domingo, fevereiro 20, 2011

O profundo abismo da alma

Gostaria que este post fosse uma resenha sobre a peça A Tocaia, texto e direção de Ricardo Batista. Acontece que não me considero nem com talento nem com bagagem o suficiente para resenhar uma peça de teatro. Não mesmo. E ontem tive o prazer de mergulhar na narrativa psicológica de Cisne Negro, direção de Darren Aronofsky.

Ao mesmo tempo que ambas as obras tratam de histórias tão diferentes, considero que elas abordam um tema comum: o abismo que a alma pode cavar dentro de si mesma, criando um labirinto de imagens que vão aos poucos sufocando seu dono.

A peça a que me refiro teve apresentação única aqui em Belo Hoizonte, no Palácio das Artes, no dia 16 de fevereiro, durante a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Confesso que eu estava ansioso por assisti-la. Eu havia perdido a oportunidade na campanha anterior. Por conta disso, comprei os ingressos ainda na primeira semana que os mesmos estavam disponíveis.

Já o filme foi mais fácil... Como o cinema hoje em dia é muito mais acessível que o teatro, foi só ficar sabendo que a película havia sido lançada nas principais salas dos shoppings. E ambas foram intensas experiências de sentidos. E me atrevo a dizer que ambas as obras têm o poder de aguçar no espectador o seu sexto sentido.  

Em A Tocaia, um assassino contratado para matar um viajante em uma pedreira abandonada acaba por ser emboscado por seus próprios medos e culpas, pelos fantasmas de seu passado. Em Cisne Negro, uma dançarina de balé, para conseguir o papel de sua vida, sacrifica tudo, inclusive sua sanidade. Mesmo que as diferenças estejam claras, o elemento que pode ligar as duas narrativas talvez seja justamente a loucura. 

O assassino Geraldo "das Almas" é meticuloso, desconfiado e implacável. Já a dançarina Nina carrega pelo menos duas dessas três características. E é justamente o que lhe falta é essa impiedade, a coragem de expressar seu desejo e buscá-lo sem se importar com as consequências. Mas aos poucos dentro de Nina o Cisne Negro, aquele que concederá à dançarina o poder de ser implacável, irá emergir. E Nina aos poucos se entrega, disposta a ser o Cisne Negro, mesmo que isso a destrua.

Ainda que haja um certo tom alegórico nessas duas narrativas, o que mais me fascinou foi a desconstrução da fábula, da moralidade, da lição a ser aprendida. Tanto o assassino quanto a bailarina, personagens tão diferentes, acabam por perceber que estão em uma armadilha e que a vida e a sanidade estão em jogo. Mas ambos têm um compromisso mais forte com seu próprio destino. Um compromisso selado por um ato de morte. E é esse tom fáustico que se mescla ao fantástico, uma viagem de pesadelo.

Não posso me esquecer de mencionar Tchaikovsky, cuja obra reverbera por todo filme Cisne Negro, tornando sublime o que já era excelente.

Um comentário:

Tyr Quentalë disse...

Ainda não vi o filme e sequer vi a peça de teatro que você mencionou, mas dos dois, O Cisne Negro, as pessoas que convivem comigo e acompanham a Alice Lupin, dizem que eu amaria o filme por seu mergulho ao fundo do Abismo e toda a trama psico-emotiva que carrega em sua trama. Um dia quem sabe, eu veja o filme e a peça, por enquanto, fico eu a ler os comentários diversificados do filme.