sexta-feira, novembro 10, 2017

Sobre Anjos Sem Asas

Por vezes o Universo nos apronta umas que nos sentimos ditosos, abençoados. É como se pequenas dádivas estivessem escondidas no dia a dia, podendo ser descobertas quando fazemos pequenas escolhas. Chamo dessas dádivas de "cosmicidências".
Na madruga de ontem, ao chegarmos em casa, acolhemos um cachorrinho que foi abandonado dentro do condomínio. Ele é um filhotinho e se comportou muito bem durante a noite. Os gatos o estranharam um pouco, principalmente a Coco, mas não avançaram nele. Colocamos comida e água ao seu lado, num cantinho da sala e ele nos surpreendeu com sua tranquilidade.
Nós havíamos chegado muito tarde porque fomos sair com os amigos depois de nossa performance na Semana da Diversidade LGBT. Fizemos uma ponta entre uma mesa sobre bissexualidade eu palestra sobre o centro de referência LGBT.
No bar Xokxok, no Edifício Arcângelo Maletta, a conversa corria gostosa e leve. Enquanto isso, Pam se afligia por causa do cachorrinho, que tinha sido abandonado dentro do nosso condomínio. Os vizinhos discutiam a questão, sobre o que fazer, se expulsar o filhote ou não, enquanto a única coisa que o cachorrinho tinha para passar a noite fria eram algumas folhas de jornal onde se deitar.
Quando chegamos ao condomínio em que moramos, já era madrugada. Procuramos o cachorrinho pelos estacionamentos e o encontramos acompanhando André, o síndico, que tentava alimentá-lo com biscoito recheado. Levamos o bichinho para casa (o cachorro) e ele passou a noite em nosso apartamento.
Pensei que seria difícil e me preparei para isso. Fiquei surpreso com o silêncio e o comportamento tranquilo e amoroso do nosso hóspede. Meu coração doeu ao pensar que teríamos que conseguir outro lar para ele, pois moramos em apartamento. Felizmente, não precisamos nos preocupar com uma possível guerra entre ele e os nossos gatinhos, ou com indesejáveis e fedorentos "presentes" espalhados pelo apartamento.
Pela manhã, saímos na moto, debaixo de chuva e com o filhote seguro nos braços da Pâmela, em busca de um lugar que pudesse acolher o cachorrinho. Passamos primeiro na casa de ração mais próxima, mas o dono disse que só recebia gatos e que não havia espaço para cachorros. De lá, fomos para o Bairro Guarani, onde havia uma associação de amparo a animais. Notem o uso correto do verbo: havia. As entradas estavam emparedadas e havia um recado pintado informando que a ONG não estava mais lá. Não havia informação nenhuma de onde seria a nova sede, ou sequer se ela ainda está ativa. 
Seguimos então de volta para casa, deixamos o filhote lá, mesmo apreensivos, e fomos para nossos respectivos trabalhos.
Logo que cheguei ao Centro de Referência da Juventude, onde está a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH, onde trabalho, comentei a situação com as pessoas e logo uma amiga e colega de trabalho, a Tânia, mostrou interesse em adotar o cachorrinho. Mostrei algumas fotos que a Pam tinha tirado com o meu celular e logo a Tânia decidiu que acolheria nosso pequeno náufrago.
Era quase hora do almoço, quando o Rodrigo, companheiro de trabalho na Biblioteca, atendeu o telefone e eu escutei a voz aflita da Pam. A ligação caiu. O celular tocou de novo e o Rodrigo passou para mim. O meu aparelho estava carregando em outra sala. 
A Pam estava muito preocupada, uma vizinha dizia que o cachorrinho estava ganindo alto; talvez o Aurélio, um de nossos gatos, tivesse cometido uma de suas maldades. Pam estava a ponto de chamar um carro para socorrer o filhote. Tratei de acalmá-la com a garantia de que iria de pronto ver o que acontecera. E argumentei que seria até mais lógico que eu fosse, uma vez que a moto estava comigo. 
Pam concordou e eu fui. Estava tudo bem, felizmente. O "doguinho" estava pachorrentamente deitado em um cantinho de nosso quarto. Ao me ver, levantou-se todo pimpão, o corpo acompanhando o movimento frenético do rabinho.
Voltei para o trabalho tranquilo e garanti à Pam que mesmo se o filhote ganisse outra vez, que não nos preocupássemos tanto. Afinal, eu havia partido para casa esperando o pior, talvez um olho arrancado, uma orelha rasgada, um rabo dependurado, sangue espalhado pelo apartamento. O alarme falso por fim me deixou bastante seguro.
No final do dia, voltamos para casa, pegamos o carro e seguimos para o endereço da Tânia. Pâmela fazia várias perguntas. Se tinham espaço, se sabiam que ele não era vacinado, se aceitariam o filhote de coração. Respondi como podia. Ou seja, não sabia, mas meu coração dizia que a Tânia era a pessoa certa para receber nosso jovem hóspede.
Ao chegarmos, fomos recebidos com as portas escancaradas e muita alegria. A família acolheu o cachorrinho com um amor tocante, os olhos brilhavam. Conhecemos a Belinha, uma cadela já bem velhinha. E a gente sabe que o segredo para um cachorro viver muito é simples: amor. 
Tânia foi a perfeita anfitriã: nos serviu um delicioso café e um lanche. Conversamos e rimos, enquanto meu coração gemia de alegria e tristeza, pois já estava apegado ao nosso pequeno aventureiro de quatro patas. Mas a nossa despedida não seria definitiva. Afinal, toda a família nos convidou a voltarmos em momentos futuros.
Saímos de lá com as barrigas e corações cheios. Estávamos mais leves. A sensação de dever cumprido e o alívio em saber que o cachorrinho estava em boas mãos nos faziam quase saltitar. Fomos cativados por tanta alegria, tanto cuidado. O amor e carinho que presenciamos nos deu a plena certeza de que nosso pequeno amigo estava entre anjos, ainda que sem asas.

Um comentário:

Pam disse...

Adoro quando você escreve sobre nossas histórias, meu amor.