quarta-feira, agosto 10, 2011

As marcas da mão dela


Era para ser um blog literário. Mas hoje será somente um blog. Um diário, sim, com a única função de tentar capturar um momento que, ainda que não saibamos por qual motivo, consideramos precioso.

Cheguei à casa dela por mero acaso. Digo que não foi planejado. Já queria visitá-la, tentava ligar com certa regularidade e ficava imerso em culpa por não conseguir concretizar esse intento. Sabia que ela sempre estaria lá, nessa inércia que atua em cumplicidade com as culpas cultivadas e administráveis.

Toquei o interfone, subi os dois lances de escadas e descobri a porta aberta. Gesto tácito de que sempre seria bem-vindo, sempre aguardado. Apesar de tudo, foi com a hesitação dos filhos pródigos que entrei.

Descobri, então, que ela não estava no sofá de costume. Na verdade, ela repousava em um recanto que eu ainda não conhecia. Acuada pelo calor, ela repousava em uma área interna. Beijei-a e fui beijado, enquanto perto dela procurava refazer suas memórias, costurando com a linha das palavras, embora sem agulhas.

Ela parecia distante, alheia, formal demais. Em determinado momento, desistiu e caiu em pranto: "Eu não consigo lembrar quem é ele..." Enquanto eu, com um copo de suco na mão, o estômago pesado, senti, ainda que por um segundo, ser algo sem existência, um ínfimo espaço nulo, negado.

Consternado, busquei forças para voltar a existir, para me impor no mundo dela, ser alguém de novo. Com suas mãos entre as minhas, eu tentava repetir o gesto que sempre fazia quando criança, seguindo com o polegar e o indicador as marcas da mão dela, segurando com a pontinha a pele, sentindo sua leveza carregada de idade. Ela então, meio que aliviada, disse que estava agora lembrando, enquanto eu ainda parecia não acreditar que havia sido devolvido à existência.

Carreguei-a no colo de volta à sala. Massageei seus pés com óleo, acariciei seus cabelos. Mas nada arrancava de mim a sensação de nulidade, enquanto eu a via em luta constante com insetos invisíveis e visitas indesejadas, imaginadas.

Enfim foi preciso partir. Beijos, abraços, pedidos de bênção. E a sensação incômoda de que eu não poderia deixar com ela um pedaço meu. Deveria ir embora levando comigo todos os meus cacos.

6 comentários:

joaoemilio_ml disse...

Nuss! Lindo demais, Muel. Sem palavras!

Rosa Maria (http://rosacroft.blogspot.com/) disse...

Tenho três palavras para você: Sublime, lágrimas e saudade.

Bianca disse...

LINDO. É a Vó?? De quem vc fala? Parabéns pelo blog.. gostei demais.

Denise disse...

Gostei demais da história e fiquei muito emocionada ao ler, pois eu vivi isso... Quando minha avó não me reconheceu pela primeira vez, eu enchi os olhos de lágrimas e fiquei com um nó enorme na garganta. Hoje ela descansa num lugar muito lindo, pois acho que Deus sempre reserva um lugar muito bom para as avós especiais.

Tyr Quentalë disse...

Nossa.. fico um tempo sem passar por aqui e descubro que tenho muito o que ler. E quando descubro onde parei, deparo-me com o texto seguinte que é forte, angustiante e que deixa qualquer um baqueado. Não sei de quem se trata, mas que o texto torna-se lindo e pesaroso, isso eu posso afirmar. Parabéns ao regresso de seus escritos.

Lourdinha disse...

Muito lindo esse texto. Emocionante.