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segunda-feira, novembro 13, 2023

Canção para ninar menino grande - Uma balada de romance e amizade


As obras de Conceição Evaristo são sempre magníficas. Falam de pessoas comuns que são heroicas em suas pequenas batalhas. Conta sobre suas consciências e seus desejos de romperem as barreiras do racismo. 

Canção para ninar menino grande é a mais recente obra de Conceição Evaristo e conta as aventuras amorosas de Fio Jasmim ao longo de sua vida, desde sua posição de jovem aprendiz de maquinista até sua idade mais avançada.

Porém, diferente do que se possa imaginar, Fio Jasmim não é o protagonista dessa narrativa, ou melhor dessas narrativas. Protagonistas são todas as mulheres com que ele se enamora, e são muitas. Desde Pérola Maria, sua fiel e legítima esposa, até Juventina Maria, sua derradeira amante. Ou Eleonora Distinta, sua confidente e amiga, com quem não se relacionou romanticamente mas teve uma relação totalmente íntima.

Fio Jasmim é como o nome dele indica: um fio condutor que alinhava as vidas dessas tantas mulheres. A escrita de Conceição Evaristo nos abraça e acalanta. É uma escrita carinhosa, que nos guia pelas vidas das protagonistas e suas vivências, suas escrevivências, pois numa pegada de auto-ficção, Conceição também se insere entre essas que se propõem a contar a história de Fio Jasmim. Ou melhor, a história de seus amores.

Outro ponto interessante na narrativa é o nome das cidades. Todas elas fictícias, as cidades são como as mulheres que Fio Jasmim encontra. Cidades pequenas, singelas e acolhedoras. Cada uma dessas cidades são ligadas pela linha férrea, que Fio Jasmim percorre com sua sanha namoradeira. 

Com uma narrativa forte e amorosa, com uma Poética única e repleta de encanto, Canção para ninar menino grande é uma obra maravilhosa sobre amor, entrega e amizade.


Ficha Técnica

Canção para ninar menino grande

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9786556020884

ISBN-10: 6556020885

Ano: 2022 

Páginas: 136

Idioma: português

Editora: Pallas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/cancao-para-ninar-menino-grande-1005519ed122237359.html

segunda-feira, novembro 06, 2023

A pelada peluda no largo da bola - Abordando o racismo com coragem


Dia desses li um ótimo livro do Cuti. A Pelada Peluda no Largo da Bola. Um livro incômodo mas divertido sobre questão social e a miscigenação de parte da classe média baixa no Brasil. As questões raciais, socieis e de gênero abordadas no livro são complexas, mas Cuti as aborda com coragem e inteligência.

O livro conta de um grupo de crianças que organiza uma pelada polêmica que chega a ser peluda: pretos contra brancos. E logo de cara já surge uma fala racista de uma personagem e a outra reage, dando-lhe um soco na cara. Uma reação à altura da violência sofrida.

Cada capítulo apresenta um novo personagem, com seus dilemas, sua individualidade e questionamentos. Seja João Pena, filho de uma viúva, seja Henrique, criado pela vó e já trabalhando tão cedo, ou até mesmo Baiano, o de cor mais escura e vítima da estigmatização.

A escrita de Cuti é sublime e não há um só protagonista. A vivência da questão racial é complexa para se representar num só herói. Os lugares e não-lugares são muitos e incomodam; são espinhosos e doloridos.

Os desenhos já datados de Edu Andrade mostram uma estética que ficou no tempo, numa época em que a ilustração não era vista com a riqueza e complexidade que se vê hoje. Isso acaba interferindo de forma negativa a leitura do livro.

Confesso que é difícil falar desse livro, apesar do diálogo apaziguador que vem através da sabedoria africana. Cuti não poupa ninguém, embora honre as representantes dos orixás. Até mesmo o preconceito cristão evangélico é denunciado através da hipocrisia de um certo finado.

Apesar dos desenhos não tão primorosos, o texto de Cuti nos embala e mostra que o racismo na literatura, por mais espinhoso que seja, é um tema que precisa ser abordado com coragem e responsabilidade.


Ficha Técnica

A pelada peluda no largo da bola

Cuti

Ano: 1988 

Páginas: 40

Idioma: português

Editora: Editora do Brasil S/A

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-pelada-peluda-no-largo-da-bola-75096ed82787.html

sexta-feira, dezembro 03, 2021

O mistério da sala secreta - Aventura e humor na dose certa



Júlia e Gabriel são amigos inseparáveis. Ela é corajosa e extrovertida. Ele é bem humorado e estudioso. Esses dois jovens de 12 anos estudam na Escola Municipal Maria Quitéria de Jesus, que está em vias de ser fechada. Júlia está inconformada, principalmente porque a escola em que estuda tem excelente qualidade no ensino e isso pode impactar seu futuro. Ela não teria condições financeiras para pagar passagem para uma escola no centro da cidade. Por isso, tudo indica que será transferida para a mal afamada "escola da pracinha".

Enquanto Júlia parece fadada a estudar em uma escola que não quer, Gabriel, aluno brilhante, tem chance e condições de estudar em uma instituição melhor. Por isso, não se sente tão afetado pelo fechamento do Maria Quitéria. Mas com isso ele será separado de sua grande amiga.

A aventura de ambos começa quando, numa feira da escola, Júlia e Gabriel ficam conhecendo quem foi Maria Quitéria de Jesus, a mulher que emprestou seu nome à escola. Ficam também sabendo da lenda de que a escola teria uma sala secreta, acessível apenas aos corajosos e merecedores.

Curiosa, Júlia arrasta Gabriel para uma busca pela verdade. Sem que saibam, essa aventura poderá mudar a vida não apenas deles, mas de todas as pessoas que estudam e trabalham na Escola Municipal Maria Quitéria de Jesus.

Esse romance juvenil de mistério foi uma leitura agradável e gostosa. Júlia e Gabriel dividem o papel de narrar a trama em capítulos alternados. São jovens com suas personalidades distintas que influenciam suas atitudes na trama. Enquanto Júlia é mais assertiva, Gabriel é mais contido. Ela é leitora voraz, mas não muito estudiosa. Já ele é o primeiro da classe.

Outro ponto que me agradou muito foi a descrição das personagens. A cor da pele e os cabelos de Júlia e Gabriel ganham destaque, com os volumosos cachos dela e o black power dele. Suas características físicas são bem marcadas e evidenciadas, o que fortalece a questão da representatividade negra na literatura. Os desenhos de Rubem Filho são primorosos e fortalecem ainda mais essa representatividade. 

Com uma trama cativante e um segredo a ser desvendado, O mistério da sala secreta é uma aventura gostosa e divertida, voltada para jovens leitores de todas as idades.



Ficha Técnica

O mistério da Sala Secreta

Lavínia Rocha

Ilustrações de Rubem Filho

Ano: 2021 

Páginas: 176

Idioma: português

Editora: Yellowfante

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-misterio-da-sala-secreta-11717759ed11729822.html

sexta-feira, novembro 26, 2021

Água de Barrela - Sangue e dor na luta por um futuro


Quem foram nossos ancestrais? O que fizeram? Como viveram? Se fosse possível traçar nossas árvores genealógicas e resgatar a história de cada pessoa nelas, o que descobriríamos? Encontraríamos atos heroicos ou crimes hediondos? Será que nos arrependeríamos de buscar as histórias dessas pessoas?

O romance Água de barrela talvez tenha surgido de alguma das perguntas acima. Escrito por Eliana Alves Cruz, este romance histórico é um primoroso trabalho de pesquisa histórica e criação literária. De início, não sabia o que era barrela. Posteriormente, soube que é uma mistura feita para alvejar as roupas, usado pelas mulheres escravizadas para lavar as roupas de seus senhores. Após a declaração da abolição, essas mesmas mulheres continuaram nesse trabalho, como se esse fosse o destino inevitável para elas. 

O livro me encantou já de início, quando vi árvore genealógica que vai de Ewá (Helena), passando por Anolina, Martha, Damiana, Celina, até chegar à Eliana, a autora desse romance histórico que mostra o Brasil a partir da Bahia e das vidas de uma família marcada pela escravização.

Enquanto lia, meus olhos da mente criavam imagens de um país que se transformou de um império colonial a uma república de fachada, como se os tais valores republicanos nada mais fossem do que a tinta que caia um sepulcro. Afinal, essa democracia tão defendida pelos maiores intelectuais brasileiros não alcançou a grande maioria da população, que continuou vítima da exploração, da violência e do preconceito.

Com o objetivo de ultrapassar as barreiras sociais e alcançar ainda que o mínimo de liberdade e dignidade, uma família recorreu à educação. Apesar disso, foi a duras penas e muita roupa lavada que as matriarcas Martha e Damiana foram mudando os destinos dessa família.

Foi através desse livro que conheci Juliano Moreira, médico, um dos maiores do seu tempo. E negro. também conheci Matheus Cruz, grande mecânico, que até os 83 anos lecionava no Liceu Artes e Ofícios.

Mas esse livro é principalmente sobre mulheres. Sobre Martha e Damiana, que vendendo quitutes e lavando roupas foram buscando um futuro melhor para as filhas. Sobre Dodó, explorada até a morte pelo mesmo clã que no passado escravizou, torturou e estuprou suas ancestrais. É sobre Celina, corajosa professora, capaz de enfrentar o risco do cangaceiro Lampião, sem no entanto esmorecer.

Ao terminar o romance, senti culpa por minha branquitude, pelos privilégios estruturais que carrego na minha pele. Senti tristeza por saber que o país continua matando jovens negros. Senti também uma profunda comoção ao ver a justiça de Xangô, que nos descendentes de Ewá, Anolina, Martha, Damiana e Celina elevou essas heroínas, imortalizando-as nesse livro potente e profundo.


Ficha Técnica

Água de barrela

Eliana Alves Cruz

ISBN-13: 9788592736408

ISBN-10: 8592736404

Ano: 2018 

Páginas: 322

Idioma: português

Editora: Malê

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/agua-de-barrela-743875ed834219.html

sexta-feira, novembro 19, 2021

Torto arado - Um talho profundo na alma


Bibiana e Belonísia são irmãs. Filhas de Salustiana e do curador Zeca Chapéu Grande, as duas meninas são precoces, tendo de sobra inteligência e curiosidade. Com elas mora Donana, mãe de Zeca, uma mulher com muitos mistérios e uma mala onde esconde uma preciosa faca de prata. Até que um dia as duas meninas resolvem brincar com o objeto proibido e essa decisão muda para sempre a vida das duas.

Assim tem início Torto arado, romance de Itamar Vieira Júnior. Trata-se de um livro forte, pungente, com uma narrativa em primeira pessoa que aproxima o leitor a um nível íntimo com a trama que se desenrola. O livro está dividido em 3 partes, sendo cada uma conduzida por uma narradora diferente. Pelas palavras delas nós vamos conhecendo a dura realidade da família, moradora do da fazenda Água Negra. Nela, várias pessoas vivem em regime análogo à escravidão, trocando trabalho por moradia e um pedaço de terra para cultivar. 

Talvez o arranjo pareça razoável. Porém, não é o que acontece. As pessoas são obrigadas a trabalhar de graça nas colheitas dos donos das fazendas, de domingo a domingo, não tendo tempo para cuidar de seus roçados. Para garantir sua subsistência, as esposas e filhos dos lavradores precisam se dedicar ao roçado da família. As casas dos trabalhadores não podem ser construídas com material de alvenaria. A proibição existe para que as construções não durem. Sendo assim, as famílias precisam de tempos em tempos construir casas novas, usando o mesmo barro que cobre o chão. Além desses abusos, de tempos em tempos as famílias são extorquidas pelo gerente da fazenda, que rouba suas produções.

É nesse ambiente que crescem Bibiana e Belonísia. Ambas dividem sua vida através do fio prateado da faca de Donana. O pai delas, Zeca Chapéu Grande, é um grande curador e líder espiritual, que conduz as cerimônias espirituais do Jarê, onde os encantados como Iansã e o Velho Nagô se manifestam. Sua história é dura, árdua, desde o nascimento em pleno canavial até a loucura que o acometeu em sua juventude. Assim vão se desdobrando os dramas, as lutas e as potências dessa família. 

No fio da faca de Donana a história é traçada. Esse fio deixa um sulco por onde escorre a água e o sangue. A faca de prata é como um arado a talhar fundo em nós. A agudeza da faca é como a dureza da vida dessas pessoas cujo romance nos faz testemunhas. E não apenas isso. Somos feitos testemunhas e também vítimas. Sendo assim, ninguém sai incólume da leitura desse romance. Ninguém sai ingênuo. Ao fim do romance é impossível ficar alheio a esse Brasil subterrâneo, silenciado e, muitas vezes, amputado.

Vencedor dos prêmios Leya, Jabuti e Oceanos, com sua narrativa poderosa e profunda, Torto arado é um romance desafiador que marca o leitor, deixando sua alma ferida, talhada. Um romance que nos atravessa de ponta a ponta.


Torto arado

Itamar Vieira Junior

ISBN-13: 9786580309313

ISBN-10: 6580309318

Ano: 2019 

Páginas: 264

Idioma: português

Editora: Todavia

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/torto-arado-915037ed921450.html

sexta-feira, agosto 27, 2021

A ponto de explodir - Um livro em contagem regressiva


Quando li  A ponto de explodir, de Sérgio Fantini, pela primeira vez, foi com um exemplar emprestado pelo autor. Ao terminar, senti uma urgência absurda de ter o meu próprio livro. Perguntei ao Fantini se ele tinha algum para me vender e fiquei desapontado com a negativa.

Anos depois, ele veio me contar da reedição do livro. Imediatamente, implorei para que reservasse o meu. Fui tomado pelo mesmo senso de urgência que me acometeu quando de minha primeira leitura.

Da urgência, fui ao deleite ao ter em mãos o meu exemplar autografado. A capa traduzia o que eu sentira ao ler os contos do livro: a solidão, o desespero, o tédio, a ironia e - por que não - o humor.

Há um tom de galhofa permeando a maioria dos contos. É como se o narrador tirasse uma com a cara de quem está lendo. E ainda esperasse um "obrigado" como resposta. Os contos são agudos como uma faca muito bem amolada e que, ao cortar, dá prazer logo antes da dor e de todo o sangue.

As histórias desveladas em A ponto de explodir são corriqueiras. Narrativas que muito bem podem ter acontecido logo ali - na rua de baixo do bairro. Ou no centro, na parte suja e esquecida da cidade - qualquer grande cidade.

Em A ponto de explodir somos levados a passear pelos olhos e peles de pessoas comuns. E que, de tão comuns, deixam à flor da pele o que há de grotesco e feio nelas, junto com o que há de belo e inocente. Assim é formada a armadilha. Nessas imagens a princípio tão triviais emerge uma escrita que nos atinge na boca do estômago.

Não posso deixar de tachar o livro como uma "bad trip". E daquele tipo que fissura e vicia. Uma deliciosa agonia, um texto forte como um conhaque. E cujo sabor melhora ainda mais com o tempo.

(Descrição da capa: Em fundo amarelado e tons em laranja na parte superior, homem está agachado de perfil esquerdo no alto de um prédio e segura uma maleta. Ao longe estão outros prédios)

Ficha técnica

A ponto de explodir

Sérgio Fantini

ISBN-13: 9788566505290

ISBN-10: 8566505298

Ano: 2013 

Páginas: 138

Idioma: português

Editora: Jovens Escribas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-ponto-de-explodir-86811ed839330.html

quarta-feira, agosto 18, 2021

Urgente! - Pela manutenção do programa Conversações


Há alguns anos, conheci o Cláudio Henrique. Trocamos algumas ideias sobre pessoas comuns que são grandes leitoras, principalmente quem frequenta bibliotecas públicas. Fiquei de passar alguns contatos, a partir da minha experiência de trabalho na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil.

Foi assim o meu primeiro contato com o Programa Conversações. Não imaginava que, tempos depois, eu estaria diante da câmera, para gravar um episódio sobre a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil e sua atuação dentro do Centro de Referência da Juventude. 

Cláudio Henrique é uma pessoa incrível. Amável, observador e excelente ouvinte, ele sabe conduzir com maestria uma entrevista de forma a deixar a gente totalmente à vontade. Sei que como artista pode parecer algo simples pra mim, mas não é. Sempre tive problema com a minha autoimagem. Minha passagem pelo Conversações ajudou a mitigar esse problema.

Mas não é de mim que devo falar hoje e sim desse programa tão importante para a divulgação da literatura independente em Belo Horizonte. Conversações é mais do que um programa de literatura. É sobre pessoas, suas vidas reais e suas buscas por uma vida mais humana e legítima através das palavras. Um programa sobre dar voz e escuta a pessoas geralmente silenciadas em nossa sociedade.

Depois de tantos anos de história de um programa pioneiro, interessante e de alta qualidade, vem o Governo de Minas e decide encerrá-lo. O único programa na Rede Minas com um jornalista negro. E um programa que dá voz vez às periferias. Ao saber dessa notícia, fiquei aturdido. Mortificado. Não é apenas a história dos espaços e das leituras. São as histórias das pessoas que estão fadadas a desaparecer. 

Por isso, manifesto-me à favor da manutenção do Programa Conversações. E que esse ataque à cultura e à literatura, em especial a periférica, não prossiga. Que todas as pessoas se unam para que essa decisão desastrosa seja repensada e revertida, com urgência.

E deixo aqui meus cumprimentos ao Cláudio Henrique, guerreiro da cultura, que com as armas das palavras, da gentileza e da simpatia, concedeu escuta a tantas pessoas que, por outros meios teriam sido silenciadas.

https://www.brasildefatomg.com.br/2021/08/17/rede-minas-retira-programa-educativo-da-programacao-e-pode-inserir-outro-evangelico

https://www.instagram.com/p/CSsiLCqLjMy/?utm_medium=share_sheet

(Descrição da imagem: Em fundo branco, texto "Desmonte: Rede Minas retira programa educativo da programação e pode inserir outro evangélico. Emissora anunciou o fim do Conversações programa que populariza literatura independente e cultura produzida na periferia. Amélia Gomes, Belo Horizonte (MG) | 17 de Agosto de 20201 às 20:28". Abaixo, foto de dois homens. O primeiro, à esquerda, é negro, tem cabelos curtos e está de perfil direito, veste uma camisa xadrez. À direita o outro homem, branco, de cabelos e barba compridos, com uma blusa mostarda. Os dois manuseiam um livro. Atrás deles, paredes com vários grafites.)

sexta-feira, agosto 13, 2021

Amoras - Quando o Amor nos leva pela mão


Por vezes, quando a gente começa uma leitura, é importante se portar como uma criança, enquanto a voz narrativa é a pessoa adulta que nos toma pela mão e nos mostra as grandezas do mundo escondidas nas pequenas coisas. Há livros que fazem justamente isso com a gente.

O que dizer sobre Amoras, do Emicida? Um texto cheio de carinho e com profundidade. Há muito afeto nesse livro que fala de autoestima, de uma força que se revela na delicadeza. A partir do diálogo entre uma criança e seu pai, vai sendo tecida uma reflexão profunda, capaz de desconstruir preconceitos e estabelecer novos paradigmas.

Como algo tão pequeno, como as amoras, pode crescer tanto, a ponto de ser do tamanho do mundo inteiro? Pela genialidade do poeta, mas também pelo olhar infantil, que subverte valores e transcende a realidade.

Assim, além de evocar carinho e a afetividade, Emicida também homenageia grandes nomes da luta pela igualdade e justiça, sem assumir um discurso simplista ou panfletário.

Aldo Fabrini, com suas formas arredondadas e cores vivas, busca conferir às imagens todo o afeto presente no texto, criando um ambiente harmônico, pacífico, para a mensagem poética de Emicida frutificar.

Palavra e imagem em Amoras bailam com graça e leveza, tomando a leitora pela mão e fazendo uma leitura de sonho, um momento de entrega, um presente encantado.


(Descrição da imagem: Mão segura um livro retangular horizontal. Em fundo vinho, desenho de rosto do nariz para cima, com cabelos pretos, pele escura, olhos redondos, nariz alongado, orelhas pequenas. Os olhos estão voltados para cima, onde está o título do livro: AMORAS, sendo cada letra em uma cor, nas sequências rosa, amarelo e azul. Acima do título, o nome EMICIDA. Abaixo, à esquerda, Companhia das Letrinhas e à direita, ilustrações Aldo Fabrini. Além do livro há uma estante branca com as lombadas de outros livros)

Ficha Técnica

Amoras

Emicida

Desenhos de Aldo Fabrini

ISBN-13: 9788574068367

ISBN-10: 8574068365

Ano: 2018 

Páginas: 44

Idioma: português

Editora: Companhia das Letrinhas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/amoras-806507ed810638.html

sexta-feira, julho 23, 2021

O Crime do Cais do Valongo - O poder das vozes de além




É difícil falar de um livro tão complexo e rico como O crime do Cais do Valongo. Escrito como uma narrativa composta, com mais de uma voz, o texto de Eliana Alves Cruz nos brinda com um enredo envolvente, com motivo histórico, mostrando que muitas de nossas mazelas são antigas.

No romance, conhecemos Nuno, um rapaz jovem e alegre, amante da vida e muito esperto. Por saber que, sendo mestiço, tem poucas chances de ascensão social, Nuno busca nos negócios uma chance de melhorar sua vida. O problema é que o jovem tem uma dívida com um português, aparentado com o Intendente Geral de Polícia, que responde diretamente a D. João VI.

A situação se complica para Nuno quando o credor da dívida aparece morto e seu corpo, mutilado. Temendo que a culpa caísse sobre ele, o jovem inicia uma investigação por conta própria, enquanto se aproxima do responsável pelo caso, o intendente em pessoa.

Além da voz de Nuno, temos também Muana Lómuè. Ela foi escravizada e trabalhava para a vítima. Moçambicana, Muana tem poderes que os olhares europeus não conseguem explicar. Muana fala de seu povo, macua, e sua Grande Mãe, Nipele. Muana tem capacidade de enxergar os mortos. Há outras duas personagens que trabalhavam para a suposta vítima: Roza e Marianno. Cada um deles tem características marcantes e poderes misteriosos.

Enquanto acompanhamos as vozes de Nuno e Muana, vamos nos questionando qual seria o verdadeiro crime. Não seriam os horrores provocados pelos traficantes das pessoas escravizadas? Cada capítulo se abre com um anúncio de jornal e alguns deles são de pessoas vendidas para o tráfico de escravizados. Os anúncios foram de fato consultados em documentos dos jornais do Brasil colonial. E mostram a vileza dos portugueses em negociar vidas inocentes, inclusive crianças. 

Um elemento interessante é que a autora com sua obra homenageia o romance policial, com reviravoltas e mistérios que envolvem cada personagem. O livro, porém, não é um romance policial e sim uma obra de denúncia social e um romance histórico. Uma obra poderosa sobre a resistência de povos que foram retirados à força de sua terra, mas que lutaram para que sua terra não fosse arrancada deles.


Ficha Técnica

O crime do Cais do Valongo

Eliana Alves Cruz

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ISBN-13: 9788592736279

ISBN-10: 8592736277

Ano: 2018 

Páginas: 202

Idioma: português

Editora: Malê


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-crime-do-cais-do-valongo-782206ed787048.html

sexta-feira, abril 30, 2021

Os batuqueiros: viagem ao mundo dos sons - Heranças redescobertas


Duas crianças são guiadas pela Mãe dos Ventos em um percurso de descobertas e pertencimento. Essa é a proposta de Os batuqueiros: viagem ao mundo dos sons, de Míria Gomes de Oliveira. 

Neste livro, somos apresentados às crianças Bitita e Bituca. Como qualquer criança, elas são curiosas e cheias de vivacidade. Assim, há nelas uma natural capacidade de experimentar e também uma incansável vontade de produzir sons e batucar. Seus batuques atraem a atenção de uma figura sábia e poderosa: a Mãe dos Ventos em pessoa. Encantada pelas duas crianças, a majestosa Senhora decide conduzi-las por uma galeria de instrumentos de percussão.

O texto de Míria Gomes de Oliveira é poético e divertido. Sua proposta escapa do didatismo, sem deixar de propor, em sua literatura, uma possibilidade de aprendizado. Por suas páginas, vamos nos familiarizando com uma gama de instrumentos que estão presentes na cultura brasileira, mas muitas vezes são ignorados por escolas, impedindo assim um acesso que deveria ser direito de todas as pessoas.

O traço de Linoca Souza confere graça e uma personalidade visual própria à obra. A ilustradora equilibra cores fortes com outras mais suaves, combinando com o próprio ritmo do texto. A personificação da Mãe dos Ventos é fabulosa.

Com um texto atrativo e lindos desenhos, bem como com uma proposta que diverte e também informa, Os batuqueiros: viagem ao mundo dos sons é uma excelente escolha de mães, pais, educadoras e educadores para apresentar às crianças personagens cativantes e a riqueza da percussão. 

Ficha Técnica:

Os batuqueiros: viagem ao mundo dos sons

Os batuqueiros: viagem ao mundo dos sons

Míria Gomes de Oliveira

Ilustrações de Linoca Souza 

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ISBN-13: 9786500143041

ISBN-10: 6500143043

Ano: 2021 

Páginas: 28

Idioma: português

Editora: Editora da Autora


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/os-batuqueiros-viagem-ao-mundo-dos-sons-11892933ed11889747.html