segunda-feira, agosto 26, 2013

A retirada - Parte IV de V

Ir para A retirada - Parte III de V

A marcha prosseguiu, quase ininterrupta, durante os dois dias seguintes. Os homens revezavam-se, descansando dentro das carroças mais vazias. As paradas eram rápidas, duravam no máximo dez minutos. Todos estavam em situação deplorável, principalmente Balgata. O capitão já não usava mais seu elmo e tinha o rosto abatido, com a barba por fazer e o cabelo ruivo desgrenhado. Seridath era o único que se mantinha quase impecável. Estava barbeado, bem disposto e quase não fazia questão da ração distribuída entre os homens. Durante a viagem ele e Aldreth não haviam trocado palavra. Mas Seridath sentia-se em uma situação confortável. Era respeitado por Balgata, talvez temido, e isso o agradava. Mas havia outra questão importante para o rapaz. Sentia-se mais disposto após ter matado aqueles argros. A espada alimentava-se de sangue fresco, como Urso Pardo mesmo dissera. Aos poucos aprendia algo novo sobre sua companheira.
Enquanto o cavaleiro perdia-se em seu deleite, Balgata atravessava questões muito mais sérias. Para ele, a coisa toda só estava piorando a cada segundo. O ataque a Keraz, a fuga e agora a marcha forçada. Sem falar nos feridos e doentes, que pareciam já estarem nas últimas. O capitão hesitava em simplesmente deixá-los para trás. Mas o que mais o preocupava era a forma como os inimigos estavam atuando. Balgata pensava perplexo em como os mortos-vivos haviam ficado "inteligentes" dentro de pouco tempo, com organização militar apta a assaltar uma cidade, a ponto de reduzi-la a escombros. Lembrou-se então de uma reunião que ocorrera antes do início daquela expedição. O Conselho de andarilhos os havia advertido de que zumbis organizados indicavam a presença de um líder, alguém de imenso poder que pudesse orientar os mortos-vivos através de sua aura maligna. Balgata queria ter podido confirmar essa suposição durante o interrogatório do argo prisioneiro, que o maldito Seridath matara covardemente.
Ao fim do terceiro dia, a caravana alcançou uma gruta escondida no meio do bosque. O habitantes da região a chamavam de "Gruta do Sapo", pela forma da entrada, que lembrava a boca escancarada do anfíbio. Era um bom lugar para ser usado como esconderijo, pois as árvores cerradas ocultavam a entrada e o interior tinha espaço o suficiente para guardarem as carroças. Cansados, os sobreviventes penetraram na gruta e foram se jogando ao chão, como trapos puídos.
Descansem, aproveitem – advertiu Balgata –, pois logo cedo iremos seguir viagem.
Mas, e os outros? - inquiriu um jovem aldeão. – Estarão bem?
Os outros estão por contra própria. Estamos seguindo este caminho com a esperança de terem sobrevivido. Não adianta acumular preocupações com eles. Já temos com o que nos preocupar.
Os demais aldeões baixaram os olhos. Eram pessoas que perderam seus parentes, mas que enviaram alguns deles nos outros grupos, com esperança de que se salvassem. Mas agora a incerteza tomava conta dos corações. Foram perseguidos, interceptados, mas sobreviveram. Ainda assim, nada garantia que os outros dois grupos não tivessem sido atacados. Um punhado de crianças sem pais estavam com entre os temerosos sobreviventes, sem ninguém para olhá-las. O desamparo dos idosos também era visível. Os feridos já apresentavam os estágios finais da contaminação. Alguns deles talvez morressem ainda naquela madrugada.

E foi realmente uma noite dura. Cinco homens ficaram de vigia na entrada, enquanto outros cinco velavam os doentes. Logo que alguém expirava, o corpo era silenciosamente carregado até o lado de fora, onde era tratado de forma que não se levantasse mais. Naquela noite, seis dos oito doentes foram sepultados dessa maneira. 

Continua...

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