quarta-feira, outubro 21, 2020

Os motivos do silêncio

Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/philm1310-752382/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">philm1310</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">Pixabay</a>
Por quase cinco meses, estive em silêncio neste espaço. Nesse período, andei me perguntando quando eu retomaria a escrita, as resenhas, este lugar tão meu, tão repleto de minha voz. Além disso, sentia que devia uma explicação para as pessoas que aqui chegavam, para encontrar as histórias guardadas no blog. Tantas perguntas, porém, que aparentavam ser nascidas apenas de minha alma. Ninguém mais parecia questionar o silêncio e seus motivos. 

Essa ausência de perguntas era também fonte de alívio. Afinal, se leitoras e leitores não demandavam por mais textos, por mais histórias guardadas, não precisava me preocupar tanto com a produção deste blog. Contudo, havia também a pulsão interna, a força motriz de meus próprios escritos. Eu meio que me sentia em dívida com essa força. Sentia que precisava dar uma justificativa a ela, na forma em que se materializa.

Apesar dessa necessidade, sentia como se estivesse amordaçado. O medo, o horror, a angústia e o luto me tomavam e enchiam minha boca de vazios e silêncios. Por um tempo, tentei escrever, sem mencionar a morte. Tentei não falar do horror, do ódio, da crueldade e do desprezo pela vida. Eu tentei, mas tanta maldade, tanto descaso pelo próximo acabou por me soterrar de tristeza. Silenciei.

Os dias foram passando e a contagem de mortos aumentava. A incerteza da morte se somava ao fato de não saber se os procedimentos de higienização serviriam mesmo para impedir o vírus. Estaria eu seguindo as instruções corretamente? Será que por um descuido, por uma distração, o inimigo invisível chamado CORONAVIRUS insidiosamente se infiltraria em meu lar e levaria alguém querido? Ou de repente me levaria do mundo? Além disso, enquanto lia sobre a contagem crescente de mortos, eu me perguntava quando essa doença chamada COVID-19 chegaria tão perto a ponto de levar alguém querido. Eu me questionava quando a estatística deixaria de ser um mero número e se tornaria uma parte infinita de meu mundo. 

E isso aconteceu mais cedo do que eu imaginava. A morte soprou em minha nuca, dando sinal de sua presença. Cheguei a imaginar que seria apenas um susto, uma mera lembrança, e não uma presença real. Ledo engano. A finitude da vida veio me conceder mais um nome à lista de familiares para sempre desaparecidos deste mundo. A COVID-19 levava de mim alguém próximo em primeiro grau, apagava em minha vida a possibilidade de um reencontro, de um conserto, de uma conciliação, ou pelo menos de uma despedida.

A essa realidade, somava-se o fato de que estávamos todos fisicamente isolados. A autoimposição de ficar encerrado em casa, saindo em momentos específicos, deu a muitas pessoas a sensação de encarceramento. Em meu caso, não foi diferente. Sentia o corpo enfraquecer, pela ausência de exercício. Saía para um ligeiro "banho de sol", sempre com máscara e tomando o cuidado com a higienização, logo que voltava para casa.

Nos momentos em que não me dedicava ao trabalho, continuei buscando refúgio nas histórias. Uma amiga passou a mandar áudios da sua leitura de As mil e uma noites. Acompanhei lives de diversas amigas e amigos nas plataformas de mídias sociais. Cultivei a escuta de um maravilhoso podcast - Histórias com Café - que sigo acompanhando. Comecei a cuidar de plantas. E também procurei manter minha disciplina na leitura. 

A jornada tem sido longa. Eu acabei por ver este período de pandemia como a travessia de um deserto. E nesse lugar ermo e seco, em que ainda me encontro, muitas foram as feras que me acossaram. A maior delas tinha a minha face. Distorcida, monstrificada, hedionda. Diante de minha própria feiura pude descobrir um pouco mais de mim. E reencontrar minha voz.

Que este humilde relato possa ser proveitoso para tantas pessoas que buscam sentido nestes períodos de escuridão, de dor e agonia. Que nele possamos nos reencontrar. E que as vozes possam, por fim, romper o silêncio, seja em gritos de revolta e dor; seja em risos e cantos de esperança.

segunda-feira, outubro 12, 2020

A lesma


Minhas mãos desfolhavam um molho de alface. Invadido pelo verde, meu olhar se decantava na cascata que a água da torneira fazia, envolvendo como um véu a hortaliça. Sentia uma serenidade perene. O tempo se estendia, líquido como a própria água que eu usava para lavar a alface.

Depois de separar cada folha, observei algo cinzento escapar pelas bordas verdes das menores folhas e escorrer para o ralo. Terminei de colocar as folhas na vasilha de plástico para desinfetá-las e voltei minha atenção para o centro da pia. Presos na malha de metal que protegia o ralo, alguns pedaços de alface, pequenos resquícios que não resistiram ao meu toque e à força da água, jaziam como vítimas anônimas de uma batalha.

Observei com mais atenção, enquanto mexia com cuidado no ralo, até encontrar a coisa cinzenta e cilíndrica que se escondia entre os pedaços de verde. Ela se aderiu com facilidade ao meu indicador esquerdo, de forma que ergui-a até os olhos. 

Era uma lesma. Devia ter menos de um centímetro de comprimento. Tímida, deixava seus olhos-antenas escondidos para logo em seguida estendê-los, tentando perceber o mundo alienígena onde se encontrava. Seu dorso cinza contrastava com o ventre esbranquiçado. 

Fiquei a ponderar o que fazer com ela. Fui lançado ao passado, nas férias em um quintal com uma enorme área coberta por ardósia. Lá, várias lesmas encontravam a morte após serem bombardeadas por pitadas de sal que eu e minha irmã cruelmente lançávamos nelas. Nossa crueldade se misturava à ingenuidade de acreditar que destruir algo diferente seria uma coisa boa a se fazer. Se era diferente, era mau. Ainda mais se fosse nojento, gosmento e tivesse olhos-antenas.

O absurdo de minhas ações infantis atingiu-me com toda a força. Afinal, por que matar uma lesma com sal? Por que torturar um ser várias vezes menor e mais fraco? Apenas por ser diferente? Apenas por ser mais fraco? Apenas por ter o poder para fazer isso? 

Enquanto a cena se repetia infinitamente em minha cabeça, deixei o apartamento. Tinha o dedo indicador da mão esquerda estendido. Na ponta, essa inusitada intrusa que eu descobrira quando lavava a alface. Desci as escadas com a atenção dividida entre os degraus e a minha "tripulante".

Fui até o pequeno canteiro que existe diante do meu prédio. Estendi o indicador até tocar a tenra folha de uma das plantas. Escolhi com cuidado. Escolhi uma folha que se aproximasse, ainda que vagamente, de uma alface, fosse pelo verde vivo, fosse pela fragilidade de sua textura. Demorou um pouco para que minha companheira entendesse que deveria desembarcar. A princípio, ela encolheu-se toda. Temi que estivesse sentindo alguma agressão, alguma violência. Era apenas estranhamento. 

Por fim, ela deixou meu dedo e ganhou a superfície verde. No seu ritmo lento como o próprio tempo, ela seguiu seu trajeto. Não sei para onde se dirigia. Talvez para a minha infância, para o meu passado, para a chance de uma outra história, em que lesmas não precisam sofrer pela cruel ignorância de um menino.

sexta-feira, outubro 09, 2020

O esquecimento das coisas - A beleza da inutilidade


O que é uma coisa? Como se define uma coisa? Por sua serventia? Por suas características físicas? Pela memória que evocam? Por tudo ou nada disso?

E se essa coisa é a própria linguagem? Ou a arte literária? Como explorar essa coisa ao máximo? Como afastar a linguagem de seus aspectos práticos, lançando-a completamente rumo ao seu viés poético? É possível fazer isso?

Ao ler O esquecimento das coisas, de Felipe Diógenes, fui constantemente provocado por estas perguntas. Trata-se de uma coletânea de textos experimentais, que passeiam entre o conto, a crônica e a poesia. Os 35 contos são elaborados na mais fina prosa poética. Seu mote é o cotidiano, a memória e a trivialidade dos objetos do dia-a-dia. 

É aí que está o pulo do gato. Felipe Diógenes, com maestria, explora o incomum em cada um desses aspectos. Assim, ele provoca um deslocamento de uso e de sentido, aproximando-se do nonsense, sem contudo entregar-se ao caos. Há um mecanismo interno que mantém na prosa poética de Diógenes um sentido interno, oculto, não utilitário. 

Assim, a memória perde os seus contornos, bem como o tempo, o cotidiano e cada um dos objetos pretensamente triviais. Um cone, um bule, uma mala. O que de poesia se pode tirar de cada um deles? Essa é uma pergunta que Diógenes busca responder.  É um livro rico e complexo, repleto de elementos que resgatam algo de trágico e cômico na linguagem, na memória e na metafísica. Em vários momentos eu me diverti com os deslocamentos, com as apropriações de sentido e os jogos de palavras. 

Para ilustrar a sutileza do humor e da poesia de Felipe Diógenes, destaco um trecho de "Remington":

"Ao analisar os ossos, não pense nas entrelinhas. Paulo Honório é um fazedor de ossos. O osso, separado, é também uma metáfora para osso, também separado. De todas as metáforas do mundo, escolher as catacreses. 'Catacreses Separadas', se entre aspas, é nome de tese. Gosto do pé de cadeira e do rosto da maçã. A maçã verde custa cinco. A maçã vermelha custa três. Sobre a maçã Argentina, irei perguntar ao Borges."

Posso por fim dizer que a leitura de O esquecimento das coisas foi um momento de deleite. Absorver-se na prosa poética, ser incomodado e provocado por ela, foram alguns dos muitos efeitos que este livro me causou. Certamente, para qualquer pessoa que quiser se aventurar nestas páginas, tal jornada será uma experiência indelével.


Ficha Técnica

O esquecimento das coisas

Felipe Diógenes

Ano: 2020 

Páginas: 120

Idioma: português

Editora: Patuá

Para adquirir o livro: https://www.editorapatua.com.br/produto/206750/o-esquecimento-das-coisas-de-felipe-diogenes