segunda-feira, maio 13, 2013

A retirada - Parte I de V

Ir para Lorguth - Parte IV de IV


A manhã chegou em Keraz sem a presença do sol. Balgata deixara a cargo de Riderth organizar a fuga dos dois grupos pela passagem da adega. O terceiro grupo estaria a cargo do último capitão e sairia a campo aberto. Mesmo após a divisão, algumas crianças e idosos ainda ficaram para trás, fazendo parte do grupo que cumpriria o papel de isca. Seridath, Balgata e os demais estavam parados no centro da aldeia, diante uma pilha de madeira onde os corpos das vítimas estavam dispostos. Urso Pardo, coberto por um manto de peles, havia sido colocado ao lado de Murrough, cujo corpo já estava parcialmente queimado e fora identificado por Balgata pela espada que segurava. Lá também estava Aleigh, que morrera poucos minutos antes. Seridath, Lucan e o anão Uri foram os únicos a verem o corpo dilacerado do velho andarilho. O cavaleiro havia providenciado para que ninguém mais visse o estado deplorável que estava o corpo de Urso Pardo.
Ao redor dos três líderes, os cadáveres dos demais guerreiros e camponeses estavam dispostos de forma assimétrica. Foi tudo feito às pressas, pois todos temiam que os mortos entre seus próprios companheiros pudessem despertar. Seridath sentia esse medo permeando o fôlego de todos os vivos ali presentes. Os arqueiros prepararam as flechas incendiárias. Balgata daria a ordem de disparo que poria em chamas aquela gigantesca pira fúnebre. O capitão ainda hesitou. Nesse instante, um gemido forte e sofrido surgiu dentre os corpos. Aleigh gemia e ao seu gemido foram acrescidos outros. O capitão recém-falecido levantou-se de chofre, com o rosto desfigurado. Olhou ao redor e deu um berro irracional.
Disparar! – gritou Balgata, com a voz engasgada.
As flechas incendiárias atingiram os corpos, que estavam encharcados de uma substância especial, fabricada pelos anões. Instantaneamente, a pira incendiou-se, cessando os gemidos daqueles que deveriam estar em paz. Os vivos permaneceram em silêncio, observando fixamente os corpos a arderem. Pareciam fascinados pelo fogo. Balgata quebrou o silêncio.
Andem, seus cães de Nibala! – bradou o último capitão. – Querem ficar nesta fossa podre pra sempre!? Vamos dar início à retirada!
Até mesmo ele estava surpreso com seu linguajar. Parecia que o sangue de seus antepassados começava a despertar nele um outro homem. "Que seja!" pensou ele, cuspindo no chão, como se expulsasse de si mesmo o último resquício de nojo.
Logo o grupo de sobreviventes pôs-se em marcha. Os comboios eram guiados por três auxiliares, remanescentes da comitiva de guiadores e cozinheiros que saiu de Sathal, quase um mês atrás. Duas carroças levavam os mais debilitados. Alguns, feridos pela maligna maldição, já mostravam sinais de fraqueza e da doença que lhes tiraria a vida, transformando-os em mortos-vivos. Bem à frente do comboio ia o grupo de defensores, escalados para o primeiro embate caso o inimigo surgisse em alguma emboscada. Balgata guiava o grupo, formado por 6 anões, 9 arqueiros, 18 guerreiros e 20 aldeões assustados. Na retaguarda havia um grupo menor, composto somente por 5 arqueiros e 7 camponeses. Exceto crianças e velhos, os outros foram obrigados pelo capitão a carregar algum tipo de arma. Todos que pudessem deveriam lutar pela sobrevivência do grupo. O resto dos homens da Companhia estavam entre os outros dois grupos, que escaparam pela passagem particular do prefeito Denor.
Aldreth era um dos arqueiros destacados para ficar na retaguarda. Tentava distanciar-se de Seridath, mas não se considerava digno de escapar com os outros, pela passagem. Merecia arriscar a vida, fazendo parte do grupo de isca. O jovem ainda não conseguia entender como ele e os outros arqueiros de vigia não conseguiram ver os cuspidores de dardos antes do início do ataque. Fora surreal demais assistir a campina de repente encher-se de criaturas hostis, enquanto eles escondiam-se atrás da paliçada e as pessoas da aldeia morriam. Por tudo isso, Aldreth temia ainda mais Seridath e procurava evitá-lo a todo custo. Ele era o único que sabia a verdade. O único que vira homens que ele mesmo havia enterrado levantarem-se como criaturas malditas. E não bastasse isso, aquele homem maligno o havia condenado a conviver com as imagens que o atormentavam.
Balgata também não alimentava os melhores sentimentos por Seridath. O capitão desprezava o insolente rapaz que portava aquela estranha espada e agia como se o mundo todo girasse ao seu redor. Algo dizia a Balgata que havia uma sinistra ligação entre as ações de Seridath e a misteriosa salvação em Keraz. Não havia provas disso, mas o capitão considerava que essa idéia vinha de sua "intuição de soldado", que raramente falhava. Mas o que deixava aquele grande homem fulo da vida era ver o rapaz agir como se fosse um herói, tomando a frente do grupo, sedento por mais lutas e sangue. Enquanto eles andavam cautelosos e estudando o terreno, Seridath adiantava-se, como se não houvesse problema em enfrentar todo um pelotão de zumbis.
Seguiram por uma trilha pouco usada, conhecida por um velho caçador que orientava o capitão. Lucan, o arauto, oferecera-se para atuar como batedor, alegando ser ágil e rápido. Balgata não ofereceu resistência. Pensara que esse papel seria disputado por Seridath, mas o cavaleiro manteve silêncio, postado ao lado do capitão. Lucan desapareceu durante toda a tarde. A marcha era lenta, penosa e ninguém ousava dizer uma palavra. Ainda estavam na zona de morte. A velha trilha abandonava a campina e cortava uma extensa floresta repleta de enormes pinheiros de troncos frondosos. As árvores estavam secas, por causa do início do inverno, mas sua cor era mais escura que o normal, como se houvesse uma camada de fuligem a cobri-las. O chão emanava um cheiro podre e úmido. Aquela terra já parecia morrer com a maldição que se espalhava. 


Continua...

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