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quarta-feira, março 18, 2026

A poesia e as histórias - encontros fortuitos e potentes


No dia 20 de março, é comemorado o Dia do Contador de Histórias. Para quem não sabe, além de escritor, também tenho um percurso pela senda da narração oral. Já fiz apresentações de forma mais regular, mas continuo atuando nesse campo, como mediador, uma vez que um dos eixos da Biblioteca onde trabalho é justamente a valorização da oralidade. 

Fui agraciado pelo convite da ELENA – Escola Livre de Estudos da Narração Artística – criada pelo Instituto Cultural Abra Palavra, para estar com a Nívea Sabino e o Rogério Coelho numa conversa sobre as aproximações que a narração artística realiza com o universo dos saraus e slams. Sou grande admirador da Nívea, como poeta e também pessoa. De uma doçura que não deixa de lado a contundência – quando necessária. 

Rogério Coelho é um poeta e agitador cultural que também admiro demais. Grande articulador do ColetiVoz, é um cara que busca espalhar a palavra da Poesia aos quatro ventos e também para todas as idades. 

Estaremos no dia 21 de março, sábado, na Livraria do Belas, para esse encontro que certamente será inesquecível para mim. 

Segue abaixo o serviço:

Convergências entre Sarau, SLAM e Narração Artística

Com Nívea Sabino e Samuel Medina. Mediação de Rogério Coelho. 

Dia 21 de março, sábado, às 20h

Local: Livraria do Belas Artes (Rua Gonçalves Dias, 1581, Lourdes – BH/MG)



quarta-feira, agosto 20, 2025

É tudo sobre encontros


Eu tenho uma relação antiga com a poesia. Porém, há pouco tempo tenho assumido o lugar de poeta, com a publicação do meu livro Cicatriz, ocorrida no final de 2024, pela editora Litteralux. Sim, eu sei, posto poemas há anos nas redes e no blog, mas não é a mesma coisa. Ter meus versos transformados em um objeto como o livro tem me levado a outros lugares, para falar de meu fazer poético.

Foi o que aconteceu no dia 12 de agosto, terça, quando compareci como convidado, junto com Isabella Bettoni e Renato Negrão, para o Sarau Poético Vozes da Cidade, na Biblioteca do Centro Cultural Unimed-BH Minas. O convite partiu do bibliotecário Rafael Mussolini, que realiza há anos um trabalho consistente de promoção literária e formação de leitores. Conheci o Rafael quando ele ainda atuava como coordenador do Projeto Polo de Leitura Sou de Minas, Uai! e já mantinha uma presença forte nos debates para a construção de uma política pública para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas em Belo Horizonte.

Portanto, ao receber esse convite, eu me senti genuinamente honrado. Afinal, trata-se de uma pessoa que muito admiro, tanto pela atuação como bibliotecário e mediador de leitura, quanto como leitor e crítico, com seu blog pessoal, passando também por sua relação afetiva com a escritora Marina Colasanti, a quem admiro desde criança. Rafael criou o site Marina Manda Lembranças, que logo se tornou o site oficial da escritora ainda quando estava viva.

Ao saber que compartilharia a fala com a Isabella Bettoni e o Renato Negrão, minha sensação de privilégio e responsabilidade cresceu ainda mais. Havia conhecido a Isabella pouco tempo antes e tinha seu livro, emprestado do acervo da BPIJ-BH, comigo. Já Renato eu conheço desde 2019, quando assisti sua fala no Segundo ConVerso de LiteraRua, no Centro Cultural Usina de Cultura. Portanto, minha admiração por essas duas pessoas da poesia já era patente. 

O sarau teve início com o Rafael mencionando a iniciativa da 2ª Noite de Museus e Bibliotecas, que busca promover a ocupação desses espaços, a partir de atividades fora de seus horários de funcionamento. Fez uma leitura sensível de um poema da grande Wisława Szymborska, sobre pessoas que gostam de poesia. Em seguida, acrescentou que a escolha da poeta e dos poetas da noite se pautou pelo perfil de pessoas que transitam e vivem na cidade de Belo Horizonte. Ele muito cuidadosamente leu as bios de cada convidada e convidado. 

A palavra então foi passada para Isabella, que traçou um histórico desde sua infância, revelando seu sonho de ser escritora e que a poesia nasceu nela desde que começou a traçar as primeiras letras. Foi de fato uma criança escritora, pois publicou seu primeiro livro aos 12 anos e essa experiência impactou sua vida profundamente, por ter sido uma criança escrevendo para crianças. Formou-se em Direito e atua como advogada feminista, na área do Direito à Cultura. Em 2020, durante a pandemia, participou de diversas oficinas de escrita ministradas por mulheres. Dos versos criados nasceu seu livro Não tentar domar bicho selvagem.

Renato Negrão assumiu o microfone e contou que passou uma infância cercada pela arte e pela cultura. O pai colocava para tocar discos de muita música boa, de Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Rita Lee. Renato achava que artista era uma espécie de entidade, tipo um extraterrestre, como eles mesmos pareciam admitir. Essa coisa de ver o artista na caixa da televisão, ou a voz saindo do vinil. Fato é que sempre quis ser artista. A mãe o colocou no curso profissionalizante, onde aprendeu a trabalhar com tipografia, e produção de revistas. 

Um dia, foi barrado na entrada do prédio de seus amigos que moravam perto de sua casa. Com isso, escreveu um manifesto poético e pregou na parede do elevador. Essa experiência causou grande efeito nele. Percebeu que poderia se destacar pela intelectualidade. Logo identificou que sua pegada era o trânsito entre palavra e imagem. Busca assim sempre seguir pela via da experimentação. Sua obra poética é numerosa e consistente, indo desde a participação na coleção Poesia Orbital, bem como os livros solo No Calo (1996), Vicente Viciado (2012) e Odisseia Vácuo (2023).

Fui então que chegou a minha vez de falar. Aproveitei para fazer um paralelo entre as falas de Isabella e Renato, relacionando-as com a minha própria trajetória. Meu contato com a poesia foi antes mesmo de saber ler, com minha mãe recitando poemas na família, mas estes eram de versos religiosos, evangélicos. Minha família por parte de mãe é de tradição evangélica e isso me atravessa, mas minha relação com essa herança é pela via do ódio.

Enfim, um dos poemas que minha mãe recitava era de um pastor atropelado que no leito de morte dá boa noite para todos os filhos, menos aquele que não era mais crente. Para ele, o pastor diz “Adeus”. O resultado era um chororô, eu chorava, meus irmãos, minhas tias, uma coisa bem catártica. 

Mas minha mãe também fazia poesia. Lembro-me do poema sobre sua paixão por Teófilo Otoni, MG, sua cidade natal (“Vi Teófilo Otoni florir… /Quis o ipê roxo pra mim”). Ou quando recitava para mim, de repente, o poema que começava mais ou menos assim: “Ao poeta escondido /do poema esquecido /que nunca foi lido /nem nunca será…” (...) E termina: “Está tão escondido /no baú ou na alma /que nunca foi lido /nem nunca será”. Acredito que ela ainda saiba recitá-lo perfeitamente.

Eu, como Isabella, também queria ser escritor ainda quando criança. Publiquei um livro que era uma espécie de fanfic, de forma bem independente, sem editora. O enredo tinha como personagens a Atíria, o Papílio, o Príncipe Grilo (tornado Rei), entre outros presentes na obra de Lúcia Machado de Almeida. Minha mãe enviou um exemplar para a Lúcia, que me ligou lá em casa. Na época, eu morava em Teófilo Otoni. 

Aquilo foi como se “a Divindade” estivesse falando comigo pelo telefone, algo meio como o Renato disse sobre os artistas serem entidades. Tive uma espécie de quebra de relação com a divindade naquele momento. A voz que falava no livro, sagrada, agora estava falando comigo ao telefone. Essa experiência deixou um profundo impacto em mim.

Contei de minha trajetória pela tecnologia, como programador, e também a tentativa em fazer Direito, por conta de uma visão ingênua sobre escritores como José de Alencar, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles,  que tiveram essa formação

Minha mãe, mais uma vez, me influenciou nesse processo, ao dizer que Letras tinha tudo a ver comigo. 

Relatei sobre a primeira aula na UFMG, com o professor ouvindo sobre meu sonho de ser escritor e me chamando de ingênuo. Afirmei que leio poesia por obrigação, uma espécie de senso de dever, para expandir meus horizontes sensíveis. Que escrevo para dar vazão ao meu desarranjo interno, sendo também minha forma de fazer política. Para mim, política é se posicionar contra o que você acha que está errado no mundo. Isso independe de partido ou orientação ideológica. Dizer que não gosta de política é um contrassenso gigantesco, em minha opinião. Um verdadeiro absurdo.

Enfim, Rafa perguntou sobre espaços de poesia em Belo Horizonte. Renato apontou o Ateliê de Estratégias Narrativas, da Laura Cohen Rabelo. Nós três falamos dos saraus que ocorrem pela cidade. Destaquei o ColetiVoz e também falei de outros coletivos poéticos. Aproveitei para divulgar a Prosa Poética  Oficina de Escrita Criativa, que acontece todas as terças, às 10h, na BPIJ-BH. E, como não podia faltar, também fiz uma fala sobre o Clube de Escritores de BH, destacando o desafio de escrita. Por fim, apontei a importância da apropriação por parte da sociedade das 22 bibliotecas públicas municipais

Como não podia faltar, fizemos leituras de nossos poemas. De minha parte, li “Édipo ao avesso” e “Preciso trocar os meus óculos”.

Uma das pessoas presentes, um leitor chamado Marcos, perguntou sobre o incentivo para a escrita e publicação de poesia. Quis saber sobre o retorno financeiro. Isabella apontou que o principal motivo são os encontros. As pessoas que conhecemos pelo caminho. Concordamos com ela. Aproveitei para destacar que me considero um ilustre desconhecido. Que formar nossas famílias literárias é fundamental. Nossa matilha. Como que para provar o que eu afirmava, estavam presentes a Pâmela Bastos Machado e a Norma de Souza Lopes, duas pessoas que eu amo demais.

Só posso declarar que foi uma noite ímpar. Mais uma vez destaco que me senti profundamente honrado por estar naquele espaço cultural, cercado por pessoas tão incríveis. E poder falar do que me toca profundamente – a poesia. Estar em espaços como esse é um grande privilégio, pela escuta e, principalmente pelos encontros.

Para finalizar, expresso minha profunda gratidão ao Rafael Mussolini e a toda a equipe do Centro Cultural Unimed-BH Minas. E que outros momentos tão especiais como esse possam sempre acontecer.


Momento de fala.


Um público bem bacana!


Rafael Mussolini, Isabella Bettoni, eu, Norma de Souza Lopes e Renato Negrão na Biblioteca do Centro Cultural Unimed-BH Minas



Com o Rafa, deixando um exemplar do Cicatriz no acervo da Biblioteca!


Eu e Isabella trocamos nossos livros!


Esse é o Marcos, que adquiriu um exemplar do Cicatriz!


* Registros fotográficos feitos por Pâmela Bastos Machado, Norma de Souza Lopes e equipe do Centro Cultural Unimed-BH Minas.

quarta-feira, novembro 15, 2023

Como foi o evento DiVera

Não sabemos o que o futuro nos reserva. Por mais que estejamos preparados para os eventos, o acaso, esse traiçoeiro, nos toma pela mão e nos surpreende com seus caprichos. Foi assim nos dias 28 e 29 de outubro, quando estive na DiVera - II Festa da Palavra e da Cultura de Conceição do Mato Dentro. Foram momentos de trabalho, diversão e descoberta pessoal.

Fui convidado pela Fabíola Farias para realizar minha oficina Meu Primeiro Livro. Nessa oficina, eu convido as crianças e suas famílias a criarem pequenos livros a partir de folhas de papel, usando uma dobradura de zine. As crianças são convidadas a escrever e desenhar, mas se não tiverem desenhos e textos, eu forneço uma série de textos da tradição oral para as crianças e suas famílias usarem como editoras, recortando e colando os textos nas folhas de papel dobradas em formato de livreto.

Saímos de Belo Horizonte pouco depois das 7h da manhã em frente ao Palácio das Artes. A viagem foi tranquila, com uma parada rápida para um lanche na estrada. Chegamos para o almoço em Conceição do Mato Dentro. Fizemos o check-in nas nossas respectivas pousadas. Eu fiquei na Pousada da Saudade.

Almoçamos no Solar da Lili. Lá eu encontrei a amiga Lu Flores. No momento, a gente era mais conhecido, mas fomos ficando amigos ao longo do evento. Ela me cumprimentou com carinho e ficamos conversando. Depois do almoço, subimos para a tenda que estava montada diante da Igreja Matriz. Nessa tenda, seriam as atividades das oficinas propostas, que teriam início às 14h.

Quando o horário chegou, estava a postos, com material para receber as crianças e suas famílias. E elas foram chegando aos poucos. Começamos com umas quatro crianças e fomos aos poucos acrescentando mesas para os pequenos que foram chegando com suas mães e seus pais. Quando vi, estava com uma multidão de crianças ao meu redor, todas pedindo para aprender a produzir seus livrinhos. Muitas delas tinham dificuldades de fazer as dobraduras, por conta da espessura do papel e da necessidade de juntarmos as pontas das folhas com precisão. Fui auxiliando na medida do possível.

A oficina produziu muitos livretos fofos. Tinha uma menina chamada Jade e mais outra criança que fizeram corações para mim. Eu me senti muito querido e valorizado. Foi tudo muito lindo.


Depois da oficina, assisti o espetáculo musical maravilhoso do Grupo Serelepe.

Participei do lançamento coletivo com sessão de autógrafos em companhia de outras artistas. Vendi alguns livros e isso me permitiu comprar outros, também. Havia uma banca de livros da editora Aletria e as vendas que fiz propiciaram a compra deles.

Mais tarde, teve início o sarau organizado pelo magnífico Rogério Coelho. Eu fiz questão de participar, declamando meu poema "Caleidoscópio". Os demais textos e poemas lidos ou declamados foram de pessoas incríveis como Adrielle Moreira, Karine Bassi, Vito Julião e Tamara Selva. 

Em seguida, fizemos uma oficina de forró, mediada pelo Vito Julião em parceira com a Brisa Yasmin. Confesso que foi difícil participar, seja pela minha falta de coordenação motora e de consciência corporal, seja pela dificuldade em tomar iniciativa e convidar alguém para dançar. No momento dessa iniciativa, um rapaz se adiantou e me convidou para ser seu par. Ele se chama Camilo. Dançamos como um par e foi importante esse momento de ocupar um lugar inusitado, ser conduzido no forró. Confesso que achei mais confortável ser conduzido que conduzir. Além disso, foi gostoso dançar sem me preocupar com minha masculinidade. 

Deu a hora da oficina e já quase não dava tempo de jantar. Dessa vez, era no Restaurante do Mercado, um lugar um pouquinho longe da tenda da DiVera. Eu saí correndo igual um doido para conseguir chegar a tempo de jantar. Foi um trampo, mas consegui e ainda tive a companhia do pessoal da poesia, que estava jantando e me cedeu um lugar na mesa.

Voltamos então para a tenda, para um show espetacular com Everton Coroné Trio. Eu me diverti demais! E ainda fiquei depois do show conversando com o pessoal.

No dia seguinte, assisti ao espetáculo "O Menino Sabino", da Cia. Canta Contos, formado pelos queridos amigos Bárbara Amaral, Babu Xavier e Tininho Silva. Trata-se de uma apresentação que é também uma homenagem ao grande Fernando Sabino.

Participei da oficina "Qual história seu corpo conta", mediado pela Adrielle Assis. Foi uma experiência marcante, explorar os limites do meu corpo, conhecê-lo um pouco melhor. Mas também foi incômoda e muito difícil. Compartilhei isso com o grupo ao final da oficina. Adirelle comentou que não me achou incomodado ou inibido, não foi a mensagem corporal que eu passei. Mas o fato é que a oficina foi um grande desafio para mim. E eu me senti feliz por ter participado da oficina e aceitado o desafio.

Desci para almoçar no mesmo lugar do dia anterior e depois retornei para a tenda. No processo, conversei muito com o Caetano, filho da Lu Flores. Papeamos bastante sobre nossas paixões por jogos de computador.

No retorno para a tenda, expus meus livros mais um pouco. Apesar do grande movimento de pessoas, dessa vez, vendi apenas um. Porém, para mim, cada venda é uma vitória. Comemorei então essa venda com muita alegria. E fiquei ainda mais feliz porque foi a Thaís Mariano, amiga que fiz lá em Conceição do Mato Dentro, que apoiou meu trabalho.

Pude admirar também o magnífico trabalho da Cecília Castanha, que pintou um mural lindo para o evento. Ao final, não pude deixar de registrar o momento em que o mural foi finalizado. 

Por fim, fui assisti o espetáculo do grupo de balé Petite Ballerine. O espetáculo se chama "Dançando histórias de Bartolomeu Campos de Queirós" e foi simplesmente divino. Um corpo de balé maravilhoso com uma performance primorosa. Assisti também à apresentação musical "Histórias da Arca", com Ana Cê. 

Pegamos um pouquinho do show do Trio Ouvirá. Só que já estava na hora de partirmos e voltarmos para Belo Horizonte. Era por volta de 19h quando partimos.

O saldo foi extremamente positivo. Senti-me valorizado, feliz e bem acolhido. A cidade é muito hospitaleira e um lugar lindo de se ver. Ter participado como artista convidado foi sublime. Além disso, como eu fiquei sábado e domingo, pude aproveitar um pouco mais do evento, fazer amizades e aprender um pouco mais sobre eu mesmo.

Gratidão à Lu Flores que fez registros preciosos da Oficina Meu Primeiro Livro. E também pela simpatia e por não me deixar sozinho e abandonado pelo evento! Gratidão a todas as pessoas que participaram da oficina e também a toda a equipe da DiVera, essa festa especial. E uma gratidão super exclusiva à Fabíola Farias, que sempre apoia meu trabalho.

segunda-feira, agosto 02, 2021

Sarais



Ele me disse 

que ia aos sarais 

de toda a região. 

Alguém debochou 

E disse que a palavra 

tinha que ser 

"saraus".

Mas o deboche 

não viu 

É nessa roda 

de poesia que 

tantas pessoas saram 

seus ais