terça-feira, abril 01, 2014

Trinta e um de março e primeiro de abril

Seu nome era Nestor Antônio Medina. Nascido em 1917, segundo seus documentos. Sua profissão, ferroviário. Seu crime, levar panfletos "subversivos" ao trabalho e distribuí-los aos colegas. Por cinco panfletos que recebeu pelo correio e em seguida repassou a outros, Nestor Antônio Medina ficou preso por 81 dias. 
Filiado ao Partido Comunista, foi torturado por dias, por causa de panfletos.
Ele sobreviveu, mas com marcas profundas.
Então, fico triste e impressionado quando vejo pessoas que considero esclarecidas compartilhando fotos de velhinhas "ingênuas" segurando cartazes dizendo que sobreviveram ao regime militar porque nunca roubaram, nunca mataram. Não percebem que estão sendo usados, assim como as velhinhas, como massa de manobra de um jogo político escuso e perverso, sem mocinhos ou heróis.
Ao ler os relatórios policiais sobre a prisão de Nestor Antônio Medina, pude conferir que em nenhuma vez ele se envolveu em qualquer ação violenta. Reafirmo: seu crime foi mobilizar seus colegas de trabalho, incentivando-os ao engajamento político.
Nos anos que vivi sob o mesmo teto que Nestor Antônio Medina, nunca o vi fazer qualquer apologia à violência ou à luta armada. Nunca o vi defender a invasão da propriedade ou a "revolução operária". Ele sempre nos disse: estudem, estudem e estudem. Era seu único e mais precioso conselho. 
Então, por favor, antes de fazer coro em alguma coisa, antes de reforçar o discurso de que os presos políticos foram presos porque roubavam e matavam, peço apenas uma coisa: estudem.

Este relato foi motivado por imagens tendenciosas propagadas nas redes sociais. Tais imagens reforçam preconceitos e estereótipos totalmente fora dos fatos. Não tenho nenhuma intenção em disparar elogios a qualquer ideologia. Apenas creio que não devemos nos esquecer, como acontece muitas vezes, de tudo o que aconteceu nestes últimos 50 anos. Que o sofrimento do meu avô, que sua humilhação, não tenham sido em vão!

2 comentários:

Luciana disse...

Oi, Samuel!
Esse tipo de mensagem equivocada me revolta muito. Seu post veio em boa hora. As pessoas que falam esse tipo de coisa não sabem o que foi a ditadura. Além disso, há aquelas que simplesmente são a favor e ponto. Fazer o quê.
Vida longa à memória de seu distinto avô.
Abraços,
Luciana.

Dora Delano disse...

Belo relato, Nerito!