domingo, julho 27, 2014

A Cidadela - Parte III de IV

Ir para A Cidadela - Parte II de IV

Uma presença inegável respondeu como algo que invadia sua mente qual uma onda. Lorguth atendia ao seu chamado com uma vivacidade incrível. Da lâmina emanavam sentimentos muito próprios, mas era difícil para Seridath identificá-los, distingui-los dos seus próprios sentimentos. Mais uma vez o rapaz teve medo. Temeu ser subjugado. Lembrou-se então da vergonha que sentira quando a espada não funcionou. Aquilo tudo era parte do teste e, para ser aprovado, ele precisava dominar sua arma, fazê-la erguer suas vítimas para que elas novamente lutassem por ele.
O rapaz levou um bom tempo para conseguir separar os seus pensamentos dos de Lorguth. Quando sentia cansaço mental por causa do exercício, deixava de tocar a lâmina para conseguir certificar-se de seu próprio eu. Mas logo ele já conseguia identificar a presença da consciência da espada junto à sua própria. Percebeu que Lorguth transbordava volúpia. Ela havia impulsionado a querela contra Balgata e o desprezo contra Aldreth. Talvez ela o tivesse impelido a ingressar na Companhia. Até aquele momento, o rapaz não fizera nada mais do que obedecer aos impulsos caóticos de sua companheira.
Outro sentimento forte na lâmina era uma euforia quase pueril. Lorguth não estava interessada no sangue dos homens dentro da cidadela. Ela ansiava provar o sangue de algo maior, mais forte. Seridath sentiu uma palavra surgir involuntária em sua mente: “Tominaro”. O cavaleiro surpreendeu-se, desconhecendo o significado dessa palavra. Mas havia também outra coisa, a expectativa de um encontro. A espada transmitiu a Seridath que havia um ente incrivelmente poderoso naquele exército de mortos. Talvez mais de um.
Aquilo era um problema para Seridath. Balgata e os outros esperavam que ele cumprisse sua parte. O guerreiro precisava invocar os servos de Lorguth antes que a caravana chegasse à cidadela. Ele acreditava que todos os entes vivos que fossem mortos pela sua espada deveriam tornar-se como aqueles dois monstros que surgiram em Keraz. Na verdade, deveriam ser três, o número de vítimas que Seridath fizera em sua primeira luta. E se as usas suposições estivessem corretas, os argros e as criaturas mutantes engrossariam suas fileiras.
Se três monstros fizeram aquele estrago em Keraz, as novas vítimas seriam uma temida força, e Seridath contava com isso. O plano era simples: Balgata e alguns homens teriam que segurar os portões abertos até que os servos invadissem e matassem qualquer inimigo, poupando somente quem estivesse desarmado. O capitão parecera vacilante na adoção a esse plano, mas as opções de que dispunha eram realmente escassas. 
Enquanto Seridath estava imerso em sua luta pessoal com Lorguth, os sobreviventes se preparavam para dar início ao plano para tomar Arnoll. Balgata ainda lançou um olhar para trás, para o interior do bosque, esperando que sua escolha não os condenasse. Era um risco que estava disposto a correr. 
Nas entranhas do bosque, Seridath continuava a fazer suas descobertas, como que mergulhado em profunda meditação. O jovem começava a distanciar-se da realidade sensível e física, para penetrar em uma densa escuridão. Lentamente ele começou a perceber que agora era a espada que o conectava ao mundo real. Deixou-se levar, ainda que com cuidado, por esse caminho escuro, penetrando nas sombras profundas.

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