segunda-feira, dezembro 12, 2011

Um conto de natal – Parte I


Eu caminhava pelas movimentadas ruas do centro, tentando inutilmente proteger-me do frio com a gola da minha jaqueta. Sim, este é um conto de natal, e todo conto de natal tem que ser aclimatado em uma baixa temperatura, se possível com neve e pessoas taciturnas, cobertas de casacos. Mas estamos em um natal dos trópicos e, por isso, não haverá neve e será verão. Providencialmente, uma frente fria chegou. Motivo do frio que veio a calhar perfeitamente em nosso conto.

Estou andando, sim, tentando não esbarrar com nenhum dos frenéticos cidadãos que precisam fazer suas compras de véspera de natal. Milhares de pessoas acotovelam-se na calçada, em busca de tentadoras ofertas que façam seu presente valer até o último centavo. Eu, porém, não compartilho desse frenesi. Ando à revelia, estou buscando uma cena que sirva de inspiração para meu conto. Infelizmente, apesar do frio, meu natal está pobremente provido de elementos inspiradores. Não existem papais noéis balançando sininhos e pedindo esmolas. Isso é coisa de filme americano. E na verdade quase não vejo Papai Noel algum. Eles estão todos confinados aos Shopping Centers.

Uma idéia atravessa minha mente. É isso! Talvez em um Shopping, devidamente ambientado de acordo com o espírito do natal, eu possa encontrar a inspiração certa para um lindo conto. Sigo quase correndo para o Shopping. Estou com pressa, assim como todos os compulsivos compradores, mas não quero comprar nenhum presente. Quero na verdade criar um conto, presentear o mundo com uma história comovente, talvez até resgatar minha alma.

Entrei pelos altos portões de vidro e senti uma lufada do ar condicionado, mais fria do que lá fora. O caloroso espírito do natal evidentemente já tomava conta dos corredores do Shopping, abarrotado de pessoas que só paravam poucos segundos diante das vitrines para examinar quase mecanicamente os produtos exibidos. Fiquei observando esse bando de autômatos, enquanto andava, calmamente, pelo largo corredor, já assimilando a magia que enchia os enfeites de natal. Tudo é paz, tudo amor. Uma música natalina quase não conseguia superar o barulho de vozes e passos apressados. Segui pelo corredor até chegar ao pátio central, onde uma imensa árvore de natal fora armada.

Meus olhos pararam diante dos enfeites. O trenó, as renas, os duendes, todos inanimados. Somente o Papai Noel esbanjava vida, cobrando módicos valores aos afortunados pais que quisessem satisfazer a vontade de seus filhos de tirar uma foto sentados no colo do bom velhinho. Enquanto eu divagava diante da cena das crianças quase se esmurrando para ter a primazia junto ao Papai Noel, um tumulto começava a surgir alguns metros atrás de mim.

Antes que eu pudesse me virar para observar do que se tratava, o causador da bagunça já passava por mim e andava apressado na direção do trono do velhinho Noel. Assustei-me com a figura. Parecia uma criança, à primeira vista, devido à baixa estatura. Mas, gastando um pouco mais de atenção no exame, qualquer um veria que aquela pessoa não seria uma criança de fato. Seus cabelos eram grisalhos e lisos, embora grossos e cobertos por um gorro verde. Tinha-os na frente aparados rente aos olhos e, atrás, na altura na nuca. Um par de orelhas pontudas despontava além do gorro, insinuando que aquela pessoa não era um ser humano. Seus olhos eram astutos e confiantes, embora estivessem um pouco tristonhos, adornados por sobrancelhas expressivas, também grisalhas. Um bigode espesso cobria o lábio superior, dando à criaturinha um certo ar de autoridade. Sua roupa era toda verde, guarnecida de guizos prateados.

A princípio, quis negar o que meus olhos denunciavam e imaginei que poderia ser um anão fantasiado, talvez um mendigo que conseguira driblar os seguranças, que seguiam atrás dele.

De fato, sua roupa não estava lá um primor. Tinha vários remendos e alguns guizos faltavam, enquanto outros estavam manchados, escurecidos pela ferrugem. Aquelas orelhas não pareciam ser falsas, é verdade, mas existem hoje fantasias que simulam totalmente um personagem natalino. E esse sujeito era idêntico às estátuas de duendes que acompanhavam o trenó e as renas de mentira que enfeitavam a árvore de natal do Shopping.


11 comentários:

medinalages disse...

Estou na expectativa!!!!

medinalages disse...

Estou na expectativa!!!!

Tyr Quentalë disse...

Conto de natal sempre são interessantes, ainda mais quando possuem algum mistério que você tão bem sabe carregar. Inspirações, relembranças... acho que você me compreende, não?
Afinal, você se lembra de um certo livro que contém contos de terror natalinos? Pois é... muahuahuahuahua!!!! Sabe que isso me lembra uma certa moça de cabelos negros e iris âmbar, com sobrenome que sempre confunde com lobisomens!!! Pois é!!!! Será? Será que ela ressurgirá?

Fefa Rodrigues disse...

EBAAAAAAAAAAAAAAA

MAIS UM CONTO!!! ;O)

Fefa Rodrigues disse...

Nerito... me pedir uma sugestão sobre Gabriel Garcia Marquez é me deixar confusa, como pedir pra uma criança escolher apenas um doce na padaria!!!

Para mim, os melhores são Cem Anos de Solidão e Amor nos Tempos do Cólera... simplemente não consigo dizer qual é melhor!!

Mas, tenho uma leve impressão de que vc vai gostar mais do segundo...

Leia, também, Memórias de Minhas Putas Tristes e Do Amor e Outros Demônios... e vou te dizer uma coisa... depois que vc ler um vai querer ler tudo (pelo menos é isso q eu acho... olha eu criando expectativas de novo e depois fico com medo de vc não gostar!!!)...

Mas é que a literatura dele nos leva para outro mundo, ainda que não seja uma Terra Mágica, um mundo criado... na verdade, acho que ele revela a magia da vida real!!!;o)

Abraços
Fefa

Dora Delano disse...

primeira linha:

gola dA minha jaqueta.

Li o comentário da Fefa acima e tenho que dizer que eu casava com Gabriel Garcia Marquez. Eu acho que vc deve muito ler CEM ANOS DE SOLIDÃO e AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Depois, vc deve ler a autobiografia dele.

Leia DOZE CONTOS PEREGRINOS, EU NÃO VIM FAZER UM DISCURSO, NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL e OUTONO DO PATRIARCA.

Deu vontade de morar perto de vc e te emprestar os livros ahauahuahauahuuahuahu.

Conta pra mim tbm as suas impressões quando acabar de ler??? =)

Fefa Rodrigues disse...

Concordo com a Dora!!!

Gabo é perfeito!!!!

Mas eu não sei pq tenho a impressão de que vc Nerito vai gostar mais de Amor nos Tempos do Cólera... acho q por vc ser alguém que escreve, portanto, alguém sensível, por isso, este livro vai tocar mais vc!!!

Nerito disse...

Alteração realizada!

Meninas, podem deixar que já anotei as indicações. Não vou perder a oportunidade de ler este autor.

Aproveitando que agora trabalharei em uma biblioteca enorme, com vários e vários títulos...

Fefa Rodrigues disse...

Nerito...

Primeiro, quanto ao Ramsés, acho que vc teve o mesmo problema que eu tive com o Alexandros, eu chegava a me irritar com os diálogos... agora, Ramsés eu li faz muuuuuuuuuito tempo e na época eu ADOREI... mas eu ainda não tinha lido nada de fantasia na época e nenhum romance histórico, então, pode ser que hoje eu fosse mais critica com ele, mas, de modo geral, pelo que eu me lembro da história gostei muito...

Só não gostei depois que eu vi na Discovery um especial sobre ele e vi que, pela analise da múmia dele, conclui-se que ele era baixo e não muito forte... a imagem que eu tinha dele do livro foi por água abaixo...

ãhhh... outra coisa, só por curiosidade, vc trabalha numa biblioteca?

Que invejaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa....

hehehe

Tyr Quentalë disse...

No Aguardo da segunda parte de seu conto, enquanto isso, deixo para ti a continuação da participação das Moiras em Arcádia. ;)

Fefa Rodrigues disse...

Nerito... vim aqui et desejar Feliz Natal!!!

Abraços!!:o*

Fefa