sexta-feira, maio 10, 2013

História da água - o sinuoso percurso da memória

Fonte: divulgação

A vida é algo muito difícil de ser definido. Ainda assim, a humanidade busca, ao longo da História, transformar em palavras algo tão abstrato quanto vasto. Contudo, há certos fatos intrínsecos à palavra vida. Por exemplo, a vida na Terra só foi possível por uma série de fatores, entre eles a água. Ou seja, não podemos negar que a água é o elemento essencial à vida.

Algumas religiões utilizam-se das propriedades da água como alegoria da existência espiritual. Nada mais lógico. Afinal, a água pode assumir várias formas e estados, embora tenha uma mesma essência. Em muitas crenças o mundo teria começado com um grande mar e mesmo em algumas narrativas a água é usada pelas divindades para dar fim a toda a existência, seja humana ou não.

Outra bela alegoria é do rio, que representa a inexorável passagem do tempo, o correr das águas como as experiências que vivenciamos e nunca mais poderemos reviver, ainda que as busquemos pela memória. Além deste fato, as águas, sejam em rios ou mares, também demarcam fronteiras, territórios, constituindo-se num "espaço sem espaço", num entre-lugar.

Não tenho certeza se por acaso a Laura Cohen Rabelo pensou em tudo isso quando começou a escrever o magnífico História da água e na verdade não me importa saber. O fato é que a água está lá, com toda a sua potência, com a sua sugestão de vida e morte. 

A linguagem é cadenciada, musical. É um livro delicioso de se ler. Nele conhecemos a jovem Eira, acadêmica de literatura, cercada por grandes desastres que definiram sua alma, marcaram sua história. Filha de um grande escritor e pesquisador, Eira sente viver à sombra do pai. Seus dois irmãos, Lucian, o mais velho, e Anya, a caçula, são formados em música e alcançaram a idade adulta longe de Eira. Ambos falam alemão e possuem promissoras carreiras na área musical. Assim, Eira sente-se como que estrangeira de seus próprios irmãos, embora possua com cada um deles laços de amor bem fortes e peculiares.

Composto por uma narrativa não-linear, o romance usa da linguagem para delimitar territórios ou espaços narrativos, sejam eles simbólicos ou  físicos. "Demônios Acadêmicos", por exemplo, é narrado por Lucian e relata muito cuidadosamente os percalços intelectuais e amorosos de Eira. É interessante como o narrador por vezes assume o papel de irmão mais velho, por vezes o papel de amigo confidente. Já "A Casa de Odisseu" é narrado por Anya e relata com muita delicadeza a busca de Eira por reconfigurar sua vida, desvinculando-se do passado, ou melhor, dos passados que a assombram.


Todavia, nenhum personagem é tão fascinante quanto Eira. Seu nome, se buscado no dicionário, significa um lugar que tem profunda relação com a água, embora um dos significados seja justamente "Terreiro em que se junta o sal ao lado das marinhas", ou seja, um lugar drenado. E podemos ver uma certa secura na protagonista, justamente por ser uma ex-nadadora, obrigada a abandonar o esporte por conta de um acidente. Esta secura, inclusive, evidenciaria a sombra de uma outra vida, abortada. Como se por seu nome, Eira, a personagem principal sofresse a água que perdeu, a vida que se esvaiu, mesmo sendo tão jovem. Sua tristeza é bela, não apenas pela estética no uso da linguagem, mas pelo elemento fáustico que evoca. Eira sabe que não pode escapar de seu destino, mas luta contra ele, embora a cada embate ela inexoravelmente reforce esse mesmo destino, pois suas limitações também são parte de si.

Finalmente, declaro que História da água foi uma deliciosa viagem, um percurso sinuoso por uma história singela, profunda e forte. Sendo o romance de estreia de Laura Cohen Rabelo, esta obra assinala com veemência a sobriedade, a competência e sobretudo o talento desta jovem escritora.

Ficha Técnica

Edição: 1
Editora: Impressões de Minas
ISBN: 9788563612076
Ano: 2012
Páginas: 183


Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/287055-historia-da-agua

PS: Eu desejava escrever muito mais sobre o livro. Foi a leitura mais prazerosa de 2013 e uma das melhores que já tive. Há diversos aspectos presentes na narrativa que me fazem passar horas e horas pensando. E continuo vivendo com Anya, Eira e Lucian. Suas palavras continuam ecoando em mim. E creio que ecoarão perpetuamente, como o perpétuo ciclo da água.

2 comentários:

carlos augusto Andrade disse...

Olá. Parabéns pela postagem. Estou seguindo seu blog, e gostei muito dele. Siga o meu gauchaopina.blogspot.com, se puder. Curta a minha página no Facebook também: http://www.facebook.com/BlogPlanetaCurioso?ref=hl Até mais e obrigado. Um abraço. Blog bem legal !

Nerito disse...

Olá! Obrigado por seguir e também por gostar do meu blog. Eu já estou conferindo (e seguindo) o seu também! Abraço!