quinta-feira, setembro 15, 2011

A Cidade Suspensa – Parte V


Após desfrutar de estranhos prazeres com Scarlate, Kain é devolvido às ruas da Cidade Suspensa para continuar sua busca.

Logo quando saiu da taberna, Kain avistou o Ambulante Chinês, que o aguardava. O mascate exibia um sorriso torto, que beirava o escárnio. O viajante percebeu que os raios do crepúsculo ainda coroavam os edifícios mais altos da Cidade. Inicialmente perplexo, pensou um pouco e depois concluiu que o fluxo do tempo e sua percepção, na Cidade Suspensa, deveriam ser bem peculiares. Kain aproximou-se do vendedor.

“Parece feliz, freguês." disse o oriental "Moça bonita, a Scarlate, né? Parece dez anos mais jovem depois de estar com ela, né?”

Mas Kain não ligou muito para os comentários do outro. Estava se sentindo mais leve, pois sua jornada naquela cidade voadora parecia mais fácil do que havia calculado. Ao pensar na condição de vôo da Cidade, estranhou ainda estarem no chão. Perguntou ao Ambulante Chinês:

“Quando a Cidade irá decolar, afinal?”

“Ora, já decolou, freguês” respondeu, ainda sorridente, o vendedor. “Logo que você chegou, né?”

“Mas eu não sinto nada... Pra mim, ainda estamos no chão.”

“Todo mundo está no chão, freguês, todo mundo...” limitou-se a dizer o homem, antes de mudar de assunto “ficar na cidade, conseguiu?”

“Sim, já tenho um laço” declarou, satisfeito. "Devorei o coração de Scarlate.”

O Ambulante Chinês soltou uma sonora gargalhada. Kain observou-o, sereno, embora não
apreciasse a reação do oriental.

“Corações de cortesãs não servem para laço, patrão. Precisa achar um coração sem marca de dentes. Por aqui difícil isso ser.. Mas vender um eu posso, não tem laço, é artificial, mas é mais gostoso que o de uma cortesã, né?"

Aquela resposta deixou Kain muito irritado com toda a situação. Sentiu-se enganado. Tudo bem que Scarlate valia mais do que duas moedas de cobre, mas o Ambulante deveria ter sido mais claro em sua informação. Pelo visto, o viajante só fora enviado para a taberna para cumprir outros propósitos. Quase foi dominado pela vontade de punir o chinês. 

“E o que eu faço?” perguntou Kain, sentindo o cansaço da viagem começar a cobrar seu preço sobre aquele corpo não tão jovem.

“Isso agora tem preço, né?” respondeu o Ambulante, acentuando a agudeza de seu sorriso. “É informação, agora tem um preço.”

3 comentários:

Dora Delano disse...

Adorei a metáfora do coração. =)

Simone Teodoro disse...

"os raios do crepúsculo ainda coroavam os edifícios mais altos da Cidade".

Belíssima imagem, Samuca.
Estou caminhando, com o seu Kain.

Tyr Quentalë disse...

Como antes dizia... rs
Pobre Kain que fora iludido em uma das muitas armadilhas, porque tal refeição ainda terá um preço, não é mesmo? Mas o ambulante é quem em diverte em seu jeito raposa de ser.
Vamos ver se hj consigo ler tudo?