quarta-feira, novembro 23, 2011

Memórias de uma existência ignorada

Deitado em minha cama, escuto o som da descarga do apartamento de cima. A água escorrendo pela tubulação faz aquele som tão característico que não dá pra imaginar a sujeira que carrega.

Esse som também sugere a água que bate no tombadilho de um barco e escorre pelo convés, por entre as frestas das tábuas, algumas vezes chegando até os porões, onde repousam acorrentados os remadores. O som é raro, mas carrega em si uma cadência própria, como uma música secreta, revelada unicamente a ouvidos atentos, eleitos. Sim, ouço mais uma vez o escorrer da água e penso no mar.

Não, a água não pode vir do mar, pois não sinto o movimento das ondas. Talvez eu esteja há tantos dias no mar que meu corpo se acostumou ao seu ritmo, sua pulsação. A privação de sol faz com que eu perca a noção de tempo. Há tantos anos aguardo neste porão, entre os turnos de remadas e repousos que se alternam. Não conto mais o tempo que aguardo para ver novamente o sol; para ir ao convés, recostar meus braços junto ao tombadilho e confirmar se as cores do mundo se desbotaram, se o céu e o mar são agora uma rasura do que já foram.

Tantas vezes pedi ao contra-mestre que me deixasse subir, nem que fosse por alguns instantes, mas a única prova da existência do mundo externo é esse som raro e irregular de água escorrendo.

Em breve virão me buscar. Estou há tempo demais em meu catre, ferrado de piolhos e sentindo todos os meus ossos desconjuntados. Ontem foi um dia perverso, pois remamos sob ritmo forçado por quase 22 horas sem descanso. Nenhum dos oficiais disse o motivo, mas corre um boato de que estivemos perseguindo um navio pirata que não quis dar batalha ao Capitão. Isso é o que dizem. Poderíamos estar fugindo de piratas, tanto faz. Acorrentado a este casco de madeira corroída, pouco me resta a decidir sobre meu destino.

Ouço ao longe os passos graves do capataz, subordinado ao contra-mestre. Vem acordar-nos. Os outros estão cansados a ponto de parecerem mortos, de tão silenciosos e imóveis. Não os culpo; somos qual mortos, condenados a uma existência ignorada. Aí vem ele; finjo dormir. Segura-me a camisa e sinto seu brusco puxão.

Caio da cama, assustado, ainda sem reconhecer o quarto na penumbra. Estou em meu familiar apartamento. Confiro as horas, num misto de estranhamento e urgência. Constato que preciso correr, se não quiser perder o horário de trabalho. Esfrego os olhos e caminho para o banheiro, sentindo na boca um curioso gosto de maresia.


6 comentários:

Dora Delano disse...

3 paragrafo, última linha, tem um "que" a mais. Vê lá.

Excelente texto.

Fefa Rodrigues disse...

Eu gosto muito de seus textos!!

;o)

Nerito disse...

Oi Dora!

"que" alienígena localizado e eliminado! Valeu pela dica...

Oi Fefa, eu também gosto muito dos seus textos! Abraços!

Tyr Quentalë disse...

Vidas passadas?
Bastante interessante essa mistura de sonho e real.. Algo meio surrealista que possui suas marcas presentes no seu modo de escrever.
Já tive sonhos assim... Não como uma prisioneira, mas como alguém que conheceu bem de perto o quanto podemos trazer dos sonhos em um despertar repentino...
Muito boa a leitura! Obrigada pela inspiração p-ara uma prova de leitura e produção textual.

Simone Teodoro disse...

A maneira como você faz o sonho invadir a realidade e vice- versa é primorosa!
Representa bem, com a linguagem, o que acontece mesmo, quando passamos de um estágio a outro...

Cíntia Almeida disse...

Você tem me surpreendido cada dia mais. Ou eu tenho descoberto suas escritas por aí. Só sei que tenho gostado.