quarta-feira, março 08, 2017

Sobre distâncias não ditas

Another Place, the Antony Gormley. Foto de Chris Howells.


Todo dia eu passo pela mesma praça a caminho do trabalho e a avisto de longe, quase sempre no mesmo banco. Ou então, sentada à beira da calçada, com sua sacola onde guarda todos os pertences de uma vida.
Por vezes, algumas pessoas estão com ela. Nesses momentos, ela é toda sorrisos, como a matriarca na cabeceira da mesa de família. Com gestos quase harmoniosos, ela parece exortar, motivar e acolher aqueles ao seu redor.
Noutras ocasiões, nem mesmo seu companheiro está com ela e nesses momentos a verdade me golpeia. Verdade chamada “abandono”. Ela está abandonada à própria sorte, mesmo quando não está sozinha.
E nesses momentos em que ninguém está com ela, eu a percebo lacônica, imersa em imobilidade, como se o próprio ar ao seu redor fosse de concreto.
Surpreende ela ser uma pessoa com um olhar tão doce. E apesar dos poucos dentes, ela sorri muito. Sempre diz como ama estar perto de uma biblioteca, declarando sem reservas seu amor por esse lugar.
Ela parece ser mais velha do que é, sua pele encarquilhada como que por vezes me lembra bronze castigado pelos anos, mas sempre móvel. O olhar meio caído como que suplica atenção e carinho.
Hoje eu atravessei a rua e me aproximei dela. Estava com o mesmo ar de desenganado abandono. Seu companheiro estava a seu lado e, diferente dela, sorria como se o mundo ao seu redor fosse uma ininterrupta apresentação de uma banda de rock.
Ela, porém, permanecia quieta e tristonha.
Nossos olhos se encontram. Ela fala tá tudo bem com você meu amor? E eu respondo tá sim. E com você? Ela diz não tô muito boa não. Por quê, pergunto eu. É que eu tô com uma doença que não tem cura. Surpreso e ao mesmo tempo mortificado, eu pergunto que doença é essa?
E ela responde: Saudade.

Um comentário:

Samuel Medina (Nerito) disse...

Quando escrevi esse texto, resolvi omitir o nome da pessoa que o inspirou, com o intuito de preservar sua identidade. Há duas semanas, fiquei sabendo que ela faleceu há dois meses.
Algumas coisas não foram ditas. Não contei que ela me chamava de "meu anjo". E que quase diariamente sentávamos para lermos juntos.
Marília, sinto saudades de seu olhar tão doce. Do seu sorriso repleto de entrega. Meu coração doía sempre que eu a via deitada na calçada em frente à Biblioteca. Desculpa, Marília. Não pude fazer por você o que era preciso. Nem sabia o que ou como. Apenas sei que você tocou profundamente minha vida. Nunca esquecerei a poesia que cercava suas palavras e a paixão com que falava dos livros e da literatura.
Que eu possa ser uma pessoa melhor, querida amiga. E que minhas palavras um dia possam tocar a vida de alguém, como as suas tocaram a minha.
Adeus, minha amiga.