quinta-feira, julho 21, 2016

Entre o cinza e o marrom

Ao retirar a capa de chuva, bati o olho na alça da mochila e notei o minúsculo ponto marrom quase sumindo no pano preto e grosso. Parecia uma semente, achei que tivesse caído de uma dessas imponentes árvores da Savassi. O ônibus sacolejava. Seria uma longa viagem até meu bairro. Os vidros embaçados não me deixavam divisar o trajeto, e a escuridão deixava tudo ainda mais lúgubre. A estranha semente me parecia a coisa mais interessante em meu campo de visão.

Peguei-a com cuidado entre o dedão e o indicador. Senti um estranho e quase imperceptível alarme, além de uma curiosa viscosidade nas pontas dos dedos. A semente era um bicho. As patinhas recolhidas sob uma carapaça com intrincados motivos que variavam entre o marrom e o cinza. Uma tartaruga mínima.

Já lamentando a falta de sorte pela provável joaninha morta, depositei-a na palma de minha mão esquerda. Fiquei surpreso ao ver que ela tinha se agarrado firmemente a mim. Mesmo que eu inclinasse um pouco a mão, ela continuava fixa.

Deixei-a lá ficar por um bom tempo, enquanto percebia minha protegida lemtamente ganhar vida. Muito timidamente deixava suas patinhas abandonarem a proteção da carapaça, ensaiando passos vacilantes na palma da minha mão.

Com um pouco de dificuldade, consegui transferi-la para meu dedão direito. E lá ela ficou, quietinha, como se dormisse, ou fingisse preguiça. Uma joaninha indolente, dona de seu espaço.

Fiquei a observá-la, já imaginando como seria, o que deveria fazer com ela. Minha intenção era que ela ficasse em uma das folhas das pequenas árvores que ladeiam a rua onde moro. Mas e a chuva? O vento? E o percurso pela Estação até o ônibus que me levaria ao meu bairro? Uma coisa era certa: eu já me sentia responsável por ela.

E mais cedo que eu esperava, o ônibus chegou à Estação. Fiquei envolto numa confusão de capas de chuva, mochilas e joaninhas. Cócegas denunciaram o movimento de minha amiga que, de tão imóvel, agora era um frenesi já passeando por meu braço. Emaranhou-se nos pelos curtos de meu antebraço e logo imaginei-a atravessando um matagal.

Já estava aflito. A joaninha não conhecia sossego. Fiquei com medo de machucá-la. Atento, procurei um lugar que a agradasse. Ela deveria partir por opção. Assim eu esperava.

Finalmente encontrei uma estrutura de concreto com um tom de cinza que atenderia muito bem como camuflagem à minha amiga. Aproximei meu braço e esperei. Ela rapidamente se transferiu para o concreto e se afastou escalando com agilidade a parede. Ainda maravilhado, observei-a por algum tempo, sem me preocupar com a fila do ônibus.

E fiquei a pensar em tão simples artifícios empregados por minha pequena amiga. Simples e ainda assim engenhosos. Primeiro, fingir-se de morta e agora, matreira, esconder-se na textura da parede. Por um momento, vislumbrei-a novamente, enorme, do tamanho do mundo. E pensei que ela já não era uma simples joaninha. Era mais. Uma joaninja.




Um comentário:

Pam disse...

Gostei demais do texto, Samuca. Que bom que você postou, lindo.