domingo, abril 05, 2015

Vestindo memórias


Gastamos parte da nossa manhã contemplando os telhados do bairro pela varanda. Ela parecia curiosa com os próprios pés, ou com as reentrâncias de sua alma, eu não saberia dizer. Minha curiosidade não conseguiu vencer as barreiras de rugas e tempo. Ao menos a princípio.
Fiz-me à sua disposição. Larguei livro, celular, qualquer coisa que me distraísse dela, que disputasse com ela a atenção. Ela então começou a comentar sobre sapatos perdidos. E eu me perguntando se não seriam metáforas para os filhos, pelo menos para os irremediavelmente perdidos.
De repente, ela ergueu a cabeça. Seus olhos pareciam perfurar os meus. Contou-me sobre o fogo que devorou parte de sua história. E contou-me mais. Falou de sua luta para trabalhar. Das dificuldades da distância. Das cartas que meu avô lhe escrevia, uma por dia. 
E senti um desejo enorme de mergulhar nessas memórias deles, em fazer parte deles, além do simples DNA. Queria banhar-me em suas almas. Eu queria me vestir de suas vidas. Queria pra mim aquelas cartas.

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