sexta-feira, novembro 08, 2013

Cira e o Velho: Onde mito e verdade se encontram

Conheci Walter Tierno no evento Livros em Pauta, ocorrido dia 19 de outubro de 2013. Fiquei impressionado com a postura sóbria, jovial e humilde desse escritor que tem muitos anos de experiência na área editorial e da publicidade. Fiquei também muito interessado quando soube que esse autor aborda o folclore brasileiro, pois eu também o abordo como matéria para meus textos, em especial no livro O Medalhão e a Adaga

Deixei o evento com dois livros de Tierno: Cira e o Velho e Anardeus. Comecei então a leitura do primeiro e já fiquei absorvido pelo narrador, por seu tom intimista de quem está nos contando um "causo". Outro elemento que me cativou foi a referência ao jogo do bafo, que brinquei na minha infância. Já completamente seduzido pelo texto, ingressei em um universo situado no Brasil Colônia do século 17, mundo povoado por criaturas mágicas, homens inescrupulosos e poderes ocultos. E habitado, principalmente, por Cira.

O texto é dividido em três grandes blocos narrativos. A primeira, mais fragmentada, é assumida pelo narrador do romance, em primeira pessoa. Acompanhamos os relatos desse narrador em sua tentativa de descobrir cada vez mais sobre a personagem Cira, filha de Cobra Norato com uma poderosa feiticeira chamada Guaracy. Assim, o narrador vai gradativamente nos introduzindo a um mundo fantástico, onde as pessoas vivem mais do que o normal, por mero capricho da Morte e entidades sobrenaturais existem, escondidas no submundo de nossa sociedade urbanizada. 

O segundo bloco narrativo narra a missão de Domingos Jorge Velho, o mesmo personagem histórico por trás da destruição do Quilombo de Palmares, para matar os filhos de Cobra Norato, a mando de Maria Caninana. Neste bloco conhecemos toda a ganância e mesquinhez do Velho.

Já o terceiro bloco narra o tema central do romance, que é a vingança de Cira contra o Velho. Essa vingança que concede ao livro o seu título. Descobrimos que Cira é uma personagem relativamente simples, embora viva em um mundo denso e complexo. Representando a inocência natural, Cira é feroz com os inimigos e benigna com os amigos. Seus sentimentos são francos, diretos. Talvez seja por isso que a protagonista do romance se aproxime tanto com o ideal heroico grego. Sem entregar demais o enredo, acredito que a missão de Cira, ou sua vingança, se aproxime também do heroísmo grego.

Aí se encontra toda a genialidade de Walter Tierno, que mescla com maestria elementos clássicos com a nosso folclore rico, dando forma a uma narrativa épica. Seus personagens são inesquecíveis, em especial Maria Caninana e Cobra Norato, com sua dualidade fáustica. A forma que Tierno utiliza para atualizar os elementos folclóricos lembra um pouco o que Neil Gaiman faz com o excelente Lugar Nenhum. Ainda assim, não devemos comparar os dois autores, pois a gravidade que Tierno concede ao seu romance, com seu tom épico, se afasta em muito da abordagem de Gaiman.

Novamente, sem querer entregar o enredo, digo apenas que o desfecho do romance é sem dúvida uma surpresa que passeia do agradável ao terrível e confirma todo o poder da criatividade desse autor.

Com um texto atual, cheio de ritmo e com muita dose de ação, Cira e o Velho mostra a força da nossa literatura de fantasia que, sem elfos, gnomos ou dragões, tem um rico universo a oferecer.

Ficha Técnica
Edição: 2
Editora: Giz Editorial
ISBN: 9788578550851
Ano: 2010
Páginas: 232

Página do livro no site do autor: http://www.waltertierno.com/p/cira-e-o-velho.html

3 comentários:

paula juliana espindola da silva disse...

Seguindo e Curtido!!
Retribui??
http://overdoselite.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/overdoselite

Bjus

Clovis Cardoso disse...

Oi te indiquei a um selo lá no meu blog é só acessar o link: http://booksofseasons.blogspot.com.br/2013/11/the-versatile-blogger-award.html
Abraços do Books Of Seasons!

Nerito (Samuel Medina) disse...

Obrigado, Clovis! Grande abraço!