sexta-feira, julho 26, 2019

Uma vez - Experiência, esperança e o poder da palavra

Por vezes, achamos que um determinado tema se esgotou, de tanto que foi explorado, gerando livros, filmes, documentários, séries e outras obras artísticas. Em outros casos, porém, um tema parece inesgotável. 

Um grande exemplo disso é o chamado Holocausto. Existem inúmeros trabalhos abordando esse terrível acontecimento, de monumentos a obras cinematográficas. E ainda assim, sempre parece haver um novo prisma a ser lançado sobre o tema.

Talvez a profundidade do impacto desse acontecimento acabe por gerar em nós o sentimento de urgência em lembrar dele, para que o mesmo não se repita, embora isso pareça quase inevitável.

O romance juvenil Uma Vez 
P pode ser um bom exemplo de tal afirmação. Inspirado em cartas de crianças judias que passaram pelo Holocausto, o livro de Morris Gleitzman é narrado por Félix, um garoto judeu que foi deixado pelos pais em um orfanato na Polônia ocupada pela Alemanha nazista, com a esperança de que ao menos ele sobrevivesse. 

Filho de livreiros judeus, Félix vive a relativamente tranquila rotina no orfanato, tendo como válvula de escape as histórias que inventa para si mesmo e registra em seu caderno. Suas narrativas, sempre inventivas e ingênuas, contam com seus pais como protagonistas em aventuras mirabolantes. O menino espera que logo quando possível seus pais irão buscá-lo e interpreta qualquer coincidência como um sinal secreto de que eles estão para chegar.

Tudo muda quando Félix presencia um grupo de militares nazistas queimarem livros. Acreditando que os nazistas são bibliotecários inimigos de livreiros judeus, o garoto decide que precisa salvar seus pais a qualquer custo.

Tem início então uma penosa jornada de um menino em uma terra hostil e violenta. O enredo não poupa o protagonista e o texto mostra o amadurecimento forçado de uma criança que vê suas fantasias serem destruídas com a mesma violência que os nazistas praticavam contra os judeus, com a anuência da população em geral.

Félix, porém, é um contador de histórias. As palavras são fundamentais para dar sentido a seu mundo. Ele precisa delas para viver. Em certos momentos, é delas que ele se vale, mesmo contra a sua vontade. 

Apesar da crueza dos acontecimentos, há um toque de esperança através da fabulação de Félix. Algo que funciona para literalmente afastar a dor. A sua capacidade de contar histórias e criar aventuras provê seu sustento e de outras crianças.

Mesmo ao chegar ao momento mais sombrio de seu percurso, o menino ainda consegue, através do sonho, acreditar no futuro. Ele entende que somente assim conseguirá vencer o medo. Com o poder das palavras, Félix nos mostra que  a experiência, sem esperança, de nada vale.

Ficha Técnica
Uma Vez
Morris Gleitzman
Ano: 2017
Páginas: 160
Idioma: português
Editora: Paz & Terra
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/uma-vez-676858ed679011.html

2 comentários:

Norma de Souza Lopes disse...

Antídoto ❤️

Samuel Medina (Nerito) disse...

Pois é, Norma. Esse livro mostra de un jeito tão belo o efeito das palavras em nós.