sábado, dezembro 03, 2011

A Sombra do Vento - A sombra do livro

A Sombra do Vento
Quando um livro deixa de ser mero objeto? Na resenha passada, falei sobre esse poder que algumas obras literárias (se não todas) sobre nossas almas e que nunca somos os mesmos após a leitura de um livro.

Nem sempre somos fisgados ou cativados por um texto, por mais sedutor que ele seja. Pode acontecer, no entanto, que sejamos seduzidos sem nem sabermos. Torcemos o nariz para o livro durante toda a leitura para, ao fecharmos as páginas, descobrirmos que a história não será esquecida, que fará parte de nós, que a narrativa irá reverberar em nós, durante nossos silêncios, acompanhando nossa jornada na vida como uma sombra.

Foi um pouco do que aconteceu quando terminei a leitura de A Sombra do Vento. Uma leitura controversa, confesso. Isso porque o livro, por mais bem escrito (as imagens literárias são lindas), ainda não havia cativado este leitor aqui. Continuei resistente até próximo ao final, mais especificamente ao fim de uma parte que se constitui o depoimento de uma das personagens mais importantes da trama. Descobri que estava amando a história.

A Sombra do Vento, obra de Carlos Ruiz Zafón, tem início quando Daniel, protagonista e narrador, desperta em sua cama desesperado, ao descobrir que não se lembra do rosto de sua mãe falecida. Daniel tem então dez anos. Seu pai, um homem sensato, sábio e sobretudo culto, resolve partilhar com o garoto um importante segredo: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Nessa mistura mágica de biblioteca e necrópole, o menino encontra um livro que irá mudar para sempre sua vida: A Sombra do Vento, escrito pelo obscuro Julián Carax.

O livro deixa o garoto tão comovido que ele passa a ser admirador de Carax. Infelizmente, não há muita informação sobre esse homem e os anos passam sem que Daniel saiba muito mais. Aos dezessete, porém, uma série de acontecimentos, dentre eles uma forte decepção amorosa, lançam Daniel em uma cruzada arqueológica cujo objetivo é desenterrar as obras e o passado de Julián Carax. Cruzada que se revelará cada vez mais perigosa, à medida que diversos personagens vão se revelando.

Durante a leitura, muitas vezes me perguntei sobre o sentido do título. Afinal, o vento não teria sombra. Quem leu de certa forma sabe a resposta. Apesar da beleza das últimas palavras do romance, pensei em uma gama mais profunda de significados. Na interpretação, damos muito valor ao que foi dito, mas existe também o não dito. Como Clarice Lispector bem disse, as palavras não existem para que as entrelinhas sejam estragadas. Elas servem para realçá-las.

Sendo assim, quando Zafón batiza seu romance com esse título, cria uma bela imagem poética, mas também fala sobre o valor da sombra na trama. Afinal, Carax é um personagem obscuro. Além de ter sido um jovem sombrio, o personagem também é quase desconhecido, quase vivendo na sombra. Se a razão é a luz, a loucura seria a sombra. E não podemos negar que um dos temas mais fortes presentes neste romance é a loucura.

Outro ponto que se revela como possibilidade é a relação entre obra e autor. Ao lermos um livro, pouco sabemos sobre o seu criador. Afinal, quem é esta pessoa que ficou horas a fio imaginando personagens e dando-lhes forma através de linhas e linhas de texto? O que levou essa pessoa a escrever? Existe algum sentido, alguma mensagem que ele desejava transmitir? Ou ele escreveu por puro prazer? Nem todo mundo se faz perguntas desse tipo, mas não podemos negar que as respostas nem sempre estão lá. Assim como aconteceu com Daniel, essas respostas podem estar nas sombras.

Sendo assim, de uma maneira bem ousada, divago até chegar à conclusão de que o livro seria o Vento e o autor sua Sombra. Ainda que invisível, o vento tem uma força incrível. Pode tanto dar forma quanto destruir. O vento é vida e tempo, pois é movimento em excelência. Movimento sem um objeto físico, sem um corpo. O vento muda o rumo dos barcos a vela no mar, assim como um livro mudou a vida de Daniel. Já a sombra é a pergunta que está além do vento. O que o impulsiona? De onde vem? Para onde vai?

É quase impossível imaginar os contornos da sombra de algo desprovido de forma. Eu disse quase. Esse é o poder das palavras e, a um nível maior, da Literatura. Poder de dar vida a conceitos e imagens que antes julgávamos impossíveis. O poder de dar forma ao mundo, de mostrar que a vida é mais do que parece.

Assim, Carlos Ruiz Zafón, em seu A Sombra do Vento, dá forma a ideias controversas. Algumas quase terríveis, outras sublimes de tão belas. Se você quiser se enveredar por essas ideias, bem-vindo. Se não, pode também se encantar com a glamourosa Barcelona dos anos 1950, sempre bela sob a chuva. Pode testemunhar a beleza do amor adolescente. Tenho quase certeza de que, como eu, você sentirá que a viagem valeu à pena.

Ficha Técnica:
Título: A Sombra do Vento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
ISBN: 9788560280094
Ano: 2007
Páginas: 399
Tradutor: Márcia Ribas


Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/103

8 comentários:

Tyr Quentalë disse...

Acho que eu me identificaria muito com esse livro! Valeu pela dica! Sei que você vai me deixar falida quando eu tiver dinheiro ;)

Diego França disse...

Li um livro a pouco tempo e foi exatamente assim: eu não vi um estímulo tamanho nele a ponto de me chamara atenção como outros livros, até que uma frase despertou total interesse e a trama ficou muito boa e instigante. Isso lá no meio do livro.
Cara acho que nunca falei, mas virei seu fã. Suas resenhas são extremamente bem feitas e elaboradas. Cheias de sentido e uma mostra de novas descobertas. Você é o meu "resenhista" predileto.
Parabéns!!

Fefa Rodrigues disse...

Nerito... fiquei em extase com sua resenha. Você sabe que eu sou apaixonada por este livro, mas ai é que está a surpresa de se ter um blog... conhecer oturas pessoas que vão te dar outros pontos de vista daquilo que você já conhece tanto.

Apesar de ter lido 3 vezes o livro, sempre me detive mais na Barcelona dos anos 50 e nas sutilezas envolvendo os personagens (me lembra um pouco os absurdos narrados por Gabriel Garcia Marques)... mas agora, ao ler sua resenha, minha visão acerca do livro aumentou centenas de vezes...

Que bom que gostou... tive medod e ter estragado tudo exagerando as expectativas, mas, sua leitura foi além!!! ;o)

Que espero que posamos trocar mais experiências literárias!!!

Nerito disse...

Amigos... Amigos... Amigos...

Puxa, gente, valeu, mesmo. Também gosto de acessar seu Blog, Diego. Já vou colocá-lo aqui na minha lista ao lado. Você também faz resenhas legais, e ainda publica poemas! Isso é um feito. Há anos não escrevo mais poemas...

Fefa, essa resenha foi feita pra vc, que me indicou o livro. Afinal, essa paixão por livros que você tem é muito comovente. Seria tão legal se as pessoas fossem animadas assim com Literatura!

E Tyr, não precisa falir. Com certeza uma biblioteca aí na sua cidade deve ter um desses livros, viu? "A Sombra do Vento" eu peguei na biblioteca onde eu trabalho!

Abraços!!!!!

Dora Delano disse...

a história parece ser ótima! E cada vez que leio uma resenha aqui, lembro dos 10 livros na estante, novos, novos, que eu ainda não li...

CMachado disse...

Nerito sua resenha tá show!!

Essa observação a respeito do título, muito pertinente...
Sempre como vc pensei no porque do título...

Em um comentário seu, lá na Fefa e com essa resenha, achei uma característica sua perante um livro igual a minha.
Você lê curtindo a leitura a ponto de investigar minuciosamente tudo...porque o autor disse isso? sei lá, meio que leitura estudo, não sei se entende o que quero dizer!

Abç e parabéns pelo seu espaço!!

Nerito disse...

Realmente eu penso muito nisso... principalmente porque acho que o título é a alma do livro. Além de tudo, fico imaginando o que o autor pesou para produzir a obra. O que ele decidiu deixar no texto e o que ficou nas entrelinhas...

Abraço e obrigado!

Raquel Pagno disse...

Já li esse livro duas vezes e sempre fico fascinada com a escrita do Zafón. Sou suspeita para falar, pois sou uma grande fã, mas outro espetáculo deste autor é O Jogo do Anjo (que já li três vezes!), que ressuscita alguns personagens de A Sombra do Vento e insere novas tramas no mesmo cenário envolvente da antiga Barcelona.
Aliás, nenhum texto do Zafón deixa a desejar. Tenho todos e posso garantir que são perfeitos, inclusive O Príncipe da Névoa e Marina, que traçam uma linha mais juvenil.