Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

domingo, agosto 30, 2026

Depois que eu conheci você

Esta foi a lua que eu consegui “capturar”.


Ontem, eu vi a lua

através de uma camada

translúcida

de nuvens

ela me olhava.

Em choque

percebi

era como seu olhar

a me espreitar

atrás de um véu

diáfano.

A lua nunca será um

satélite

depois que conheci

Você.


27/08/2026

sábado, agosto 29, 2026

Desbravar-se poeticamente: "Versos roubados" e a reescrita de si

Uma resenha, um livro, um percurso.


 


Faz um tempo enorme que eu não publico uma resenha. Na verdade, faz muito tempo que de fato eu não escrevo uma. E confesso que gosto de escrevê-las. O exercício me ajuda a pensar no que eu gosto em determinado livro, em como a leitura que fiz me toca. E de quais maneiras esses afetos se manifestam.

Quando li pela primeira vez Versos roubados, de Vívian Marchezini, imediatamente pensei: “Eu preciso falar desse livro!” E não foi porque havia um elemento afetivo, por conta do namoro com a autora. Sim, a paixão marcou a leitura, mas a exploração contínua dos poemas, a constante releitura, foram evidenciando que não era a paixão que motivava meu maravilhamento, mas o talento e a excelência da autora. 

Obra de estreia de Vívian Marchezini, Versos roubados vem com uma premissa interessante: o roubo evidenciado no título nada mais é que um método de escrita criativa. A pessoa abre um livro de poesia em uma página aleatória. Lê apenas o primeiro verso e o anota. Fecha o livro sem ter lido o resto do poema. Em seguida, escreve uma proposta de continuidade para o verso lido. Assim nasceram alguns dos poemas presentes neste livro da Vívian. Mas se engana quem acha que foram todos. Em termos absolutos, são 22 poemas escritos pelo método, num total de 65 (se eu tiver contado certo, é claro). Isso nos mostra que quase dois terços dos poemas não levam versos de homenagem a outras autoras e o resultado atesta que Vívian não se apoiou no método, tendo desenvoltura para produzir livremente.

E ainda falando de números, Versos roubados está dividido em cinco partes: “Despautar(se)”, “Escavar(se)”, “Fraturar(se)”, “Tecer(se)” e “Reflorir(se)”. Na primeira parte, a poeta como que abre caminhos, rompe fronteiras, traça destinos não cartografados. E essa cartografia é interior, como bem revela o “se” entre parênteses presente no título. Uma proposta de exploração anterior, para além dos parâmetros pré-estabelecidos, mas também como uma espécie de proposta de não se adequar, não encaixado em padrões ditados por outros. E o primeiro poema desta primeira parte, “Caderno pautado”, deixa isso patente.

Já a segunda aprofunda o movimento da parte anterior. Preparado o terreno, retirados os impedimentos, é hora da escavação. Há um mergulho em si, uma observação atenta de si mesmo, um mapeamento de afetos e memórias. A maternidade como desejo-realização-contradição aparece, assim como a identidade da escritora como alguém que se investiga.

Essa exploração, claro, traz perigos. É o que evidencia a terceira parte. A desconstrução, a fragmentação, seja ela intencional ou não, a perda de si, a percepção das interdições, da frustração, dos acidentes. E a pessoa-poética, lírica, resiste, pois precisa reconhecer esses perigos e lidar com eles. É momento de conhecer.

Vem então a quarta parte, com a reconstrução. Mas não é essa a palavra escolhida e sim o verbo “tecer”. Como algo muito mais artesanal, manual, singelo, íntimo. Menos pedra, mais fio. A persona-poética de Vívian tece a tessitura do texto e também de si mesma. É o momento da “Reza”, da descoberta da “Voz”, do encontro com as vozes de outras mulheres. 

Por fim, já pronta, a persona então segue para a quinta e última parte, para justamente dar frutos, realizar belezas, lançar para o mundo as maravilhas resultantes desse processo de transformação. Claro, não é uma romantização, uma idealização. As contradições estão presentes, como o belíssimo “Feliciteza”, meu poema preferido de toda a obra. Porém, essa parte é sem dúvida a mais solar do livro, celebrando a primavera e os recomeços, a beleza simples de coisas como um banho de chuva.

Agora, tudo o que escrevi pode ser desnecessário. Sim, este texto em nada se compara à experiência de ler Versos roubados e mergulhar nessa jornada íntima e poderosa. É um livro apaixonante, que nos faz querê-lo por perto, sorvendo a seiva poética, como se cada verso fosse um ramo de uma árvore frondosa e repleta de vida, gotejando alimento, sombra e fresco alento.


Ficha técnica 

Autora: Vívian Marchezini

ISBN: 978-65-83300-35-5

Ano: 2025

Páginas: 100

Gênero: Poesia

Editora: Escritoras Brasileiras

quinta-feira, agosto 20, 2026

Toda memória é uma cicatriz

wal_172619


No rastro do tempo 

cofio as barbas de eras 

ferido estou de morte 

meu crepúsculo se avizinha. 


Naquilo que eu mais amo 

sinto minha perdição. 

Sou daqueles lentos 

para profundos entendimentos. 

Na cicatriz da memória 

repousa o engano. 


Sonhos que se fizeram areia 

assoprada para longe 

A espada cega 

enfiada em minha carne 

até os ossos.


O que fazer 

se toda memória 

é uma cicatriz? 

Deixar a dor de viver 

dilacerar a mente até 

tudo fazer algum sentido? 


Afago a própria ilusão 

de felicidade. 

Sobre os escombros de minha 

ruína particular. 

Onde ninguém mais 

pode alcançar.


Poema de abertura do meu livro Cicatriz (Litteralux, 2024).

sábado, agosto 15, 2026

O Clube de Escritores de BH na Livraria do Belas



Hoje, fomos ao encontro do Clube de Escritores de Belo Horizonte, que aconteceu na livraria do Belas, em plena Savassi, a um quarteirão da Praça da Liberdade. Abaixo, segue o resultado da produção escrita do exercício do desafio que fizemos:


15h52. Desafio

Inimigo, Carretel, Colheita


Quando criança, assisti um filme que me perseguiu com pesadelos por meses: "A colheita maldita”. Confesso que não tenho muita memória do enredo, sequer das cenas do filme. Apenas tenho nítida a sensação de perigo iminente, de urgência, de fuga, da presença de um inimigo oculto a me espreitar de além das bordas do sono.

Fato é que hoje tenho quase certeza de que nunca assisti esse filme. Os pesadelos ocorreram, minha mãe jurava que tinha que me sacudir quando eu, aos berros, acordava a casa inteira. Quando ainda estava viva, já no hospital, ela jurou que eu nunca vi o tal filme. Que a chamada transmitida na televisão, a mera vinheta comercial, havia inspirado meus pesadelos.

Isso me faz perceber que a vida é um carretel de memórias inventadas. A identidade e o pertencimento são ilusões. Eu nunca vi um filme que sempre achei ter visto. Então, qual das minhas memórias é confiável?

Será que o Tinho era real? Meu melhor e mais antigo companheiro de brincadeiras, ele entrou na minha vida pouco tempo depois que os pesadelos pararam. Tinho, com seus olhos injetados, seus dentes tortos.  Tinho, com seu cheiro forte e brincadeiras perigosas. Será que se hoje eu for ao sítio do vô Leôncio e procurar na cisterna, vou encontrar lá no fundo os ossos do meu amigo?


 

sexta-feira, agosto 14, 2026

Aquela experiência que é um presente do Universo


A gente, lendo junto


 Toda sexta, temos na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte a atividade Lendo Junto, marcada sempre para ser realizada às 16h. Alguém da equipe fica à disposição para ler para as crianças que por acaso as famílias (geralmente mães ou avós) levarem para a atividade. 

Desta vez, eu era o leitor da vez. Separei um repertório de livros como Boa viagem, bebê! (Companhia das Letrinhas), da Beatrice Alemagna, A Bruxa Salomé, de Audrey e Don Wood (ed. Ática), e O Senhor Cavalo Marinho (ed. Kalandraka), de Eric Carle. 

Um pouco antes das 16h, chegaram a Lilia e a Geralda, trazendo o pequeno Antônio. Muito simpático e gentil com todas na Biblioteca, o Antônio cumprimentou a gente e depois seguiu para o espaço do acervo infantil. 

Logo que deu o horário, eu me aproximei, falei meu nome (Samuel, cara de papel) e perguntei se o Antônio e sua mãe, Lilia, gostariam de participar do Lendo Junto. A mãe respondeu que estavam lá para isso mesmo. Geralda, a avó de Antônio, estava um pouco afastada, mas disse que  também estava lá para participar. 

Fomos para o tatame colorido e apresentei o primeiro livro: Boa viagem, bebê. Logo que terminei a leitura, convidei que a gente imaginasse que o bebê protagonista do livro começaria a sonhar. E seus sonhos seriam justamente os próximos livros que eu estava disposto a ler. 

Antônio topou. Não apenas isso. Sempre atento e interessado, ele interagiu de forma afetuosa. Passeamos pelos cenários (e cardápio) de A bruxa Salomé”, fomos plateia de “Eustáquio: o Mágico Magnífico (Alexandre Rampazo, ed. Gato Leitor), mergulhamos no oceano com “Senhor Cavalo Marinho” e nos surpreendemos com Gatinho levado! (Adam Stower, Brinque-Book). 

Em dado momento, perguntei ao Antônio se ele achava que o bebê já poderia acordar,.ou se ele continuaria sonhando. Ao que ele respondeu prontamente que era para o bebê continuar no mundo dos sonhos. E nas leituras seguintes, sempre que eu terminava, Antônio dizia que o bebé não deveria deixar de sonhar. Dizia: “Eu acho que o bebê não vai acordar e tem que continuar sonhando.”

O Antônio não queria que as leituras acabassem. E isso foi uma das coisas mais lindas que aconteceram comigo nesta semana. Não é a primeira vez que uma criança dá esse tipo de retorno, mas toda vez que acontece, é como se fosse a primeira — e única.

Estou em estado de graça. Encantado com esse momento de conexão e devaneio. Senti que durante a tarde de hoje eu recebi um presente que, com certeza, pretendo carregar sempre junto ao coração.


quinta-feira, agosto 13, 2026

Sarau de In-Formatura



No dia 22 de agosto de 2026, um sábado, a Turma 5 do curso de Pós-Graduação em Escrita Criativa da Puc Minas irá se reunir para celebrar a conclusão dessa etapa sua jornada formativa. Sim, os participantes estão formando, mas com muita informalidade. Será o:


Sarau de In-Formatura, onde os formandos irão compartilhar um pouco de sua literatura, além de festejar esse marco tão importante. 


Haverá um momento de microfone aberto. Então, se você curte um sarau, uma performance poética, se você gosta da palavra falada e performada, cola com a gente!


Dia 22 de agosto, sábado, às 15h

Local: Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

Rua Espírito Santo, 593, Centro. Belo Horizonte. Minas Gerais


Classificação indicativa: livre


Público: jovens e adultos

domingo, agosto 09, 2026

BEDA e Prosa Poética de 07 de julho de 2026

Bem, pessoal. Antes de começar com o registro seguinte da Oficina de Prosa Poética, tenho que contar uma coisa que achei bem legal. O meu amigo Liel (https://diverile.substack.com) me mandou uma mensagem por zap me contando sobre o BEDA (Blog Every Day in August) e compartilhou comigo um link do Entre Blogs (https://entreblogs.com.br/beda/2026/recrutamento). Fiquei super animado ao ver que a iniciativa usa a gamificação estilo RPG de fantasia medieval para engajar os participantes. Cheguei atrasado, eu sei. Por isso, escolhi a trilha de patrulheiro, no lugar de Herói. Quem tiver dúvidas quanto ao que eu estou querendo dizer, pode clicar no link acima e conferir. 

A verdade é que, apesar de ter escolhido uma trilha de postagem semanal, vou tentar cumprir o desafio de escrever e postar todos os dias. Bem, nem sempre vou postar o que escrevi. Por exemplo, vou tentar manter uma distância um pouco maior entre as postagens do resultado da Prosa Poética. 


Meu nome de aventureiro é “Nerito”. 


Elaborei a seguinte descrição: 

Nerito é o protagonista de uma história de amor e fantasia. É também o antigo apelido de um escritor, nos seus tempos de aprendiz, quando a blogosfera ainda era a principal forma online de compartilhamento de textos. Depois que o Nerito (personagem) nasceu, o Nerito (apelido) deixou de existir. Porém, a chamada à aventura despertou no escritor e blogueiro veterano o retorno a seus tempos de aprendiz. Assim, ele veste a velha capa de patrulha, as botas já surradas e segue seu percurso.


Um último detalhe: Estou escrevendo este relato ao som de LEveL, de SawanoHiroyuki (https://open.spotify.com/track/0Zp9WOkXX8xZS8QOhtdQ5k?si=GYbJWC6tRTeOraJL31Qvng&utm_source=copy-link&sci=spotify%3Acard-config%3A2T7QBMrePssaaa9OIbNfr3)


Prosa Poética


Objeto Provocador: Dado de cor de gema de ovo. Os números são bolinhas brancas. 



Frutos do Acaso


Se eu disser: “A sorte está lançada”, isso não vai significar coisa alguma. No fim, sabemos quais forças regem o acaso, ignoramos o nível de complexidade da confluência de fatores ditando os resultados de cada instante. 

Por isso, pensamos na sorte. Será, porém, que nos falta informação? Talvez não seja essa a palavra. Bem, nos falta mesmo informação. Imagine que cada coisa tem uma linha invisível conduzindo sua existência. Uma rocha, por exemplo. Descendo uma montanha. Ignoramos os acontecimentos que provocaram seu movimento. Em termos absolutos, podemos pensar em massa, gravidade, inércia, ação e reação. Podemos, então, especular que o acaso nada tem a ver com isso. Se essa rocha termina seu trajeto montanha abaixo esmagando uma casa lotada de criancinhas, será que nossa afirmação de que isso se trata de uma fatalidade está correta? Fatalidade ou ignorância?

Talvez seja impossível, em termos humanos, prever fatalidades. Somos fascinados com a aleatoriedade e talvez ela realmente exista no mundo. Só que podemos nos perguntar se a maioria dos fenômenos que atribuímos ao acaso podem realmente ser colocados na conta do mesmo. Talvez, esse equívoco seja apenas fruto de insuportável limitação humana.

Enquanto isso, deixemos os deuses se divertirem, jogando dados para os mortais dançarem.


Agravo


deus meu deus meu

por que me abandonastes?

Sabias que era só birra 

Sabias que eu só queria 

uma prova do vosso amor. 


Quando vos virei as costas 

foi como quem faz manha 

charminho de pecador. 


Esperei que vos voltareis 

que me buscásseis 

com braços cálidos 

e gesto acolhedor. 


Não esperei o silêncio 

o muro e o vazio 

repito: sou pecador 


Mas queria um mero afago 

deus meu, só um agrado 

Nem que fosse um desagravo 


Cheguei a desejar chicote 

a palmada da mão divina 

do cajado o firme toque 

em minha testa, minha sina. 


Porém, nada recebi 

nem quando retornei. 

deus meu, o que encontrei 

quero esquecer que vi. 


Trono vazio 

altar profanado. 

Além da tempestade 

do olho do furacão 

pensei que vos acharia


Mas nem feitiçaria 

ou oração surtiram 

qualquer efeito 

deus meu, não tem mais jeito 

Pois além do véu 

nada havia 

Só o vazio e 

melancolia. 


Prosa Poética da Tarde 


Trava


Tem dia que a gente trava. Tenta e tenta, mas a caixola continua vazia. Um muro de esquecimento. Palavra alguma vem à mente. A gente se sente meio incompetente, meio estúpido, um total fracasso. 

Isso é o acaso jogando dados com a nossa vida. Rindo de nossa dificuldade. Eta muro brabo de pular! Ainda assim, a gente tenta. Junta uma palavra com outra. Pensa em associações. Cata um dicionário e pesca palavras aleatórias. Quem sabe assim o texto engrena? 

É um sufoco. A sensação de impotência deixa a coisa ainda mais difícil. Aridez. E a gente querendo algo novo pra publicar. Uma história curiosa. Uma crônica espirituosa. Um poema sensível. E nada. 

No fim, o resultado é uma série de frases meio picaretas. A gente rabiscou cinco páginas no caderninho com frases que nos custaram papel, tinta e tempo. 

E, agora, só o fogo.


Dado 


Um deus de muitas faces 

Seis, para ser exato. 

Ou seis milhões, 

impossível mensurar. 

Escondido dele, 

eu espero 

qual das faces 

irá me lograr. 

Ele escarnece 

de meu medo. 

A face mais benevolente 

é aquela 

que ele nunca 

revelou. 

Está guardada 

aos eleitos. 

Para aqueles 

como eu 

Apenas olhos 

ávidos 

urgentes 

infinitamente 

distantes. 

O deus de muitas faces 

aguarda. 

Já definiu o meu 

Destino. 

Agora 

está 

Sedento 

para que ele se 

cumpra. 

Fogo 

Sangue 

Agonia sobre agonia. 

Não se pode esperar 

Amor 

de qualquer divindade. 

Principalmente 

daquelas 

que 

mostrando suas 

Faces 

revelam 

Apenas 

Nú 

meros. 


A boca da fome 


No umbigo 

do Universo 

o abismo aguarda. 

Silencioso 

e voraz 

deseja as almas 

de todos os seres. 

Vai demorar muito 

até que consiga 

consumir a 

última 

existência 

Sua boca 

faminta 

se projeta 

e toca 

uma a uma. 

O abismo agora 

faz parte 

de mim 

e de 

Você. 

Por isso tanta 

Fome. 

Enquanto o Universo 

caminha rumo ao 

Zero 

Absoluto 

o abismo 

come 

e quer mais. 

Cada vez mais 

Voraz. 

Quando por fim 

a Terceira Lei 

se cumprir 

a Boca do Abismo 

será do tamanho 

exato 

de Tudo.

 

sábado, agosto 01, 2026

Prosa Poética de 30 de junho de 2026

Objeto provocador



Epílogo


Então aconteceu o inevitável: o ser humano alcançou os limites do Universo. Ultrapassou a Via Láctea. Em seguida, cruzou todas as galáxias no caminho. Incontáveis anos-luz foram finalmente contados, pois a distância foi vencida.

No Planeta-Mãe, que havia eras deixara de se chamar “Terra”, trilhões de pessoas aguardavam a transmissão do momento em que o Fim do Universo seria alcançado. Não havia pessoa humana que não tivesse os olhos colados em seu transmissor virtual. “Olhos” é forma de expressão, uma vez que, com os implantes cibernéticos, as telas surgiam dentro da mente do espectador, em seu campo de visão. Já aqueles que haviam contratado a cobertura premium poderiam curtir uma simulação em tempo real, como se fossem parte da corajosa tripulação. Ou poderiam ser um corpo celeste próximo do evento, ou até mesmo o próprio módulo espacial.

As colônias humanas, tão numerosas quanto os corpos celestes, tamém acompanhavam o resultado da expedição. Ninguém falava de outra coisa. O limite final havia sido por fim alcançado. O módulo, ironicamente batizado de “Babel”, iria concluir um mito antigo, unindo os seres humanos em um só coração, uma só alma, uma só mente. 

Então, o módulo enfim chegou. Era ali, o limite. O final. A fronteira. Era lisa. Impenetrável. Invisível. O veículo espacial só não colidiu e foi estraçalhado porque os sensores captaram a misteriosa energia da barreira a tempo.

O ultra computador de bordo analisou a composição da barreira. Constatou ser ela feita de uma partícula nunca antes identificada. Prosseguiu a análise e buscou projetar o formato da barreira, que de fato não era reta, mas curva. Apesar das dimensões astronômicas, foi possível ao ultra computador valer-se da capacidade de processamento via léptons, compartilhada por outros computadores espalhados pelas colônias e também no Planeta-Mãe.

Ao fim de uma década, foi possível concluir os cálculos necessários e criar um modelo da barreira. Era côncava. Para dentro. E propagava-se por todo o Universo, até fechar-se em si mesma, encerrando toda a matéria.

O Governo Universal tentou ocultar a verdade, mas já era tarde. A hiperconectividade impediu o abafamento e logo os remanescentes da Mídia Livre alardeavam a Manchete, dando ao Universo a alcunha de Mônada. 

As tentativas de romper a barreira foram várias. Um modelo teórico apresentou a hipótese de que a energia necessária para realizar um furo de meio centímetro na barreira seria equivalente àquela usada para manter unida toda a massa presente no Universo. Para romper a barreira, seria necessário detonar em fissão nuclear todos os átomos presentes em seu interior. 

Esse foi o princípio do fim. Bastou saber-se aprisionado, o ser humano sucumbiu. A claustrofobia espalhou-se qual epidemia. Mundos inteiros detonaram suas ogivas, pulverizando-se. Guerras sobre guerras coroaram a angustiante insânia. A Vida em todo o Universo acabou. 

Do lado de fora da Mônada, A esfera que ela de fato era repousava em uma estrutura, junto com muitas outras. Esta estrutura de dimensões impossíveis girava, movida por uma alavanca. E os Eternos aguardavam qual esfera seria por fim tirada no sorteio. 


Perfeita 


A Face lisa 

e fria 

Ovo 

Núcleo 

Fato 

Fausto 

É impossível 

haver Vida 

nela. 

Apenas promessa. 

Ao abandonar 

enfim 

a perfeição 

Será quando 

poderá 

de uma vez por 

todas 

Viver. 


Prosa Poética da Tarde 


Lampejo 


Superfícies oníricas 

evocam reflexos 

diáfanos. 

Aturdido estou. 

Ofuscado. 

A luz era muita 

refratada 

em múltiplas faces 

prismáticas. 

Mundos inteiros 

surgiram assim. 

Depois, deixaram 

de existir. 

Eu apenas continuei:

Desejo.


Fato


Aquela colina 

já abrigou um Castelo.

Nuvens passaram 

ventos 

chuvas. 

Hoje nada resta 

do que um dia 

foi 

agremiação de pedras 

a acolher 

amores e 

intrigas. 

O Senhor Castelão 

possuía 

dois olhos de vidro. 

“Para ver longe”, dizia. 

Espiava o futuro 

distante 

e via apenas pradaria. 

Não compreendia. 

Foi incapaz de enxergar 

a própria 

Ruína. 


Ode


Faltam vinte minutos 

para o Fim do Mundo. 

Num canto escuro, 

as crianças se encolhem. 

Abraçam os joelhos e 

tremem. 

A cozinha está 

só poeira. 

As janelas 

exibem vidros 

quebrados. 

Mãos pequenas 

se cortaram 

nos cacos. 

O tempo 

mordeu os anos. 

Rasgou pele 

moeu ossos. 

Ninguém 

foi capaz 

de impedir. 

Apenas um único 

observador 

Testemunhou 

E, resignado, 

compôs uma ode. 


Lamentação 


Aquela 

era a casa 

mais sozinha 

do mundo. 

Num mundo 

mais sozinho 

que todos 

os outros 

do universo. 

Por mais 

estrelado 

que seja o 

céu 

cada estrela 

vaga solitária no 

Vazio. 

Triste. 

Lúgubre. 

Melancólico. 

É o olhar 

de quem escreveu 

este poema. 


Traste


Começar de um jeito 

e terminar de outro 

é algo demasiadamente 

humano. 

Ainda assim, 

tremo. 

O desprezo 

que sinto 

diante do espelho 

embrulha meu 

estômago 

Faz a bile dançar 

em meu 

esôfago. 

Preciso de afago. 

Mas nada espero. 

Um cão vadio 

vale mais. 

Ainda que seja 

hidrófobo. 

Sabe aquele cuspe 

que em breve 

vai secar? 

Pois é 

Sou eu. 


Alerta 


Depois deste poema 

o mundo terá acabado. 

O último deverá 

apagar a luz 

fechar a porta 

e desaparecer 

para sempre. 

Deus acordou 

do sonho que chamou 

“humanidade” 

e convenceu-se 

de que era 

pesadelo. 

Em vingança, 

quis existir 

no coração dos homens 

para aí fazer habitar 

o horror e o pesadelo. 

Foi assim que nasceu 

o Mal. 

Esse mesmo que vai 

devorar a carcaça do 

Mundo 

Agora 

que ele acabou.