sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca

segunda-feira, maio 25, 2020

Segunda vinda


Para aqueles
que aguardam
a volta de seu Cristo,
Saibam que ele 
já esteve aqui.
Já voltou.
E o que viu
O encheu
de horror 
E assim ele
deu suas costas
e partiu.
Para jamais
Voltar.

sexta-feira, maio 22, 2020

Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo - Para aqueles que ainda virão

Em um dos primeiros momentos do curso Infâncias e Leituras, tive a oportunidade de assistir mais uma vez ao filme Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo (The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Já de início afirmo que sempre encaro com entusiasmo as oportunidades de assistir a esta animação, tão singela e preciosa, que não raro arranca lágrimas de meus olhos.

Este filme é um dos mais incríveis que já assisti. Foi maravilhoso poder vê-lo novamente. Trata-se de uma narrativa fantástica, com alto grau de simbolismo e que apresenta uma narrativa muito clara e bem amarrada. Nela, Modesto Máximo (Morris Lessmore) é arrancado de sua vida comum e de suas palavras por um desastre que desarrumar todo o seu mundo. Suas cores são perdidas, sua voz é silenciada, o livro que representa a sua vida perde as palavras e se torna vazio.
O que parecia não ter conserto logo se mostra repleto de possibilidades. Modesto encontra um livro que o leva a uma casa de livros. 

Enquanto trabalhei na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, gostava de brincar com os livros como se estes fossem pássaros. Creio que eu tenha sido inspirado pelo filme. Ou talvez a analogia já estivesse em mim há mais tempo. O fato é que o filme usa dessa metáfora, ao mostrar os livros voando, com suas páginas abertas.

Apenas o livro da vida de Modesto Máximo não voa. 

A imagem dos diversos livros, de várias formas e tamanhos, adejando graciosamente é um espetáculo à parte. E justamente um desses livros passa a fazer o papel de companheiro de Modesto.

Não vou adiantar muita coisa do filme, pois acho que assisti-lo sem muitas informações preliminares, descobri-lo com um primeiro olhar é uma aventura ímpar a meu ver. Portanto, peço que só leiam os próximos parágrafos quem já tiver assistido ao filme.

Achei muito interessante que o livro que levou o protagonista para a casa dos livros não foi o mesmo que guiou a garotinha ao final da narrativa. Ou seja, cada um de nós tem o seu livro, aquele que podemos chamar de completamente nosso. O livro que nos apresenta aos demais, que nos encanta pela primeira vez. 

Também foi lindo observar que o senhor Modesto Máximo não foi embora sem antes deixar um pedaço de si, uma parte de sua história, ou toda a sua história. Seu livro agora havia ganhado vida, passando a ser mais uma das entidades encantadas que voavam pela casa dos livros. 

Da mesma maneira, somos convidados, pela leitura e pela escrita, a deixar nossas marcas, nossas pegadas através das palavras e traços, como nosso testemunho para aqueles que ainda virão.


terça-feira, maio 19, 2020

Memórias de leitura

As memórias afetivas são um fator muito forte na vida de uma pessoa. Mais profundas do que meras lembranças, tais memórias carregam junto a si uma miríade de sentidos, sejam estes físicos ou não. São aromas, sons, superfícies e até outros sentidos ainda mais sutis, além das emoções que os mesmos carregam.

Durante o curso Infâncias e Leituras, um dos exercícios foi justamente evocar as memórias afetivas que tenho das leituras mais antigas de minha infância. Nao foi difícil resgatá-las, pois as visito com muita frequência, como lugar dentro de mim para me (re)visitar e (re)conhecer.

Existem duas memórias muito próximas e não sei qual das duas é a primeira. São memórias de dois livros: Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha, e Flicts, de Ziraldo.

Uma das memórias mais antigas que tenho é a imagem de Marcelo correndo e gritando, com a boca enorme, para avisar que a casinha do cachorro estava pegando fogo. Outra imagem bem forte é da última imagem do livro Flicts, quando a gente descobre que a lua é dessa cor, Flicts.

No caso de Flicts, eu não me lembro de quem lia para mim. Talvez fosse a minha mãe, mas não tenho certeza. Já com Marcelo, Marmelo, Martelo, eu tenho a recordação do meu irmão mais velho, Arthur, rindo e dizendo: "Embrasou a moradeira do latildo!" Ele me contou a história do Marcelo e de sua confusão com as palavras e seus sentidos. Lembro-me que rumos muito com o caso. 

Talvez o meu irmão, no auge dos seus cinco anos, tenha sido o meu primeiro mediador de leitura.

segunda-feira, maio 18, 2020

O que a leitura é para mim?


Muito se pode dizer sobre a leitura. Podemos, por exemplo, assumir um olhar meramente técnico, dizer que a leitura nada mais é que a decodificação de sinais, de forma a atribuir aos mesmos sentido. Ou podemos assumir, como eu, um viés mais amplo.

Não é possível falar de leitura sem pensar em Paulo Freire. O grande educador, em sua obra A importância do ato de ler(1981), fala sobre dois tipos de leitura: a leitura da palavra e a leitura do mundo. E ainda afirma que haveria uma preponderância de uma em relação à outra.

Certa vez, estava sentado em um banco na Estação São Gabriel, aqui de Belo Horizonte, aguardando o ônibus para o bairro Ribeiro de Abreu. Usava uma camisa preta, com a estampa de um mangá pouco conhecido aqui no Brasil - Gantz

De repente, um senhor se aproxima e aponta para o desenho em minha camisa. Ele dá um sorriso de reconhecimento e fala da apreciação do seu filho por desenhos desse tipo. Contou sobre Dragon Ball, dentre outras referências. 

Aquele senhor não conhecia o mangá cuja imagem estava estampada em minha camisa. Porém, observou o padrão da imagem e fez relações que estavam presentes em sua bagagem cultural. Para mim, esse episódio foi um exemplo inesquecível sobre as capacidades de leitura de mundo que as pessoas possuem. E tais capacidades muitas vezes são desprezadas por aquelas pessoas que se consideram "detentoras do saber".

Sei que ao falar de leitura aqui, não estou me referindo à leitura de mundo. Estou falando da leitura da palavra. Porém, para mim, não existe uma sem a outra. Em minha opinião, quanto mais aproximamos mundo e palavra, maior a possibilidade de pertencimento, de associações. Maior a possibilidade do jogo de sentidos.

Chego, porém, ao título deste texto. O que é a leitura para mim? E falo a leitura da palavra. Qual a sua importância em minha vida? A leitura sempre foi para mim uma possibilidade de escape, mas não de escapismo. A leitura ressignifica meus dias e concede a eles um caráter mágico, maravilhoso. A leitura concede sentido à minha existência.

Continuo a buscar a ampliação desse meu conceito de leitura. Tenho para mim que ler é um ato de liberdade e também de existência. Pela leitura eu reafirmo a minha (r)existência, meu lugar no mundo e todas as possibilidades que tal posicionamento me traz. Até quando não leio estou reafirmando a minha leitura, pois tenho nos livros e no texto escrito uma das minhas razões para permanecer neste mundo. Um dos maiores sentidos de meu ser. 

domingo, maio 17, 2020

Redemoinho de Histórias - Histórias Diversas

Hoje, eu e Pâmela teremos a alegria enorme de contar histórias no canal do Instagram Redemoinho de Histórias (@redemoinhodehistorias).

Eu pretendo narrar Lolô, de Grégoire Solotareff. Tenho no canal uvm vídeo em que faço a leitura desse livro tão maravilhoso. A Pam irá contar "A velha mulher do mundo", de tradição oral.

Fomos convidados na ocasião da abertura da nova temporada do Redemoinho de Histórias, com o espetáculo "Histórias Diversas".

Sinto-me profundamente honrado pelo convite e espero estar à altura de um projeto tão sensível e diverso. Conto com a presença de todo mundo!

Dia 17de maio de 2020, domingo, às 17h30, no perfil do Redemoinho de Histórias.



Vídeo: Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano - Ana Martins Marques



Hoje declamo o poema de Ana Martins Marques presente em "O livro das semelhanças":

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, maio 15, 2020

Esperando Bojangles - A eterna valsa de amor e loucura

Imagem: Amazon
Não há família normal. Este é um fato. Algumas pessoas defendem, inclusive, que a incubação das maiores patologias mentais de nossa sociedade está no seio das famílias, com seus valores, sua tradição e sua religião. Mas quando uma família sai completamente dos padrões, quando a loucura passa a ser uma espécie de parâmetro, como lidar com isso?

Esperando Bojangles, do francês Olivier Bourdeaut, é um exemplo disso. O romance é narrado por duas pessoas - pai e filho. A narrativa tem início pela voz do filho, que relata com inusitada inocência os comportamentos nada usuais dos pais. Sua mãe, por exemplo, recebe a cada dia um nome diferente pelo marido. Eles mantêm uma vida despreocupada e quase inconsequente, mesmo tendo uma criança para criar. O casal bebe muito e dança ainda mais. São completamente apaixonados e sustentam uma atitude de afetado descaso às regras. O pai é a única pessoa que recebe um nome fixo na narrativa: Georges. Já o menino é chamado de nosso filho, quando é Georges que assume a narrativa.

Olivier Bourdeaut nos guia em um romance ligeiro e engraçado. As situações mais inusitadas vão se desenhando aos nossos olhos, enquanto uma história de amor e loucura nos arrebata em risos e lágrimas. Os capítulos que pai e filho narram são alternados e, contrapondo-se ao olhar infantil, nós leitores vamos conhecendo um Georges apaixonado que não se abala com a loucura da mulher. Ele a abraça com todas as suas consequências.

Assim, vamos descobrindo um pouco das peculiaridades e condições dessa família e do homem que é capaz de sacrificar literalmente tudo pela mulher que ama. Apesar do contraponto da narrativa de pai e filho, é interessante perceber que o mesmo ar inocente perpassa também as palavras de Georges, enquanto ele narra seu encontro com a mulher de mil nomes, a mãe de seu filho e senhora de sua vida. 

Existem outras personagens igualmente cativantes e pitorescas. Uma delas é Madame Supérflua, uma grou que foi resgatada em uma viagem do casal e passou a ser um bicho de estimação, com direito a colares de pérolas. Outra personagem é a figura de um senador corrupto, amigo de Georges e responsável por sua riqueza. O senador também não é nomeado no romance, sendo chamado apenas de "o Lixo".

Este é um romance que, apesar de suas poucas páginas, tem uma mensagem profunda, estrondosa. Nele, valores e tradições são questionados de uma forma que, se não fosse pelo humor, seria dolorosamente incômoda. Totalmente longe do politicamente correto, o romance apresenta personagens disfuncionais, mas extremamente harmônicos em sua mecânica interna. Mostra pessoas que decidem ignorar conceitos como lógica, costumes, reputação, para viver, com toda a sua loucura e entrega, uma história de amor. 

* Um agradecimento especial a Norma de Souza Lopes, por ter me indicado este maravilhoso livro.

Ficha Técnica
Esperando Bojangles
Olivier Bourdeaut
 Nenhuma oferta encontrada
ISBN-13: 9788551300862
ISBN-10: 8551300865
Ano: 2017 
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Autêntica Editora

quarta-feira, maio 13, 2020

Muito ainda para refletir

Quem tem acompanhado o blog pode observar que minhas últimas reflexões tiveram o olhar sobre as infâncias, suas leituras e os espaços em que elas se atravessam. Ressalto que as reflexões foram motivadas pelas atividades do curso Infâncias e Leituras, realizado pelo Polo Itaú Cultural, em parceria com o Laboratório Emília de formação. 

Refletir e escrever sobre o tema abordado foi muito proveitoso para mim. Destaco o exercício de retorno às origens e memórias de leituras iniciais, o que reforçou ainda mais minha identidade como leitor, escritor e mediador de leitura. Ao final de cada atividade proposta, predominava o sentimento de gratidão pela oportunidade ímpar desse mergulho no passado, o qual proporcionou um melhor entendimento de mim mesmo, de meus propósitos e sentidos na vida.

Reforço que muito mais há para falar e explorar a partir das anotações feitas durante o curso. Continuarei a compartilhá-las aqui e conto com as leituras das pessoas que aqui comparecem, para podermos expandir ainda mais nossos horizontes. 

segunda-feira, maio 11, 2020

Para pensar os clássicos

Quem tem acompanhado os relatos e as reflexões que tenho postado aqui, é possível constatar que o curso Infâncias e Leituras é um espaço rico para muitos desdobramentos. 

Um dos temas abordados foi o conceito de clássico e o que ele representa na literatura. Como provocação, fomos convidados a assistir dois vídeos da escritora Marina Colasanti.

A partir das falas e provocações da escritora, pude observar alguns critérios que ela relaciona aos clássicos.

Creio que os critérios mais importantes dos clássicos são sua universalidade e atemporalidade. Na universalidade, as questões mais presentes na mente e na cultura humanas são abordadas e discutidas. Sendo assim, um clássico sempre será atual e sempre falará a pessoas de diverentes partes do globo terrestre.

Outro critério importante, creio eu, é a capacidade reflexiva. Um clássico não é feito para divertir, mas para despertar a reflexão daquele que o lê.

Sendo assim, os clássicos se destacam através do tempo por sua atemporalidade, ultrapassam fronteiras, por sua universalidade, e se mantêm vivos na mente das pessoas, por sua capacidade reflexiva.

domingo, maio 10, 2020

Vídeo: Minha Mãe Não é Legal - Loreto Corvalán

Olá! Para comemorar o Dia das Mães, compartilho com vocês a leitura do livro Minha Mãe Não é Legal, de Loreto Corvalán, traduzido por Andréia Nascimento. Vamos assistir?





Feliz Dia Das Mães para todas as mamães do mundo!

Ficha Técnica 
Selo: Rota Imaginária
Dimensões: 21 x 21
Autora: Loreto Corvalán
Ilustradora: Loreto Corvalán
Tradutora: Andréia Nascimento

sexta-feira, maio 08, 2020

Mamãe & Eu & Mamãe - A maternidade reconquistada

Maya Angelou é uma mulher incrível. Digo isso no presente porque, apesar de Maya já ter falecido, sua figura se mantém viva através de seu trabalho artístico, de seu ativismo, da força de suas palavras.
Autora de uma poesia potente e dona de uma mente incansável, Maya foi uma mulher forte e corajosa, uma desbravadora. Sua vida foi inaugurada por tragédias ainda muito cedo. Ainda assim, ela teve A força de superá-las, por intransponíveis que parecessem.

Um dos livros de Maya Angelou que retrata suas superações é Mamãe & Eu & Mamãe. Autobiográfico, o livro fala um pouco sobre essas tragédias, mas se foca principaente no resgate da relação entre mãe e filha e no quanto essa relação foi importante para Maya Angelou como artista, mulher e mãe. 

É interessante observar na narrativa a profunda e incontestável admiração que Maya sempre nutriu pela mãe. Inicialmente, tratava-se de uma admiração distante. Ela conta que sua mãe parecia uma artista de cinema, uma madame. 

O distanciamento se dava também pelo ressentimento. Quando era bem pequena, Maya foi enviada, junto com o irmão, para morar com a avó paterna. Eles só voltariam a morar com a mãe anos depois, quando Maya já estava no final da infância. Essa ausência teria causado em Maya e em seu irmão um distanciamento que parecia impossível de transpor. Tanto que ela não conseguia chamar Vivian de mãe, mas de "Lady".

A distância entre as duas, porém, vai sendo vencida pela franqueza, respeito e, sobretudo, pelo amor. Em nenhum momento, Vivian tentou se desculpar por ter mandado seus filhos para longe. Porém, ela se esforçou ao máximo para estar presente em suas vidas.

Foi impossível não me apaixonar pela pessoa de Vivian Baxter. Uma mulher altiva mas compassiva. Sempre disposta a ajudar, a tratar a filha como igual, sem deixar de oferecer a ela seu regaço de mãe. Repleto de fotos com Maya e Vivian juntas, trata-se de uma obra cálida e terna. Mamãe & Eu & Mamãe é uma homenagem e uma declaração de amor, além da mensagem forte de que com amor e dedicação, as relações de mãe e filha antes distantes entre si podem se transformar em laços impossíveis de serem rompidos. 

Ficha Técnica 
Mamãe & Eu & Mamãe
Maya Angelou
ISBN-13: 9788501114136
ISBN-10: 8501114138
Ano: 2018 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Rosa dos Tempos

Perfil do livro no Skoob:

quarta-feira, maio 06, 2020

O que eu aprendi com meus leitores


Com meus leitores aprendi que não há preconcepção que não possa ser desconstruída. Aprendi que muitas vezes a criança que mais atrapalha é justamente a que mais está gostando da leitura e não sabe como dizê-lo. Aprendi que não há como a criança para quem eu leio gostar de um livro se eu mesmo não gostar.

Foram muitas as descobertas. Aprendi a não olhar a criança com superioridade. Nossas inteligências e experiências apenas são diferentes. Entender a criança a partir de uma horizontalidade e uma disposição de escuta é muito importante.

Com meus leitores eu aprendi que sempre é possível ser surpreendido e esperar o retorno das crianças, antes de tirar conclusões precipitadas. Quando eu achava que a criança já estaria consada de tanta leitura, ela pedia mais. Quando eu pensava que um texto específico já estaria batido e desinteressante, as crianças queriam que o mesmo texto fosse lido mais de uma vez sequida.

Aprendi que a leitura compartihada com as crianças é uma experiência de intensa troca, de constante descoberta. Nós estamos lendo para elas, mas elas também nos estão lendo. Elas buscam conexão.

A leitura compartilhada para as crianças é como um jogo. Não é um ato meramente protocolar. Trata-se de uma brincadeira também, assim como as demais atividades da criança são, para ela, como brinquedo. 

Ao mesmo tempo, a leitura compartilhada é também um momento para a criança descobrir outras formas de se relacionar com o mundo. O momento de silenciosa escuta. O momento de abrir a janela para dentro.

segunda-feira, maio 04, 2020

Meu caminho como leitor

Cada leitor tem um percurso único. Cada leitura também é única, a meu ver. Contudo, existem aproximações, interseções, que nos ajudam a entender nosso percurso como algo maior, mais amplo, cujos contornos nos ligam a tantas pessoas diferentes de nós.

Durante o curso Leituras e Infâncias, fui convidado a evocar de minha memória os momentos em que tive contato com a leitura em voz alta, quando ainda era criança.

Existe um momento especialmente marcado em minha infância. Eu tinha por volta de 9 anos. Cheguei à sala de casa e vi meu padastro lendo O Pequeno Príncipe. Ele estava sentado no sofá, em silêncio. Eu me sentei ao seu lado e ele, ao perceber, começou a ler um trecho em voz alta. Era justamente o trecho em que o príncipe e a raposa conversam sobre os sentidos da palavra cativar.

De repente, eu senti lágrimas escorrendo de meus olhos. Eu chorava, de tão emocionado que estava com o amor que a raposa e o príncipe haviam cultivado um pelo outro.

Houve outros momentos de leitura. Lembro-me de segurar em minhas mãos livros de contos de fadas, enquanto alguém lia para mim. Um dos contos era A pequena vendedora de fósforos, de Andersen.
A imagem era vívida e quase se podia sentir o frio que acometia a pequena menina. Assim como o calor da luz que a iluminou enquanto voava em companhia de sua avó.

E por falar em avó, a mãe de minha mãe contava histórias para mim. Algumas eram assombradas. Outras, cômicas. Sua voz soava tranquila, quase num sussurro, enquanto ela me guiava por caminhos de fantasia. 

Outra provocação do curso foi me fazer ponderar sobre o que teria facilitado meu percurso como leitor, bem como o que teria dificultado o mesmo.

A proximidade com os livros facilitou muito a minha formação leitora, ao mesmo tempo que a religião a dificultou. A partir da visão cristã, havia livros impróprios, histórias malditas, por falarem de magia, bruxas e monstros. Essa ideia não perpassou minha infância, mas contaminou com muita força parte da minha adolescência e me afastou dos livros. Em certa época, tornei-me leitor quase exclusivamente da bíblia e de livros religiosos.

Existe outro dificultador em relação a minha formação leitora, que foi o fato de ter morado no interior de Minas Gerais. A cidade em que eu morava, embora não fosse muito pequena, não contava com biblioteca ou livraria. O acesso a livros novos também era difícil, pois estes eram caros. Por isso, eu geralmente recebia livros usados, comprados em sebos de Belo Horizonte, ou doados por familiares. Tenho em meu acervo até hoje livros com nomes de parentes na contra-capa. 

A verdade é que eu tinha muita dificuldade em ler, nos primeiros anos. A partir da terceira série, porém, fui apresentado a livros da série Vaga-lume por minha mãe. Ela havia sido encorajada a isso por minha professora. Eu estava no quarto ano, antiga terceira série. 

A professora recomendou a minha mãe que não me obrigasse a ler, mas fizesse sutis sugestões. Os livros eram mostrados, oferecidos, mas nunca impostos. Essa ausência da imposição aguçou minha curiosidade. A partir do livro O caso da borboleta Atiria, minha paixão pelos livros teve início e tal fogo nunca mais se extinguiu.

Acho que essa premissa, a de nunca forçar ou obrigar uma leitura, foi fundamental para não me afastar dessa nova possibilidade. Assim, quando os livros se tornaram um lugar seguro para mim, um abrigo e uma casa, pude ter sempre em mente que ler é, antes de tudo, um convite. 

domingo, maio 03, 2020

Vídeo: Vandalismo - Augusto dos Anjos



Compartilho este vídeo, que foi gravado há bastante tempo, mas continua atual, assim como o poema que ele performa:




Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!


"Eu & outras poesias"
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1772




Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/eu-e-outras-poesias-1328ed206177.html

sexta-feira, maio 01, 2020

O homem que amava os cachorros - A Utopia Assassinada

Entre a História e a ficção literária existe uma tensão, que é ainda mais patente em romances históricos. Quando estes assumem um cunho biográfico, então, tal tensão pode ser quase insuportável. Afinal, temos de um lado a veracidade, o compromisso com os fatos, por mais absurdos que estes possam parecer; e do outro, a verossimilhança, ou seja, uma aparência de verdade.

O romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, caminha nessa corda bamba, sem perder o equilíbrio. A obra conta a da vida e da morte de três homens: Leon Trótski, Ramón Mercader e Ivan Cárdenas, sendo o último o fio condutor do romance, a testemunha que recebe as confissões atravessadas de um misterioso homem e se lança na busca pela verdade.

Já no prefácio do livro, o mesmo é definido como um "thriller histórico", estabelecendo assim a natureza dúbia desse texto que, já de início, apresenta seu narrador a partir de um ponto de vista intimamente ligado a suas personagens. Assim, quando começamos a ler sobre a vida de Trótski, temos contato com um homem aturdido, angustiado com as injustiças e perseguições que sofre.

Ao mesmo tempo, os capítulos destinados a Mercader mostram um jovem idealista, com uma relação complicada com a mãe e apaixonado por uma militante comunista cuja devoção aos ideias beiram à loucura. A proximidade que a narrativa estabelece entre nós, leitores, e seus protagonistas é de uma perturbadora intimidade, de forma a ser impossível buscarmos lados.

Não deixa de ser um fato, porém, que o romance apresenta lados. Em uma ponta está Leon Trótski, antigo líder do Exército Vermelho e um dos maiores líderes da Revolussão Russa. Na outra ponta está Ramon Mercader, o obscuro soldado da Guerra Civil Espanhola que será lentamente forjado para ser o assassino do ex-líder soviético. E no centro está Cárdenas, o narrador, responsável ficcional por construir uma unidade nessas narrativas convergentes.

Mas se o romance apresenta lados, como seria impossível para nós, leitores, assumir um posicionamento? Bem, para este leitor foi impossível. Tanto Trótski quanto Mercader são por demais humanos, repletos de paixões e defeitos, sendo que nenhum dos dois é retratado como um abjeto vilão. Ambos aparecem como pessoas que decidiram sacrificar tudo - até mesmo a família - por seus ideais.

Outra figura histórica que aparece com peso no romance é o próprio Josef Stálin. O líder soviético nunca surge pessoalmente, mas sua figura está sempre presente nas sombras. O romance não poupa Stálin, que aparece como o maior responsável pela morte da utopia comunista.

Portanto, é importante frisar que este não é um romance fácil. É uma obra densa, pesada, repleta de sombras e dor. O percurso pela narrativa é também uma jornada que mostra como a maior utopia do século passado pode alcançar seu ápice e também sua derrocada, tendo sido destruída de dentro para fora.

Ficha Técnica 
O homem que amava os cachorros 
Leonardo Padura 
ISBN-13: 9788575593578
ISBN-10: 8575593579
Ano: 2013 
Páginas: 592
Idioma: português

Editora: Boitempo

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/359958ED404651

quarta-feira, abril 29, 2020

A biblioteca, as leituras de afeto e a oportunidade de escolha

Bruna e Sophia são crianças que por cerca de dois anos visitaram a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, onde trabalhei. Levadas por suas mães aos sábados, em geral mensalmente, essas meninas faziam questão que eu acompanhasse suas escolhas e que lesse para elas. 

Durante esse período, fizemos várias descobertas de bons livros. Alguns eu oferecia para ler, mas elas logo rejeitavam. Outros, pediam para que eu interrompesse a leitura pela metade. Havia aqueles, porém, que as encantavam a ponto de pedirem que fossem lidos novamente. 

Tanto a mãe de Sophia quanto a de Bruna são leitoras. Elas trocavam comigo suas experiências de leitura, o que tornava mais rica a mediação com as crianças. Além disso, ambas levavam muitos livros para casa, depois de longa exploração do acervo.

Sophia costumava exigir total dedicação. Já Bruna aceitava dividir minha atenção com outras crianças. Havia momentos em que elas participavam de oficinas literárias ou narrações de histórias. Contudo, a maior parte de nossas interações acontecia em leituras que eu fazia para elas, a partir de livros que escolhiam entre os exemplares disponíveis no acervo.

Foi fundamental o compromisso que as mães de Bruna e Sophia assumiram com a leitura e com a visitação à biblioteca. Mais ainda, elas deram às filhas, na mais tenra idade, o direito de escolher suas leituras. Esse protagonismo foi assumido pelas crianças com muita propriedade e consciência.

Existem muitas outras crianças, bem como suas mães e seus pais, que dão vida aos sábados da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Assim como há inúmeras crianças e suas famílias que frequentam as 22 bibliotecas culturais de Belo Horizonte e tantas outras bibliotecas, espalhadas pelo país. Porém, decidi registrar aqui essas experiências com as duas meninas e suas mães pelo exemplo que elas são, de afetividade, de compromisso, de busca pelo prazer da literatura e pela silenciosa mensagem de que a Biblioteca é um lugar de muitos encontros.

segunda-feira, abril 27, 2020

O objeto de nosso desejo

Muito se pode dizer sobre o livro. Existem conceituações práticas e outras mais românticas. Os mais pragmáticos podem apenas afirmar que o livro é um objeto que serve para armazenar informações. Já os românticos vão chamá-lo de "janela para outros mundos", "objeto que nos faz viajar sem sair do lugar", entre outras definições ufanistas. 

Nenhuma delas, porém, vai abarcar todas as dimensões do livro. Sim, trata-se de um objeto de múltiplas dimensões. O livro é, antes de tudo, um lugar de muitos lugares. Um espaço de muitos espaços. Não foi à toa que o escritor Jorge Luis passou sua vida inteira perseguindo a ideia do livro e da biblioteca, explorando suas infindáveis facetas, buscando ultrapassar seus limiares.

O livro é um objeto de aprendizado. Ao afirmar isso, não quero dizer que ele deva servir para o aprendizado, ou que ele deva servir para algo. Como um objeto sólido, ele pode servir para muita coisa: pode impedir que um monte de papéis sejam levados pelo vento. Pode segurar uma porta. Pode até servir como projétil a ser arremessado contra uma testa incauta. E pode, inclusive, servir para nada.

Como disse anteriormente, o livro tem múltiplas dimensões. Trata-se de um artefato cultural. Em si ele encerra milênios de história humana. Ele evoluiu, mudou ao longo dos séculos. Não é à toa que os objetos mais importantes das duas maiores religiões do mundo sejam justamente livros.

Portanto, o livro atrai para si um fascínio único. Posso arriscar sem errar muito que ele é um dos poucos artefatos que reúnem em si o espírito da memória humana. É um objeto interativo, feito para ser manuseado, explorado, descoberto. Sendo assim,  ele estimula a sensibilidade de seus leitores. Basta dar um livro a uma criança para observar como ela se ocupará por um bom tempo apenas em manuseá-lo de várias maneiras, experimentando qual seria a forma correta de lidar com esse objeto misterioso. 

Através dessa interação, o leitor tem como refletir sobre o tempo, a memória, os sentidos. O livro é um objeto navegável, pois nele podemos ir para frente e para trás, podemos pular páginas, retornar em algum trecho que nos tenha chamado atenção. 

Esse aspecto interativo do objeto livro foi evocado por mim anteriormente. Porém, sou tão fascinado com tal poder de interação que não me canso de evocá-lo. Perder-me em páginas de um livro, apenas para folheá-lo, ainda é algo muito recorrente para mim.

Alegoria do próprio conceito humano de tempo, cada livro nos permite construir uma relação pessoal e específica com ele. Assim como cada pessoa é única, sua relação com cada livro também o será, seja de forma consciente ou não. Esta relação pode então se expandir, crescer, transformando no livro em uma ideia que ultrapassa suas dimensões físicas. 

E assim o livro se torna um outro lugar. Um jardim secreto, um esconderijo para além do tempo, o lugar onde se revela e se esconde o nosso desejo.

domingo, abril 26, 2020

Vídeo: Xarope de cores - Anna Göbel

Um xarope de cores para aqueles dias jururus. Um remédio para a alma, para o coração, buscado no próprio arco-íris. Essa é a história deste livro, que também é uma receita.

Ficha Técnica 
XAROPE DE CORES
Anna Gobel
ISBN-13: 9788586740893
ISBN-10: 8586740896
Ano: 2012 
Páginas: 32
Idioma: português
Editora: Compor

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/587801ED588568

sexta-feira, abril 24, 2020

As aventuras de Ana Clara - O encanto que se revela na saudade

Esta é uma resenha de afeto. Uma homenagem, um relato de um precioso achado. Uma declaração de amor.

Conheci As aventuras de Ana Clara há cerca de 9 anos, durante o Salão do Livro Infantil e Juvenil. Estava a trabalho no estande da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, montado como um ponto de leitura. Nos expositores havia algumas centenas de livros novos, comprados pelo projeto Belo Horizonte Cidade Leitora. 

Eu dividia o estande com o Rodrigo Teixeira. Com o objetivo de tornar meu turno mais proveitoso, comecei a explorar os livros. Eram todos recém-comprados e muitos eu não conhecia. Rodrigo se aproximou com um exemplar de As aventuras de Ana Clara. Senti um interesse imediato. Adoro aventuras.

Assim que comecei a ler, já fui tomado por uma forte emoção. Comecei a chorar no meio do estande, em pleno evento, enquanto conhecia a história de um amor que se esvai até desaparecer. 

Descobri que o livro escrito por Luísa Nóbrega e desenhado por Deyson Gilbert é uma ode à simplicidade da vida e da grande sabedoria escondida nas pequenas coisas.

O texto de Luísa Nóbrega carrega um ar de despretensiosa simplicidade. Em tom de confissão, a narradora vai nos relatando com uma linguagem direta três episódios que carregam em seus silêncios muito de poesia. E o traço de Deyson Gilbert reforça esse tom, com cores suaves que lembram fotografias antigas e linhas tênues, evocando memórias evanescentes.

Mesmo depois de tantos anos, ainda sou tomado pela emoção quando meus dedos passam as páginas desse livro. A voz sai embargada, quase sumida, como se fosse quase impossível oralizar algo que se segreda no silêncio. Como se fosse tomado por uma profunda e irreparável saudade por tudo o que não vivi e, ao mesmo tempo, todos experimentamos juntos.

* Serei eternamente grato ao Rodrigo Teixeira por ter me apresentado esse livro. E também por ter me dado um exemplar de presente. Amo você, cara!

Ficha Técnica

As Aventuras De Ana Clara
Série girassol
Luísa Nóbrega
Deyson Gilbert
ISBN-13: 9788516066499
ISBN-10: 8516066495
Ano: 2010
Páginas: 48
Idioma: português
Editora: Moderna

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/176505ED196669

quarta-feira, abril 22, 2020

Sobre os lugares da palavra e do corpo na mediação da leitura com crianças pequenas

Já mencionei aqui que participei do curso Infâncias e Leituras. Foi um momento de rico aprendizado, de reflexão sobre o meu fazer e os ideais que o impulsionam. Assim, um dos desafios propostos pelo curso foi pensar sobre a relação entre palavra e corpo na mediação de leitura, seus atravessamentos e transversalidades. Sendo assim, fomos convidados a pensar nesse encontro a partir do conceito de lugar. Reuni aqui as reflexões que foram estimuladas a partir do questionamento do curso.

Lugar é uma palavra interessante. Diferente de espaço ou mesmo território, ela atrai para si um sentido de subjetividade. No caso desta reflexão, não estamos falando de lugar físico, mas simbólico. Sendo assim, quando falo de palavra e de corpo, quais sentidos eles evocam quando penso especificamente da mediação de leitura?

Na minha experiência como mediador, a palavra e os livros são elemento fundamental para serem inseridos no cotidiano das crianças. E quando falo palavra, refiro-me também à oralidade, com as brincadeiras com os sons, com o silêncio, com o ritmo entre eles. Sempre fui um brincante com as palavras, invertendo-as, mudando as sílabas de lugar, inventando novas, explorando suas possibilidades cômicas a partir de trocadilhos e piadas. Assim, busco sempre uma conexão com as crianças pequenas a partir das possibilidades lúdicas que a palavra traz.

O corpo, para mim, já é um desafio. Mais recentemente, tenho descoberto a importância da memória corporal e da exploração sensorial para a construção de sentidos. Assim, trata-se de um desafio trazer o corpo para minha prática como mediador de leitura.

Sabemos que as crianças aprendem com todo o corpo. O desenvolvimento da criança se dá de forma sinestésica, a partir da exploração sensorial do mundo. Ainda mais quando estamos falando de crianças pequenas. Ao ter contato com um objeto, o primeiro impulso da criança é levá-lo à boca. E não apenas isso. Ela irá sacudi-lo, para tentar extrair do objeto algum som. Irá manuseá-lo de várias formas. A criança pequena é acima de tudo uma exploradora.

Em 2019, tive dois momentos que me fizeram refletir profundamente sobre o papel do corpo na construção da memória e dos sentidos. Em minha trajetória, busquei sempre privilegiar a palavra, escrita e falada. Porém, pouca ou nenhuma importância dava para o corpo em meu trabalho como mediador. O primeiro encontro que me fez repensar minha posição foi com a pesquisadora Lydia Hortélio, no dia 23 de setembro, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Outro encontro foi no dia 2 de outubro, com a artista Lenna Bahule, na Terceira Candeia: Mostra Internacional de Narração Artística. Em uma noite poderosa e transformadora, aprendi o poder da memória corporal como expressão da ancestralidade.

Assim, de encontro em encontro, vou inaugurando novos lugares para o corpo e para a voz. Vou reaprendendo a ser criança, a observar e conhecer meu próprio corpo, minha própria memória. E desta forma vou me redescobrindo mediador. Muitos são os desafios, ainda. Porém, desafios que mais me estimulam que amedrontam. É maravilhosoUm mundo inteiro para aprender.

segunda-feira, abril 20, 2020

As bebetecas

No final de 2019 e início de 2020, estive participando do curso à distância de curta duração Infâncias e Leituras, promovido pela parceria entre o  Polo Itaú Social e o Laboratório Emília de Formação. Durante o curso, fomos instigados a refletir sobre diversos temas afins. Dentre eles, as bebetecas. Confesso que me senti especialmente desafiado, apesar de minha experiência de 10 anos de atuação como mediador de leitura para a infância. Afinal, o que seria uma bebeteca? Como ela se constitui? Quais são suas premissas e valores?

As bebetecas ainda são um conceito novo. Afinal, existe um senso comum que pressupõe que um bebê, por não saber ler, não seria um potencial leitor. Ainda que no meio acadêmico que pesquisa a infância e seus atravessamentos já exista uma fortuna crítica sobre o tema, a sociedade como um todo ainda carrega diversos preconceitos sobre os bebês e suas necessidades.

Uma das maiores referências no incentivo à leitura na primeira infância, Yolanda Reyes destaca, com muita propriedade, a necessidade de apresentarmos a palavra aos bebês quando estes ainda estão no ventre materno. Conversar com o bebê ou ler para ele durante a gestação não é um gesto vazio de sentido. O pequeno ser em formação dentro da barriga da mãe já se relaciona com o mundo externo através do corpo dentro do qual ele se desenvolve.

É importante observar também que o bebê é uma pessoa em franco desenvolvimento. Reyes, em seu livro A Casa Imaginária: leitura e literatura na primeira infância, aponta pesquisas que indicam que na primeira infância, as crianças apresentam um enorme potencial cognitivo, devido à enorme neuroplasticidade. Ou seja, o cérebro da criança, até seus seis anos de idade, está construindo sua rede sináptica e por isso sua capacidade de adaptação é enorme. E basta apenas observarmos uma criança para perceber o enorme avanço que é crescer. Até os 5 anos, a criança aprende uma enorme quantidade de habilidades, sejam elas motoras, cognitivas ou linguísticas. Não é à toa que uma criança tem muito mais facilidade de aprender um novo idioma que um adulto.

Portanto, nada mais natural que oferecer livros para os bebês, para que os mesmos possam adquirir maior familiaridade com esse objeto. Yolanda Reyes inclusive defende que não devemos temer que a criança rasgue ou morda o livro. Sua relação com o mundo é extremamente sensorial. Aprendendo com os sentidos, a criança se integra ao universo ao seu redor. Por ser extremamente explorador, o bebê irá manusear o livro à vontade, até se familiarizar com o mesmo.

Nesse ponto, acredito que é importante destacarmos o caráter interativo que o livro tem. É um objeto altamente manuseável, encerrando em si mesmo a metáfora do tempo. Com um livro em mãos, a criança observa o passar das páginas e vai percebendo naturalmente que existe uma sequência e que esta pode inclusive ser subvertida. Ao ler, avançamos as páginas, mas podemos muito bem retornar, ou seja, simbolicamente nós voltamos no tempo ao voltarmos as páginas.

Outro ponto importante a ser destacado é que os bebês aprendem pela imitação. Ao observar os adultos e crianças mais velhas lendo, eles também demonstrarão vontade de segurar um livro, passar as páginas e "ler", mesmo quando ainda não estão alfabetizados. E tal brincadeira irá se repetir inúmeras vezes. 

Assim sendo, é fundamental inserir os bebês no universo letrado. E não estou falando de uma alfabetização precoce. Apenas estou apontando que os livros não devem ser poupados aos bebês, bem como as leituras em voz alta, seja de narrativas, seja de poemas. A poesia, por ter musicalidade e ritmo, é uma fonte rica de aprendizado para os bebês. E livros, muitos livros.

A criação de bebetecas ainda é um grande desafio. Trabalhei por anos na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Nela, pude constatar como atendemos ainda de forma muito precária os bebês e suas famílias. Por exemplo, além de acervo e mediadores, precisamos ter estrutura física para melhor atender esse público, como fraldários, espaço família, mobiliário adequado, entre outros elementos fundamentais.

Além disso, a produção literária para bebês ainda é escassa, se compararmos a outros segmentos literários. Carecemos de mais livros, fora do aspecto paradidático. Precisamos de livros que busquem explorar de forma criativa, sensível e inteligente o universo da primeira infância.

A carência, porém, esconde também uma enorme potencialidade. Há todo um universo a ser explorado, na escrita, na ilustração, no projeto gráfico, na pesquisa de novos materiais que sejam amigáveis aos bebês. A materialidade na primeira infância é fundamental. Nada de telas e suas barreiras de vidros. Os diversos materiais que podem compor um livro, as texturas, as superfícies, os cheiros e sabores são verdadeiros parques sinestésicos. E não é só isso. A primeira infância nos convida à criatividade, a romper os parâmetros da linguagem. E nos convida também a dialogar com o passado, com a tradição oral e suas cantigas, parlendas, trava-línguas e quadrinhas.

Que nós, mediadoras e mediadores possamos entender a enorme responsabilidade que temos. Que possamos entender que somos convidadas e convidados a oferecer o que há de melhor para a primeira infância. O desafio é também uma chamada à aventura, à experimentação. As bebetecas devem oferecer o que há de melhor. E com as pessoas mais bem preparadas profissionalmente, além dos melhores e mais seguros móveis. Sem nos esquecermos dos melhores livros. Os bebês merecem isso.


Para conhecer mais sobre o Polo Itaú Social, basta clicar em http://www.polo.org.br.

Recomendo também acessar o site da Revista Emília (https://revistaemilia.com.br/).

domingo, abril 19, 2020

Vídeo: A Pirilampéia e os dois meninos de Tatipurum - Joel Rufino dos Santos e Walter Ono


Quem está pra cima? E quem está pra baixo? Essa é a grande discussão entre dois garotos, cada um morando de um lado do planeta de Tatipurum. Para resolver a desavença e encerrar a questão, só com a Pirilampéia. Mas como? Veja e descubra!

Ficha Técnica 
A Pirilampéia e os dois meninos de Tatipurum 
Joel Rufino dos Santos 
Ilustrações de Walter Ono
Ano: 1992
Páginas: 32
Editora Ática

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-pirilampeia-e-os-dois-meninos-de-tatipurum-221987ed248463.html

sexta-feira, abril 17, 2020

Crespim - Quando os anjos também sabem batucar

Crespim é um anjinho muito diferente. Ele não curte ficar de bobeira, tocando harpa ou trombeta. Seus talentos são mais voltados para os instrumentos de percussão. Além disso, seu visual difere dos anjos europeus - ele é um anjo com um cabelo volumoso, sarará. E sua alegria combina totalmente com as raízes africanas que compõem o povo brasileiro. Sua madrinha, que é meio anjo meio fada, passa aperto com o anjinho mas também se diverte.

Esse é apenas o começo de Crespim, de Jussara Santos. Escrita com leveza, humor e muito ritmo, a história desse anjinho é também uma história de amor, do encontro entre Amélia e João, um casal de jovens apaixonados. Para além de seu papel de anjo da guarda, Crespim faz vezes de cupido, selando assim um amor que também é abençoado pelos céus.

O texto de Jussara Santos é repleto de poesia. Suas rimas saem do lugar-comum e por vezes lançam mão do nonsense como recurso de humor. A alegria e a jovialidade estão presentes a todo momento, seja no jeito espevitado e bagunceiro de Crespim, seja no amor atrapalhado de João, que mistura olhares e cores ao se encontrar com Amélia.

Os desenhos de Vivien Gonzaga apresentam formas e cores que dialogam muito bem com o texto. As imagens de Crespim transmitem graça. Carlota, sua madrinha, transmite uma mistura de autoridade e afeto. Já o casal Amélia e João é retratado com o típico ar que passeia entre a inocência e a vontade.

Assim, o livro Crespim, com seu humor e seu romantismo juvenil, com sua alegria e os batuques do protagonista, mostra logo a que vem, destinando-se a crianças de todas as idades. E mostra que o Amor é a força que impulsiona todos nós.

Ficha Técnica
Crespim
Jussara Santos
Vivien Gonzaga (desenhos)
ISBN-13: 9788563612106
ISBN-10: 8563612107
Ano: 2013 
Páginas: 36
Idioma: português
Editora: Impressões de Minas


 Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/1159411ED1160200

quarta-feira, abril 15, 2020

Reflexões sobre leitores e leituras

Trabalho ativamente como mediador de leitura há quase dez anos. Existem duas dimensões quando falamos dessa mediação. A primeira, é a dimensão prática, o trabalho diário com os leitores. Já a segunda é a dimensão reflexiva. Pensar nossa atuação como mediadores é fundamental para o desenvolvimento de estratégias cada vez mais eficazes. 

Dessa forma, é importante refletir sobre o objeto de nossa atuação. O que a leitura representa para nós? Existe a conceituação acadêmica, mas para mim, a leitura também atravessa aspectos afetivos e identitários. Pensar a leitura também significa pensar em quem sou como pessoa.

Leitura vai muito além de decifrar um texto escrito. Há uma extensa discussão conceitual sobre isso. A meu ver, a leitura é a produção de sentido através da inferência e da interpretação de um texto, relacionando seus sentidos com a bagagem de conhecimento do leitor. 

Sendo assim, cada leitura é única, pois cada leitor também o é. Além disso, um texto pode ser uma sequência de sinais gráficos ou uma tela de cinema, ou uma melodia. Desta maneira, quanto maior nossa bagagem de conhecimento, maior a variedade de ferramentas para enriquecer os sentidos que produzimos ao ler.

É importante que cada leitor valorize e respeite sua trajetória pessoal. O pertencimento e a familiaridade são muito importantes para a construção de um ambiente rico de possibilidades. Acredito que cada experiência e trajetória são valiosas na composição de cada sujeito leitor. As memórias de infância e sua relação com a fabulação propiciam uma disposição para a leitura e para a experimentação de novas narrativas.

Como dito anteriormente, cada leitura é única. Ler um texto novamente se torna uma experiência diferente da leitura acontecida em sua primeira vez. A diversidade de leitores também proporciona a diversidade de leituras. Diante disso, cada mediador precisa manter uma postura de escuta ativa e acolhimento.

Como disse Antônio Cândido, todo ser humano necessita de fabulação. A leitura literária permite esse fenômeno, assim como outras linguagens artísticas. Na literatura, porém, o foro é mais íntimo. A imaginação é estimulada ao máximo. Na leitura literária, o leitor não apenas adquire vocabulário e conhecimento. Ele adquire experiência sinestésica e cultiva a empatia pela diferença.

Ainda parafraseando Antônio Cândido, se a literatura é uma necessidade básica, ela também é um direito inerente ao ser humano. Garantir a cada pessoa o acesso ao universo literário é garantir um mundo um pouco mais justo.

Por fim, o mediador precisa se apresentar como alguém acessível, empático, disposto a aprender com seu público, a construir junto uma trajetória de leitura. Ao mesmo tempo, ele precisa se comprometer com a pesquisa, com a busca por novos horizontes literários, de forma a apresentar ainda mais possibilidades a cada um de seus leitores.

Atualização de 25/04/2020 - Caso alguém tenha ficado em dúvida quanto ao termo "leitura literária", esclareço que se trata da leitura para além de seu aspecto puramente pragmático, não se resumindo apenas à decodificação de sinais linguísticos, mas também  um exercício estético de apreciação da literatura, devaneio da imaginação e da fruição poética.

segunda-feira, abril 13, 2020

Os melhores japoneses do Brasil

Fonte: Mangá Gantz, de Oku Hiroya
Nunca imaginei que um dia concordaria com o Reinaldo Azevedo. Usando de ironia, o cronista publicou um texto em que rotula Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia "pais e maridos e japoneses exemplares".

A piada surgiu a partir de um trecho de uma palestra de Alexandre Garcia, onde ele propunha a "troca" da população do Brasil pela do Japão. Segundo a "teoria" do jornalista, nosso país levaria no máximo dez anos para se tornar uma potência. Tal vídeo foi compartilhado pelo presidente e causou mal estar mas redes sociais.

Não foi a primeira vez (e talvez não seja a última) que Garcia usou sua posição privilegiada para espalhar seu preconceito como se o mesmo fosse uma lei universal. Como muitos "pensadores" do Brasil, Alexandre Garcia representa a voz de uma parcela conservadora da sociedade. Um grupo que sempre dispôs de poder e hegemonia, que desde o período colonial usa de violência física e simbólica para silenciar qualquer tipo de pensamento contrário, qualquer tentativa de questionar o status quo.

Tal declaração de Garcia, inclusive, vai de encontro a uma pérola de Jair Bolsonaro. O político teria dito que nunca viu japonês pedir esmola, em uma declaração que despreza a realidade de um país que desconhece, bem como reforça um preconceito profundo contra o próprio brasileiro, em especial aquele em situação de rua.

Por vezes eu me pergunto por que pessoas como Bolsonaro e Garcia desprezam tanto o provo brasileiro. Porém, creio que todos sabemos a resposta e ela é por demais hedionda, abjeta, nojenta, para ser verbalizada.

Para alguém como eu, que há mais de vinte anos assiste animes e lê mangás, expoentes da cultura pop japonesa, Bolsonaro facilmente se assemelha à figura do valentão enorme e malvado, aquele vilão primário, que não tem um pingo de profundidade ou misericórdia, usando sua força para intimidar por prazer. Já Garcia corresponde à figura do típico bajulador, que anda às voltas desse vilão, para ganhar vantagens.

Pouco sabem os dois que nas narrativas dos mangás, os heróis existem para proteger os mais fracos, para cuidar de quem precisa, para estender a mão e buscar o entendimento. Os mais icônicos heróis de mangás são órfãos, vivem na pobreza e lutam contra o preconceito. 

Encerro este texto me lembrando de Gantz, um mangá que foi adaptado para anime no início dos anos 2000. A narrativa tem início quando o herói e seu amigo de infância saltam em uma linha de metrô para salvar um mendigo que, bêbado, acabou caindo e corre perigo de ser atropelado pelo trem. Enquanto os dois jovens se colocam nessa situação perigosa, várias pessoas apenas assistem, algumas até mesmo com celulares, para filmar o atropelamento iminente.

Acredito que Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia, em uma situação como essa, ficariam só assistindo, como bons japoneses que acreditam ser.