segunda-feira, julho 09, 2012

Música - Parte Final


Ir para Música - Parte I
Ir para Música - Parte II


Seis meses se passaram. Certa tarde, atendi em meu escritório a ligação da mãe de Michelle, pedindo de volta os pertences da filha desaparecida. Eu sabia que a família da moça não era de Belo Horizonte, morava no Sul. Concluí que ela estaria na cidade somente para recolher os pertences de Michelle. Combinei com aquela senhora que a visita ocorresse em uma tarde de sábado, quando eu estaria em casa.
Ao colocar o telefone no gancho, uma leve lembrança aflorou em minha mente. Aquela majestosa melodia permanecia viva em minha memória, queria ouvi-la novamente. Talvez aquele CD não fizesse falta, talvez a mãe da jovem nem o notaria. Penetrei no quarto de Michelle seis meses após minha primeira intromissão. Retirei o disco do aparelho de som e examinei-o. Não continha nenhuma inscrição de banda ou fabricante, era um CD pirata. Tal condição pareceu-me ainda mais favorável. Ignorei a sensação de estar cometendo um pequeno delito e levei o disco para o meu quarto, deixando-o em meu aparelho de som.
A senhora compareceu no horário combinado, acompanhada de dois irmãos de Michelle. Com minha supervisão, reuniram em caixas de papelão roupas, aparelhos eletrônicos, os estranhos quadros e o violão. Logo que terminaram, pude perceber como Michelle antes o enchia de vida, conferindo a ele um tom exótico e misterioso. Carregaram os pertences da garota até a espaçosa Parati estacionada em frente à minha casa e partiram sem falar muito.
Ao ver-me livre das visitas, subi apressadamente as escadas e entrei em meu quarto. Sentando-me na cama, com alegria pude por fim deixar aquele magnífico CD tocando sem o medo de ser surpreendido. Mergulhei naquele mundo de sons e imagens proporcionados pelas notas douradas vindas do disco. Pude ouvir as demais músicas, tão belas como a primeira.  Meus sentidos foram envolvidos pelo som mágico e pela imagem daquele mesmo campo, que agora estava claro, pois a estrela de antes tornara-se um luminoso sol de domingo.
Acordei no dia seguinte, sentindo-me leve e tendo a imagem do sol como se o houvesse contemplado de um sonho. De fato, havia sonhado com a sublime paisagem. Estava com as mesmas roupas do sábado. Levei alguns segundos para perceber que meu telefone tocava. Ao atendê-lo, fui bombardeado pelas palavras furiosas de minha noiva, por ter faltado a um encontro. Tentei desculpar-me, embora sem sucesso. Desliguei o telefone maquinalmente. Não sentia nenhum remorso pelo ocorrido. Nunca a amara, e tal farsa não era mais necessária, pois a música me bastava.
Voltei ao meu quarto e novamente acionei o aparelho de som, escolhendo o modo de reprodução para que repetisse continuamente. Decidi passar o resto do domingo deitado em minha cama, a ouvir o conteúdo do CD e imaginar o sol que a cada momento parecia mais nítido. Eu quase podia sentir o seu calor. O campo verdejante ganhava vida, onde eu começava a distinguir animais a correr, cheios de energia. Os sons da música se misturaram aos irregulares cantos de pássaros, tranqüilos nos galhos mais altos das árvores que faziam divisa entre a floresta ao longe e o vasto campo.
Dei passos vacilantes sobre a grama úmida, aspirando aquele ar tão puro. Sentia sede e, admito, um pouco de fome. Afinal, há tempos eu apenas escutava a música, não me alimentava há mais de um dia. Atravessando o campo, cheguei aonde a cachoeira fazia suas águas rolarem sobre pedras brancas, formando uma pequena piscina.
Entrei nesse pequeno lago até os joelhos. Estendi a mão e tomei uns bons goles, sentindo um grande alívio. Os anos que haviam entorpecido meus ossos pareciam ter desvanecido. Passei um pouco da fria água em minha nuca e rosto. Voltei-me na direção da floresta, quando vi a forma de uma jovem morena movendo-se graciosamente entre as árvores. Tomei o caminho que levava a seu vulto diáfano. Por um momento, pensei em olhar para trás, talvez para descobrir se haveria uma passagem ainda aberta me esperando. Mas não me virei, havia tomado minha decisão. Lá longe, além do que se podia chamar realidade, a janela certamente já se encontrava fechada.

2 comentários:

Dora Delano disse...

nossa, muito bom! ainda mais que li tudo de uma vez! minha ansiedade agradece! =]

Tyr Quentalë disse...

Agora devo concordar com o comentário que relacionou As Crônicas de Nárnia com seu conto, mas nesse caso, foi a musica que levou a personagem principal para um mundo ideal.
Sabe Nerito, os leitores dizem que somos levados para outros mundos, os músicos dizem que o mesmo ocorrem com eles quando escutam as músicas. Creio que você está envolvido com ambos, não?