sexta-feira, dezembro 18, 2020

Quarto de despejo - A genialidade em meio ao abandono


Quando prestei o vestibular para a UFMG em 2001, havia entre as obras escolhidas o livro Quarto de despejo. Pouco sabia dessa obra autobiográfica, de uma autora vista como semianalfabeta. Ouvia que a obra era quase impossível de ser lida, por conta da quantidade de erros de português. E naquela época, quando eu ainda não havia desconstruído tantos dos preconceitos que ainda carrego, deixei de lado qualquer senso de obrigação em ler esse livro. Logicamente, não passei no vestibular. 

Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.

Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.

Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.

Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina. 

Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.

Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.


Ficha Técnica:

Quarto de Despejo

Carolina Maria de Jesus

ISBN-13: 9780451529107

ISBN-10: 0451529103

Ano: 1993 

Páginas: 173

Idioma: português

Editora: Francisco Alves


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html

sexta-feira, novembro 20, 2020

Ponciá Vicêncio - Quando a ausência também é forma de luta

Há livros que agem como divisores de águas em nossas vidas. Nesses casos, é impossível passar incólume por estes livros. A leitura deles sempre é um processo marcante e transformador.

Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.

Repleta de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto. 

Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a ler. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.

Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.

O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos. 

Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.

O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.

É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.

Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.


Ficha Técnica

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9788571602618

ISBN-10: 8571602611

Ano: 2006 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Mazza Edições


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html

quarta-feira, novembro 11, 2020

Só tentando...


Vou tentar improvisar

Uma quadra nesta hora

Depois de fazer minha rima

Dou adeus e vou-me embora


Minha quadra é bem simples

Não tem muito improviso

É com versos bem bobinhos

Só rimar é que eu preciso


Quero também fazer trova

Direto do coração

Mas não sei se eu consigo

Dar forma à emoção


Meus versinhos tão fuleiros

Chegam a assustar o povo

Mas não chego a tomar jeito

Lá vou eu rimar de novo... 

sexta-feira, outubro 30, 2020

Ela

 


Ela


Aquela que

me leva a escutar

que toca meu peito

Mesmo nos momentos mais

Cinzentoz

Seu rosto é âncora

Os olhos farol

Sem ao menos perceber

Os gestos dela

As palavras

Ou a simples presença

Devolve ao mundo

Sua cor.


Feliz aniversário, Pâmela Bastos, meu Amor!

quarta-feira, outubro 28, 2020

Deixa eu te Contar: Contos de Assombração


No próximo sábado, dia 31 de outubro de 2020, às 19h (18h em Manaus/AM), estarei em uma calorosa conversa com a amiga Soraia Magalhães, do blog Caçadores de Bibliotecas (www.cazadoresdebibliotecas.com), em uma live sobre contos de assombração. Parte do projeto "Deixa eu te Contar", a live terá a presença também de Carolina Brandão e acontecerá no perfil do Instagram do Projeto (@deixaeutecontar_am).

Trata-se de um curso de narração de história promovido pela Universidade do Estado do Amazonas. Assim, terei a oportunidade de conversar sobre a arte de narrar histórias, sobre bibliotecas, leitura, livros e sustos!

Conto com a audiência de todas as pessoas que acompanham meu trabalho. O momento será descontraído, com oportunidade de muita conversa. A melhor parte de um vídeo ao vivo é justamente a interação. Portanto, aguardo vocês!

Correção (29/10/2020): a mediadora será a Soraia Magalhães. A Carolina Brandão fará o papel de anfitriã, participando rapidamente.






quarta-feira, outubro 21, 2020

Os motivos do silêncio

Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/philm1310-752382/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">philm1310</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">Pixabay</a>
Por quase cinco meses, estive em silêncio neste espaço. Nesse período, andei me perguntando quando eu retomaria a escrita, as resenhas, este lugar tão meu, tão repleto de minha voz. Além disso, sentia que devia uma explicação para as pessoas que aqui chegavam, para encontrar as histórias guardadas no blog. Tantas perguntas, porém, que aparentavam ser nascidas apenas de minha alma. Ninguém mais parecia questionar o silêncio e seus motivos. 

Essa ausência de perguntas era também fonte de alívio. Afinal, se leitoras e leitores não demandavam por mais textos, por mais histórias guardadas, não precisava me preocupar tanto com a produção deste blog. Contudo, havia também a pulsão interna, a força motriz de meus próprios escritos. Eu meio que me sentia em dívida com essa força. Sentia que precisava dar uma justificativa a ela, na forma em que se materializa.

Apesar dessa necessidade, sentia como se estivesse amordaçado. O medo, o horror, a angústia e o luto me tomavam e enchiam minha boca de vazios e silêncios. Por um tempo, tentei escrever, sem mencionar a morte. Tentei não falar do horror, do ódio, da crueldade e do desprezo pela vida. Eu tentei, mas tanta maldade, tanto descaso pelo próximo acabou por me soterrar de tristeza. Silenciei.

Os dias foram passando e a contagem de mortos aumentava. A incerteza da morte se somava ao fato de não saber se os procedimentos de higienização serviriam mesmo para impedir o vírus. Estaria eu seguindo as instruções corretamente? Será que por um descuido, por uma distração, o inimigo invisível chamado CORONAVIRUS insidiosamente se infiltraria em meu lar e levaria alguém querido? Ou de repente me levaria do mundo? Além disso, enquanto lia sobre a contagem crescente de mortos, eu me perguntava quando essa doença chamada COVID-19 chegaria tão perto a ponto de levar alguém querido. Eu me questionava quando a estatística deixaria de ser um mero número e se tornaria uma parte infinita de meu mundo. 

E isso aconteceu mais cedo do que eu imaginava. A morte soprou em minha nuca, dando sinal de sua presença. Cheguei a imaginar que seria apenas um susto, uma mera lembrança, e não uma presença real. Ledo engano. A finitude da vida veio me conceder mais um nome à lista de familiares para sempre desaparecidos deste mundo. A COVID-19 levava de mim alguém próximo em primeiro grau, apagava em minha vida a possibilidade de um reencontro, de um conserto, de uma conciliação, ou pelo menos de uma despedida.

A essa realidade, somava-se o fato de que estávamos todos fisicamente isolados. A autoimposição de ficar encerrado em casa, saindo em momentos específicos, deu a muitas pessoas a sensação de encarceramento. Em meu caso, não foi diferente. Sentia o corpo enfraquecer, pela ausência de exercício. Saía para um ligeiro "banho de sol", sempre com máscara e tomando o cuidado com a higienização, logo que voltava para casa.

Nos momentos em que não me dedicava ao trabalho, continuei buscando refúgio nas histórias. Uma amiga passou a mandar áudios da sua leitura de As mil e uma noites. Acompanhei lives de diversas amigas e amigos nas plataformas de mídias sociais. Cultivei a escuta de um maravilhoso podcast - Histórias com Café - que sigo acompanhando. Comecei a cuidar de plantas. E também procurei manter minha disciplina na leitura. 

A jornada tem sido longa. Eu acabei por ver este período de pandemia como a travessia de um deserto. E nesse lugar ermo e seco, em que ainda me encontro, muitas foram as feras que me acossaram. A maior delas tinha a minha face. Distorcida, monstrificada, hedionda. Diante de minha própria feiura pude descobrir um pouco mais de mim. E reencontrar minha voz.

Que este humilde relato possa ser proveitoso para tantas pessoas que buscam sentido nestes períodos de escuridão, de dor e agonia. Que nele possamos nos reencontrar. E que as vozes possam, por fim, romper o silêncio, seja em gritos de revolta e dor; seja em risos e cantos de esperança.

segunda-feira, outubro 12, 2020

A lesma


Minhas mãos desfolhavam um molho de alface. Invadido pelo verde, meu olhar se decantava na cascata que a água da torneira fazia, envolvendo como um véu a hortaliça. Sentia uma serenidade perene. O tempo se estendia, líquido como a própria água que eu usava para lavar a alface.

Depois de separar cada folha, observei algo cinzento escapar pelas bordas verdes das menores folhas e escorrer para o ralo. Terminei de colocar as folhas na vasilha de plástico para desinfetá-las e voltei minha atenção para o centro da pia. Presos na malha de metal que protegia o ralo, alguns pedaços de alface, pequenos resquícios que não resistiram ao meu toque e à força da água, jaziam como vítimas anônimas de uma batalha.

Observei com mais atenção, enquanto mexia com cuidado no ralo, até encontrar a coisa cinzenta e cilíndrica que se escondia entre os pedaços de verde. Ela se aderiu com facilidade ao meu indicador esquerdo, de forma que ergui-a até os olhos. 

Era uma lesma. Devia ter menos de um centímetro de comprimento. Tímida, deixava seus olhos-antenas escondidos para logo em seguida estendê-los, tentando perceber o mundo alienígena onde se encontrava. Seu dorso cinza contrastava com o ventre esbranquiçado. 

Fiquei a ponderar o que fazer com ela. Fui lançado ao passado, nas férias em um quintal com uma enorme área coberta por ardósia. Lá, várias lesmas encontravam a morte após serem bombardeadas por pitadas de sal que eu e minha irmã cruelmente lançávamos nelas. Nossa crueldade se misturava à ingenuidade de acreditar que destruir algo diferente seria uma coisa boa a se fazer. Se era diferente, era mau. Ainda mais se fosse nojento, gosmento e tivesse olhos-antenas.

O absurdo de minhas ações infantis atingiu-me com toda a força. Afinal, por que matar uma lesma com sal? Por que torturar um ser várias vezes menor e mais fraco? Apenas por ser diferente? Apenas por ser mais fraco? Apenas por ter o poder para fazer isso? 

Enquanto a cena se repetia infinitamente em minha cabeça, deixei o apartamento. Tinha o dedo indicador da mão esquerda estendido. Na ponta, essa inusitada intrusa que eu descobrira quando lavava a alface. Desci as escadas com a atenção dividida entre os degraus e a minha "tripulante".

Fui até o pequeno canteiro que existe diante do meu prédio. Estendi o indicador até tocar a tenra folha de uma das plantas. Escolhi com cuidado. Escolhi uma folha que se aproximasse, ainda que vagamente, de uma alface, fosse pelo verde vivo, fosse pela fragilidade de sua textura. Demorou um pouco para que minha companheira entendesse que deveria desembarcar. A princípio, ela encolheu-se toda. Temi que estivesse sentindo alguma agressão, alguma violência. Era apenas estranhamento. 

Por fim, ela deixou meu dedo e ganhou a superfície verde. No seu ritmo lento como o próprio tempo, ela seguiu seu trajeto. Não sei para onde se dirigia. Talvez para a minha infância, para o meu passado, para a chance de uma outra história, em que lesmas não precisam sofrer pela cruel ignorância de um menino.

sexta-feira, outubro 09, 2020

O esquecimento das coisas - A beleza da inutilidade


O que é uma coisa? Como se define uma coisa? Por sua serventia? Por suas características físicas? Pela memória que evocam? Por tudo ou nada disso?

E se essa coisa é a própria linguagem? Ou a arte literária? Como explorar essa coisa ao máximo? Como afastar a linguagem de seus aspectos práticos, lançando-a completamente rumo ao seu viés poético? É possível fazer isso?

Ao ler O esquecimento das coisas, de Felipe Diógenes, fui constantemente provocado por estas perguntas. Trata-se de uma coletânea de textos experimentais, que passeiam entre o conto, a crônica e a poesia. Os 35 contos são elaborados na mais fina prosa poética. Seu mote é o cotidiano, a memória e a trivialidade dos objetos do dia-a-dia. 

É aí que está o pulo do gato. Felipe Diógenes, com maestria, explora o incomum em cada um desses aspectos. Assim, ele provoca um deslocamento de uso e de sentido, aproximando-se do nonsense, sem contudo entregar-se ao caos. Há um mecanismo interno que mantém na prosa poética de Diógenes um sentido interno, oculto, não utilitário. 

Assim, a memória perde os seus contornos, bem como o tempo, o cotidiano e cada um dos objetos pretensamente triviais. Um cone, um bule, uma mala. O que de poesia se pode tirar de cada um deles? Essa é uma pergunta que Diógenes busca responder.  É um livro rico e complexo, repleto de elementos que resgatam algo de trágico e cômico na linguagem, na memória e na metafísica. Em vários momentos eu me diverti com os deslocamentos, com as apropriações de sentido e os jogos de palavras. 

Para ilustrar a sutileza do humor e da poesia de Felipe Diógenes, destaco um trecho de "Remington":

"Ao analisar os ossos, não pense nas entrelinhas. Paulo Honório é um fazedor de ossos. O osso, separado, é também uma metáfora para osso, também separado. De todas as metáforas do mundo, escolher as catacreses. 'Catacreses Separadas', se entre aspas, é nome de tese. Gosto do pé de cadeira e do rosto da maçã. A maçã verde custa cinco. A maçã vermelha custa três. Sobre a maçã Argentina, irei perguntar ao Borges."

Posso por fim dizer que a leitura de O esquecimento das coisas foi um momento de deleite. Absorver-se na prosa poética, ser incomodado e provocado por ela, foram alguns dos muitos efeitos que este livro me causou. Certamente, para qualquer pessoa que quiser se aventurar nestas páginas, tal jornada será uma experiência indelével.


Ficha Técnica

O esquecimento das coisas

Felipe Diógenes

Ano: 2020 

Páginas: 120

Idioma: português

Editora: Patuá

Para adquirir o livro: https://www.editorapatua.com.br/produto/206750/o-esquecimento-das-coisas-de-felipe-diogenes


sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca

segunda-feira, maio 25, 2020

Segunda vinda


Para aqueles
que aguardam
a volta de seu Cristo,
Saibam que ele 
já esteve aqui.
Já voltou.
E o que viu
O encheu
de horror 
E assim ele
deu suas costas
e partiu.
Para jamais
Voltar.

sexta-feira, maio 22, 2020

Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo - Para aqueles que ainda virão

Em um dos primeiros momentos do curso Infâncias e Leituras, tive a oportunidade de assistir mais uma vez ao filme Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo (The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Já de início afirmo que sempre encaro com entusiasmo as oportunidades de assistir a esta animação, tão singela e preciosa, que não raro arranca lágrimas de meus olhos.

Este filme é um dos mais incríveis que já assisti. Foi maravilhoso poder vê-lo novamente. Trata-se de uma narrativa fantástica, com alto grau de simbolismo e que apresenta uma narrativa muito clara e bem amarrada. Nela, Modesto Máximo (Morris Lessmore) é arrancado de sua vida comum e de suas palavras por um desastre que desarrumar todo o seu mundo. Suas cores são perdidas, sua voz é silenciada, o livro que representa a sua vida perde as palavras e se torna vazio.
O que parecia não ter conserto logo se mostra repleto de possibilidades. Modesto encontra um livro que o leva a uma casa de livros. 

Enquanto trabalhei na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, gostava de brincar com os livros como se estes fossem pássaros. Creio que eu tenha sido inspirado pelo filme. Ou talvez a analogia já estivesse em mim há mais tempo. O fato é que o filme usa dessa metáfora, ao mostrar os livros voando, com suas páginas abertas.

Apenas o livro da vida de Modesto Máximo não voa. 

A imagem dos diversos livros, de várias formas e tamanhos, adejando graciosamente é um espetáculo à parte. E justamente um desses livros passa a fazer o papel de companheiro de Modesto.

Não vou adiantar muita coisa do filme, pois acho que assisti-lo sem muitas informações preliminares, descobri-lo com um primeiro olhar é uma aventura ímpar a meu ver. Portanto, peço que só leiam os próximos parágrafos quem já tiver assistido ao filme.

Achei muito interessante que o livro que levou o protagonista para a casa dos livros não foi o mesmo que guiou a garotinha ao final da narrativa. Ou seja, cada um de nós tem o seu livro, aquele que podemos chamar de completamente nosso. O livro que nos apresenta aos demais, que nos encanta pela primeira vez. 

Também foi lindo observar que o senhor Modesto Máximo não foi embora sem antes deixar um pedaço de si, uma parte de sua história, ou toda a sua história. Seu livro agora havia ganhado vida, passando a ser mais uma das entidades encantadas que voavam pela casa dos livros. 

Da mesma maneira, somos convidados, pela leitura e pela escrita, a deixar nossas marcas, nossas pegadas através das palavras e traços, como nosso testemunho para aqueles que ainda virão.


terça-feira, maio 19, 2020

Memórias de leitura

As memórias afetivas são um fator muito forte na vida de uma pessoa. Mais profundas do que meras lembranças, tais memórias carregam junto a si uma miríade de sentidos, sejam estes físicos ou não. São aromas, sons, superfícies e até outros sentidos ainda mais sutis, além das emoções que os mesmos carregam.

Durante o curso Infâncias e Leituras, um dos exercícios foi justamente evocar as memórias afetivas que tenho das leituras mais antigas de minha infância. Nao foi difícil resgatá-las, pois as visito com muita frequência, como lugar dentro de mim para me (re)visitar e (re)conhecer.

Existem duas memórias muito próximas e não sei qual das duas é a primeira. São memórias de dois livros: Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha, e Flicts, de Ziraldo.

Uma das memórias mais antigas que tenho é a imagem de Marcelo correndo e gritando, com a boca enorme, para avisar que a casinha do cachorro estava pegando fogo. Outra imagem bem forte é da última imagem do livro Flicts, quando a gente descobre que a lua é dessa cor, Flicts.

No caso de Flicts, eu não me lembro de quem lia para mim. Talvez fosse a minha mãe, mas não tenho certeza. Já com Marcelo, Marmelo, Martelo, eu tenho a recordação do meu irmão mais velho, Arthur, rindo e dizendo: "Embrasou a moradeira do latildo!" Ele me contou a história do Marcelo e de sua confusão com as palavras e seus sentidos. Lembro-me que rumos muito com o caso. 

Talvez o meu irmão, no auge dos seus cinco anos, tenha sido o meu primeiro mediador de leitura.

segunda-feira, maio 18, 2020

O que a leitura é para mim?


Muito se pode dizer sobre a leitura. Podemos, por exemplo, assumir um olhar meramente técnico, dizer que a leitura nada mais é que a decodificação de sinais, de forma a atribuir aos mesmos sentido. Ou podemos assumir, como eu, um viés mais amplo.

Não é possível falar de leitura sem pensar em Paulo Freire. O grande educador, em sua obra A importância do ato de ler(1981), fala sobre dois tipos de leitura: a leitura da palavra e a leitura do mundo. E ainda afirma que haveria uma preponderância de uma em relação à outra.

Certa vez, estava sentado em um banco na Estação São Gabriel, aqui de Belo Horizonte, aguardando o ônibus para o bairro Ribeiro de Abreu. Usava uma camisa preta, com a estampa de um mangá pouco conhecido aqui no Brasil - Gantz

De repente, um senhor se aproxima e aponta para o desenho em minha camisa. Ele dá um sorriso de reconhecimento e fala da apreciação do seu filho por desenhos desse tipo. Contou sobre Dragon Ball, dentre outras referências. 

Aquele senhor não conhecia o mangá cuja imagem estava estampada em minha camisa. Porém, observou o padrão da imagem e fez relações que estavam presentes em sua bagagem cultural. Para mim, esse episódio foi um exemplo inesquecível sobre as capacidades de leitura de mundo que as pessoas possuem. E tais capacidades muitas vezes são desprezadas por aquelas pessoas que se consideram "detentoras do saber".

Sei que ao falar de leitura aqui, não estou me referindo à leitura de mundo. Estou falando da leitura da palavra. Porém, para mim, não existe uma sem a outra. Em minha opinião, quanto mais aproximamos mundo e palavra, maior a possibilidade de pertencimento, de associações. Maior a possibilidade do jogo de sentidos.

Chego, porém, ao título deste texto. O que é a leitura para mim? E falo a leitura da palavra. Qual a sua importância em minha vida? A leitura sempre foi para mim uma possibilidade de escape, mas não de escapismo. A leitura ressignifica meus dias e concede a eles um caráter mágico, maravilhoso. A leitura concede sentido à minha existência.

Continuo a buscar a ampliação desse meu conceito de leitura. Tenho para mim que ler é um ato de liberdade e também de existência. Pela leitura eu reafirmo a minha (r)existência, meu lugar no mundo e todas as possibilidades que tal posicionamento me traz. Até quando não leio estou reafirmando a minha leitura, pois tenho nos livros e no texto escrito uma das minhas razões para permanecer neste mundo. Um dos maiores sentidos de meu ser. 

domingo, maio 17, 2020

Redemoinho de Histórias - Histórias Diversas

Hoje, eu e Pâmela teremos a alegria enorme de contar histórias no canal do Instagram Redemoinho de Histórias (@redemoinhodehistorias).

Eu pretendo narrar Lolô, de Grégoire Solotareff. Tenho no canal uvm vídeo em que faço a leitura desse livro tão maravilhoso. A Pam irá contar "A velha mulher do mundo", de tradição oral.

Fomos convidados na ocasião da abertura da nova temporada do Redemoinho de Histórias, com o espetáculo "Histórias Diversas".

Sinto-me profundamente honrado pelo convite e espero estar à altura de um projeto tão sensível e diverso. Conto com a presença de todo mundo!

Dia 17de maio de 2020, domingo, às 17h30, no perfil do Redemoinho de Histórias.



Vídeo: Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano - Ana Martins Marques



Hoje declamo o poema de Ana Martins Marques presente em "O livro das semelhanças":

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, maio 15, 2020

Esperando Bojangles - A eterna valsa de amor e loucura

Imagem: Amazon
Não há família normal. Este é um fato. Algumas pessoas defendem, inclusive, que a incubação das maiores patologias mentais de nossa sociedade está no seio das famílias, com seus valores, sua tradição e sua religião. Mas quando uma família sai completamente dos padrões, quando a loucura passa a ser uma espécie de parâmetro, como lidar com isso?

Esperando Bojangles, do francês Olivier Bourdeaut, é um exemplo disso. O romance é narrado por duas pessoas - pai e filho. A narrativa tem início pela voz do filho, que relata com inusitada inocência os comportamentos nada usuais dos pais. Sua mãe, por exemplo, recebe a cada dia um nome diferente pelo marido. Eles mantêm uma vida despreocupada e quase inconsequente, mesmo tendo uma criança para criar. O casal bebe muito e dança ainda mais. São completamente apaixonados e sustentam uma atitude de afetado descaso às regras. O pai é a única pessoa que recebe um nome fixo na narrativa: Georges. Já o menino é chamado de nosso filho, quando é Georges que assume a narrativa.

Olivier Bourdeaut nos guia em um romance ligeiro e engraçado. As situações mais inusitadas vão se desenhando aos nossos olhos, enquanto uma história de amor e loucura nos arrebata em risos e lágrimas. Os capítulos que pai e filho narram são alternados e, contrapondo-se ao olhar infantil, nós leitores vamos conhecendo um Georges apaixonado que não se abala com a loucura da mulher. Ele a abraça com todas as suas consequências.

Assim, vamos descobrindo um pouco das peculiaridades e condições dessa família e do homem que é capaz de sacrificar literalmente tudo pela mulher que ama. Apesar do contraponto da narrativa de pai e filho, é interessante perceber que o mesmo ar inocente perpassa também as palavras de Georges, enquanto ele narra seu encontro com a mulher de mil nomes, a mãe de seu filho e senhora de sua vida. 

Existem outras personagens igualmente cativantes e pitorescas. Uma delas é Madame Supérflua, uma grou que foi resgatada em uma viagem do casal e passou a ser um bicho de estimação, com direito a colares de pérolas. Outra personagem é a figura de um senador corrupto, amigo de Georges e responsável por sua riqueza. O senador também não é nomeado no romance, sendo chamado apenas de "o Lixo".

Este é um romance que, apesar de suas poucas páginas, tem uma mensagem profunda, estrondosa. Nele, valores e tradições são questionados de uma forma que, se não fosse pelo humor, seria dolorosamente incômoda. Totalmente longe do politicamente correto, o romance apresenta personagens disfuncionais, mas extremamente harmônicos em sua mecânica interna. Mostra pessoas que decidem ignorar conceitos como lógica, costumes, reputação, para viver, com toda a sua loucura e entrega, uma história de amor. 

* Um agradecimento especial a Norma de Souza Lopes, por ter me indicado este maravilhoso livro.

Ficha Técnica
Esperando Bojangles
Olivier Bourdeaut
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ISBN-13: 9788551300862
ISBN-10: 8551300865
Ano: 2017 
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Autêntica Editora

quarta-feira, maio 13, 2020

Muito ainda para refletir

Quem tem acompanhado o blog pode observar que minhas últimas reflexões tiveram o olhar sobre as infâncias, suas leituras e os espaços em que elas se atravessam. Ressalto que as reflexões foram motivadas pelas atividades do curso Infâncias e Leituras, realizado pelo Polo Itaú Cultural, em parceria com o Laboratório Emília de formação. 

Refletir e escrever sobre o tema abordado foi muito proveitoso para mim. Destaco o exercício de retorno às origens e memórias de leituras iniciais, o que reforçou ainda mais minha identidade como leitor, escritor e mediador de leitura. Ao final de cada atividade proposta, predominava o sentimento de gratidão pela oportunidade ímpar desse mergulho no passado, o qual proporcionou um melhor entendimento de mim mesmo, de meus propósitos e sentidos na vida.

Reforço que muito mais há para falar e explorar a partir das anotações feitas durante o curso. Continuarei a compartilhá-las aqui e conto com as leituras das pessoas que aqui comparecem, para podermos expandir ainda mais nossos horizontes. 

segunda-feira, maio 11, 2020

Para pensar os clássicos

Quem tem acompanhado os relatos e as reflexões que tenho postado aqui, é possível constatar que o curso Infâncias e Leituras é um espaço rico para muitos desdobramentos. 

Um dos temas abordados foi o conceito de clássico e o que ele representa na literatura. Como provocação, fomos convidados a assistir dois vídeos da escritora Marina Colasanti.

A partir das falas e provocações da escritora, pude observar alguns critérios que ela relaciona aos clássicos.

Creio que os critérios mais importantes dos clássicos são sua universalidade e atemporalidade. Na universalidade, as questões mais presentes na mente e na cultura humanas são abordadas e discutidas. Sendo assim, um clássico sempre será atual e sempre falará a pessoas de diverentes partes do globo terrestre.

Outro critério importante, creio eu, é a capacidade reflexiva. Um clássico não é feito para divertir, mas para despertar a reflexão daquele que o lê.

Sendo assim, os clássicos se destacam através do tempo por sua atemporalidade, ultrapassam fronteiras, por sua universalidade, e se mantêm vivos na mente das pessoas, por sua capacidade reflexiva.

domingo, maio 10, 2020

Vídeo: Minha Mãe Não é Legal - Loreto Corvalán

Olá! Para comemorar o Dia das Mães, compartilho com vocês a leitura do livro Minha Mãe Não é Legal, de Loreto Corvalán, traduzido por Andréia Nascimento. Vamos assistir?





Feliz Dia Das Mães para todas as mamães do mundo!

Ficha Técnica 
Selo: Rota Imaginária
Dimensões: 21 x 21
Autora: Loreto Corvalán
Ilustradora: Loreto Corvalán
Tradutora: Andréia Nascimento

sexta-feira, maio 08, 2020

Mamãe & Eu & Mamãe - A maternidade reconquistada

Maya Angelou é uma mulher incrível. Digo isso no presente porque, apesar de Maya já ter falecido, sua figura se mantém viva através de seu trabalho artístico, de seu ativismo, da força de suas palavras.
Autora de uma poesia potente e dona de uma mente incansável, Maya foi uma mulher forte e corajosa, uma desbravadora. Sua vida foi inaugurada por tragédias ainda muito cedo. Ainda assim, ela teve A força de superá-las, por intransponíveis que parecessem.

Um dos livros de Maya Angelou que retrata suas superações é Mamãe & Eu & Mamãe. Autobiográfico, o livro fala um pouco sobre essas tragédias, mas se foca principaente no resgate da relação entre mãe e filha e no quanto essa relação foi importante para Maya Angelou como artista, mulher e mãe. 

É interessante observar na narrativa a profunda e incontestável admiração que Maya sempre nutriu pela mãe. Inicialmente, tratava-se de uma admiração distante. Ela conta que sua mãe parecia uma artista de cinema, uma madame. 

O distanciamento se dava também pelo ressentimento. Quando era bem pequena, Maya foi enviada, junto com o irmão, para morar com a avó paterna. Eles só voltariam a morar com a mãe anos depois, quando Maya já estava no final da infância. Essa ausência teria causado em Maya e em seu irmão um distanciamento que parecia impossível de transpor. Tanto que ela não conseguia chamar Vivian de mãe, mas de "Lady".

A distância entre as duas, porém, vai sendo vencida pela franqueza, respeito e, sobretudo, pelo amor. Em nenhum momento, Vivian tentou se desculpar por ter mandado seus filhos para longe. Porém, ela se esforçou ao máximo para estar presente em suas vidas.

Foi impossível não me apaixonar pela pessoa de Vivian Baxter. Uma mulher altiva mas compassiva. Sempre disposta a ajudar, a tratar a filha como igual, sem deixar de oferecer a ela seu regaço de mãe. Repleto de fotos com Maya e Vivian juntas, trata-se de uma obra cálida e terna. Mamãe & Eu & Mamãe é uma homenagem e uma declaração de amor, além da mensagem forte de que com amor e dedicação, as relações de mãe e filha antes distantes entre si podem se transformar em laços impossíveis de serem rompidos. 

Ficha Técnica 
Mamãe & Eu & Mamãe
Maya Angelou
ISBN-13: 9788501114136
ISBN-10: 8501114138
Ano: 2018 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Rosa dos Tempos

Perfil do livro no Skoob:

quarta-feira, maio 06, 2020

O que eu aprendi com meus leitores


Com meus leitores aprendi que não há preconcepção que não possa ser desconstruída. Aprendi que muitas vezes a criança que mais atrapalha é justamente a que mais está gostando da leitura e não sabe como dizê-lo. Aprendi que não há como a criança para quem eu leio gostar de um livro se eu mesmo não gostar.

Foram muitas as descobertas. Aprendi a não olhar a criança com superioridade. Nossas inteligências e experiências apenas são diferentes. Entender a criança a partir de uma horizontalidade e uma disposição de escuta é muito importante.

Com meus leitores eu aprendi que sempre é possível ser surpreendido e esperar o retorno das crianças, antes de tirar conclusões precipitadas. Quando eu achava que a criança já estaria consada de tanta leitura, ela pedia mais. Quando eu pensava que um texto específico já estaria batido e desinteressante, as crianças queriam que o mesmo texto fosse lido mais de uma vez sequida.

Aprendi que a leitura compartihada com as crianças é uma experiência de intensa troca, de constante descoberta. Nós estamos lendo para elas, mas elas também nos estão lendo. Elas buscam conexão.

A leitura compartilhada para as crianças é como um jogo. Não é um ato meramente protocolar. Trata-se de uma brincadeira também, assim como as demais atividades da criança são, para ela, como brinquedo. 

Ao mesmo tempo, a leitura compartilhada é também um momento para a criança descobrir outras formas de se relacionar com o mundo. O momento de silenciosa escuta. O momento de abrir a janela para dentro.

segunda-feira, maio 04, 2020

Meu caminho como leitor

Cada leitor tem um percurso único. Cada leitura também é única, a meu ver. Contudo, existem aproximações, interseções, que nos ajudam a entender nosso percurso como algo maior, mais amplo, cujos contornos nos ligam a tantas pessoas diferentes de nós.

Durante o curso Leituras e Infâncias, fui convidado a evocar de minha memória os momentos em que tive contato com a leitura em voz alta, quando ainda era criança.

Existe um momento especialmente marcado em minha infância. Eu tinha por volta de 9 anos. Cheguei à sala de casa e vi meu padastro lendo O Pequeno Príncipe. Ele estava sentado no sofá, em silêncio. Eu me sentei ao seu lado e ele, ao perceber, começou a ler um trecho em voz alta. Era justamente o trecho em que o príncipe e a raposa conversam sobre os sentidos da palavra cativar.

De repente, eu senti lágrimas escorrendo de meus olhos. Eu chorava, de tão emocionado que estava com o amor que a raposa e o príncipe haviam cultivado um pelo outro.

Houve outros momentos de leitura. Lembro-me de segurar em minhas mãos livros de contos de fadas, enquanto alguém lia para mim. Um dos contos era A pequena vendedora de fósforos, de Andersen.
A imagem era vívida e quase se podia sentir o frio que acometia a pequena menina. Assim como o calor da luz que a iluminou enquanto voava em companhia de sua avó.

E por falar em avó, a mãe de minha mãe contava histórias para mim. Algumas eram assombradas. Outras, cômicas. Sua voz soava tranquila, quase num sussurro, enquanto ela me guiava por caminhos de fantasia. 

Outra provocação do curso foi me fazer ponderar sobre o que teria facilitado meu percurso como leitor, bem como o que teria dificultado o mesmo.

A proximidade com os livros facilitou muito a minha formação leitora, ao mesmo tempo que a religião a dificultou. A partir da visão cristã, havia livros impróprios, histórias malditas, por falarem de magia, bruxas e monstros. Essa ideia não perpassou minha infância, mas contaminou com muita força parte da minha adolescência e me afastou dos livros. Em certa época, tornei-me leitor quase exclusivamente da bíblia e de livros religiosos.

Existe outro dificultador em relação a minha formação leitora, que foi o fato de ter morado no interior de Minas Gerais. A cidade em que eu morava, embora não fosse muito pequena, não contava com biblioteca ou livraria. O acesso a livros novos também era difícil, pois estes eram caros. Por isso, eu geralmente recebia livros usados, comprados em sebos de Belo Horizonte, ou doados por familiares. Tenho em meu acervo até hoje livros com nomes de parentes na contra-capa. 

A verdade é que eu tinha muita dificuldade em ler, nos primeiros anos. A partir da terceira série, porém, fui apresentado a livros da série Vaga-lume por minha mãe. Ela havia sido encorajada a isso por minha professora. Eu estava no quarto ano, antiga terceira série. 

A professora recomendou a minha mãe que não me obrigasse a ler, mas fizesse sutis sugestões. Os livros eram mostrados, oferecidos, mas nunca impostos. Essa ausência da imposição aguçou minha curiosidade. A partir do livro O caso da borboleta Atiria, minha paixão pelos livros teve início e tal fogo nunca mais se extinguiu.

Acho que essa premissa, a de nunca forçar ou obrigar uma leitura, foi fundamental para não me afastar dessa nova possibilidade. Assim, quando os livros se tornaram um lugar seguro para mim, um abrigo e uma casa, pude ter sempre em mente que ler é, antes de tudo, um convite. 

domingo, maio 03, 2020

Vídeo: Vandalismo - Augusto dos Anjos



Compartilho este vídeo, que foi gravado há bastante tempo, mas continua atual, assim como o poema que ele performa:




Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas,
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!


"Eu & outras poesias"
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1772




Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/eu-e-outras-poesias-1328ed206177.html

sexta-feira, maio 01, 2020

O homem que amava os cachorros - A Utopia Assassinada

Entre a História e a ficção literária existe uma tensão, que é ainda mais patente em romances históricos. Quando estes assumem um cunho biográfico, então, tal tensão pode ser quase insuportável. Afinal, temos de um lado a veracidade, o compromisso com os fatos, por mais absurdos que estes possam parecer; e do outro, a verossimilhança, ou seja, uma aparência de verdade.

O romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, caminha nessa corda bamba, sem perder o equilíbrio. A obra conta a da vida e da morte de três homens: Leon Trótski, Ramón Mercader e Ivan Cárdenas, sendo o último o fio condutor do romance, a testemunha que recebe as confissões atravessadas de um misterioso homem e se lança na busca pela verdade.

Já no prefácio do livro, o mesmo é definido como um "thriller histórico", estabelecendo assim a natureza dúbia desse texto que, já de início, apresenta seu narrador a partir de um ponto de vista intimamente ligado a suas personagens. Assim, quando começamos a ler sobre a vida de Trótski, temos contato com um homem aturdido, angustiado com as injustiças e perseguições que sofre.

Ao mesmo tempo, os capítulos destinados a Mercader mostram um jovem idealista, com uma relação complicada com a mãe e apaixonado por uma militante comunista cuja devoção aos ideias beiram à loucura. A proximidade que a narrativa estabelece entre nós, leitores, e seus protagonistas é de uma perturbadora intimidade, de forma a ser impossível buscarmos lados.

Não deixa de ser um fato, porém, que o romance apresenta lados. Em uma ponta está Leon Trótski, antigo líder do Exército Vermelho e um dos maiores líderes da Revolussão Russa. Na outra ponta está Ramon Mercader, o obscuro soldado da Guerra Civil Espanhola que será lentamente forjado para ser o assassino do ex-líder soviético. E no centro está Cárdenas, o narrador, responsável ficcional por construir uma unidade nessas narrativas convergentes.

Mas se o romance apresenta lados, como seria impossível para nós, leitores, assumir um posicionamento? Bem, para este leitor foi impossível. Tanto Trótski quanto Mercader são por demais humanos, repletos de paixões e defeitos, sendo que nenhum dos dois é retratado como um abjeto vilão. Ambos aparecem como pessoas que decidiram sacrificar tudo - até mesmo a família - por seus ideais.

Outra figura histórica que aparece com peso no romance é o próprio Josef Stálin. O líder soviético nunca surge pessoalmente, mas sua figura está sempre presente nas sombras. O romance não poupa Stálin, que aparece como o maior responsável pela morte da utopia comunista.

Portanto, é importante frisar que este não é um romance fácil. É uma obra densa, pesada, repleta de sombras e dor. O percurso pela narrativa é também uma jornada que mostra como a maior utopia do século passado pode alcançar seu ápice e também sua derrocada, tendo sido destruída de dentro para fora.

Ficha Técnica 
O homem que amava os cachorros 
Leonardo Padura 
ISBN-13: 9788575593578
ISBN-10: 8575593579
Ano: 2013 
Páginas: 592
Idioma: português

Editora: Boitempo

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/359958ED404651

quarta-feira, abril 29, 2020

A biblioteca, as leituras de afeto e a oportunidade de escolha

Bruna e Sophia são crianças que por cerca de dois anos visitaram a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, onde trabalhei. Levadas por suas mães aos sábados, em geral mensalmente, essas meninas faziam questão que eu acompanhasse suas escolhas e que lesse para elas. 

Durante esse período, fizemos várias descobertas de bons livros. Alguns eu oferecia para ler, mas elas logo rejeitavam. Outros, pediam para que eu interrompesse a leitura pela metade. Havia aqueles, porém, que as encantavam a ponto de pedirem que fossem lidos novamente. 

Tanto a mãe de Sophia quanto a de Bruna são leitoras. Elas trocavam comigo suas experiências de leitura, o que tornava mais rica a mediação com as crianças. Além disso, ambas levavam muitos livros para casa, depois de longa exploração do acervo.

Sophia costumava exigir total dedicação. Já Bruna aceitava dividir minha atenção com outras crianças. Havia momentos em que elas participavam de oficinas literárias ou narrações de histórias. Contudo, a maior parte de nossas interações acontecia em leituras que eu fazia para elas, a partir de livros que escolhiam entre os exemplares disponíveis no acervo.

Foi fundamental o compromisso que as mães de Bruna e Sophia assumiram com a leitura e com a visitação à biblioteca. Mais ainda, elas deram às filhas, na mais tenra idade, o direito de escolher suas leituras. Esse protagonismo foi assumido pelas crianças com muita propriedade e consciência.

Existem muitas outras crianças, bem como suas mães e seus pais, que dão vida aos sábados da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Assim como há inúmeras crianças e suas famílias que frequentam as 22 bibliotecas culturais de Belo Horizonte e tantas outras bibliotecas, espalhadas pelo país. Porém, decidi registrar aqui essas experiências com as duas meninas e suas mães pelo exemplo que elas são, de afetividade, de compromisso, de busca pelo prazer da literatura e pela silenciosa mensagem de que a Biblioteca é um lugar de muitos encontros.

segunda-feira, abril 27, 2020

O objeto de nosso desejo

Muito se pode dizer sobre o livro. Existem conceituações práticas e outras mais românticas. Os mais pragmáticos podem apenas afirmar que o livro é um objeto que serve para armazenar informações. Já os românticos vão chamá-lo de "janela para outros mundos", "objeto que nos faz viajar sem sair do lugar", entre outras definições ufanistas. 

Nenhuma delas, porém, vai abarcar todas as dimensões do livro. Sim, trata-se de um objeto de múltiplas dimensões. O livro é, antes de tudo, um lugar de muitos lugares. Um espaço de muitos espaços. Não foi à toa que o escritor Jorge Luis passou sua vida inteira perseguindo a ideia do livro e da biblioteca, explorando suas infindáveis facetas, buscando ultrapassar seus limiares.

O livro é um objeto de aprendizado. Ao afirmar isso, não quero dizer que ele deva servir para o aprendizado, ou que ele deva servir para algo. Como um objeto sólido, ele pode servir para muita coisa: pode impedir que um monte de papéis sejam levados pelo vento. Pode segurar uma porta. Pode até servir como projétil a ser arremessado contra uma testa incauta. E pode, inclusive, servir para nada.

Como disse anteriormente, o livro tem múltiplas dimensões. Trata-se de um artefato cultural. Em si ele encerra milênios de história humana. Ele evoluiu, mudou ao longo dos séculos. Não é à toa que os objetos mais importantes das duas maiores religiões do mundo sejam justamente livros.

Portanto, o livro atrai para si um fascínio único. Posso arriscar sem errar muito que ele é um dos poucos artefatos que reúnem em si o espírito da memória humana. É um objeto interativo, feito para ser manuseado, explorado, descoberto. Sendo assim,  ele estimula a sensibilidade de seus leitores. Basta dar um livro a uma criança para observar como ela se ocupará por um bom tempo apenas em manuseá-lo de várias maneiras, experimentando qual seria a forma correta de lidar com esse objeto misterioso. 

Através dessa interação, o leitor tem como refletir sobre o tempo, a memória, os sentidos. O livro é um objeto navegável, pois nele podemos ir para frente e para trás, podemos pular páginas, retornar em algum trecho que nos tenha chamado atenção. 

Esse aspecto interativo do objeto livro foi evocado por mim anteriormente. Porém, sou tão fascinado com tal poder de interação que não me canso de evocá-lo. Perder-me em páginas de um livro, apenas para folheá-lo, ainda é algo muito recorrente para mim.

Alegoria do próprio conceito humano de tempo, cada livro nos permite construir uma relação pessoal e específica com ele. Assim como cada pessoa é única, sua relação com cada livro também o será, seja de forma consciente ou não. Esta relação pode então se expandir, crescer, transformando no livro em uma ideia que ultrapassa suas dimensões físicas. 

E assim o livro se torna um outro lugar. Um jardim secreto, um esconderijo para além do tempo, o lugar onde se revela e se esconde o nosso desejo.

domingo, abril 26, 2020

Vídeo: Xarope de cores - Anna Göbel

Um xarope de cores para aqueles dias jururus. Um remédio para a alma, para o coração, buscado no próprio arco-íris. Essa é a história deste livro, que também é uma receita.

Ficha Técnica 
XAROPE DE CORES
Anna Gobel
ISBN-13: 9788586740893
ISBN-10: 8586740896
Ano: 2012 
Páginas: 32
Idioma: português
Editora: Compor

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/587801ED588568

sexta-feira, abril 24, 2020

As aventuras de Ana Clara - O encanto que se revela na saudade

Esta é uma resenha de afeto. Uma homenagem, um relato de um precioso achado. Uma declaração de amor.

Conheci As aventuras de Ana Clara há cerca de 9 anos, durante o Salão do Livro Infantil e Juvenil. Estava a trabalho no estande da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, montado como um ponto de leitura. Nos expositores havia algumas centenas de livros novos, comprados pelo projeto Belo Horizonte Cidade Leitora. 

Eu dividia o estande com o Rodrigo Teixeira. Com o objetivo de tornar meu turno mais proveitoso, comecei a explorar os livros. Eram todos recém-comprados e muitos eu não conhecia. Rodrigo se aproximou com um exemplar de As aventuras de Ana Clara. Senti um interesse imediato. Adoro aventuras.

Assim que comecei a ler, já fui tomado por uma forte emoção. Comecei a chorar no meio do estande, em pleno evento, enquanto conhecia a história de um amor que se esvai até desaparecer. 

Descobri que o livro escrito por Luísa Nóbrega e desenhado por Deyson Gilbert é uma ode à simplicidade da vida e da grande sabedoria escondida nas pequenas coisas.

O texto de Luísa Nóbrega carrega um ar de despretensiosa simplicidade. Em tom de confissão, a narradora vai nos relatando com uma linguagem direta três episódios que carregam em seus silêncios muito de poesia. E o traço de Deyson Gilbert reforça esse tom, com cores suaves que lembram fotografias antigas e linhas tênues, evocando memórias evanescentes.

Mesmo depois de tantos anos, ainda sou tomado pela emoção quando meus dedos passam as páginas desse livro. A voz sai embargada, quase sumida, como se fosse quase impossível oralizar algo que se segreda no silêncio. Como se fosse tomado por uma profunda e irreparável saudade por tudo o que não vivi e, ao mesmo tempo, todos experimentamos juntos.

* Serei eternamente grato ao Rodrigo Teixeira por ter me apresentado esse livro. E também por ter me dado um exemplar de presente. Amo você, cara!

Ficha Técnica

As Aventuras De Ana Clara
Série girassol
Luísa Nóbrega
Deyson Gilbert
ISBN-13: 9788516066499
ISBN-10: 8516066495
Ano: 2010
Páginas: 48
Idioma: português
Editora: Moderna

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/176505ED196669

quarta-feira, abril 22, 2020

Sobre os lugares da palavra e do corpo na mediação da leitura com crianças pequenas

Já mencionei aqui que participei do curso Infâncias e Leituras. Foi um momento de rico aprendizado, de reflexão sobre o meu fazer e os ideais que o impulsionam. Assim, um dos desafios propostos pelo curso foi pensar sobre a relação entre palavra e corpo na mediação de leitura, seus atravessamentos e transversalidades. Sendo assim, fomos convidados a pensar nesse encontro a partir do conceito de lugar. Reuni aqui as reflexões que foram estimuladas a partir do questionamento do curso.

Lugar é uma palavra interessante. Diferente de espaço ou mesmo território, ela atrai para si um sentido de subjetividade. No caso desta reflexão, não estamos falando de lugar físico, mas simbólico. Sendo assim, quando falo de palavra e de corpo, quais sentidos eles evocam quando penso especificamente da mediação de leitura?

Na minha experiência como mediador, a palavra e os livros são elemento fundamental para serem inseridos no cotidiano das crianças. E quando falo palavra, refiro-me também à oralidade, com as brincadeiras com os sons, com o silêncio, com o ritmo entre eles. Sempre fui um brincante com as palavras, invertendo-as, mudando as sílabas de lugar, inventando novas, explorando suas possibilidades cômicas a partir de trocadilhos e piadas. Assim, busco sempre uma conexão com as crianças pequenas a partir das possibilidades lúdicas que a palavra traz.

O corpo, para mim, já é um desafio. Mais recentemente, tenho descoberto a importância da memória corporal e da exploração sensorial para a construção de sentidos. Assim, trata-se de um desafio trazer o corpo para minha prática como mediador de leitura.

Sabemos que as crianças aprendem com todo o corpo. O desenvolvimento da criança se dá de forma sinestésica, a partir da exploração sensorial do mundo. Ainda mais quando estamos falando de crianças pequenas. Ao ter contato com um objeto, o primeiro impulso da criança é levá-lo à boca. E não apenas isso. Ela irá sacudi-lo, para tentar extrair do objeto algum som. Irá manuseá-lo de várias formas. A criança pequena é acima de tudo uma exploradora.

Em 2019, tive dois momentos que me fizeram refletir profundamente sobre o papel do corpo na construção da memória e dos sentidos. Em minha trajetória, busquei sempre privilegiar a palavra, escrita e falada. Porém, pouca ou nenhuma importância dava para o corpo em meu trabalho como mediador. O primeiro encontro que me fez repensar minha posição foi com a pesquisadora Lydia Hortélio, no dia 23 de setembro, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Outro encontro foi no dia 2 de outubro, com a artista Lenna Bahule, na Terceira Candeia: Mostra Internacional de Narração Artística. Em uma noite poderosa e transformadora, aprendi o poder da memória corporal como expressão da ancestralidade.

Assim, de encontro em encontro, vou inaugurando novos lugares para o corpo e para a voz. Vou reaprendendo a ser criança, a observar e conhecer meu próprio corpo, minha própria memória. E desta forma vou me redescobrindo mediador. Muitos são os desafios, ainda. Porém, desafios que mais me estimulam que amedrontam. É maravilhosoUm mundo inteiro para aprender.