quarta-feira, novembro 02, 2011

Reticências


Nem o futuro nem o presente existem. Nem se pode dizer que os tempos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse melhor dizer que os tempos são: o presente do passado; o presente do presente; o presente do futuro. E estes estão na alma; não os vejo alhures. O presente do passado é a memória, o presente do presente é a percepção, o presente do futuro é a expectativa. Santo Agostinho 


Um dia todos nós vamos nos encontrar. E isso se dará em uma dessas esquinas esquecidas e cinzentas, onde funciona um café que parece que parou no tempo há cinqüenta ou sessenta anos atrás. Iremos entrar, alguns juntos, rindo, tirando os casacos por causa do calor aconchegante de dentro em contraste com o frio intenso do inve(te)rno lá fora. Outros chegarão depois, quando já estiver nevando, mas sobretudo antes de escurecer.

Será inevitável, contudo, que falte alguém. Um que nunca irá aparecer, ainda que o aguardemos. E deixaremos seu lugar vago, na vaga esperança de que a porta se abra, trazendo uma lufada de vento frio e a imagem de uma espera enregelada. Estaremos todos a conversar, como que ignorando a falta tão presente desse amigo. Nossos sorrisos escondendo os olhos tristes, consolando-se por ainda termos uns aos outros. Até mesmo o fantasma, o ausente.

E não faltará literatura. E tabaco. Sim, o capuccino correrá solto junto com a cerveja escura e o vinho quente. Logo todos nós estaremos a cantar as proezas dos poetas já mortos; aventureiros sem ter mais o que desbravar. Nossas gargantas ficarão apertadas, a comoção fará com que as lágrimas se misturem ao conhaque. Mas ainda estaremos vivos. E sóbrios. Não essa sobriedade disfarçada, social, moralizada. Olharemos a vida com a verdadeira consciência, ébrios no físico, mas sãos em natureza. Mesmo aqueles que não beberem serão tomados por essa embriaguez, uma embriaguez literária, onde as palavras enlouquecem junto com o fogo e a noite. Muitos de nós, sem nos conhecermos de fato, iremos nos amar como irmãos; ou como amantes; o que pedir a ocasião. Não haverá misérias que não sejam choradas e memórias que não sejam lembradas. Mesmo as inexistentes serão evocadas e criadas por aqueles que nunca as tiveram. Seremos um só, uma só noite, a perpetuar nossas escuridões nas palavras e nos silêncios de nós mesmos...

Texto dedicado a todos os ausentes, num dia que tanto sentido faz para minha própria existência.

7 comentários:

Nina disse...

"O que há de melhor neles [os moços literatos] é a literaura, ou seja, a vida fantástica, que aperfeiçoa e cristaliza a vida cotidiana, a literatura que ajuda a viver, e que tanto permite sair da vida como entrar nela. Chave de duas portas, porém não chave falsa." Drmmond - Confissões de Minas

A literatura é uma via de mão dupla, ao menos para mim. É o meu prazer e o meu inferno. É essa chave de mão dupla a que Drummond se refere, pois ao mesmo tempo em que me salva de mim mesma, me leva a severos debates interiores.

Lindo texto. Uma escrita essencialmente vigorosa. Parabéns.

Dora Delano disse...

E estarão celebrando? Será o prenúncio de um novo tempo?

"aventureiros sem ter mais o que desbravar"

Estarão velhos?

sim, eu gosto de perguntar ^^.

Nerito disse...

Oi Nina, obrigado... isso é o que eu mais curto num encontro literário genuíno, vida em profusão, experiências e vivências se mesclando a personagens literários.

Dora, sim, estaremos todos celebrando, velhos e novos. Você também vai aceitar o convite, né?

Tyr Quentalë disse...

Estou sem palavras... Juro... Sei que muitos deixam de escrever quando ficam sem palavras, mas não consigo, preciso dizer quando isso me acomete após ler um texto lindo, complexo, cheio de imagens que nos carregam para um mundo seu que é compartilhado com todos. Ainda estou pasma, pensativa... Extremamente pensativa sobre as celebrações citadas, sobre as comemorações e sobre a ausência de alguém que parece tão importante. Há "n" significados em seu texto, cada um leva a uma linha de pensamento diferenciada e acho que acabei de encontrar a inspiração que me faltava para pontuar em meu seminário sobre a linguística. Meu muito obrigada, meu caro amigo das palavras!

Dora Delano disse...

Falou em cerveja... JÁ TO LÁ! =)

Simone Teodoro disse...

Bonito demais. Não sei nem como comentar!

Fatima disse...

Muita nostalgia...

Vale a pena "tropeçar" no presente e cair de boca na vida - "agora".