sexta-feira, junho 17, 2016

A casa do girassol vermelho: A loucura arquitetada

Murilo Rubião, se fosse vivo, teria completado 100 no primeiro dia deste mês. Um escritor com uma obra não muito extensa, mas extremamente vasta. Tendo se dedicado exclusivamente ao gênero conto, Murilo Rubião é um dos grandes nomes do realismo fantástico no Brasil. E por isso resolvi explorar um dos seus livros. O escolhido foi  A casa do girassol vermelho.
O livro reúne os contos "A Casa do Girassol Vermelho" (1947), "Alfredo" (1947), "Marina, a intangível" (1947), "Os três nomes de Godofredo" (1947), "Memórias do contabilista Pedro Inácio" (1947), "Bruma" (1953), "D. José não era" (1953), "A lua" (1953), "A armadilha" (1965), "O bloqueio" (1974) e "A diáspora" (1998). Cada um deles caberia uma resenha robusta. A obra de Rubião não é fácil, longe disso. Sua escrita é impecável, direta, sem floreios ou maneirismos. Seu narrador é neutro, quase imperceptível. Os personagens, porém, parecem figuras do barroco mineiro que invadem o texto literário. Há grandes paixões e loucas convicções. Todas,porém, marcadas por uma forte repressão, que pode vir de uma figura externa, como no caso do conto que dá título ao livro, ou do próprio protagonista, como é possível ver em "Bruma", "A lua" e "Os três nomes de Godofredo".
Apesar da marcante repressão assinalada em muitos contos, Rubião evita moralismos e procura retratar a natureza humana com toda a sua incoerência, Uma natureza repleta de loucura, mas tal insanidade é arquitetada com lirismo e equilíbrio. O narrador de Murilo Rubião claramente joga um xadrez literário com o leitor, estabelecendo relações de claro-escuro que novamente remetem ao Barroco.
Vale registrar aqui o tom de galhofa do narrador do conto "D. José não era", dando à narrativa um tom leve e muito bem humorado.
Não posso deixar de mencionar o papel da realidade nos contos presentes em A casa do girassol vermelho. Como se fosse uma personagem qualquer do livro, a própria realidade é torcida e por vezes abandonada, de forma que a narrativa ganha contornos oníricos. Por vezes, a realidade retorna, como um defunto, ou como as mulheres de Godofredo, de forma a sempre lembrar ao leitor de que - infelizmente - o mundo do real continua sendo mais absurdo que qualquer ficção ou fantasia.
Assim, com um texto impecável, evocações oníricas e complexas relações de sentido, Murilo Rubião oferece ao leitor em A casa do girassol vermelho uma verdadeira incursão a um mundo de "loucura arquitetada", vívida e, sobretudo maravilhosa.

Ficha Técnica
Título: A casa do girassol vermelho
Autor: Murilo Rubião
Ano: 1980
Páginas: 62
Idioma: português
Editora: Ática

Um comentário:

Norma de Souza Lopes disse...

Me provocou interesse sua resenha. Vou ler e te conto <3