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sexta-feira, dezembro 23, 2022

Aquilo que eu deveria ter

O que eu não tenho? O que me falta para que as pessoas continuem lendo o que escrevo?

Lancei essas perguntas no Twitter, uns dias atrás. Ninguém respondeu. 

Pensando nessas questões, comecei a me perguntar se não me faltaria relevância no que escrevo.

Sempre que entro neste blog, sinto uma enorme angústia. Quero escrever, mas para ser lido, não apenas como um exercício vazio. Toda escrita pressupõe um leitor. É como se a gente escrevesse cartas para o futuro, lançados no mar dentro de uma garrafa. Nossa esperança é que alguém encontre a garrafa, leia e guarde a carta; ou a responda; ou melhor ainda, passe para outra pessoa essa carta. Neste mundo digital, de pouco conteúdo criado e muita coisa reciclada, é um desafio enorme a gente viralizar um texto. É quase como um milagre.

Mas retorno à pergunta: o que me falta? Este blog tem mais de dez anos de existência, com mais de novecentas postagens, entre resenhas, contos, crônicas e até duas narrativas serializadas. Então, com tanto conteúdo próprio, o que falta para as pessoas lerem? Será um visual novo? Ou talvez um maior investimento na divulgação? Talvez o maior problema seja justamente o conteúdo. Aí isso é motivo para fechar a firma: encerrar o blog para sempre.

Mas este lugar não deixa de ser também um estúdio de experimentações. Nele, exercito a minha escrita de forma live e artística. Procuro, com diligência, escrever aqui com uma certa regularidade. Bem, acho que essa última frase merece uma revisão. Afinal, o blog sempre teve seus altos e baixos. Infelizmente, frequência nunca foi muito o seu forte.

Agora, é como o dilema de Tostines. O blog é mais visitado porque tem mais conteúdo ou tem mais conteúdo porque é mais visitado? E claro que muitas vezes eu tenho escrito contos, crônicas, poesia, resenhas e não recebo um comentário sequer de retorno. Isso me angustia. 

Enfim, não sei dizer como sair desse impasse. Se ao menos as pessoas comentassem e compartilhassem meus textos, eu me sentiria bem mais amparado. Ter algum tipo de retorno palpável é o mínimo para compensar tanto trabalho e reflexão. Por isso, deixo às pessoas que me leem a pergunta como uma provocação: para você continuar lendo o que escrevo, para você se sentir estimulado a voltar e continuar por aqui, o que é preciso que eu faça? 

quarta-feira, novembro 24, 2021

Lágrimas de luz

Imagem de WikimediaImages por Pixabay 

O Brasil é o país com maior incidência de raios. Em todo o mundo. Os estados Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre são os que mais recebem essas descargas elétricas. Isso me faz pensar no que causaria esse fenômeno. Seria o karma?

Afinal, a Amazônia tem sido atacada continuamente, queimada, invadida, explorada, rechaçada. O Pantanal, também. Quem sabe as deusas antigas não estariam lançando suas lágrimas incandescentes ao prantear a natureza impiedosamente destruída?

Em uma das tradições indígenas, o raio é manifestação de Tupã. Seriam dos guaranis. Não me lembro. O que me lembro é que os 500 anos de invasões continuam, com os povos originários sendo assassinados, perseguidos e caluniados. Era de se esperar que Tupã revidasse.

quinta-feira, novembro 11, 2021

Para marcar a mudança

Faz tempo que vivia angustiado com o blog. Eu sempre fico angustiado com a escrita e o blog é o principal ponto de escoamento do que escrevo. É minha vitrine para o mundo. Porém, eu sentia - e ainda sinto - que as pessoas não interagem aqui. Apesar de relatórios de acessos e visualizações, a escassez de comentários faz com que este espaço pareça pouco visitado.

Ou às vezes pode acontecer o seguinte: a pessoa novata encontra este espaço mas, por senti-lo pouco amigável, acaba saindo antes de ler qualquer coisa. Ou seja, antes do tão almejado engajamento. 

Com isso, tratei de tentar olhar o blog como se fosse um leitor visitante. E percebi alguns problemas. Concluí que o visual era muito carregado. A descrição era comprida e ocupava quase toda a tela. Enfim, percebi que as pessoas precisam gostar muito mesmo do que escrevo para realmente permanecerem por aqui, lendo e comentando. 

Assim, decidi dar uma mudada no visual do blog. Isso aconteceu na segunda-feira. Conferi alguns modelos do Blogger e escolhi o que parecia mais intuitivamente amigável pra mim. E eis que chegamos nesta cara nova que ele tem, atualmente. Porém, percebi que mudei o visual e não falei nada, não apresentei essa mudança para as pessoas que leem o blog. Assim, educadamente, peço desculpas. Eis diante de vocês, leitoras e leitores, a nova cara de  O Guardião de Histórias. 

Agora, chegou a parte mais difícil. O que vocês acharam? Gostaria muito de saber a opinião de cada uma e cada um de vocês. E se por acaso os comentários foram mais saudosistas e lamentosos, farei questão de restaurar o modelo original, ok? E para quem chegou até aqui neste texto deixo a minha gratidão! ^_^

domingo, novembro 07, 2021

Pena de morte

Quanto mais definitiva a pena, maior a possibilidade de injustiça.

Quanto vale a morte de um inocente? A execução de um inocente compensaria a de vários criminosos?

Castração química. Como definir quem merece e quem não merece? E se houver a mínima chance de a pessoa ser inocente?

Tentando me afastar da hipocrisia, tentando não ser hipócrita, penso que eu nunca perdoaria quem ferisse alguém que amo. Porém, eu estaria disposto a aceitar a morte de um inocente sequer para que aquele criminoso que odeio por ter matado quem eu amo fosse executado? Eu poderia viver com essa possibilidade? Não acredito que a vida seja quantificável. 

27 dez 2014

segunda-feira, agosto 16, 2021

Uma perspectiva do Universo

Fonte: https://pixabay.com/pt/users/free-photos-242387/


Se o universo é infinito, e tudo cabe no infinito, todas as variações possíveis de nosso planeta e da nossa história também cabem nesse mesmo infinito. Ou seja, os mundos paralelos estão aqui ao lado, a um infinito de distância.

(Descrição da imagem: A silhueta de uma pessoa de perfil volta a cabeça para cima e contempla o céu estrelado. A tonalidade desse céu passeia entre o preto nas bordas, o amarelo embaixo e o azul à direita. Ao centro, poeira de estrelas formam uma nuvem)

terça-feira, agosto 03, 2021

Justiça seja feita



Há um bom tempo, fiz uma postagem falando dos eventos que participei como ouvinte e acabei não falando do Segundo Encontro Mineiro de Bibliotecas Comunitárias. Falha minha. Com tantos eventos acontecendo simultaneamente, acabei deixando passar este, que é tão importante quanto os demais e com uma riqueza enorme de discussão e reflexão.

Como alguém que deseja guardar histórias, compartilhá-las, lembrá-las, acho fundamental falar deste evento, que teve à frente a rede de bibliotecas comunitárias Sou de Minas Uai.

O Encontro aconteceu em três dias: 21, 23 e 25 de junho, através da plataforma Zoom.

A primeira conversa contou com Sol Barreto, Marília Paiva e César Júnior, com mediação de Túlio Damascena e intervenção literária de Lourdinha Reis. O tema foi "Dinâmica e ações de incentivo à leitura". 

A segunda contou com Mônica Verdam, Macaé Evaristo e Fabíola Farias, com mediação de Agripina Vieira e intervenção literária de César Júnior. O tema foi "A incidência das políticas públicas do livro e mobilização de recurso".

A terceira e última conversa teve a participação de Renato Negrão, Carol Fernandes e Lavínia Rocha, com a mediação de Talita Rocha e Sãozinha na intervenção literária. Para fechar o encontro, o tema que norteou a conversa foi "Entre autores".

Foram três noites de rico diálogo. Nós, participantes, fomos continuamente provocados pelas falas tão ricas, em especial da Macaé Evaristo e da Fabíola Farias.

Que os próximos encontros sejam tão ricos quanto este. E que nós possamos cada vez mais apoiar a rede de bibliotecas comunitárias de nossas cidades e seus entornos.

E para quem quiser conhecer a rede Sou de Minas Uai, basta acessar sua página na internet: https://www.soudeminasuai.com/.

segunda-feira, maio 18, 2020

O que a leitura é para mim?


Muito se pode dizer sobre a leitura. Podemos, por exemplo, assumir um olhar meramente técnico, dizer que a leitura nada mais é que a decodificação de sinais, de forma a atribuir aos mesmos sentido. Ou podemos assumir, como eu, um viés mais amplo.

Não é possível falar de leitura sem pensar em Paulo Freire. O grande educador, em sua obra A importância do ato de ler(1981), fala sobre dois tipos de leitura: a leitura da palavra e a leitura do mundo. E ainda afirma que haveria uma preponderância de uma em relação à outra.

Certa vez, estava sentado em um banco na Estação São Gabriel, aqui de Belo Horizonte, aguardando o ônibus para o bairro Ribeiro de Abreu. Usava uma camisa preta, com a estampa de um mangá pouco conhecido aqui no Brasil - Gantz. 

De repente, um senhor se aproxima e aponta para o desenho em minha camisa. Ele dá um sorriso de reconhecimento e fala da apreciação do seu filho por desenhos desse tipo. Contou sobre Dragon Ball, dentre outras referências. 

Aquele senhor não conhecia o mangá cuja imagem estava estampada em minha camisa. Porém, observou o padrão da imagem e fez relações que estavam presentes em sua bagagem cultural. Para mim, esse episódio foi um exemplo inesquecível sobre as capacidades de leitura de mundo que as pessoas possuem. E tais capacidades muitas vezes são desprezadas por aquelas pessoas que se consideram "detentoras do saber".

Sei que ao falar de leitura aqui, não estou me referindo à leitura de mundo. Estou falando da leitura da palavra. Porém, para mim, não existe uma sem a outra. Em minha opinião, quanto mais aproximamos mundo e palavra, maior a possibilidade de pertencimento, de associações. Maior a possibilidade do jogo de sentidos.

Chego, porém, ao título deste texto. O que é a leitura para mim? E falo a leitura da palavra. Qual a sua importância em minha vida? A leitura sempre foi para mim uma possibilidade de escape, mas não de escapismo. A leitura ressignifica meus dias e concede a eles um caráter mágico, maravilhoso. A leitura concede sentido à minha existência.

Continuo a buscar a ampliação desse meu conceito de leitura. Tenho para mim que ler é um ato de liberdade e também de existência. Pela leitura eu reafirmo a minha (r)existência, meu lugar no mundo e todas as possibilidades que tal posicionamento me traz. Até quando não leio estou reafirmando a minha leitura, pois tenho nos livros e no texto escrito uma das minhas razões para permanecer neste mundo. Um dos maiores sentidos de meu ser. 

quarta-feira, maio 13, 2020

Muito ainda para refletir

Quem tem acompanhado o blog pode observar que minhas últimas reflexões tiveram o olhar sobre as infâncias, suas leituras e os espaços em que elas se atravessam. Ressalto que as reflexões foram motivadas pelas atividades do curso Infâncias e Leituras, realizado pelo Polo Itaú Cultural, em parceria com o Laboratório Emília de formação. 

Refletir e escrever sobre o tema abordado foi muito proveitoso para mim. Destaco o exercício de retorno às origens e memórias de leituras iniciais, o que reforçou ainda mais minha identidade como leitor, escritor e mediador de leitura. Ao final de cada atividade proposta, predominava o sentimento de gratidão pela oportunidade ímpar desse mergulho no passado, o qual proporcionou um melhor entendimento de mim mesmo, de meus propósitos e sentidos na vida.

Reforço que muito mais há para falar e explorar a partir das anotações feitas durante o curso. Continuarei a compartilhá-las aqui e conto com as leituras das pessoas que aqui comparecem, para podermos expandir ainda mais nossos horizontes. 

segunda-feira, maio 11, 2020

Para pensar os clássicos

Quem tem acompanhado os relatos e as reflexões que tenho postado aqui, é possível constatar que o curso Infâncias e Leituras é um espaço rico para muitos desdobramentos. 

Um dos temas abordados foi o conceito de clássico e o que ele representa na literatura. Como provocação, fomos convidados a assistir dois vídeos da escritora Marina Colasanti.

A partir das falas e provocações da escritora, pude observar alguns critérios que ela relaciona aos clássicos.

Creio que os critérios mais importantes dos clássicos são sua universalidade e atemporalidade. Na universalidade, as questões mais presentes na mente e na cultura humanas são abordadas e discutidas. Sendo assim, um clássico sempre será atual e sempre falará a pessoas de diverentes partes do globo terrestre.

Outro critério importante, creio eu, é a capacidade reflexiva. Um clássico não é feito para divertir, mas para despertar a reflexão daquele que o lê.

Sendo assim, os clássicos se destacam através do tempo por sua atemporalidade, ultrapassam fronteiras, por sua universalidade, e se mantêm vivos na mente das pessoas, por sua capacidade reflexiva.

quarta-feira, maio 06, 2020

O que eu aprendi com meus leitores


Com meus leitores aprendi que não há preconcepção que não possa ser desconstruída. Aprendi que muitas vezes a criança que mais atrapalha é justamente a que mais está gostando da leitura e não sabe como dizê-lo. Aprendi que não há como a criança para quem eu leio gostar de um livro se eu mesmo não gostar.

Foram muitas as descobertas. Aprendi a não olhar a criança com superioridade. Nossas inteligências e experiências apenas são diferentes. Entender a criança a partir de uma horizontalidade e uma disposição de escuta é muito importante.

Com meus leitores eu aprendi que sempre é possível ser surpreendido e esperar o retorno das crianças, antes de tirar conclusões precipitadas. Quando eu achava que a criança já estaria consada de tanta leitura, ela pedia mais. Quando eu pensava que um texto específico já estaria batido e desinteressante, as crianças queriam que o mesmo texto fosse lido mais de uma vez sequida.

Aprendi que a leitura compartihada com as crianças é uma experiência de intensa troca, de constante descoberta. Nós estamos lendo para elas, mas elas também nos estão lendo. Elas buscam conexão.

A leitura compartilhada para as crianças é como um jogo. Não é um ato meramente protocolar. Trata-se de uma brincadeira também, assim como as demais atividades da criança são, para ela, como brinquedo. 

Ao mesmo tempo, a leitura compartilhada é também um momento para a criança descobrir outras formas de se relacionar com o mundo. O momento de silenciosa escuta. O momento de abrir a janela para dentro.

segunda-feira, maio 04, 2020

Meu caminho como leitor

Cada leitor tem um percurso único. Cada leitura também é única, a meu ver. Contudo, existem aproximações, interseções, que nos ajudam a entender nosso percurso como algo maior, mais amplo, cujos contornos nos ligam a tantas pessoas diferentes de nós.

Durante o curso Leituras e Infâncias, fui convidado a evocar de minha memória os momentos em que tive contato com a leitura em voz alta, quando ainda era criança.

Existe um momento especialmente marcado em minha infância. Eu tinha por volta de 9 anos. Cheguei à sala de casa e vi meu padastro lendo O Pequeno Príncipe. Ele estava sentado no sofá, em silêncio. Eu me sentei ao seu lado e ele, ao perceber, começou a ler um trecho em voz alta. Era justamente o trecho em que o príncipe e a raposa conversam sobre os sentidos da palavra cativar.

De repente, eu senti lágrimas escorrendo de meus olhos. Eu chorava, de tão emocionado que estava com o amor que a raposa e o príncipe haviam cultivado um pelo outro.

Houve outros momentos de leitura. Lembro-me de segurar em minhas mãos livros de contos de fadas, enquanto alguém lia para mim. Um dos contos era A pequena vendedora de fósforos, de Andersen.
A imagem era vívida e quase se podia sentir o frio que acometia a pequena menina. Assim como o calor da luz que a iluminou enquanto voava em companhia de sua avó.

E por falar em avó, a mãe de minha mãe contava histórias para mim. Algumas eram assombradas. Outras, cômicas. Sua voz soava tranquila, quase num sussurro, enquanto ela me guiava por caminhos de fantasia. 

Outra provocação do curso foi me fazer ponderar sobre o que teria facilitado meu percurso como leitor, bem como o que teria dificultado o mesmo.

A proximidade com os livros facilitou muito a minha formação leitora, ao mesmo tempo que a religião a dificultou. A partir da visão cristã, havia livros impróprios, histórias malditas, por falarem de magia, bruxas e monstros. Essa ideia não perpassou minha infância, mas contaminou com muita força parte da minha adolescência e me afastou dos livros. Em certa época, tornei-me leitor quase exclusivamente da bíblia e de livros religiosos.

Existe outro dificultador em relação a minha formação leitora, que foi o fato de ter morado no interior de Minas Gerais. A cidade em que eu morava, embora não fosse muito pequena, não contava com biblioteca ou livraria. O acesso a livros novos também era difícil, pois estes eram caros. Por isso, eu geralmente recebia livros usados, comprados em sebos de Belo Horizonte, ou doados por familiares. Tenho em meu acervo até hoje livros com nomes de parentes na contra-capa. 

A verdade é que eu tinha muita dificuldade em ler, nos primeiros anos. A partir da terceira série, porém, fui apresentado a livros da série Vaga-lume por minha mãe. Ela havia sido encorajada a isso por minha professora. Eu estava no quarto ano, antiga terceira série. 

A professora recomendou a minha mãe que não me obrigasse a ler, mas fizesse sutis sugestões. Os livros eram mostrados, oferecidos, mas nunca impostos. Essa ausência da imposição aguçou minha curiosidade. A partir do livro O caso da borboleta Atiria, minha paixão pelos livros teve início e tal fogo nunca mais se extinguiu.

Acho que essa premissa, a de nunca forçar ou obrigar uma leitura, foi fundamental para não me afastar dessa nova possibilidade. Assim, quando os livros se tornaram um lugar seguro para mim, um abrigo e uma casa, pude ter sempre em mente que ler é, antes de tudo, um convite. 

segunda-feira, abril 27, 2020

O objeto de nosso desejo

Muito se pode dizer sobre o livro. Existem conceituações práticas e outras mais românticas. Os mais pragmáticos podem apenas afirmar que o livro é um objeto que serve para armazenar informações. Já os românticos vão chamá-lo de "janela para outros mundos", "objeto que nos faz viajar sem sair do lugar", entre outras definições ufanistas. 

Nenhuma delas, porém, vai abarcar todas as dimensões do livro. Sim, trata-se de um objeto de múltiplas dimensões. O livro é, antes de tudo, um lugar de muitos lugares. Um espaço de muitos espaços. Não foi à toa que o escritor Jorge Luis passou sua vida inteira perseguindo a ideia do livro e da biblioteca, explorando suas infindáveis facetas, buscando ultrapassar seus limiares.

O livro é um objeto de aprendizado. Ao afirmar isso, não quero dizer que ele deva servir para o aprendizado, ou que ele deva servir para algo. Como um objeto sólido, ele pode servir para muita coisa: pode impedir que um monte de papéis sejam levados pelo vento. Pode segurar uma porta. Pode até servir como projétil a ser arremessado contra uma testa incauta. E pode, inclusive, servir para nada.

Como disse anteriormente, o livro tem múltiplas dimensões. Trata-se de um artefato cultural. Em si ele encerra milênios de história humana. Ele evoluiu, mudou ao longo dos séculos. Não é à toa que os objetos mais importantes das duas maiores religiões do mundo sejam justamente livros.

Portanto, o livro atrai para si um fascínio único. Posso arriscar sem errar muito que ele é um dos poucos artefatos que reúnem em si o espírito da memória humana. É um objeto interativo, feito para ser manuseado, explorado, descoberto. Sendo assim,  ele estimula a sensibilidade de seus leitores. Basta dar um livro a uma criança para observar como ela se ocupará por um bom tempo apenas em manuseá-lo de várias maneiras, experimentando qual seria a forma correta de lidar com esse objeto misterioso. 

Através dessa interação, o leitor tem como refletir sobre o tempo, a memória, os sentidos. O livro é um objeto navegável, pois nele podemos ir para frente e para trás, podemos pular páginas, retornar em algum trecho que nos tenha chamado atenção. 

Esse aspecto interativo do objeto livro foi evocado por mim anteriormente. Porém, sou tão fascinado com tal poder de interação que não me canso de evocá-lo. Perder-me em páginas de um livro, apenas para folheá-lo, ainda é algo muito recorrente para mim.

Alegoria do próprio conceito humano de tempo, cada livro nos permite construir uma relação pessoal e específica com ele. Assim como cada pessoa é única, sua relação com cada livro também o será, seja de forma consciente ou não. Esta relação pode então se expandir, crescer, transformando no livro em uma ideia que ultrapassa suas dimensões físicas. 

E assim o livro se torna um outro lugar. Um jardim secreto, um esconderijo para além do tempo, o lugar onde se revela e se esconde o nosso desejo.

segunda-feira, abril 20, 2020

As bebetecas

No final de 2019 e início de 2020, estive participando do curso à distância de curta duração Infâncias e Leituras, promovido pela parceria entre o  Polo Itaú Social e o Laboratório Emília de Formação. Durante o curso, fomos instigados a refletir sobre diversos temas afins. Dentre eles, as bebetecas. Confesso que me senti especialmente desafiado, apesar de minha experiência de 10 anos de atuação como mediador de leitura para a infância. Afinal, o que seria uma bebeteca? Como ela se constitui? Quais são suas premissas e valores?

As bebetecas ainda são um conceito novo. Afinal, existe um senso comum que pressupõe que um bebê, por não saber ler, não seria um potencial leitor. Ainda que no meio acadêmico que pesquisa a infância e seus atravessamentos já exista uma fortuna crítica sobre o tema, a sociedade como um todo ainda carrega diversos preconceitos sobre os bebês e suas necessidades.

Uma das maiores referências no incentivo à leitura na primeira infância, Yolanda Reyes destaca, com muita propriedade, a necessidade de apresentarmos a palavra aos bebês quando estes ainda estão no ventre materno. Conversar com o bebê ou ler para ele durante a gestação não é um gesto vazio de sentido. O pequeno ser em formação dentro da barriga da mãe já se relaciona com o mundo externo através do corpo dentro do qual ele se desenvolve.

É importante observar também que o bebê é uma pessoa em franco desenvolvimento. Reyes, em seu livro A Casa Imaginária: leitura e literatura na primeira infância, aponta pesquisas que indicam que na primeira infância, as crianças apresentam um enorme potencial cognitivo, devido à enorme neuroplasticidade. Ou seja, o cérebro da criança, até seus seis anos de idade, está construindo sua rede sináptica e por isso sua capacidade de adaptação é enorme. E basta apenas observarmos uma criança para perceber o enorme avanço que é crescer. Até os 5 anos, a criança aprende uma enorme quantidade de habilidades, sejam elas motoras, cognitivas ou linguísticas. Não é à toa que uma criança tem muito mais facilidade de aprender um novo idioma que um adulto.

Portanto, nada mais natural que oferecer livros para os bebês, para que os mesmos possam adquirir maior familiaridade com esse objeto. Yolanda Reyes inclusive defende que não devemos temer que a criança rasgue ou morda o livro. Sua relação com o mundo é extremamente sensorial. Aprendendo com os sentidos, a criança se integra ao universo ao seu redor. Por ser extremamente explorador, o bebê irá manusear o livro à vontade, até se familiarizar com o mesmo.

Nesse ponto, acredito que é importante destacarmos o caráter interativo que o livro tem. É um objeto altamente manuseável, encerrando em si mesmo a metáfora do tempo. Com um livro em mãos, a criança observa o passar das páginas e vai percebendo naturalmente que existe uma sequência e que esta pode inclusive ser subvertida. Ao ler, avançamos as páginas, mas podemos muito bem retornar, ou seja, simbolicamente nós voltamos no tempo ao voltarmos as páginas.

Outro ponto importante a ser destacado é que os bebês aprendem pela imitação. Ao observar os adultos e crianças mais velhas lendo, eles também demonstrarão vontade de segurar um livro, passar as páginas e "ler", mesmo quando ainda não estão alfabetizados. E tal brincadeira irá se repetir inúmeras vezes. 

Assim sendo, é fundamental inserir os bebês no universo letrado. E não estou falando de uma alfabetização precoce. Apenas estou apontando que os livros não devem ser poupados aos bebês, bem como as leituras em voz alta, seja de narrativas, seja de poemas. A poesia, por ter musicalidade e ritmo, é uma fonte rica de aprendizado para os bebês. E livros, muitos livros.

A criação de bebetecas ainda é um grande desafio. Trabalhei por anos na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Nela, pude constatar como atendemos ainda de forma muito precária os bebês e suas famílias. Por exemplo, além de acervo e mediadores, precisamos ter estrutura física para melhor atender esse público, como fraldários, espaço família, mobiliário adequado, entre outros elementos fundamentais.

Além disso, a produção literária para bebês ainda é escassa, se compararmos a outros segmentos literários. Carecemos de mais livros, fora do aspecto paradidático. Precisamos de livros que busquem explorar de forma criativa, sensível e inteligente o universo da primeira infância.

A carência, porém, esconde também uma enorme potencialidade. Há todo um universo a ser explorado, na escrita, na ilustração, no projeto gráfico, na pesquisa de novos materiais que sejam amigáveis aos bebês. A materialidade na primeira infância é fundamental. Nada de telas e suas barreiras de vidros. Os diversos materiais que podem compor um livro, as texturas, as superfícies, os cheiros e sabores são verdadeiros parques sinestésicos. E não é só isso. A primeira infância nos convida à criatividade, a romper os parâmetros da linguagem. E nos convida também a dialogar com o passado, com a tradição oral e suas cantigas, parlendas, trava-línguas e quadrinhas.

Que nós, mediadoras e mediadores possamos entender a enorme responsabilidade que temos. Que possamos entender que somos convidadas e convidados a oferecer o que há de melhor para a primeira infância. O desafio é também uma chamada à aventura, à experimentação. As bebetecas devem oferecer o que há de melhor. E com as pessoas mais bem preparadas profissionalmente, além dos melhores e mais seguros móveis. Sem nos esquecermos dos melhores livros. Os bebês merecem isso.


Para conhecer mais sobre o Polo Itaú Social, basta clicar em http://www.polo.org.br.

Recomendo também acessar o site da Revista Emília (https://revistaemilia.com.br/).

quarta-feira, abril 15, 2020

Reflexões sobre leitores e leituras

Trabalho ativamente como mediador de leitura há quase dez anos. Existem duas dimensões quando falamos dessa mediação. A primeira, é a dimensão prática, o trabalho diário com os leitores. Já a segunda é a dimensão reflexiva. Pensar nossa atuação como mediadores é fundamental para o desenvolvimento de estratégias cada vez mais eficazes. 

Dessa forma, é importante refletir sobre o objeto de nossa atuação. O que a leitura representa para nós? Existe a conceituação acadêmica, mas para mim, a leitura também atravessa aspectos afetivos e identitários. Pensar a leitura também significa pensar em quem sou como pessoa.

Leitura vai muito além de decifrar um texto escrito. Há uma extensa discussão conceitual sobre isso. A meu ver, a leitura é a produção de sentido através da inferência e da interpretação de um texto, relacionando seus sentidos com a bagagem de conhecimento do leitor. 

Sendo assim, cada leitura é única, pois cada leitor também o é. Além disso, um texto pode ser uma sequência de sinais gráficos ou uma tela de cinema, ou uma melodia. Desta maneira, quanto maior nossa bagagem de conhecimento, maior a variedade de ferramentas para enriquecer os sentidos que produzimos ao ler.

É importante que cada leitor valorize e respeite sua trajetória pessoal. O pertencimento e a familiaridade são muito importantes para a construção de um ambiente rico de possibilidades. Acredito que cada experiência e trajetória são valiosas na composição de cada sujeito leitor. As memórias de infância e sua relação com a fabulação propiciam uma disposição para a leitura e para a experimentação de novas narrativas.

Como dito anteriormente, cada leitura é única. Ler um texto novamente se torna uma experiência diferente da leitura acontecida em sua primeira vez. A diversidade de leitores também proporciona a diversidade de leituras. Diante disso, cada mediador precisa manter uma postura de escuta ativa e acolhimento.

Como disse Antônio Cândido, todo ser humano necessita de fabulação. A leitura literária permite esse fenômeno, assim como outras linguagens artísticas. Na literatura, porém, o foro é mais íntimo. A imaginação é estimulada ao máximo. Na leitura literária, o leitor não apenas adquire vocabulário e conhecimento. Ele adquire experiência sinestésica e cultiva a empatia pela diferença.

Ainda parafraseando Antônio Cândido, se a literatura é uma necessidade básica, ela também é um direito inerente ao ser humano. Garantir a cada pessoa o acesso ao universo literário é garantir um mundo um pouco mais justo.

Por fim, o mediador precisa se apresentar como alguém acessível, empático, disposto a aprender com seu público, a construir junto uma trajetória de leitura. Ao mesmo tempo, ele precisa se comprometer com a pesquisa, com a busca por novos horizontes literários, de forma a apresentar ainda mais possibilidades a cada um de seus leitores.

Atualização de 25/04/2020 - Caso alguém tenha ficado em dúvida quanto ao termo "leitura literária", esclareço que se trata da leitura para além de seu aspecto puramente pragmático, não se resumindo apenas à decodificação de sinais linguísticos, mas também  um exercício estético de apreciação da literatura, devaneio da imaginação e da fruição poética.

segunda-feira, abril 13, 2020

Os melhores japoneses do Brasil

Fonte: Mangá Gantz, de Oku Hiroya
Nunca imaginei que um dia concordaria com o Reinaldo Azevedo. Usando de ironia, o cronista publicou um texto em que rotula Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia "pais e maridos e japoneses exemplares".

A piada surgiu a partir de um trecho de uma palestra de Alexandre Garcia, onde ele propunha a "troca" da população do Brasil pela do Japão. Segundo a "teoria" do jornalista, nosso país levaria no máximo dez anos para se tornar uma potência. Tal vídeo foi compartilhado pelo presidente e causou mal estar mas redes sociais.

Não foi a primeira vez (e talvez não seja a última) que Garcia usou sua posição privilegiada para espalhar seu preconceito como se o mesmo fosse uma lei universal. Como muitos "pensadores" do Brasil, Alexandre Garcia representa a voz de uma parcela conservadora da sociedade. Um grupo que sempre dispôs de poder e hegemonia, que desde o período colonial usa de violência física e simbólica para silenciar qualquer tipo de pensamento contrário, qualquer tentativa de questionar o status quo.

Tal declaração de Garcia, inclusive, vai de encontro a uma pérola de Jair Bolsonaro. O político teria dito que nunca viu japonês pedir esmola, em uma declaração que despreza a realidade de um país que desconhece, bem como reforça um preconceito profundo contra o próprio brasileiro, em especial aquele em situação de rua.

Por vezes eu me pergunto por que pessoas como Bolsonaro e Garcia desprezam tanto o provo brasileiro. Porém, creio que todos sabemos a resposta e ela é por demais hedionda, abjeta, nojenta, para ser verbalizada.

Para alguém como eu, que há mais de vinte anos assiste animes e lê mangás, expoentes da cultura pop japonesa, Bolsonaro facilmente se assemelha à figura do valentão enorme e malvado, aquele vilão primário, que não tem um pingo de profundidade ou misericórdia, usando sua força para intimidar por prazer. Já Garcia corresponde à figura do típico bajulador, que anda às voltas desse vilão, para ganhar vantagens.

Pouco sabem os dois que nas narrativas dos mangás, os heróis existem para proteger os mais fracos, para cuidar de quem precisa, para estender a mão e buscar o entendimento. Os mais icônicos heróis de mangás são órfãos, vivem na pobreza e lutam contra o preconceito. 

Encerro este texto me lembrando de Gantz, um mangá que foi adaptado para anime no início dos anos 2000. A narrativa tem início quando o herói e seu amigo de infância saltam em uma linha de metrô para salvar um mendigo que, bêbado, acabou caindo e corre perigo de ser atropelado pelo trem. Enquanto os dois jovens se colocam nessa situação perigosa, várias pessoas apenas assistem, algumas até mesmo com celulares, para filmar o atropelamento iminente.

Acredito que Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia, em uma situação como essa, ficariam só assistindo, como bons japoneses que acreditam ser.

quarta-feira, abril 08, 2020

Quando as trevas fazem vez de luz

Imagem: Mikhail Timofeev
Sempre evito fazer referências bíblicas. Coisa do meu passado, de experiências ruins com o horror que sentia quando eu via uma pessoa falar de amor ao próximo e declarar, logo em seguida, que deus deveria "pesar a mão" contra alguém que não fosse cristão evangélico.

Evito referências bíblicas porque sei como elas podem ser usadas para oprimir, discriminar, massacrar, justificar o injustificável. Porém, algumas vezes sou surpreendido com absurdos tão grandes que acabo recorrendo à própria bíblia para tentar refletir um pouco.

O atual presidente se diz cristão. Declara que o Brasil é um país cristão. Costuma falar de deus a cada pronunciamento que faz. E assim continua a vender sua imagem de representante do povo cristão no Brasil.

Então, paro sou levado a refletir sobre as palavras e ações de Bolsonaro e concluo que as coisas estão no mínimo deslocadas. Para não dizer o pior.

No evangelho de Mateus, no capítulo 6, Jesus começa o famoso Sermão da Montanha. E em dado momento ele declara: "se a luz que há em ti forem trevas, quão grandes serão essas trevas!"

Não sou um estudioso da Bíblia. Fazem anos que não a consulto, mas fiquei inculcado com esse trecho, que me veio depois de ouvir um presidente falar que uma pandemia que já matou milhares de pessoas ser "uma gripezinha" e que o cuidado que as pessoas estão tendo não passa de "histeria".

E me recordo de outras coisas que o sujeito disse ao longo de sua carreira política. Uma de suas primeiras polêmicas foi colocar na mesma frase as palavras "estupro" e "merece". Uma frase claramente ofensiva, sobre a qual nem vale discutir aqui. Só vou argumentar que a frase dele faz tanto sentido quanto dizer: "só não como cocô porque não é doce."

Essa não foi a única frase cruel e criminosa de tantas. Nem vale elencar todas aqui. Destaco apenas aquelas que me causaram profundo nojo. Ele disse, por exemplo, que o crime de extermínio era bem-vindo no Rio de Janeiro. Sua fala está nos anais da assembleia legislativa do Rio. Todo mundo lembra de sua abjeta homenagem a um torturador durante a votação do impeachment.

Uma de suas mais recentes declarações foi reclamar sobre um comprovante. "Querem comprovante de tudo." Afinal, ele se declara acima de qualquer suspeita, não tem que dar satisfação a ninguém. Ao que parece, nem aos seus eleitores.

E assim continua sua trajetória em perverter as coisas. Com Bolsonaro, crime é defendido, não é preciso ter comprovante, estupro está ligado a merecimento, pandemia é gripezinha.

Eu simceramente gostaria que, nessa última, ele não estivesse errado.

segunda-feira, abril 06, 2020

O machismo perverso de Bolsonaro

Autor: Pataxó
Há um ditado que diz que não se deve chutar cachorro morto.  Politicamente, considero que Jair Bolsonaro, vulgo Bozo, está tão morto que só falta sepultar, pois já cheira mal. Porém, como alguns de seus seguidores continuam a sacudir sua carcaça mórbida, nua e imoral por aí, acho muito necessário que a gente continue batendo, chutando e dando porrada nesse morto que muitos insistem que continua vivo e bem. Vai que a carcaça levanta pra morder mais alguém, como é seu comportamento.

Não sou um adepto da política a ponto de usar meu blog pessoal, exclusivo para a divulgação literária, como plataforma pafletária. Nunca fui disso, e creio que nunca serei. A questão é que o bolsonarismo é um problema grande demais para que eu use de diletantismo para não me posicionar politicamente. Inclusive, mais de uma vez discursei aqui, em crônicas e poemas, sobre como esse monstro estava crescendo, a ponto de atingir uma escala incontrolável.

Que Bolsonaro representa a camada mais egoísta e preconceituosa de nossa sociedade, todo mundo já sabe. São pessoas que usam o intangível patriotismo como desculpa para destilar ódio contra principalmente os mais pobres. Não apenas estes, mas também contra qualquer ideia de diferença, seja social, científica, religiosa, bem como as pessoas mais vitimadas pelos preconceitos que ainda tornam a humanidade enferma e em estado de pré-civilização.

Outro dos maiores perigos do bolsonarismo é inverter o significado das palavras, onde honesto é um homem que admite sonegar impostos e realizar transações financeiras sem qualquer documento comprobatório - e ainda ridicularizar a existência de quem o faz; onde as pessoas achem bonito que um parlamentar não preste conta da verba que usa; onde as palavras estupro e merecimento aparecem em uma mesma frase, ignorando o fato de que ninguém merece ser estuprado; onde um político homenageia um torturador e defende, literalmente, o crime de extermínio.

Sim, o bolsonarismo é perigoso, tal qual um animal peçonhento. Ou melhor, é ainda mais, pois até mesmo um bicho peçonhento segue uma lógica de sobrevivência. O bolsonarismo é maligno pois estimula a insanidade através do ódio autodestrutivo. Um ódio que procura assegurar as coisas como estão, que busca preservar uma ideia de honra de homens que agridem as mulheres por sua existência. E esse ódio é capaz de implodir tudo para que não haja mudança.

E um dos maiores problemas do bolsonarismo é justamente a defesa do machismo estrutural. Não é novidade a ninguém quantas vezes Jair Bolsonaro foi ofensivo com mulheres, seja em foro pessoal, ao dizer em tom de troça que a própria filha foi resultado de uma "fraquejada", seja como um todo, ao declarar que nunca contrataria uma mulher no lugar de um homem.

A última de Bolsonaro, de que tenho notícia, foi dizer que a gravidez precoce seria culpa de mães e avós. Ancorado em argumentos do igualmente perverso Alexandre Garcia, Bolsonaro deu a seguinte declaração:

"Na semana passada, falei de uma menina que deu à luz pela terceira vez aos 16 anos de idade sendo aidética. Isso que eu falei. O que faltou? Faltou uma mãe, uma avó, pra não começar a fazer sexo tão cedo. Qualquer pessoa com HIV, além do problema de saúde dela gravíssimo, que nós temos pena, é custoso para todo mundo. Vocês focaram no que o aidético é oneroso no Brasil. Tô levando porrada de tudo quando é grupo de pessoas que tem esse problema lamentavelmente."

Tem que levar porrada mesmo. E muita.

Fontes:




segunda-feira, março 30, 2020

Um dia

Um dia, o mundo acordou diferente. Obrigados a uma quarentena, em reclusão forçada, os patrões começaram a ter mais tempo para pensar. E a preocupação na queda dos lucros foi lentamente se tornando apreensão pelas vidas de seus funcionários.

Alguns, de suas fortalezas tecnológicas, passaram a ter sonhos inquietantes em que escutavam os gritos de quem era obrigado a trabalhar e ficava doente. E infectavam seus entes queridos. E infectavam outros que estavam nas ruas, e assim espalhavam a doença.

Outros patrões, simplesmente por aumentarem suas leituras durante o ócio, percebiam como eram idiotas as ideias de egoísmo, preconceito, desrespeito e descaso. Começaram a mudar suas convicções. 

Primeiro timidamente, um movimento começou a aumentar. Empresários, banqueiros, industriários e grandes comerciantes começaram a se articular. Enquanto se organizavam, notificavam seus políticos de estimação. Exigiam um esforço conjunto.

Uma enorme cadeia de apoio foi criada. Através das maravilhas da tecnologia, os produtores e distribuidoras de alimentos e itens essenciais fizeram seus bens chegarem a quem mais precisava. Equipamentos de prevenção eram gratuitamente colocados à disposição de caminhoneiros, operários e brigadistas voluntários.

A concorrência desapareceu. O dinheiro, ao que parece, tornou-se supérfluo. Afinal, os bens eram produzidos por prioridade e mantidos à disposição.

Alguns tentaram se aproveitar da situação, é claro. Mas diante da abundância, perceberam que não adiantava estocar itens para vender depois. Toda a riqueza estava direcionada para proteger as pessoas.
Indústrias farmacêuticas liberaram patentes de remédios. Produziram testes como se não houvesse amanhã. Dar era a nova palavra de ordem.

Eu observava tudo isso maravilhado. Como brigadista voluntário, via de perto os olhares luminosos que as pessoas lançavam quando recebiam em mãos aquilo que elas não poderiam conseguir em segurança. Algumas tentavam me pagar, acreditando que algum gesto de gratidão era necessário. Com um sorriso, eu negava o dinheiro, papel agora sem qualquer valor.

Estava feliz. Estava maravilhado. E foi com essa sensação de maravilhosa satisfação que acordei desse sonho.

domingo, março 08, 2020

Um dia que é todo dia

Sou daqueles que sabem como um parabéns pode ser vazio, se não houver consciência e respeito.

Não queria, porém, passar por omisso. Afinal, num mundo de performance e personas, o silêncio também grita.

Fica difícil fazer as palavras deixarem o lugar comum. Qualquer tentativa pode soar pálida ou oportunista.

Afinal, este dia que finda marca uma luta que está longe de acabar, infelizmente. E essa luta é diária, contra toda forma de violência.

Que todos possamos, antes de qualquer coisa, lembrar. E que com nossa memória, possamos reviver os sacrifícios feitos, para que mais sacrifícios não precisem ocorrer.

Não é apenas um dia. É sempre.

Originalmente publicado no Facebook dia 8 de março de 2016.