sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Se vivêssemos num lugar normal: quando as palavras não bastam

O que fazer quando as palavras são a sua única arma, mas esta se mostra totalmente inócua em um mundo em que a miséria e a loucura dominam? De que adianta o conhecimento, a retórica, a argumentação, se a força bruta, sempre surda, ignora todas as razões a ela apresentadas? Estas perguntas e muitas outras assombram o leitor de Se vivêssemos num lugar normal, segundo livro da trilogia sobre o México, escrita por Juan Pablo Villalobos.
Este é um livro totalmente irônico. O narrador é Orestes, apelidado Oreo, um rapaz no fim da infância e início da adolescência. Filho de um professor helenista, ele e os irmãos compartilham os insólitos nomes de figuras gregas. Aristóteles é o mais velho. O segundo, o narrador. Logo abaixo estão Arquíloco, Calímaco, Electra e, por último, Castor e Pólux, os chamados "gêmeos de mentira". 
A narrativa é repleta de um humor corrosivo. Logo de início Orestes vai desfiando os absurdos e as incoerências de uma família com um certo grau cultura, mas dominada pela pobreza.
Villalobos cria um narrador que passeia entre a inocência pueril e a maligna ironia adulta. Orestes, a todo o momento, trata de ideal e realidade, sendo esta última de uma crueldade óbvia. Um exemplo é quando o garoto fala de sua relação com o irmão mais velho e as disputas entre ambos. Oreo revela que é um excelente orador, usando de suas palavras para tentar vencer o outro, maior e mais forte. Aristóteles, por sua vez, pouca importância dá para os rebuscados argumentos do irmão mais novo. Resolve tudo na porrada mesmo.
O universo concebido por Villalobos é surreal. Mundo de fome, injustiça, corrupção e loucura. Um dos episódios mais insólitos acontece com o desaparecimento das duas crianças mais jovens, Castor e Pólux, ocorrido logo no início do livro. Tanto a polícia quanto a mídia tratam a situação de uma maneira que beira o ridículo, através da exploração do sofrimento da família. O policial responsável pelo caso se cerca de palavras de complacência, enquanto um canal de televisão procura explorar o caso através de sua espetacularização. E posso afirmar que qualquer semelhança com um certo país não pode ser mera coincidência.
Ainda assim, Se vivêssemos num lugar normal é um romance sobre o México, suas mazelas e desgraças. Uma obra contundente, mas que sustenta um bom humor, o que permite que o leitor siga pelo enredo sem que o gosto amargo na boca seja forte demais.

Ficha técnica:

Título: Se vivêssemos num lugar normal
Autor: Juan Pablo Villalobos
Tradução: Andreia Moroni
Editora: Cia das Letras

2 comentários:

Pam disse...

Amor, você trouxe a realidade do livros na resenha, mas discordo da sua última colocação. Não dei conta de concluir tamanha a tristeza que eu sentia enquanto lia.

Samuel Medina (Nerito) disse...

Puxa, meu amor, que pena! Realmente, o humor dessa trilogia do Villa-Lobos é ácido. Por vezes as situações nos livros dele nos fazem rir para não choramos... Beijos!