sexta-feira, março 15, 2013

Um romance feito de estilhaços



Fonte: divulgação
Ao começar a leitura do romance eles eram muitos cavalos, do mineiro Luiz Ruffato, já de início perce-se o claramente o tom de relato fragmentado. Construído a partir de pedaços de narrativas e discursos que se atravessam, descrevendo ao leitor uma cena comum sobre a vida de um indivíduo igualmente comum, o primeiro capítulo funciona como prefácio que irá fazer com que o leitor decida se continuará essa leitura calcada em interrupções ou se decidirá fechar o livro de vez.

E assim prossegue o texto de Ruffato, demonstrando um notável desprendimento com seus personagens e com os conflitos vivenciados pelos mesmos.

Ambientado em uma São Paulo múltipla, alternando-se entre tacanha e cosmopolita, o texto passeia entre diversos gêneros textuais, muitos deles não sancionados pela alta literatura. Isso, contudo, reforça a potência criativa de Ruffato, bem como sua genialidade, ao levar o romance não-linear às últimas consequências.

Ainda assim, o autor demonstra que seu romance não é mero exercício estético, mas também um espaço para a beleza de sua poesia. Veja-se por exemplo os textos "A menina" e "Crânio", além de muitos outros.

Quanto aos personagens, o romance nunca se atém por muito tempo em qualquer um deles. E essa é outra evidência da diversidade em que se fundamenta o romance. São pessoas de vários estratos sociais, origens, credos. Perce-se contudo, um tênue interesse pelos evangélicos, em especial os pentecostais.

Ainda assim, o romance busca apresentar esses perfis como retratos, com todos seus juízos de valor e preconceitos, embora não de forma pejorativa.

O romance de Ruffato tem peso e fôlego, mas não se trata de uma leitura fácil, descontraída. Alguns trechos são densos, carregados, seja pela tragédia pessoal de cada um, seja pela linguagem que por vezes é truncada, como estilhaços de uma grande catástrofe chamada cotidiano. E a intenção caótica e fragmentada presente na escrita de Ruffato é o que mais evidencia sua maestria, tornando eles eram muitos cavalos uma leitura certamente inesquecível.

Ficha Técnica:

Edição: 1
Editora: Boitempo
ISBN: 9788585934866
Ano: 2006
Páginas: 152



Perfil do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/6505

3 comentários:

Ericka Martin disse...

Excelente quando a resenha me dá vontade de ler o livro. É o caso. Fiquei muito curiosa.

Daniele Silva disse...

Meu professor de Literatura inglesa uma vez falou que os melhores livros causam estranheza, não li esse ainda, mas pela sua resenha, ele parece ser um desses grandes livros.

Rodrigo disse...

Assim como tenho ficado cada vez mais intrigado com a Cataguases do Inferno Provisório, O "romance" Eles Eram Muitos Cavalos, me mostra São Paulo como a grande e complexa protagonista. Mas não essa São Paulo Geográfica, regional, de sotaque e costume. Uma coisa mais antropológica, uma visão de caleidoscópio, uma tentativa de dizer que a soma de todo mundo dá num caos incontrolável. E tem o "carinho" com os crentes, que você bem identificou...