segunda-feira, novembro 07, 2011

A Cidade Suspensa – Parte XII

Embora considerasse impossível, Kain começa seu trabalho na Biblioteca. Impelido por um misterioso bilhete, o viajante parte rumo à escuridão da noite.


Kain movia-se silenciosamente por um beco escuro, já bem longe da Biblioteca. Pôs a mão direita sobre o peito, lembrando-se da súbita sensação que teve ao ler aquele estranho pedaço de papel. Que sensação fora aquela? Palpitação? Coração agitado? O viajante deu um sorriso de deboche, meio que escarnecendo de si mesmo. “Como se alguém na minha situação tivesse coração.” murmurou. As letras do bilhete marcavam como fogo sua memória, pregando peças em sua mente ao provocar aquela desagradável sensação.

A verdade era que Kain estava encurralado. No bilhete dizia que o Bibliotecário estava sendo pressionado a rejeitar o trabalho do viajante e que a Cidade iria pousar ao raiar da manhã. Kain não tinha muito tempo a perder. O autor do bilhete afirmava conhecer um atalho para o Palácio Real, para dentro da própria câmara do Rei da Cidade. Era a única chance de Kain para conseguir o que procurava.

O viajante seguiu pela estreita viela, perdido em seus pensamentos e desconfianças. E se fosse uma armadilha? E se aqueles que o queriam impedir estivessem prontos para pegá-lo? De qualquer maneira, Kain deveria arriscar e ele sabia que, desde o momento em que pusera os pés na Cidade, sua vida passara a não valer absolutamente nada. Ele já estava arriscando tudo a partir daquele momento.

A atenção de Kain foi atraída para uma figura que estava alguns passos à frente, próxima à saída do beco. Parecia ser aquele mesmo desconhecido que estivera no ponto de embarque do bonde. A excelente memória de Kain nunca esquecia um fato, por mais corriqueiro. O viajante diminuiu o passo, cauteloso. Era uma coincidência grande demais aquela mesma silhueta estar naquele lugar, aguardando. Kain estava bem próximo à saída do beco e ao seu destino, onde era esperado pelo autor do bilhete.

O desconhecido então gemeu. O som penetrou Kain como uma lança de gelo. Parecia o suspiro resignado de alguém que nunca conheceu paz ou alegria. Mas o viajante entendeu imediatamente o que era aquilo. Era um feitiço. Erguendo suas defesas, Kain resistiu ao melancólico e doloroso ataque da criatura que o havia emboscado. Era difícil, pois seu inimigo parecia ser conhecedor de profundas maldições, usando-as de maneiras que ele nunca imaginara. Suas mentes não se chocaram em nenhum momento, mas Kain sentia-se dilacerado pelos gemidos do outro.

A batalha pode ter durado segundos ou séculos, ninguém irá saber, a não ser aqueles dois, que descobriram conhecer muito mais um do outro. O agressor era um Vazio, alguém que fazia o mesmo serviço que Kain fizera durante longos anos. Aquele, porém, era tão ou mais experiente que o viajante, que estava tendo dificuldades em manter o equilíbrio da luta. Lentamente, suas forças eram drenadas, as maldições iam penetrando pouco a pouco suas defesas, petrificando suas juntas, apertando sua garganta, como algo invisível que quisesse sufocá-lo.

Com resignação, Kain deixou o seu sobretudo cair ao chão. Seu corpo então mudou rapidamente de forma, assumindo a estranha consistência de piche, como um ser pseudópode. O oponente fez o mesmo e, por segundos, duas massas disformes lutaram entre si, medindo forças em movimentos espalhafatosos, um tentando esmagar o outro.

Enquanto isso, Kain tomava distância, ofegante. Esperava que seu caçador ficasse distraído com aquela ilusão por tempo suficiente para o viajante escapar. Não podia ficar perdendo tempo enfrentando Vazios. Tinha que chegar ao Palácio Real o mais rápido possível. Enfraquecido pela última batalha, Kain cambaleou até o local onde o autor da carta aguardava, escondido nas sombras de um muro, com o rosto coberto por uma capa. Kain apoiou-se no mesmo muro e olhou, inquiridor, para aquela pessoa, sem reconhecê-la. O desconhecido então lentamente retirou o capuz que lhe cobria a cabeça, revelando sua identidade. O viajante deixou escapar apenas uma palavra:

“Você!...”

5 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

E eu vou anotar suas dicas Nerito pq não conheço Marina Colasanti... acredita que nunca li MOnteiro Lobato?

Nossa, quanta coisa pra se ler!!! Quero ter uma vida eterna... hehehe

OUtra coisa, vc disse que CIdade Suspensa já ta terminando!?!

Fefa Rodrigues disse...

Neritooooo... adoro a forma como vc termina cada capítulo, criando expectativas e aumentando nosso interesse na história... só estou triste de saber q a história está cehgando ao fim... para mim ainda seriam muitos e muitos capitulos!!!!

Dora Delano disse...

eu aposto que é a Marília...

Fefa Rodrigues disse...

Heiiiiii.... equeceu do meu blog, é? Não me visita mais... num tô acostumada a ficar sem comentários seus e da Fe do Na trilha dos Livros!!!

Tyr Quentalë disse...

As cortadas no final de cada capítulo são ótimas para prender a atenção do leitor, mas o que me chama a atenção e a parte visual das batalhas, desconfianças e da trama em si. Adoro enxergar a Cidade Suspensa e suas personagens, sentir na alma o conflito e as angustias de cada personagem. Por isso mesmo, meu voto continua sendo único para averdadeira estrela da trama ;)