domingo, março 29, 2020

Vídeo: Yakuba - Thierry Didieu

Boa noite! Trago a vocês, mais um vídeo do canal. De agora em diante, compartilharem aqui os vídeos aos domingos. Espero que apreciem!

"Amanhece na savana africana. E, para o jovem Yakuba, é um dia especial: ele está prestes a se tornar um guerreiro. Para provar sua coragem, precisa, no entanto, enfrentar um leão. Sob o sol escaldante, o menino-homem caminha, com medo, e finalmente encontra o inimigo. Ansioso, ele corre para lutar, mas é paralisado pelo olhar do grande felino, que está ferido. Agora Yakuba deve decidir: ou mata o animal, e ganha o respeito da tribo, ou o poupa, e se torna homem a seus próprios olhos."

Yakuba
Thierry Dedieu

ISBN-13: 9788501101839
ISBN-10: 8501101834
Ano: 2016 
Páginas: 40
Idioma: português
Editora: Galera Júnior

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/577535ED578665

sexta-feira, março 27, 2020

O Anel dos Löwenskölds - Do objeto ao desejo




É possível que um pequeno objeto - um anel - atravesse gerações, alterando o curso de vidas inteiras e causando infortúnios em todos aqueles que dele se aproximam? Não estou falando da famosa trilogia de fantasia que tomou as telas dos cinemas há quase vinte anos. Nem do clássico nórdico que inspirou a citada trilogia, além de peças de teatro e óperas. 

Estou me referindo a uma obra bem mais modesta. O Anel dos Löwenskölds, romance de Selma Lagerlöf, conta uma história que a princípio parece prosaica, ao falar de um anel que um antigo rei sueco, Carlos XII, deu a um general de uma região do interior do país. Como último desejo do militar, a joia foi enterrada com o dono. 

Assim tem início uma história de cobiça, roubo e maldição. Roubado da sepultura, o anel passa anos desaparecido, sem contudo deixar de determinar de forma implacável o destino das pessoas ao seu redor. A narrativa despretensiosa de Selma Lagerlöf conduz o leitor pelos infortúnios que vão se desenrolando. Há um certo tom de mistério que vai crescendo, transformando um enredo de suspense policial rumo a um terror sobrenatural.

Foi curioso observar o título que inevitavelmente nos faz pensar em outras narrativas mais conhecidas. O título pode ser uma remota referência ao mito nórdico, numa forma de intertextualidade. Selma é uma autora escandinava com profundas ligações com a tradição oral de sua terra. Ao mesmo tempo, a narrativa apresenta um caso particular mas dá ao mesmo dimensões de saga, com protagonistas que vão dando lugar a outros, na medida que o anel altera de forma irreversível suas vidas. 

Leitores acostumados com obras mais contemporâneas podem estranhar um pouco o estilo da narrativa. O texto que li está traduzido para o Português de Portugal, o que pode causar ainda mais estranhamento em alguns. Quem aprecia narrativas do final do século XIX e início do século XX, vai encontrar no romance de Lagerlöf um excelente exemplo de narrativas de época.

Com um texto ligeiro e refinado, guiando o leitor por uma série de desventuras provocadas pelo desejo e suas consequências, O Anel dos Löwenskölds é uma narrativa ímpar, que estreia uma trilogia e certamente irá atrair os leitores por seus mistérios e sua requintada ironia.






Ficha Técnica:
O Anel dos Löwenskölds
Selma Lagerlöf
ISBN-13: 9789898872074
ISBN-10: 9898872071
Ano: 2017
Páginas: 128
Idioma: português de Portugal
Editora: E-Primatur

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-anel-dos-lowenskolds-673062ed868684.html

quarta-feira, março 25, 2020

Picardias evangélicas

Sou de família evangélica. Por isso, passei boa parte de minha juventude em eventos e atividades da igreja, como acampamentos, gincanas e excursões. Quem imagina que esses encontros eram o exemplo da espiritualidade muito se engana. 

Em uma igreja que frequentei em minha adolescência, Batista, havia o costume de alguns jovens fazerem um mural de fotos com os flagras inusitados. Lembro que tiraram uma fotografia em que eu estava agachado, enquanto batia a mão na parte de trás da bermuda. Na legenda, havia algo assim: "Acho que aquela plantinha que usei pra me limpar era urtiga".

Os chamados acampamentos eram sítios alugados durante os feriados prolongados onde nós, adolescentes e jovens, nos divertíamos. Sim, havia culto, oração e estudo bíblico, mas também muita piscina, futebol, peteca e brincadeiras. Algumas eram mais inocentes, como as brincadeiras de roda. Outras, de iniciativa dos mais debochados do grupo, poderiam ser até um pouco nojentas.

Tenho a lembrança, por exemplo, de um colega de igreja, um dos mais populares entre as meninas, que à noite ficava enrolado em um cobertor, andando de um lado para o outro. Quem não o conhecia ignorava que ele estava soltando puns. Ele então se aproximava se alguém mais distraído e abria o cobertor, liberando a fedentina. 

Havia também aqueles que estavam determinados a não deixar as outras pessoas dormirem. Eram piadas, sons estranhos, gargalhadas e deboches. E de repente a conselheira dos jovens, filha do pastor, aparecia, chamava à atenção, brigava. Ficavam todos em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Bastava ela dar as costas para tudo recomeçar.

As noites podiam ser também perigosas para quem não estivesse preparado. Dormir a sono solto podia significar acordar no dia seguinte com o rosto todo rabiscado ou coberto de pasta de dente.

Os congressos imauguravam os relacionamentos. Realizado pelas igrejas batistas de Venda Nova, reunia um número enorme de jovens em alguma escola da região. Acontecia no Carnaval e era o evento mais badalado do ano. 

Uma brincadeira chamada "Viuvinha" muitas vezes estabelecia as dinâmicas das paqueras. E ai de quem não fosse popular e se arriscasse a participar da brincadeira. Tomava chá de cadeira. 

O acontecimento mais curiosamente engraçado de que tenho lembrança, porém, ocorreu em minha infância, em um evento em que eu não participei, mas testemunhei de camarote. Eu morava em Teófilo Otoni e frequentava a Primeira Igreja Presbiteriana naquela cidade. 

Havia um grupo de adolescentes que, se não me falha a memória, gostavam de se chamar "os ratões", ou algo parecido. Eram grandes e fortes. Sua brincadeira predileta era dar cintadas nos colegas, principalmente os mais fracos. Também gostavam de mudar as letras das músicas da igreja para versos de deboche. A música com o verso: "Solta o cabo da nau" virava: "Solta o arroto, animal".

Enfim, houve um final de semana em que os adolescentes dormiram na igreja, numa noite do pijama, de sábado para domingo. Eu, que ainda era da UCP - União de Crianças Presbiterianas - fiquei de fora. Meu irmão mais velho, porém, estava nesse retiro.

Era manhã de domingo. Em frente ao imponente templo, irmãs e irmãos da igreja, com roupas distintas e olhar sisudo, cumprimentavam-se e trocavam impressões sobre semana. Eram quase nove horas da manhã, quando teria início a Escola Dominical.

De repente, algumas pessoas começam a olhar para cima, sendo seguidas por outras. Mecanicamente, imito o gesto. Alguma coisa flutua no ar, descendo lentamente. Uma coisa leve, diáfana, ondeante, que só podia ter sido lançada da torre da igreja.

Era uma cueca. As pessoas seguiram com o olhar, em silêncio, aquela peça de roupa íntima, provavelmente usada, que algum adolescente havia lançado de uma das janelas da torre da igreja. 

As pessoas se aglomeravam ao redor do objeto. Ninguém se atreveu a pegá-lo. Nimguém se aproximou demais. Ninguém disse coisa alguma. As feições estavam mais fechadas, sérias. Eu, de tão surpreso, nem conseguia rir. Enquanto isso, todos permaneciam em roda, como que observando uma pessoa acidentada.

Uma melodia solene tocou, dando início ao culto. Todos nós entramos. Ninguém disse coisa alguma naquele momento. E nas semanas seguintes, o comportamento reprovável dos adolescentes foi repetido como exemplo a não ser seguido. A boca pequena, falavam que fora um dos ratões, um dos mais ousados, que tinha feito a façanha, mas sua identidade nunca foi revelada. E assim a vida voltou à sua normalidade.

O acontecimento mais marcante de minha infância na igreja evangélica foi uma cueca descendo do céu.

segunda-feira, março 23, 2020

Vontade, sentimento estrangeiro



Hoje quero andar pelas montanhas
desnudar minha alma sob o céu
desvelar meus olhos sobre as águas
Repousar à beira de um lago calmo

Hoje eu quero ver sorrir uma estrela
Abraçar teu corpo tão cinético
Balançar suavemente seus oblíquos cabelos
Ao som do vento a mover os galhos secos

Da árvore de nosso encontro
Planta plantada qual adaga em meu peito
Em minha memória dos dias em que juntos
olhamos pra frente como um só coração

E sentir frustração por ver tudo morto
Não saber se chorar, se gritar, se morrer
é melhor que a vida sem tua companhia
é melhor do que os dias sem poder te ver

sexta-feira, março 20, 2020

Vídeo: Os três soldados e a princesa nariguda - Irmãos Grimm

Era uma vez três soldados já velhos, que foram dispensados pelo rei sem nenhuma aposentadoria. Assim, eles tiveram que...

Quer saber o resto? Assista! Este conto está no livro "Contos maravilhosos infantis e domésticos", dos Irmãos Grimm. Editora Martins Fontes.

Feliz Dia do Contador de Histórias!

Histórias de todos os cantos!

Fragmentos de mulher - Ajuntando estilhaços de triste beleza

Tudo o que Lídia Maisha busca é paz. Negra, moradora de uma pequena cidade no interior de Minas, a menina cresce vendo sua inteligência ser desperdiçada e seu futuro ameaçado. Pobreza e exclusão, machismo e outras mazelas perseguem a menina, que no entanto continua a sonhar, mesmo diante de todas as dificuldades.

Assim tem início o romance memorialístico Fragmentos de mulher, de Ana Reis. Com um texto conciso, direto e muito bem equilibrado, a narradora desfia seus percalços, num tom confessional que de primeira conquista o leitor.

Apesar de uma leitura sucinta e ligeira, os leitores inadvertidos não podem pensar que se trata de um texto leve. A prosa de Ana Reis é densa pela crueza da realidade da protagonista, de sua franqueza, de seus questionamentos diante das injustiças de um mundo que insiste em lhe fechar as portas.

Porém, a obra também surge banhada de luminosidade, como anuncia o girassol da capa. Assim, quem se aventurar pelas páginas de Fragmentos de mulher encontrará um texto belo, uma prosa firme e o relato de uma vida que sempre buscou por raios de luz.

Ficha Técnica 

Título: Fragmentos de mulher 
Autora: Ana Reis 
Editora: Mulungu
Páginas: 112

quinta-feira, março 19, 2020

Dia do Contador de Histórias 2020

Dia 20 de março é celebrado o Dia do Contador de Histórias. Para não deixar passar batido em um momento em que o país precisa se recolher, nós estaremos contando histórias online, com a hastag #históriasdetodoscantos. Serão 24 horas de histórias. Assim, Quem quiser acompanhar pelo Facebook, basta acessar o link: https://www.facebook.com/Hist%C3%B3rias-de-todos-os-cantos-101286441515296.


Eu estarei em meu perfil do Instagram @neritosamedi contando uma história recolhida pelos Irmãos Grimm. Deixo o nome escondido, será uma surpresa...

Quem quiser me assistir, basta acessar meu Instagram às 7h da manhã. 

Até lá!

Tortura

Reflexo louco das horas mortas
poesia maldita pérfida e torta
navalha cega qual frio corta
o peito insone por trás das portas

Cálido vento vindo de terras
há muito já mortas a apodrecer
Inóspito sítio repleto de feras
nascidas do próprio anoitecer

A bruma é a forma de um grito nascido
Do sol que agoniza ao fim da tarde
Mesclado ao forte e intenso bramido
de um mar furioso que em fogo arde

O grito é silêncio dentro em meu peito
falar eu não posso ainda que tento
dessa dor aguda ferida sem jeito
A sina que assina todo meu tormento

quarta-feira, março 18, 2020

De acaso em acaso

Imagem: Pixabay

"Samua não quer dar mais alegria pra gente."

Tomei um susto quando o rapaz se virou para mim falou isso. Afinal, como ele ia saber meu nome, já que nunca nos encontramos? Para ter certeza de que ele tinha dito essa frase, soltei um "Como?" meio distraído e o rapaz repetiu. Era isso mesmo. Mas fiquei intrigado. Como ele sabia meu nome?

O rapaz tinha parado de atravessar a avenida e me abordou no meio da travessia. Eu, atrasado, mesmo assim diminuí o ritmo e parei na calçada, do outro lado da Afonso Pena. O rapaz continuou falando, de modo confuso, sobre as declarações de que o Skank iria encerrar suas atividades.

Então era desse Samuel que ele falava. Liguei os pontos. Eu cantava uma música do Gilberto Gil, que foi adaptada pela banda Skank. Pelo visto, o rapaz havia identificado a música e decidiu me interpelar com um desabafo. Começou então a falar do Rock ser a forma suprema de música.

Ele me perdeu quando começou a falar mal do Funk. Não, não curto esse estilo musical, mas também detesto declarações taxativas e descontextualizadas. Pra mim, no final, qualquer coisa pode ser qualquer coisa. Porém, preferi manter a opinião só para mim.

No fim, eu me limitei a balançar a cabeça e encerrar a conversa, com um sorriso. Estava atrasado para o trabalho. Esses são os riscos de se cantar no meio da rua. Um dia a gente leva tombo. Noutro, encontra um crítico musical. Depois de me despedir, iniciei outra melodia, já pensando qual a próxima surpresa o acaso me reservará.

segunda-feira, março 16, 2020

Auto-abismo

Rasgo o meu peito
com palavras sem sorte
Eu sei, não sou forte,
sou um pouco sem jeito.

É um grave defeito
gostar tanto da morte
qual um corpo que aborte
o seu bem mais perfeito.

E deitado em meu leito
perco o rumo, o norte.
Faço um profundo corte
do mal que está feito.

sábado, março 14, 2020

Gargalhada



Gárgula
Gargalha
larga garganta
aberta entre a galha

Gargalhada
do Gárgula
grotesca
grota escura

Noite pura
escura
secura d’alma
alma se cura?

Escura grota
Gárgula arrota
geme
aurora teme

canta e dança
balança

foge da sorte
é a morte

surte no peito
efeito

surge a aurora
agora

teme a luz
lá fora

se enrijece
e desce

a terras ermas
enfermas

a alma some
disforme

o corpo é rocha
a alma é palha
a mente é eco

sexta-feira, março 13, 2020

Interiorana - Luta e afeto em pura poesia

Há poemas que nos tomam pela mão e nos guiam por seus lugares, suas veredas familiares. Outros, nos estapeiam, esmeram, massacram, arrasam. E quando um poema faz as duas coisas ao mesmo tempo?

Interiorana, de Nívea Sabino, é um pouco assim. Livro de estreia de Nívea e recentemente reeditado, recolhe em si poemas de protesto, lirismo e uma certa dose de homenagem a sua terra natal, Nova Lima, sem esquecer BH, que a acolheu e acolhe.

Assim, a leitura de Interiorana passa por uma miríade de sentimentos e impressões. Guerreira das palavras, participante de Slams, Nívea mostra sua agilidade com uma linguagem afiada para o combate. Porém, ela não se esquece do amor e de suas belezas. Somos então brindados por versos cálidos, que suavizam o clima de luta, sem acobertá-lo. 

Há também aqueles poemas que cantam os lugares que Nívea elege como seus. Não se esquece da denúncia ao falar da exploração do ouro em Nova Lima, bem como de outras explorações, ainda muito patentes. Ela não se esquece também de cantar o bar e seu lugar em BH, em um belo jogo de palavras.

Não posso deixar de falar das belíssimas ilustrações de Raíssa Agrissano que compõem o livro, dialogando de forma simbiótica com os poemas, em uma composição que transpõe os limites das Artes e permitem uma experiência sinestésico rica.

Não há como passar incólume pelos poemas de Nívea Sabino. E atravessar Interiorana é vivenciar uma Minas por tantos silenciada, repleta de lutas e desafios. Sobretudo, belezas.

Ficha Técnica 
Interiorana
Nívea Sabino
ISBN-13: 9788554095703
ISBN-10: 8554095707
Ano: 2018 
Páginas: 140
Idioma: português
Editora: O Lutador

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/841621ED846780

quinta-feira, março 12, 2020

Mistérios

No domínio dos esquecidos
estão os arcanos valiosos
ditos de sabedoria
ocultos sob a folha seca
que a brisa leve sopra
e no severo olhar
de quem quer esconder
o segredo que ignora.
As Leis da Vida 
e da Sorte
nunca nos foram pronunciadas.
Somente uma corda bamba,
fundamento quase sólido
para nossos passos trôpegos.
Nada sabemos 
e é este nosso maior tesouro
o maior trunfo e
enquanto o sangue jorra
vivo como a esperança
vemos tudo perder a cor
mas então pra salvar o mundo
nós o colorimos novamente
com outros embotamentos.

quarta-feira, março 11, 2020

Uma tarde celebrada com histórias e livros

O Centro Cultural Vila Santa Rita está realizando, entre 9 e 13 de março, o Vila Lê. Convidados para o evento, fomos contar histórias. O auditório estava lotado. Duas amigas, Jéssica e Daiane, estreavam  suas apresentações. Cada uma e cada um tínhamos nossos perfis de histórias e apresentações.

Ficamos com medo, sim. Inseguros, com toda certeza. Porém, diante da energia e disposição daquelas crianças de 4 e 5 anos, fomos tomados pela mesma força. Em sintonia, contamos nossas histórias, lemos livros e trocamos afetos.

Meus agradecimentos especiais à equipe do CCVSR pelo convite e confiança, em especial à Shirley e ao Mateus, que dividiram conosco o palco. E por falar em palco, saúdo Eva Martins, Daiane de Aquino Simão e a Jéssica da Mota Menezes. E, por último, o Rodrigo Teixeira, que uma criança perguntou se era meu irmão gêmeo.

Lembrando que o Vila Lê continua até sexta. Convido a todas e todos a acompanhar a programação, que está maravilhosa. 

Que continuemos a celebrar as histórias, os livros, as proximidades e afetos que a arte proporciona. Que estejamos sempre de mais dadas e sempre perto. Sempre.









Tinha um tombo no meio do caminho

Imagem: Pixabay 
Por vezes a gente cai de um jeito que parece que a vida deu uma rasteira.

Foi assim que me senti na última quarta-feira. Atravessava a Avenida Afonso Pena na esquina com a Rua da Bahia. Estava tranquilo, sossegado. Vestia uma camisa branca. Não era nova, mas eu a usava pela primeira vez. Camisa de coleção. 

O dia estava bonito. O tempo chuvoso havia dado uma trégua e o céu azul parecia mais limpo que o normal. As nuvens brancas bordavam o firmamento. Em meu campo de visão, as árvores do Parque Municipal deixavam o dia ainda mais belo.

Eu cantava. Distraído, olhava para as copas das árvores. Antes, porém, eu havia conferido o sinal para pedestres. Esperei que ele estivesse verde para mim. Atravessei na faixa.

Ainda assim, seguia distraído. Ter observado os parâmetros de segurança no trânsito me deixou ainda mais sossegado, despreocupado. Já alcançava a calçada, entre uma nota e outra de uma música popular brasileira. 

Então, pisei em falso. Mergulhei com tudo na calçada de pedras portuguesas. Senti a superfície pontiaguda e irregular esfregar minhas costas, enquanto tudo girava. A dor no lado direito foi quase instantânea.

Meio segundo depois, já estava de pé. Bati nas roupas para afastar a poeira e praticamente não parei, como se nada tivesse acontecido. Um pouco à frente, um rapaz me olhava como se tentasse entender o que eu tinha feito.

Só um tombo, daqueles quase inofensivos. O orgulho estava arranhado e a música, desafinada. Foi impossível transformar aquele tombo em passo de dança. Mas deu pra fazer uma cambalhota.

terça-feira, março 10, 2020

Meu Ostracismo



Fiquei pensando em você
Mais em mim se quer saber
No jeito que eu queria
Na forma que te aceitaria

E senti o agudo espinho
De minha própria patologia
Pois abri mão de te amar
Em busca de um ideal

Deixa estar... nada mais serve
Pra quebrar esse vil ciclo.
O muro que me cerca
Edifiquei com aço e bronze

Pra deixar você bem longe
Me privando de te ver
Não sofrendo a tua imagem
Só a falta de te ter

Vídeo: Uma historinha sem 1 sensentido - Ziraldo


Mais uma leitura feita. Desta vez, do Ziraldo. Quem me indicou este livro foi o Rodrigo Teixeira. Muito obrigado, meu caro!

Uma História sem 1 Sentido
Ziraldo
ISBN-13: 9788506056585
ISBN-10: 8506056586
Ano: 1994
Páginas: 24
Idioma: português
Editora: Melhoramentos

Perfil do livro no Skoob:

https://www.skoob.com.br/uma-historia-sem-1-sentido-266714ed299188.html

segunda-feira, março 09, 2020

Primeiro Vila Lê - E lá eu estarei



Na próxima semana, a partir do dia 10 de março, teremos início ao Vila Lê - Somos Livros Também. Idealizado, organizado e produzido por toda a equipe do Centro Cultural Vila Santa Rita, este evento conta com diversas atividades, dentre narrações de histórias, saraus, performances poéticas e exibição de filmes.

Confirmei minha participação no dia 10 de fevereiro, no encontro de contadoras e contadores de histórias. Comigo estarão o Rodrigo Teixeira, a Daiane de Aquino Simão e a Jéssica da Mota Menezes. Quem puder nos prestigiar e ouvir boas histórias, apareça, sem esquecer de manter ouvidos e corações abertos!

Confira a programação completa:




Segunda, 9 de março de 2020
19:30 - 21:30
Abertura com pocket show com Negras Autoras + Bate-papo com Lugar de Mulher + presença de uma pessoa da comunidade.
Terça, 10 de março de 2020
14:30 - 16:00
1° Histórias na Vila- Encontro de Contadores de histórias
19:30 - 21:00
Exibição do documentário Barreiridades
Quarta, 11 de março de 2020
09:00 - 10:00
Histórias da cozinha, bolos tradicionais mineiros, com Kênia Camilo
14:30 - 15:30
Monstros debaixo da casa- Inventário de assombrações, com Mateus Efrain
19:30 - 21:00
Exibição do filme “Liberdade ainda que tardia “, produção mineira do diretor Jelton Oliveira
Quinta, 12 de março de 2020
14:30 - 16:00
A poesia falada não vive presa na livraria” - Nívea Sabino Oficina integrante do projeto: Liquidificador: microfestival
Sexta, 13 de março de 2020
14:30 - 15:30
Gincana literária
19:30
Sarau de Encerramento

Um fio vermelho

Imagem: Pixabay

Agarro com força o fio. Lá no alto, outra parte de mim, mesmo que emprestada, anseia liberdade. Projeto na armação de taquara e papel uma existência encantada, tão minha, embora seja, para mim, impossível de controlar.

O fio tem cerol, alguns me advertem. Ignoro. Não porque seja daqueles intrépidos, alheios ao perigo. Creio que um misto de medo de decepcionar as outras crianças e descuido fazem com que eu segure o fio com força demais.

É assim que uma rajada de vento mais forte puxa pra longe a pipa e eu aumento a força, tentando reter a linha. Ela desliza na minha mão, quase sem doer.

Mais pelo choque, que pela dor, largo a linha. Pipa e carretel se vão, agora posse do vento.

Já sentindo um pouco órfão da brincadeira, olho para a palma da minha mão direita. Agora ela tinha um risco de lado a lado, oblíquo. Observava o risco vermelho, fascinado, como quem olha um labirinto de apenas um caminho. Aquele fio havia ficado em mim.

Não imaginava como esse fio iria doer fundo, mais tarde, naquele mesmo dia. E ainda dói hoje, ainda dói.

domingo, março 08, 2020

Um dia que é todo dia

Sou daqueles que sabem como um parabéns pode ser vazio, se não houver consciência e respeito.

Não queria, porém, passar por omisso. Afinal, num mundo de performance e personas, o silêncio também grita.

Fica difícil fazer as palavras deixarem o lugar comum. Qualquer tentativa pode soar pálida ou oportunista.

Afinal, este dia que finda marca uma luta que está longe de acabar, infelizmente. E essa luta é diária, contra toda forma de violência.

Que todos possamos, antes de qualquer coisa, lembrar. E que com nossa memória, possamos reviver os sacrifícios feitos, para mais sacrifícios não precisem ocorrer.

Não é apenas um dia. É sempre.

Originalmente publicado no Facebook dia 8 de março de 2016.

sábado, março 07, 2020

Circunstâncias


É isso mesmo
não importa qual seja tua pergunta
constato que me consta
o asco que repulsa
meu desejo de responder
com a mesma coerência
que esperas de minhas palavras
Infeliz situação
Ficarás no desfavor
de minha sinceridade

sexta-feira, março 06, 2020

Fases da lua e outros segredos - A desconcertante sabedoria da infância

Por vezes somos surpreendidos pela perspicácia infantil. De nosso pedestal de pretensa autonomia, nós adultos costumamos manter nossa arrogância, nosso ar professoral, sempre prontos a dar mais uma lição nos pequenos, como se todos eles fossem nossos pupilos naturais.

Bem, nem sempre. Há aquelas pessoas que, com enorme amor e sensibilidade, prestam-se a apurar os ouvidos, sempre atentas à genialidade repleta de inocência que por vezes as crianças demonstram. Algumas mães e pais são assim.

E certamente assim foi Marilda Castanha, ao criar o belíssimo e bem-humorado Fases da lua e outros segredos, da editora Peirópolis. Elaborada a partir de diálogos pcorridos entre a autora e seus filhos, obra é composta por histórias curtas, primorosamente ilustradas, onde ligeiros diálogos mostram a sagacidade da mente infantil. 

Para capturar tão preciosos momentos, certamente foi preciso um olhar atento, repleto de sensibilidade. O mesmo olhar foi necessário para produzir as ilustrações que completam o livro. Ilustradora premiada, Marilda mais uma vez mostra que sua arte se faz tanto no traço, quanto na palavra.

Com maravilhsos desenhos e um texto leve e de uma beleza calcada na simplicidade, Fases da lua e outros segredos é um precioso registro do que o amor, a família e a infância podem gerar de melhor. Uma homenagem ao afeto, um gracioso convite ao encontro. 

Ficha Técnica 
Fases da Lua
e outros segredos
Marilda Castanha
ISBN-13: 9788575963456
ISBN-10: 8575963457
Ano: 2014 
Páginas: 48
Idioma: português
Editora: Peirópolis

quinta-feira, março 05, 2020

Sangramento



Beijo a face da Palavra
sangrenta e de ordinárias formas
letras vis
sujas
Da sofrida labuta do eu
inventado
Sangra de novo
mas não quero não vou
Pode ser um pesadelo cômico
mas é pesadelo
Sonho trágico
mas é trágico
Não quero saber de tuas sangrias
deixa-me, Poesia.

Poesia

É força
É fato
Energia vital
que arrebenta os recipientes da forma
Não à banana na poesia
Não à poesia de banana
banana para a poesia
Negue-se o ludo
o vaivém das palavras oceânicas
decante-se a arte
desencante-se a arte
Fragmente-se estilhace-se
cicie-se, silencie-se
E no final
matem todos os poetas.

quarta-feira, março 04, 2020

Contraponto 3

Era para ver
mas não viu
Quem foi que disse?
É o mulambo jogado na porta
Tira esse mulambo daí sô!
Só quero ver quando chegar
Se alguém vai ter algo a dizer

Sem talento para a vida

Ao sair do banheiro, o ambiente parecia outro. O grupo havia acabado de fazer um exercício. Ele achou que de fato havia acabado. Como estava apertado, correu para o banheiro.

Descobriu tarde demais que havia perdido talvez a parte mais importante da atividade, que era seu desfecho. Os colegas compartilhavam abraços entre si.

Agora, lá estava ele, com cara de tacho, olhando as pessoas se abraçando como velhas conhecidas, enquanto ele parecia um penetra em festa de aniversário. 

Lembrou-se da juventude, quando por vezes sentia um medo quase paralisante de pedir informações a pessoas na rua; ou quando era transferido de colégio e não conseguia perguntar aos novos colegas sobre as matérias e deveres.

Era como se aquele homem fosse novamente o mesmo menino que não conseguia conversar com ninguém e por isso mantia-se sozinho durante o recreio, refugiado na biblioteca.

Algumas pessoas do grupo chegaram a abordá-lo, para um abraço. Outras pareciam aliviadas por ele não estender os braços a elas. Ou sequer lhe dirigiram o olhar.

Ele pensou que o melhor seria lançar a timidez para o alto e reivindicar o seu abraço com cada integrante do grupo. Sua paralisia, porém, permaneceu. E o momento passou. Já era hora do lanche.

Afastado em um canto da sala, enquanto as pessoas comiam e conversavam, ponderou que no final a culpa fora toda sua, que se fechara para os colegas e não se deixara aproximar de fato. Afinal, um abraço é via de mão dupla. Constatando o próprio fracasso, mais uma vez ele se via como realmente era: alguém sem traquejo para o mundo, mais um de tantos sem o talento necessário para viver.

terça-feira, março 03, 2020

Violência

Dias mais alegres
e todas as inferências
que eles possam trazer

Desejo aspirado suspirado
suplicado ardentemente
almejado

Flores em um pasto
sol sereno
e riachos cantantes

Mas o que vejo?
Dá pra dizer?
Não! Quero esconder!

O que sou? Bicho-pensamento, boi mecânico
atropelo as flores e o campo
mancho as águas com meus “por quês?”

E sinto o esvair da vida... que desperdício
de um amanhecer
que nada mais tem pra banhar

As flores suicidas estão tão pálidas
no campo cinzento
em meio aos gritantes riachos de sangue.

Vídeo: Re-legião


Poema lido durante a Semana de Arte Contra a Barbárie BH, no URSAL bar. O texto do poema pode ser acessado aqui: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/2019/07/re-legiao.html.

Imagens feitas pelo poeta Paulo Siuves.

segunda-feira, março 02, 2020

A cor do medo é

Faltou-me caneta para escrever
alguma poesia
mas, o que é poesia
senão o esboço pálido
de uma existência?
que passa
como as horas irregulares
da espera
de que o fim 
chegue lentamente
sem dor, sem pesar
pois tememos e com amargo desespero
que o cessar venha e,
como foice sobre o trigo,
nos ceife num momento

MATER

CANSADO ESTOU
DOS DIREITOS
PATERNOS
O PATER
QUE TOMA
USA E DEPOIS
DESCARTA
EVOCO
O PODER
DO VENTRE
DO SEIO
DO FEMININO
QUE SEJA
O TEMPO
DAS DEUSAS
QUE VENHA
ABAIXO O
MASCULINO
QUERO
O DIREITO
A UMA
MÁTRIA

domingo, março 01, 2020

Contraponto 2

Irônica criança
presa em seu caminho
vaga sem destino
ou no destino dos outros quer vagar
sem saber
sabe da sorte
a morte
da pureza
o início
do amálgama
do contraste de si mesma
mundo
não-mundo
e o enxergar lá dentro
Quer saber?
Nem eu!
Pelo menos tudo fica como está
mas...
de outro jeito

sábado, fevereiro 29, 2020

Preciso trocar os meus óculos

Lá fora, a cidade queima.
Numa ânsia fratricida,
seres humanos lutam
pelo direito de se matarem.
Alguns, já marcados,
sabem do pouco
que lhes resta.
Outros tripudiam
sobre os corpos inertes
memórias e nomes
de tantas.
Enquanto isso, sinto
não só a miopia
mas as marcas
nas minhas lentes
embotando minha visão.
Sim, preciso trocar os
meus óculos.
Antes que o outro
Desapareça
e eu já não possa
lhe estender a mão.

sexta-feira, fevereiro 28, 2020

Um defeito de cor - a voz e a força de uma mulher negra

Há muitos anos vinha desejando ler Um defeito de cor, obra épica de Ana Maria Gonçalves. Adiei por tempo demais. Até que o destino nos colocou juntos: fui escalado para mediar uma mesa com a Ana Maria e com Marcelino Feire no terceiro FLI-BH. 

Assim, o desafio de ler essa obra de centenas de páginas era algo do qual não poderia mais fugir. Afinal, essa é a obra de referência da autora e o motivo de sua escolha para a mesa com o tema que unia a vivência e a escrita.

Foi com essas questões em mente que dei início à leitura de Um defeito de cor. E o que a princípio seria uma leitura técnica se tornou um percurso selvagem e apaixonado, através da voz de uma africana, chamada Kehinde, que confidencia em uma longa carta sua vida, suas escolhas e lutas.

De fato, Kehinde é, antes de tudo, uma lutadora. Vítima e testemunha de uma abjeta violência ainda em sua terra natal, a ainda menina vai desenhando aos olhos dos leitores suas experiências com uma grande carga de inocência. Mesmo quando, mais tarde, ela e a irmã são sequestradas e levadas como escravas, a menina mantém essa pureza que a faz forte, capaz de superar as violências.

A partir do percurso feito para atravessar o Atlântico, tem início o que eu considerei a parte mais difícil do livro. Ter consciência quase gráfica das violações suportadas pelos africanos escravizados é algo diante do qual é impossível ficar indiferente. O sofrimento é visceral, implacável, repleto de crueza, não poupando idosos ou crianças. Na travessia, todas as dignidades foram estupradas das pessoas e, para mim, é impossível não pensar em reparação. 

O enredo prossegue, assim como as violências, já em solo colonial. A narrativa, porém, assume um pouco mais de leveza, a partir da inteligência e tenacidade de Kehinde, que busca assumir o leme da própria vida, mesmo em condições tão adversas. A resistência e inventividade de Kehinde por vezes lhe garantem consequências desastrosas.

Outro ponto a se destacar na narrativa é a profunda curiosidade espiritual de Kehinde. Ela tem memórias de ritos e cultos realizados em África e na medida que pode, vai expandindo seu conhecimento na tradição de seus antepassados.

É preciso destacar que o livro de Ana Maria Gonçalves busca em fatos históricos ancorar sua narrativa. Sendo assim, somos apresentados a personagens e acontecimentos que marcaram a história da Bahia do século XIX, bem como de outros lugares, como a Costa de Mina, na África. 

É importante destacar também que a vida de Kehinde, nomeada no Brasil como Luísa Gama, se entrelaça à vida de uma pessoa fundamental para o movimento abolicionista. Fazer tal descoberta, enquanto lia o prefácio, trouxe-me lágrimas aos olhos.

Com uma narrativa densa, mas nem um pouco enfadonha, repleta pelo esmero em detalhes históricos e na profundidade de suas personagens, Um defeito de cor é um épico imperdível para quem quer conhecer mais sobre sua história e seu povo.

Ficha Técnica 
ISBN-13: 9788501071750
ISBN-10: 8501071757
Ano: 2006
Páginas: 952
Idioma: português
Editora: Record

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

A violência nossa de cada dia

Há anos venho ponderando sobre o senso comum e o alarmismo da mídia de que a violência estaria aumentando. São ponderações que mantive para mim mesmo, no máximo comentei com alguém próximo. Porém, esses questionamentos permanecem, sempre me instigando. 

Por exemplo, é muito comum escutar que antigamente a violência era menor, que as pessoas poderiam sair na rua com mais tranquilidade, que crianças não podem mais brincar ao ar livre.

Tais argumentos são inclusive usados por aquelas pessoas que defendem o armamento da população, o endurecimento do código penal e a ampliação dos presídios. E foram também utilizados por quem apoiava o antes candidato e atual presidente. 

A despeito das atuais informações do Ministério da Justiça - das quais eu desconfio - existe sempre um discurso de que a violência estaria aumentando e que seria necessário um enrijecimento do Estado, para que tal escalada fosse interrompida.

A História, porém, nos mostra outra coisa. Já tivemos períodos muito mais violentos que os atuais, em números absolutos. Se formos pensar proporcionalmente, então, a violência seria ainda maior.

Eu me lembro que, quando criança, passei férias no bairro Planalto, aqui em Belo Horizonte. Deveria ser o ano de 1989, ou 1990. Naquela época, sair para a rua era certeza de ser assaltado por alguém. Eu inclusive fui vítima de um desses assaltos. Sem falar nos furtos constantes a que as pessoas eram vítimas, no centro da cidade.

Essas ocorrências foram diminuindo, a partir da melhora da economia do país. Com apenas minha memória para contar como aliada, arrisco afirmar que os períodos de estabilidade econômica corresponderam, pelo menos para mim, a uma maior sensação de segurança.

Outro ponto que me incomoda são as frequentes pesquisas - inclusive a última divulgação do Ministério da Justiça. Em nosso país, temos a mania de mudar os indicadores, o que compromete historicamente a pesquisa. Ou seja, acabamos provocando nossa própria desinformação. 

Por fim, temos um aumento vertiginoso da população, tanto no Brasil quanto no mundo. Sendo assim, é compreensível que a violência aumente, em números absolutos. Devemos, porém, continuar a combatê-la.

Para concluir, afirmo que me causa nojo que o atual líder da nação seja um defensor da tortura, do extermínio e que use de violência verbal (e por vezes física) contra qualquer pessoa que o desagrade. A incitação à violência que Bolsonaro faz, quase diariamente, deixa exposta toda a sua monstruosidade e a hipocrisia dos cristãos que o apoiam.

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

A mão do poeta

É branca a mão do poeta
branda?
Há um poeta de mão transparente
e grandes visões
E o poeta de mão opaca não entende
Criação?
Magia?
Ou então simples loucura seria?
Não se sabe, nem mesmo este poema
quando nasce não quer saber
pois o está feito deste poema
é mais preocupado em existir
do que responder à existência
E ao poeta opaco
Suas próprias indagações.

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Pequeno guia do mediador:



  1. Cuidar do espaço de modo a criar um ambiente favorável para a leitura; principalmente quando se trata de bebês. É importante garantir condições mínimas no espaço.
  2. Deixar os livros ao alcance das crianças, facilitando seu acesso.
  3. Ter um acervo, uma biblioteca, diversificada pensando na multiplicidade dos perfis leitores.
  4. Saber quem serão seus leitores, ou preparar-se para a diversidade de perfis.
  5. Disponibilizar o tempo para a leitura com dedicação e exclusividade.
  6. Não esperar nada desses momentos de leitura a não ser um momento de fruição que o contato com uma experiência artística possibilita.
  7. Não se esquecer da liberdade do leitor - ele não é obrigado a nada.
  8. Mostrar o livro como fruto de um trabalho coletivo:
  • ler o título;
  • ler o nome do autor e do ilustrador;
  • ler o nome da editora;
  • ler o paratexto.
Quando for um álbum ilustrado, compartilhar a leitura das ilustrações. Ser fiel ao texto:
  • não vale mudar palavras de difícil compreensão;
  • não vale traduzir trechos complicados;
  • não vale alterar ou reduzir histórias.
Depois da leitura:
  • ter uma escuta atenta;
  • respeitar o que os leitores pensam, suas dúvidas;
  • problematizar sem conduzir a uma interpretação única do texto.
Procurar se manter informado sobre lançamentos.

Guia retirado do curso Infâncias e Leituras, do Polo Itaú Social, em parceria com o Laboratório Emília de Formação. (http://www.polo.org.br)

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Harvey, como me tornei invisível - Sozinho na noite, diante das estrelas

Uma criança diante da morte. A primavera, símbolo de renovação, torna-se ícone de um momento marcante e doloroso, que marcará para sempre a história dessa criança. 

Se fosse necessário reunir em uma única palavra a narrativa Harvey, como me tornei invisível, de Hervé Bouchard e Janice Nadeau, eu diria solidão. Uma enorme e massiva solidão.

Logo de início, temos o potente silêncio por páginas e páginas, desenhando cenários tristonhos. Em seguida, a voz de Harvey. Ele não começa com "Eu me chamo Harvey", mas com "Todo mundo me chama de Harvey". Não temos certeza de que esse é de fato seu nome, ou se ele o sente como sendo seu. A partir dessa perspectiva, Harvey vai contando sua história. Ele narra com calma, dando espaço para pausas e digressões, observações e comentários. Assim, a narrativa assume um tom intimista, de confidência. 

Situado em uma primavera diferente de todas as outras, o acontecimento que Harvey narra é entrecortado de outros acontecimentos, sendo alguns fantásticos, como a turbulenta participação de Scott Carré em uma corrida de palitos pela sarjeta. 

Como o mais baixo do grupo de crianças, ele também parece ser o mais incompreendido. Essa incompreensão parece se estender pelo mundo a sua volta. Contudo, ele é dotado de uma enorme lucidez, permite que ele seja um observador privilegiado, guiando nossa leitura por um momento de penumbras e incerteza.

A narrativa de Hervé Bouchard e Janice Nadau é tanto verbal quanto visual. O tom é carregado e os traços sujos transmitem uma constante melancolia, mas sem cair no dramalhão. A tristeza que perpassa as páginas desta obra é comedida, conformada. Não significa, porém, que não seja intensa. 

Com uma visualidade marcante e um texto poderoso, Harvey, como me tornei invisível é um emocionante relato de transformação, de perda e amadurecimento.

Ficha Técnica:
Capa comum: 168 páginas
Editora: Pulo do Gato; Edição: 1ª (10 de junho de 2013)
Idioma: Português
ISBN-10: 8564974118
ISBN-13: 978-8564974111

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/harvey-347357ed389831.html