segunda-feira, novembro 28, 2011

A Cidade Suspensa – Parte Final


Kain chegou ao fim de sua jornada. Auxiliado por asas vermelhas e pelo amor que venceu até as marcas mais profundas em um coração, o viajante está para ficar cara a cara com o Rei da Cidade Suspensa...

Com um estrondo, os portões do gabinete real foram escancarados. Kain parou por alguns instantes, procurando examinar o interior do recinto. Parecia a entrada de uma tumba há muito fechada. Tudo cheirava a podridão sepulcral. Kain entendeu que era um feitiço. Mas seria uma armadilha ou um procedimento padrão de segurança? Não importava. Deveria apressar-se. O viajante penetrou na escuridão do gabinete com passos firmes, porém cautelosos. Um rugido súbito pôs Kain em prontidão, mas não o suficiente para evitar que vários tentáculos o agarrassem firmemente.

"Então o insolente irmão por fim retorna..." bradou alguém na escuridão. "Não ponderei que seria tão atrevido e temerário. No entanto apreciei imensamente quando soube da sua jornada em busca do seu coração."

Kain nada respondeu. Erguia barreiras contra os ataques do inimigo, ao mesmo tempo que preparava feitiços de reação. Mas sabia que sua derrota era praticamente certa. De fato, o Rei da Cidade Suspensa era o monstro que ele imaginava. Da escuridão, surgiu o corpo que sustentava os tentáculos. Era um homem enorme, talvez tivesse uns três metros de altura, e trajava um casaco comprido, de onde saíam os asquerosos tentáculos que prendiam o viajante. A coroa era enorme e bizarra, como os galhos de uma árvore seca, além de também ser uma máscara que ocultava o rosto do monarca.

"O ciclo está agora completo. Graças a ti, tornei-me rei deste lugar. Graças a mim, foste privado de teu coração. Percebo em teu rosto confusão; pelo visto, és muito menos de que já foste há milênios atrás."

"Quem... é você... afinal?" perguntou Kain, cada vez mais fraco por causa da força que os tentáculos faziam ao segurá-lo.

"Eu? Sou o Exemplo, o Ideal. Sou a quimera que todos perseguem e almejam alcançar, a Perfeição. Sou o Humanismo perdido pela própria humanidade. Eu, caro irmão, sou Abel."

Nesse momento, um turbilhão de dolorosas imagens atravessou a mente de Kain, imagens de culpa e confusão. Viu as lembranças do Rei da Cidade, um jovem pastor de ovelhas, vítima do assassinato motivado pela inveja. O assassino, sangue do próprio sangue, condenado a viver sem identidade e sem sentimentos, sendo obrigado a trabalhar como um Vazio, tendo seu corpo preenchido por memórias alheias e o rosto desfigurado. Enquanto as lembranças de Kain e Abel se misturavam, o viajante viu pelas memórias do Rei que o Vazio enviado para caçar Kain já havia sido informado e aproximava-se do Torreão Real.

Mas subitamente a torrente de pensamentos que invadia a mente de Kain cessou, enquanto a força dos tentáculos ia lentamente diminuindo. Kain recobrou o controle de seu corpo e viu nisso a oportunidade para um contra-ataque. Ergueu chamas ao seu redor, para lançá-las contra seu inimigo, mas parou por alguns instantes. O rei parecia temeroso por causa de alguém que acabava de entrar no recinto.

"Você..." murmurou Abel. "Por que está aqui?"  

Kain, já livre dos tentáculos, virou-se e viu uma jovem pálida, de cabelos loiros e olhos azuis, tristonhos. O viajante não pôde conter sua surpresa ao ver Marília surgir vacilante do mesmo portão que Kain surgira. Aquela era a chance, talvez a única, para um contra-ataque, mas Marília adiantou-se, ficando entre o Rei e o viajante. Se atacasse agora, Kain com certeza atingiria também a filha do Bibliotecário.

"Marília..." sussurou o Rei, "... como alcançou este lugar?"

"Recebi a ajuda da Aurora e suas asas avermelhadas" respondeu Marília, de forma a deixar claro a Kain que a jovem fora ajudada por Scarlate. "E estou aqui para acabar com esse teatro infame."

"Insolente!" rugiu Abel, ameaçadoramente. Buscava recobrar sua fala pomposa. "Não admito tal comportamento em minha presença. Se não deixares este recinto agora, sentirás a minha ira!"

Mas Marília não pareceu importar-se. Sorriu e, nesse momento, murmurou:

"Então invoquemos todos os personagens desta peça. Agora."

Subitamente, as paredes se alongaram e em cada canto do recinto surgiram o Ambulante Chinês, Salomão, o Bibliotecário, a Cortesã e o Vazio. Todos estavam lá e, ao mesmo tempo não estavam. Eram miragens e não eram.

Da porta surgiu Scarlate, com suas asas vermelhas ainda à mostra. Sua miragem permanecia em um canto, pois neste ato final ela era algo além da Cortesã.

Kain sentiu o terror encher seu peito, ao ver que a peça iria por fim terminar e ele veria seu fim sem ao menos recuperar seu coração. Mas Marília aproximou-se e, ainda sorrindo, tocou o rosto do viajante.

"Ainda há um pedaço do seu coração aqui dentro. Um pedacinho que o Demônio do Gelo e do Fogo não conseguiu arrancar. Esse pedaço vai te ajudar a encontrar o caminho de casa."

Marília então virou-se para o rei e bradou:

"O que sustenta esta cidade também é sua maior fraqueza. Ela sempre precisou de Vazios e Exemplos. Você, meu querido, meu jovem pastor, foi apenas mais um escolhido para ocupar o papel de Rei, assim como Kim foi tornado em Vazio. Você crê, meu querido, que sempre haverá um Rei na Cidade Suspensa e este sempre nascerá pelas mãos sanguinárias de um Vazio. Mas eu digo basta!"

Nesse momento, a filha do Bibliotecário enterrou a mão no peito e arrancou do mesmo o próprio coração. Parecia uma brasa azulada, que brilhava com intensidade. Marília estendeu a mão e andou com passos firmes em direção ao Rei. 

Não há magia mais poderosa que um coração puro entregue em benefício de outra pessoa. Ainda que Abel tentasse repelir a moça com seus tentáculos, os mesmos eram destruídos logo que se aproximavam. O coração brilhante de Marília tocou o indefeso monarca que explodiu em luz, junto com a jovem. O Torreão Real começou a balançar, instável. Kain apenas observava, surpreso e confuso. Tudo brilhava e, em meio à luz, Kain identificou as silhuetas de Marília e de um jovem e belo rapaz se abraçando como se há muito tempo não se vissem. O casal desapareceu em uma explosão de luz.

A escuridão subitamente envolveu o recinto. Kain sentiu mais uma presença naquela sala, além de Scarlate. As sombras que antes tomavam forma dos outros personagens se dissiparam, ficando apenas o Ambulante Chinês, que se tornava cada vez mais nítido. Seu olhar cada vez mais feroz.

Em segundos, as roupagens antes simples do oriental se tornaram vestes pomposas. Seu cabelo estava arranjado em um coque elaborado sobre sua cabeça, onde uma singela coroa dourada se sustinha. Sua face assumiu um ar arrogante.

“Agora este é meu momento” bradou ele. “Ajoelhem-se perante seu Imperador.”

Scarlate ergueu suas asas de forma protetora, mas antes de qualquer iniciativa, ela foi lançada contra a parede, que engoliu metade do seu corpo. A moça estava presa.

“Quieta, rameira” rosnou o Imperador. “Uma Nova Ordem nasceu. Graças a vocês dois, casalzinho patético. Obrigado.”

A risada do Imperador feriu o peito vazio de Kain, que até o momento estava paralisado de terror. O Imperador ergueu a palma da mão direita e exibiu uma chama lúgubre e avermelhada, que bruxuleava.

“Reconhece este coração?” perguntou. “É aquele mesmo que você vendeu. Assim é você. Uma chama moribunda. Alguém que negocia qualquer coisa. Você é tão inútil quanto a rameira. É um vaso quebrado.”

Num grito de ódio, Kain reuniu todo o seu poder. As furiosas chamas antes destinadas a Abel foram lançadas contra o Imperador Chinês, que apenas ergueu a palma da mão esquerda. Nela estava o botão que o viajante negociara. Esse mesmo botão, ao ser atingido pelas chamas, fez com que Kain fosse envolto pelo seu próprio feitiço. O que antes era ódio tornou-se dor, pura e simplesmente. 

O Imperador Chinês, ainda resmungando sobre Kain ser um vaso quebrado, fez um gesto cabalístico. A alma artificial de Kain foi arrancada, enquanto o que restava do viajante era consumido pelas suas próprias chamas. Num último resquício de consciência, Kain constatou que sempre desconfiara. Aquele que antes havia sido o Ambulante Chinês tivera tempo para fazer seus contatos, seus negócios. Bastou que o poder na Cidade Suspensa fosse desestabilizado para que o antigo mascate acionasse suas engrenagens, cobrasse seus favores por meio de feitiços e assumisse o posto máximo. Kain fora apenas a última peça naquele mecanismo, usado para depois ser jogado fora. Mesmo assim, tinha certeza, faria tudo de novo.

O sol se ergueu sobre o horizonte, iluminando a Cidade Suspensa, eterna e sólida sobre as nuvens.

FIM

8 comentários:

Vagando no Espaço disse...

Simplesmente fantástico!
De tirar o fôlego...

O que planeja agora?

Qual o próximo conto, qual o destino deste?

Parabéns!!

Dora Delano disse...

tem que ser mto corajoso para matar o personagem principal de um conto. Parabéns. Foi ótimo.

Nerito disse...

Puxa, que bom que gostaram. E aí, Dora, valeu a espera desses meses todos? rs

Dora Delano disse...

Valeu muito! Foram tantos meses assim, é? Confesso que pesaram menos do que eu achei que pesariam. Eu achei mto foda mesmo o conto. A referência a outros personagens. Muito bem, muito bem!

agora termina o danado do livro... e manda de cortesia para nós, seus fiéis leitores ^^.

Bjo bjo

Fefa Rodrigues disse...

"... tinha certeza de que faria tudo de novo." seria uma promessa de contiuar?

Eu acho que essa cidade suspensa ainda deve ser explorada...

Ótimo conto, Nerito.

Tyr Quentalë disse...

Bingo! Tudo não passava de uma armadilha bem elaborada e Kain... Recuso continuar a piada infame. rsrsrsrs Mas como eu dizia antes, a Cidade Suspensa possuía mais mistérios do que ela poderia revelar. Parabéns Nerito! agora que você deixou todo mundo com gosto de... Acabou? Não tem mais?
O que você fará para conter a fúria de seus leitores?
Beijos ;)

Nerito disse...

Bem, pessoal, em primeiro lugar, vou poder retornar meu ritmo de leituras, voltar a visitar os blogs dos meus amigos...

Eu estava no interior de Minas, em uma região quase incomunicável. Até fazer as duas postagens (segunda e sexta) foi bem traumático.

Sobre A Cidade Suspensa... eu agradeço o interesse de todo mundo que esteve me acompanhando nesse tempo todo, lendo cada episódio. Foi uma boa caminhada. Obrigado por terem apontado os erros e também por terem mantido a chama acesa, com seus elogios!

Na semana que vem, começarei a postagem de um conto de natal, justamente por causa do contexto. Espero que vocês apreciem, como apreciaram "A Cidade Suspensa".

Abraços!!!!!

Fatima disse...

Q FINAL!!!!!!

MATAR O PROTAGONISTA FOI CRUEL!!!!

MAS ADOREI O SUSPENSE.

BJ FÁTIMA