos leva a refletir sobre o papel da mediação da leitura, principalmente no seio familiar, para desenvolvimento de um olhar mais aguçado, crítico e, sobretudo, empático. 

A pesquisa mostrou a importância de um aprofundamento no olhar acadêmico sobre o leitor, em especial aquele ainda na infância. É fundamental que nós, mediadoras e mediadores de leitura, estejamos mais atentos às apropriações que leitoras e leitores fazem dos textos lidos. Precisamos dar mais voz a quem lê, entendendo que a mediação deve ser horizontal, empática e reflexiva.

Outro ponto a ser discutido é justamente essa ausência da percepção, por parte das crianças, dos trechos expressamente racistas na coleção O Sítio do Picapau Amarelo. Trechos tão agressivos que chegam a saltar aos olhos. Penso que talvez a falta da percepção do racismo seria um traço de branquitude, uma vez que,  em conversa com a Pâmela, ela relatou que a maioria das crianças entrevistadas eram brancas.

Ao conversar com a Pâmela sobre sua pesquisa, ela me relatou o crescente incômodo em relação a essa aparente ingenuidade que muitos leitores de Lobato ostentam, não percebendo como o texto do autor em diversos momentos é violento e agressivo contra personagens como a Tia Nastácia. Um incômodo que também é meu. Somos leitores de Lobato, sim, mas a cada dia cresce nossa repulsa e indignação contra o abjeto racismo do escritor e todos os seus efeitos.

Link para a pesquisa: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUBD-AE3K4Z

quinta-feira, abril 22, 2021

Até quando?


Os dias passam

E as almas partem

Meus olhos sofrem

Desaguam dores

E me afundo

Em dissabores

Para a pergunta

Enfim surgir

Até quando

Vamos deixar

Um genocida

Nos governar?


quarta-feira, abril 21, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo VI

Olás, leitoras e leitores! Eu demorei, mas finalmente trouxe mais um episódio de A Cidade Suspensa! No vídeo, faço a leitura do capítulo VI. 


Para ler online ou baixar o livro em pdf, basta acessar aqui: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/p/a-cidade-suspensa.html.

Até quarta que vem, sem falta!

Participação na Semana do Livro Infantil da Rede Cuca

 

Na próxima quinta-feira, dia 22 de abril de 2021, estarei na Semana do Livro Infantil da Rede Cuca.

às 10h - Apresentação - Uns Heróis Bem Diferentes

às 18h - Oficina Livro-minuto.

Para conferir, basta acessar o canal do YouTube da Rede Cuca (http://youtube.com/JuvTv) ou no perfil do Instagram (https://www.instagram.com/redecucaoficial/)

Vejo vocês lá! 

sexta-feira, abril 16, 2021

A Baleia Conceição - A mais encantadora baleia dos sete mares


Conceição é uma baleia moderna, culta e muito sensível. Atílio, seu namorado, parece o completo oposto dela. Tanto que a nossa heroína, interessada em leitura dos clássicos, começa a perder aos poucos o interesse no companheiro. Será que esse amor dá onda ou vai acabar morrendo na praia?

A Baleia Conceição foi a primeira publicação do escritor Sérgio Fantini para o público infantil. Um dos muitos elementos que tornam esse livro tão bom é justamente o cuidado que o autor tem com a linguagem, fruto de muitos anos de escrita. Sérgio Fantini busca uma abordagem bem diferente de muitas outras obras infantis, pois trata a criança com respeito. Ao invés de "adaptar" a linguagem, optando pela simplificação, o escritor decide seguir fiel ao ofício da escrita e fazer boa literatura. Ao mesmo tempo, ele brinca com o imaginário infantil, construindo personagens que, embora vivam no mar, são humanas em suas relações, sentimentos e diferenças.

A ilustração de Suryara Bernardi usa da suavidade das cores e traços para envolver nossas leituras em um universo de ondulações suaves e aconchegantes. Essa harmonia, contudo, não esconde os conflitos que a narrativa traz, na tensão entre Conceição e Atílio, por conta de suas tantas diferenças.

Como um embalo gostoso de um faz de conta contemporâneo, tanto na beleza do texto quanto do traço, A Baleia Conceição é uma obra deliciosa, que não deve faltar na estante de todas as crianças - não importando a idade.


E para quem quiser conhecer mais sobre a obra de Sérgio Fantini, segue o convite para o bate-papo online em homenagem a esse grande escritor mineiro!

Fantini Jazz Aqui: Live de até logo! 20 de abril, 19h, pelo YouTube(www.youtube.com/watch?v=rLFsgvrM4Ak)



Ficha Técnica

A Baleia Conceição

Sérgio Fantini

Desenhos de Suryara Bernardi

 R$ 13,53 até R$ 38,01

ISBN-13: 9788572087285

ISBN-10: 8572087281

Ano: 2011 

Páginas: 27

Idioma: português

Editora: Formato


quarta-feira, abril 14, 2021

Somos como uma ampulheta

Anncapictures

Somos como uma ampulheta 

Nossa passagem aqui é única

Acima de nós, a multidão de ancestrais 

Abaixo, descendentes sem fim

Sim?

A não ser que o tempo e o destino

Esses dois fanfarrões 

Encerre nossa passagem

Antes dos próximos grãos

Passarem.

sexta-feira, abril 09, 2021

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história - Quando as diferenças aproximam


Nossa tradição oral é recheada de narrativas de exemplo. Bem no estilo das fábulas, temos histórias que exaltam valores como a paciência, a persistência e a astúcia, em contraponto à força, ao tamanho e à agilidade. Nessas narrativas, o macaco vence a onça, o rato supera o leão, a tartaruga ultrapassa o coelho. É possível perceber nessas histórias sempre uma constante: a concorrência. Os animais sempre aparecem como adversários, concorrentes, inimigos. 

Como uma forma de homenagear o conto popular e ao mesmo convidar leitoras e leitores para a reflexão, a escritora, contadora de histórias e musicista Beatriz Myrrha nos brinda com uma obra de rara beleza, sem abrir mão do humor.

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história apresenta uma versão bem diferente daquela tradicionalmente contada. Beatriz Myrrha se vale de toda a criatividade e talento que possui para tecer uma narrativa de solidariedade, empatia e afeto. Ambientada no período em que o Criador fez o mundo, a história fala sobre a busca por identidade e aceitação, de solidariedade e amor. 

Com o objetivo de entender melhor sua função no mundo, o Coelho decide partir em busca da moradia do Criador, de forma a pedir seu manual de instrução e seu certificado. No caminho, encontrará a Tartaruga e com ela empreenderá uma penosa jornada de autoconhecimento.

A história que Beatriz Myrrha conta é profunda, bem-humorada e cheia de leveza. Seu texto, enriquecido pelos anos de experiência como contadora de histórias e musicista, é aconchegante, atrativo e belo. Tem o estilo certo de alguém que trata a Palavra com muita seriedade. 

Destaco também o traço belo e marcante de Suryara Bernardi, que torna o livro uma obra visual de profunda beleza. É possível observar o estilo de um desenho que cativa, com o mesmo aconchego que perpassa o texto. As imagens também contam a história e apresentam uma evolução em cada um dos dois viajantes.

Este é mais um dos maravilhosos trabalhos de Beatriz Myrrha, uma artista múltipla, que mostra no seu texto o cuidado e a generosidade de alguém que trata a Arte da Palavra com todo o cuidado que esta merece.



Ficha Técnica

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história

Beatriz Myrrha

Ilustrações de Suryara 

ISBN-13: 9788562805615

ISBN-10: 8562805610

Ano: 2016 

Páginas: 40

Idioma: português

Editora: Rona


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-tartaruga-e-o-coelho-uma-outra-historia-11870677ed11868277.html

Ela e os acidentes de leitura


Para Norma de Souza Lopes

Eu aprendi poesia na Bíblia

disse ela sobre seu percurso

com as letras da música pop

foi formando seu repertório.

Leu muita Sabrina, muita Bianca

E se não tivesse lido, ela pergunta,

será que seria outra?

E declara: esses acidentes literários

me constituíram.

Assim, eu bebo com sofreguidão

todas as suas palavras

e com elas tento aprender

quarta-feira, abril 07, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo V

 


Estamos aí com mais um capítulo do meu livro A Cidade Suspensa. Para conferir, é só clicar no vídeo acima.

Distopia sanitária II


Jair Carluxo estava exausto. Ao começar aquela semana, o inspetor de polícia nunca imaginaria que teria um caso daqueles em suas mãos. Talvez ninguém imaginaria. Afinal, vinte anos depois do Grande Expurgo dos Assintomáticos, era a primeira vez que um homicídio culposo por covid acontecia.

O inspetor Jair Carluxo Bolsominion Rodrigues foi chamado à sala do Superintendente no início da semana. Com tantos anos de trabalho, imaginou que não deveria ser algo importante. Talvez mais um convite para se filiar ao Partido da Fé em Cristo, ou para a Associação de Bolsonaristas Históricos. Foi com grande surpresa quando descobriu que tinha em seu colo um Inquérito de Óbito Sanitário. E pior ainda foi saber que a causa da morte era Covid-23.

Agora a semana ia pelo meio e o policial estava exasperado por se ver em um beco sem saída. E não era para menos. Ninguém falava de assintomáticos desde o Grande Expurgo. E com a tecnologia de rastreamento genético, qualquer óbito causado por agente aéreo transmissível poderia identificar o transmissor. 

O grande problema, porém, era que o DNA coletado não estava presente no banco de registro de assintomáticos. Com tantos postos de controle, era impossível que alguém com sintomas andasse livremente pela cidade. Ou então o assintomático teve seu registro apagado deliberadamente. 

Jair Carluxo suspirou. Precisava de respostas e com urgência. Dois ou três influencers já pressionavam a Secretaria de Segurança Semipública para noticiar aquela morte. E o superintendente continuava a insistir que precisava tuitar o nome do suspeito até sexta-feira, mesmo que tivesse que apagar depois.

O inspetor de polícia ignorava, mas já havia cruzado com o assintomático no meio daquela mesma semana. E assim como a vítima daquele caso, Jair Carluxo logo estaria morto.

sexta-feira, abril 02, 2021

A Rainha da Neve - Histórias grandes e pequenas sobre amor e ternura


Uma menina que vai até o ponto mais gelado do mundo para salvar seu amigo de infância. Um casal apaixonado cuja história é recontada e revivida a partir de um sabugueiro. Uma gola que passa a se achar muito importante, só porque foi aparada por uma tesoura. Estes são alguns dos contos que fazem parte da coletânea A Rainha da Neve, o segundo volume de uma coleção da Livraria do Globo (que um dia iria se tornar Editora Globo).

A Rainha da Neve pega emprestado o título do primeiro conto deste volume. Dá para perceber o caráter fantástico dos contos, embora haja narrativas carregadas de um caráter de crítica social. Em A Rainha da Neve nós podemos perceber um tom esperançoso, luminoso nos contos que compõem este volume. Há também um tom de humor prosaico, ingênuo, em muitas das narrativas.

Neste volume, há alguns dos mais famosos contos de Andersen. Entre eles, "Os cisnes selvagens", que inspirou meu livro Patos Selvagens, "A pequena vendedora de fósforos", que nele recebe o título "A menina dos fósforos", "O soldadinho de chumbo" e finalmente "O rouxinol". É importante destacar também a primorosa ilustração desta obra. Os desenhos, lindamente feitos por Roswitha Wingen-Bitterlich acabam por conferir o tom mágico e maravilhoso ao conjunto da obra.
 

Ninguém pode negar a importância de Hans Christian Andersen para a literatura infantil mundial. Tanto que seu aniversário, dia 2 de abril, marca justamente a celebração internacional do livro infantil. Andersen, em seus contos, mostra profunda sensibilidade e imaginação. Outro ponto a se observar em muitas das obras de Andersen é o protagonismo feminino. Porém, muitas vezes estas protagonistas acabam por ser obrigadas a grandes sacrifícios e provações. Muitas delas fatais.

Aproveito para destacar que o motivo que me levou a escolher o segundo volume para começar a ler esta coleção foi puramente afetivo. Tenho uma memória antiga de um conto de minha tia Evelyn Medina, inspirado justamente no conto "A Rainha da Neve". Fui descobrir essa relação muitos anos depois. Porém, a imagem do espelho se estilhaçando e um pequeno fragmento entrando no coração de um menino foi forte o suficiente habitar minha imaginação por longos anos. Como muitas de minhas leituras, devo à Tia Beve a busca incessante de uma imagem descoberta em minha infância, finalmente encontrada por entre as páginas amarelecidas do livro A Rainha da Neve.

Feliz Dia Internacional do Livro Infantil.


Ficha Técnica

A Rainha da Neve

Hans Christian Andersen

Ilustrações de Roswitha Wingen-Bitterlich

Tradução de Pepita de Leão

Ano: 1959 

Páginas: 319

Idioma: português

Editora: Editora Globo


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-rainha-da-neve-75132ed437388.html

quarta-feira, março 31, 2021

sexta-feira, março 26, 2021

Sob o caminho uma rajada de ventos - Um olhar da quebrada para o mundo


A quebrada é um lugar muito em voga hoje em dia. Afinal, várias pessoas estão surgindo da periferia com suas vozes, suas identidades, suas percepções do mundo e, principalmente, suas histórias. Da quebrada surgem discursos da chamada "literatura marginal", contrapondo-se contra discursos dominantes, conservadores e homogeneizantes.

Karine Bassi é uma dessas vozes que emergem da quebrada. Uma autora jovem que assume em si a realidade do termo "escrevivência", onde uma voz encarna não uma idinvidualidade, mas uma identidade coletiva, muitas vezes silenciada. Como escritora, editora e agitadora cultural, Karine Bassi tem um percurso já longo. Agora, ela se lança com muita propriedade na publicação de seu primeiro romance, Sob o caminho uma rajada de ventos.

A narrativa fala de Sofia, uma jovem universitária que mora sozinha em uma periferia de Belo Horizonte. Escrito em primeira pessoa, o texto apresenta os receios, as esperanças e principalmente as estratégias de sobrevivência da jovem, enquanto ela discorre de suas esperanças, seus receios e amores. Há um tom de denúncia no texto, embora o mesmo não seja carregado ou revoltoso. Sofia tem um discurso equilibrado, calmo, apesar de toda a luta e sufoco que ela passa.

Poético, consciente e fluido na leitura, o romance de Karine Bassi nos envolve até o final. Um livro que se propõe aberto, apresentando um percurso difícil, mas não trágico. A história de uma mulher negra que luta, se revolta, mas não desiste e encontra beleza na sua quebrada. Ela não se conforma, continua lutando, mas não assume o discurso de superação que a sociedade branca e conservadora adora utilizar.


Ficha Técnica:

Sob o caminho uma rajada de ventos

Karine Bassi

ISBN-13: 9786586656077

ISBN-10: 6586656079

Ano: 2020 

Páginas: 160

Idioma: português

Editora: Venas Abiertas


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/sob-o-caminho-uma-rajada-de-ventos-11855495ed11854221.html