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domingo, agosto 30, 2026

Depois que eu conheci você

Esta foi a lua que eu consegui “capturar”.


Ontem, eu vi a lua

através de uma camada

translúcida

de nuvens

ela me olhava.

Em choque

percebi

era como seu olhar

a me espreitar

atrás de um véu

diáfano.

A lua nunca será um

satélite

depois que conheci

Você.


27/08/2026

sábado, agosto 29, 2026

Desbravar-se poeticamente: "Versos roubados" e a reescrita de si

Uma resenha, um livro, um percurso.


 


Faz um tempo enorme que eu não publico uma resenha. Na verdade, faz muito tempo que de fato eu não escrevo uma. E confesso que gosto de escrevê-las. O exercício me ajuda a pensar no que eu gosto em determinado livro, em como a leitura que fiz me toca. E de quais maneiras esses afetos se manifestam.

Quando li pela primeira vez Versos roubados, de Vívian Marchezini, imediatamente pensei: “Eu preciso falar desse livro!” E não foi porque havia um elemento afetivo, por conta do namoro com a autora. Sim, a paixão marcou a leitura, mas a exploração contínua dos poemas, a constante releitura, foram evidenciando que não era a paixão que motivava meu maravilhamento, mas o talento e a excelência da autora. 

Obra de estreia de Vívian Marchezini, Versos roubados vem com uma premissa interessante: o roubo evidenciado no título nada mais é que um método de escrita criativa. A pessoa abre um livro de poesia em uma página aleatória. Lê apenas o primeiro verso e o anota. Fecha o livro sem ter lido o resto do poema. Em seguida, escreve uma proposta de continuidade para o verso lido. Assim nasceram alguns dos poemas presentes neste livro da Vívian. Mas se engana quem acha que foram todos. Em termos absolutos, são 22 poemas escritos pelo método, num total de 65 (se eu tiver contado certo, é claro). Isso nos mostra que quase dois terços dos poemas não levam versos de homenagem a outras autoras e o resultado atesta que Vívian não se apoiou no método, tendo desenvoltura para produzir livremente.

E ainda falando de números, Versos roubados está dividido em cinco partes: “Despautar(se)”, “Escavar(se)”, “Fraturar(se)”, “Tecer(se)” e “Reflorir(se)”. Na primeira parte, a poeta como que abre caminhos, rompe fronteiras, traça destinos não cartografados. E essa cartografia é interior, como bem revela o “se” entre parênteses presente no título. Uma proposta de exploração anterior, para além dos parâmetros pré-estabelecidos, mas também como uma espécie de proposta de não se adequar, não encaixado em padrões ditados por outros. E o primeiro poema desta primeira parte, “Caderno pautado”, deixa isso patente.

Já a segunda aprofunda o movimento da parte anterior. Preparado o terreno, retirados os impedimentos, é hora da escavação. Há um mergulho em si, uma observação atenta de si mesmo, um mapeamento de afetos e memórias. A maternidade como desejo-realização-contradição aparece, assim como a identidade da escritora como alguém que se investiga.

Essa exploração, claro, traz perigos. É o que evidencia a terceira parte. A desconstrução, a fragmentação, seja ela intencional ou não, a perda de si, a percepção das interdições, da frustração, dos acidentes. E a pessoa-poética, lírica, resiste, pois precisa reconhecer esses perigos e lidar com eles. É momento de conhecer.

Vem então a quarta parte, com a reconstrução. Mas não é essa a palavra escolhida e sim o verbo “tecer”. Como algo muito mais artesanal, manual, singelo, íntimo. Menos pedra, mais fio. A persona-poética de Vívian tece a tessitura do texto e também de si mesma. É o momento da “Reza”, da descoberta da “Voz”, do encontro com as vozes de outras mulheres. 

Por fim, já pronta, a persona então segue para a quinta e última parte, para justamente dar frutos, realizar belezas, lançar para o mundo as maravilhas resultantes desse processo de transformação. Claro, não é uma romantização, uma idealização. As contradições estão presentes, como o belíssimo “Feliciteza”, meu poema preferido de toda a obra. Porém, essa parte é sem dúvida a mais solar do livro, celebrando a primavera e os recomeços, a beleza simples de coisas como um banho de chuva.

Agora, tudo o que escrevi pode ser desnecessário. Sim, este texto em nada se compara à experiência de ler Versos roubados e mergulhar nessa jornada íntima e poderosa. É um livro apaixonante, que nos faz querê-lo por perto, sorvendo a seiva poética, como se cada verso fosse um ramo de uma árvore frondosa e repleta de vida, gotejando alimento, sombra e fresco alento.


Ficha técnica 

Autora: Vívian Marchezini

ISBN: 978-65-83300-35-5

Ano: 2025

Páginas: 100

Gênero: Poesia

Editora: Escritoras Brasileiras

sexta-feira, agosto 28, 2026

Celebração de um percurso

Um relato sobre o Sarau de In-Formatura.

A turma quase toda junta.

O dia 22 de agosto foi incrível. Além de ter sido o último dia da 3a Mostra Era Uma Vez de Narração de Histórias da BPIJ, foi também o dia do nosso Sarau de In-Formatura, que marcou a conclusão do Curso de Pós-Graduação em Escrita Criativa pela Puc-Minas. 

Foi tudo na base da ousadia e do susto. Quando percebi que a gente não ia se encontrar para celebrar o fechamento deste ciclo, lancei no grupo do curso a ideia de fazermos um sarau para lermos textos que produzimos durante esse período. A primeira pessoa a topar foi a Monique de Magalhães, amiga e colega no Clube de Escritores de BH. A segunda foi a Tailze Melo, coordenadora do curso, que recebeu com entusiasmo a ideia. 

Conseguimos encontrar uma data e fomos construindo o evento, deixando que ele se formasse em nossos ventres criativos. Confesso que estava muito ansioso. A única pessoa que eu de fato conhecia era a Monique. Bem, eu já havia encontrado pessoalmente algumas pessoas do curso, mas é diferente. 

Foi muito gratificante ver a galera abraçando a proposta. E no sábado de manhã, quando encontrei por acaso a Letícia Silva em uma padaria aqui do centro de Belo Horizonte. Ela havia acabado de chegar na cidade. E passou o dia na Biblioteca! 

A segunda pessoa foi o Gabriel Pimentel, que veio de Brasília. Logo, a Tailze também chegou e os demais colegas foram também aparecendo. Fizemos uma visita mediada pelo espaço, antes que nos dirigíssemos ao miniauditório (sala multiuso) onde o sarau aconteceria. 

E de fato aconteceu. Tailze fez uma fala muito singela e afetuosa. Dividi a tarefa da condução com a Monique. A Alycia Moreira trouxe os exemplares do lindíssimo “Lexicografia do criar: verbetes de voos livres”, que a gente produziu durante o curso. Fizemos leituras dos nossos textos e tudo foi muito gostoso.

O fim do sarau foi marcado por uma foto coletiva e um mutirão de autógrafos. Depois, outra foto, agora com todo mundo que participou. 

Fechamos a noite em um bar na Rua Sapucaí. Fomos até lá atravessando o Viaduto Santa Tereza, marco literário para autores como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino.

Só posso dizer que foi um momento lindo. Eu me senti muito feliz por ver meus colegas no espaço onde amo trabalhar. E também pude encontrar a professora Carina Santos Gonçalves e o professor Diogo Rufatto. Além de outras pessoas, que prestigiaram o evento, tornando tudo mais bonito. 

Faço aqui a menção às amigas Bianca Pontes e Jadna Alana, que nos prestigiaram e representaram o Clube de Escritores de BH.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Em primeira mão

Um relato de alguém que toma pela mão.



Conheci a Vívian Marchezini ano passado. A gente se aproximou por causa da literatura. Quando a editora Toma Ai Um Poema lançou a chamada para a antologia Verve Lasciva, ela me avisou e incentivou a inscrever um poema. Decidi submeter Re: Primavera, que eu havia escrito em resposta ao Primavera, da Vívian. 

Nós dois fomos selecionados. Tempos depois, ela me deu um toque: Havia um e-mail da TAUP convidando quem estava participando da antologia a submeter uma obra solo. 

Fiquei um pouco indeciso. Compartilhei isso com a Vívian e mais uma vez ela me encorajou a me jogar, a arriscar. Mais que isso, pois quando decidi enviar os contos de Convergência, teve um momento em que tocamos ideias, li trechos em voz alta para ela e trabalhamos lado a lado, cada um com seus escritos.

Foi um momento precioso e inédito. E que me deu força para afirmar que aquele era o momento de deixar Convergência nascer. Os textos presentes no livro são de períodos diversos, mas a ideia central que os une dialoga comigo há décadas. O próprio título nasceu há mais de 20 anos. Ele já intitulou um livro de contos bem diferente deste, em seu resultado final, mas confesso que muitos contos sobreviveram ao projeto antigo, embora com amadurecimento da linguagem e enredo. 

Ter este livro em mãos, impresso, com capa e orelha, é um marco muito importante para mim. Um verdadeiro rito de passagem. E mais uma vez é a prova de que um livro não se faz sozinho. Teve a Vívian, pessoa fundamental para este processo atual. Também teve a Mabelly Venson, que fez a preparação, e a Sheila Mendonça, que revisou. Teve a Jéssica Iancoski, que fez a capa. Toda a equipe de edição, o pessoal da gráfica, a galera que gerou a campanha e me deixou sempre informado do andamento. Teve o Emanoel Ferreira, que me agraciou com o texto da orelha.

E também teve cada uma das pessoas que apoiaram a campanha, comprando, compartilhando, torcendo, falando sobre. E volto mais uma vez à Vívian, que esteve perto durante esse percurso.

Então, fecho este texto contando que na última quarta-feira, dia 19 de agosto, dei o primeiro autógrafo em um exemplar de “Convergência”. E foi justamente para a Vívian. Para mim, era fundamental que ela fosse a primeira a ter o livro em mãos.

Em breve, voltarei com as informações sobre o lançamento, mas já dei início às entregas dos exemplares. 

Mais uma vez, muito obrigado! 


quinta-feira, agosto 20, 2026

Toda memória é uma cicatriz

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No rastro do tempo 

cofio as barbas de eras 

ferido estou de morte 

meu crepúsculo se avizinha. 


Naquilo que eu mais amo 

sinto minha perdição. 

Sou daqueles lentos 

para profundos entendimentos. 

Na cicatriz da memória 

repousa o engano. 


Sonhos que se fizeram areia 

assoprada para longe 

A espada cega 

enfiada em minha carne 

até os ossos.


O que fazer 

se toda memória 

é uma cicatriz? 

Deixar a dor de viver 

dilacerar a mente até 

tudo fazer algum sentido? 


Afago a própria ilusão 

de felicidade. 

Sobre os escombros de minha 

ruína particular. 

Onde ninguém mais 

pode alcançar.


Poema de abertura do meu livro Cicatriz (Litteralux, 2024).

segunda-feira, março 31, 2025

Olhando para trás - ou como deixei de ser cristão evangélico


"Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus". Lucas 9:62.


Não é raro as pessoas me perguntarem no que acredito, já que essa é uma prática bem comum em nossa sociedade. A curiosidade delas, no meu caso, costuma vir por conta de testemunharem minha postura ácida em relação à religião, em especial às pessoas e organizações evangélicas, sendo que eu sempre pauto que minhas opiniões provêm de experiência própria. O relato oral é algo poderoso, principalmente se pautado no histórico pessoal. Porém, por vezes sentimos falta do registro escrito, articulado e refletido. Dei-me conta de que, embora meus escritos ficcionais carreguem um pouco desse “desencanto” diante da fé, falta algo mais estruturado e cronológico, algo que possa inclusive ser referência também para mim.

Portanto, decidi produzir este relato pessoal, a partir de memórias antigas, passando por um percurso cronológico até meados dos meus 20 anos, quando me dei conta que não acreditava mais nas igrejas evangélicas. O fim da crença em Deus veio mais tarde, coisa que eu de fato não sei precisar. Acho que foi meio pelo início dos 30, quando escrevi um conto sobre um homem que na infância testemunhara uma visão espiritual terrível, mas da idade adulta descobre que nunca foi alguém capaz de acreditar.

Enfim, melhor tentar começar do início. Acredito que os inícios são sempre muito difíceis, pois eles exigem uma espécie de recorte. Quando de fato algo começa? Afinal, sempre há uma causa mais antiga, profunda, afastada no tempo. Não vou me delongar nisso, porém. 

Minha experiência com a igreja evangélica (são várias, eu sei, mas vou colocar tudo no mesmo balaio), começou cedo. Quando me entendi por gente, lembro de brincar de “passa-anel” e “mês” na frente da Igreja Batista Nova Peniel, no Rio de Janeiro. 

Eu ganhei uma Bíblia muito cedo. Ouvia de minha mãe que ela e meu pai biológico ficaram na dúvida entre “Samuel” e “Israel”, na hora de escolher meu nome. Decidiram então escrever cada um em um pedaço de papel e tirar o escolhido. Felizmente, saiu “Samuel”. Na minha primeira Bíblia, havia uma estrelinha a caneta assinalando o primeiro livro de Samuel. E a história desse juiz e profeta era repetida quase à exaustão para mim. Também havia as noites em que minha mãe voltava do trabalho e nos forçava a repetir salmos bíblicos. Eu pingando de sono tendo que memorizar versículos que sequer compreendia. Isso ficou gravado em minha mente, de forma que, quase quarenta anos depois, sou capaz de recitar os mesmos trechos.

Naquela época, mergulhei na ilusão de ser pastor. Lembro que visitei algumas vezes o gabinete do Pastor Adriano, para perguntá-lo o que eu deveria fazer para seguir essa carreira. Ele, um homem simpático, meio calvo, de óculos, um pouco acima do peso, dava um sorriso bonachão e me dizia para ter paciência.

Avanço um pouco no tempo. Já em Teófilo Otoni (MG), não sei por que cargas d’água, fui me envolver numa discussão religiosa com meu tio que era formado em filosofia. Eu devia ter lá pelos meus oito ou nove anos. Meu tio usou todos os seus argumentos para convencer uma criança da inexistência de Deus. Falou dos homens das cavernas temendo a noite e fazendo orações para o sol nascer e que isso teria sido a origem das divindades, ligadas aos fenômenos naturais. Disso para a transformação da divindade em uma “pessoa” foi um pulo. Claro, um “pulo” de talvez milhares de anos, mas tudo bem. 

Acontece que, ao ser convencido de que Deus havia sido uma criação do medo e do desespero humanos, toda a esperança morreu em mim. Obrigado, tio. Eu caí num choro convulsivo, imerso nesse mesmo desespero que talvez as pessoas da pré-história tiveram quando temiam a noite. Naquela época, minha avó materna, ainda viva, procurou me amparar, conversar comigo, citando versículos bíblicos que “provariam” a existência de Deus, ou ao menos davam lastro à fé que ela tinha.

Outro acontecimento da infância marcou minha vida. Esse era recorrente. Trata-se da história que minha mãe contava sobre minha conversão. Sim, ela dizia que eu era convertido desde meus cinco anos. Minha mãe tinha a prática de pregar para os filhos ainda bem pequenos, com o objetivo de que eles escolhessem o caminho da fé o mais rápido possível. Conta ela que, certa noite, contou para meu irmão mais velho e para mim sobre a visita que Nicodemos havia feito a Jesus. Nessa visita, Nicodemos ouvia de Jesus que era fundamental “nascer de novo”. Minha mãe estava mais focada no meu irmão, que era um ano e meio mais velho que eu. Segundo ela, eu ainda era muito novo para ter essas compreensões.

Acontece que, quando ela já estava meio desanimada, acreditando que nenhum dos filhos tomaria a iniciativa de se “converter”, de “nascer de novo”, eis que eu me manifesto e digo: “Mamãe, eu quero nascer de novo”. Ela foi ao céu naquele momento. Fez a oração comigo e assim começou minha caminhada como um verdadeiro cristão.

Bem, essa é a história que ela conta, pois eu não tenho a menor lembrança do acontecido. Por isso, quando cheguei à pré-adolescência, comecei a questionar essa narrativa. Não me sentia salvo. Não me sentia uma “nova criatura”. Na época, nós frequentávamos a Primeira Igreja Presbiteriana de Teófilo Otoni. Em vários cultos, eu passei ajoelhado em um dos bancos, fazendo orações desesperadas, seguindo a fórmula da oração que pedia para Jesus entrar no meu coração e perdoar os meus pecados. Ainda assim, nada acontecia dentro de mim. Eu me sentia morto por dentro. 

Nessa época, também ocorreu um incidente que acredito ter reforçado meu desespero. Estava na antiga quinta série (hoje sexto ano) e tínhamos aula de religião. A professora coincidentemente era da mesma igreja que eu frequentava. Certo dia, quando foi explicar sobre a existência da Trindade, o Wagner, um moleque mais velho e muito bagunceiro, começou a fazer vários deboches, brincadeiras e piadas sobre o Espírito Santo. Na hora, não me contive. Caí na risada, como a maioria dos meus colegas.

Eu, porém, conhecida a “Palavra de Deus”. Sabia que Jesus havia dito que o pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo era imperdoável. E eu havia achado graça. Sentia-me um cúmplice. Quando caí em mim, fui inundado pela culpa e também pelo terror da possibilidade da condenação eterna. Passei noites e mais noites aos prantos, pedindo perdão, sem contudo me sentir perdoado.

Comecei a pensar que minha chance de redenção seria a confirmação pública da minha “fé”. Coloco em aspas porque talvez eu nunca tivesse de fato acreditado, ou meu eu que cria tenha morrido lá nos meus oito ou nove anos. A Bíblia fala de uma declaração de boca, pública, de que a pessoa acredita. Na Igreja Presbiteriana existe a classe de Catecúmenos, que prepara os interessados para a Profissão de Fé. A partir dessa cerimônia, eu seria recebido no seio da igreja como um de seus membros.

Esses planos foram frustrados quando nos mudamos para Belo Horizonte (MG). Mudamos não só de cidade, mas também de igreja. Passamos a frequentar a Igreja Batista da Esperança, no bairro Lagoa, em BH. Posteriormente, ela se tornou Igreja Batista Nacional da Esperança, com o objetivo de marcar a denominação à qual pertencia. Nessa igreja, eu ingressei no curso de batismo. Já havia sido batizado na Presbiteriana, mas os batistas não validam o batismo de aspersão, que é aquele que a gente recebe uns borrifos de água na cabeça. Batismo de verdade tem que ser por imersão, quando mergulham a gente na água. E ainda tem aquelas denominações que só validam batismos de imersão em água corrente, ou seja, rios. 

Concluí o curso, “passei pelas águas”, cumpri todo o ritual exigido. Por um tempo, senti que estava integrado, que fazia parte da comunidade cristã-evangélica. Nessa época, começaram as visões, mas isso é assunto para outro relato. O fato é que eu fui passando pela adolescência como um “pastorzinho”, um futuro pastor, tanto que dizia a todas as pessoas que faria o Seminário Teológico Evangélico do Brasil (STEB), de orientação Batista. Participava dos ensaios e apresentações do grupo Levitas, saía aos domingos para uma missão infantil onde contava histórias bíblicas para crianças, andava pelos bairros Lagoa, Hawai, Justinópolis, Céu Azul, Lagoinha, Piratininga, distribuindo folhetos com evangelizações. Por vezes, entregar um folheto não era suficiente. Eu tinha que ter certeza de que a pessoa tinha ouvido sobre o amor de Jesus. Então, dizia, ao entregar o papel: “Jesus te ama”. Só que isso também não me parecia o suficiente. Por isso, também importunava a pessoa com uma rápida pregação e um convite para o culto de domingo à noite. Preguei nos cultos de jovens, quartas à noite e também aos sábados. Comparecia às madrugadas de oração, às vigílias, aos intercâmbios com outras igrejas. Subia os “monte” no bairro Palmares, para orar nas madrugadas de sexta para sábado. Importunava quem estava sentado ao meu lado no ônibus com pregações sobre o amor de Jesus.

Não era santo, diga-se de passagem. Tinha os meus tropeços. Creio que todo adolescente religioso tem. A curiosidade sobre o sexo, a vontade de ter namorada, as fantasias. Só que tudo isso me enchia de uma culpa avassaladora. Eu tinha a Bíblia para fomentar minha culpa. E também uma máscara de “santo”. Não ficava com as meninas, sequer deixava que elas percebessem que eu tinha qualquer desejo por elas. Reprimia com muita força qualquer pensamento de atração ou qualquer fantasia. Isso acabava se refletindo nos sonhos, o que me deixava ainda mais culpado. 

Havia vários livros para adolescentes cristãos. Textos que alertavam para os perigos do sexo e de tudo o que havia ligado ao corpo. Pastores citavam trechos bíblicos sobre o pouco ou nenhum proveito para o exercício físico. A dimensão corporal era vista como algo perigoso. Eu li cartas que pastores trocavam com adolescentes e depois publicavam como livros. Nessas cartas, esses pastores apontavam os inúmeros perigos da adolescência.

Passei por esses conflitos e ainda por cima comecei a me incomodar com a forma com que as pessoas na igreja se portavam. Não conseguia entender a realidade de que elas eram apenas humanas, com tantas falhas quanto eu. Porém, o discurso da “nova criatura”, do “novo homem”, fazia com que eu entrasse em parafuso. A pessoa se dizia salva, declarava que havia “nascido de novo”, mas seus mesmos vícios e desvios de caráter estavam lá. Claro que suavizados e disfarçados pela máscara religiosa, mas era possível observar esses comportamentos nitidamente. 

Havia também quem “piorava” depois que passava a ser evangélico. Uma pessoa que acabava por ser influenciada e contaminada pelas intrigas e fofocas. A amargura de quem não podia viver “livremente”, apesar de se declarar realmente “livre”. O embate entre igreja e “mundo”. Sim, no discurso cristão, o mundo é o inimigo. Está lá, na Bíblia, não foi inventado pelos “crentes”.

Por fim, há também o autoritarismo de alguns pastores. A postura de que são donos da razão, alguns chegam a se declarar “ungidos do Senhor”. Diziam que “a rebeldia é pior que o pecado de feitiçaria”. Os recursos que usam para o controle e a manipulação do rebanho são vários. Quero destacar que não estou dizendo que todos os pastores são assim. Há pessoas boas dentre eles, há também as contradições de cada ser humano. Porém, é possível perceber certa maldade, certo vício pelo poder, em alguns pastores evangélicos, assim como em outros líderes religiosos.

Com esses comportamentos, o desencanto foi se instalando em mim. Há também um ponto fundamental ligado à crença: Eu ficava horrorizado com o discurso da condenação ao Inferno. Para mim, era inconcebível um ser todo-poderoso que cria alguém, diz que ama esse alguém, mas depois condena esse mesmo alguém para o sofrimento eterno. Por pior que essa pessoa seja, não consigo acreditar que mereça sofrer eternamente. Existem mães e pais melhores que Deus nesse quesito, pois continuam a amar suas filhas e seus filhos, não importa o que façam. Já o Deus cristão é condicional. “Eu te amo, até mandei meu filho para morrer por você, mas se você não admitir isso e não viver como eu quero, vai sofrer para sempre.” Para mim, isso é doentio. E esse sentimento que tenho já estava se insinuando em meu coração desde minha adolescência.

Não digo que não tive bons momentos “espirituais”. Por exemplo, certa tarde, cheguei em casa com um aperto terrível no peito. Uma angústia sem tamanho. Tinha treze anos. Fui buscar consolo na Bíblia e encontrei a passagem do livro de João em que Jesus promete preparar um lugar na casa de seu pai para seus discípulos. Ele diz para que seus corações não se perturbem. Eu tomei aquelas palavras para mim. Chorei abundantemente. Foi um momento de conexão, confesso. Só que esse momento não apaga uma vida inteira mergulhado em contradições e perversidade.

Finalmente, cheguei à idade adulta. Esse foi o ponto final na minha relação com a igreja evangélica. Conheci muito de perto algumas estruturas, organizações e comportamentos. Vi pessoas queridas serem feridas por atitudes abusivas de pastores e líderes evangélicos. Testemunhei igrejas inteiras assediando jovens moças que não haviam “se guardado” para o casamento.

Lembro-me claramente da última vez que fui a um culto como evangélico. Era um domingo à noite. Eu havia ligado para o pastor, pedindo autorização para não comparecer ao culto. Decidi ser sincero: disse que estava cansado e que havia um livro que eu queria terminar de ler. O pastor reagiu com um nervosismo controlado. Disse que eu não deveria ficar lendo livros ao invés de ir à igreja, que isso iria esfriar a minha fé. Desliguei o telefone resignado e decidido em ir ao culto.

Naquela noite, após o louvor, o pastor foi à frente para fazer o seu sermão. Abriu a Bíblia e leu Atos 2:42. Um versículo sobre perseverar na doutrina dos apóstolos. Após a leitura, voltou-se para o público e começou a falar sobre a importância de não deixar de ir aos cultos. Disse: “Por exemplo, você pode querer deixar de ir ao culto para ler um livro. Se fizer isso, vai esfriar na fé.” Quando ouvi essas palavras, xinguei-o mentalmente. Fiquei tão irritado que naquele momento decidi que nunca mais voltaria àquela igreja.

Passei a dizer que estava procurando outra igreja para frequentar, mas no fundo eu estava cansado disso tudo. Cansado de pessoas dizendo como eu deveria me comportar, como deveria pensar. Estava cansado da hipocrisia, do discurso enviesado, do ódio disfarçado de amor. Os comportamentos de pastores fofoqueiros, manipuladores, que pregavam lindamente mas se comportavam sem ética profissional, líderes de jovens que debochavam dos próprios liderados logo que o culto acabava. Tudo isso envenenou para sempre qualquer visão que eu tinha do cristianismo.

Olhando para trás, penso que talvez eu nunca tenha acreditado. Ou talvez minha fé tenha morrido naquela tarde em Teófilo Otoni, diante de um adulto cruel que talvez acreditasse que estava fazendo um “bem” ao abrir logo cedo os olhos de uma criança. Hoje penso que a fé não é uma escolha, mas um conjunto de fatores. Ser convencido de algo por vezes parece externo. Perceber algo que fica óbvio para nós. Eu não escolhi não crer em Deus. Para mim, pareceu natural.

Aproveito para acrescentar que eu não me considero ateu. Não sou corajoso a esse ponto. Admito a possibilidade da transcendência, do mistério. Afinal, a vida me soa meio absurda e arbitrária. Eu existo porque sim. Isso assusta um pouco. Essa falta de um propósito real na nossa existência. E também nosso fim inevitável.

Por enquanto, busco na escrita e na leitura um certo estofo para me preparar para a vida e para a morte. Sigo como se a literatura fosse minha religião, embora eu não acredite que os livros possam salvar alguém. Ninguém está no mundo para ser salvo. Se estamos no mundo, talvez seja para amar.

Na Bíblia há uma passagem sobre não olhar para trás após escolher o caminho da fé. Em outro trecho, Paulo afirma que “as coisas velhas já passaram” e que “tudo se fez novo”. Esse discurso de negar o passado, apenas olhar para frente me incomoda grandemente. Somos sujeitos históricos. Precisamos aprender sobre o passado. Sei que ele não deve ser determinante, que devemos tomar decisões e nos renovar, que precisamos abrir a mente para novas ideias. Mas apagar tudo o que aconteceu é no mínimo desastroso. “Somos porque lembramos”. Por isso, como a Sankofa, sigo olhando para trás.


quarta-feira, fevereiro 14, 2024

Grande novamente

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Não me lembro de ter sentado no colo de meu pai. Lembro-me, sim, de ter subido em seus ombros. Segurava com minhas mãos pequenas a sua grande testa e repousava o queixo em sua cabeleira farta. Meu pai era um homem baixo. Pra mim, porém, era enorme.

O tempo e um divórcio nos afastou. A distância também se fez presente no campo físico. Cidades e estados diferentes nos separavam. Meu pai, antes enorme, foi diminuindo até desaparecer. Até mesmo das fotografias.

Certa vez, viajamos para o Rio e minha mãe tentou uma reaproximação nossa com o meu pai. Ele estava em seu terceiro casamento, e um quarto filho, que a gente não conhecia. Ele resolveu sair do Realengo e nos visitar lá na Tijuca onde estávamos hospedados. Foi assim. A campainha tocou. Fui até a varanda do apartamento de segundo andar para ver quem era e deparei-me com ele, com sua baixa estatura (ainda era alto pra mim) e seus olhos azuis. Estava com a mão erguida na altura dos olhos, para protegê-los do sol.

Com o choque, corri e me escondi debaixo da cama. Sentia pânico desse estranho tão familiar, tão meu. Minha mãe foi me buscar e tentar reconciliar-me com o meu pai. Não foi fácil, mas no fim, eu aceitei sua presença e partimos, com meu irmão e minha irmã, para o Realengo.

No caminho, paramos em um açougue. Meu pai comprou alguns quilos de carne para nós. Era uma época em que carne era sempre uma festa. Ele pediu que o açougueiro passasse o bife "naquela máquina esperta". O efeito da tal máquina era deixar o bife mais macio, creio eu. Um rolo compressor com pinos que espremiam a carne. Mas a coisa mais curiosa era que o pedido de meu pai me fez sentir orgulho dele. Era como se tudo que meu pai fizesse ou falasse fosse algo digno de nota, tamanho era meu deslumbramento. Naquele momento, em que fazia um pedido trivial cheio de maneirismos e da simpatia carioca, meu pai ganhava dimensões quase míticas. Ele era novamente grande. Melhor ainda, era meu.


segunda-feira, outubro 23, 2023

Toda cicatriz desaparece - Pequenos pecados e grandes tragédias



Há pessoas que, desde que nasceram, enfrentam as mais diversas dificuldades. Fome, pobreza, doença. E tais dificuldades parecem moldar, definir as vidas dessas pessoas. Principalmente se essas tragédias aconteceram durante a juventude.

Toda cicatriz desaparece, livro de crônicas autobiográficas de Rogério Pereira, nos apresenta alguém marcado pela vida. Fome, miséria, alcoolismo, trabalho infantil, essas são algumas das tragédias que acompanham o cronista, que carrega o ar de quem foi marcado profundamente por elas. Melancolia é pouco para tentar definir o tom do livro.

As crônicas são pungentes, agudas, doem aos olhos e nos comovem. Rogério aparece como um náufrago, arrastando consigo seus fantasmas e memórias de pequenos pecados inconfessos. Destes pecados o mais destacado talvez seja o de furto. Um ladrão de comida. O de matador de passarinhos vem em segundo lugar. Em seguida, outros pecados aparecem, sempre apresentados num tom que passeia entre o desafio e a resignação.

Apesar das crônicas abarcarem o tempo cronológico da infância e da juventude, com uns lampejos da fase madura, não há uma sequência temporal. Ao invés de uma linha reta, nós nos deparamos com uma espiral, onde memórias dolorosas são revisitadas à exaustão. Assim, somos convidados a conhecer o inferno particular de Rogério Pereira, com suas dores e fugidias delícias.

De todas as tragédias pessoais abordadas no livro, talvez a mais referenciada seja a súbita morte da irmã, aos 27 anos. Uma morte abrupta e sem sentido. A forme que acossava a família é outra tragédia dissecada pela pena do autor. Há outras mais, como o vício do pai no álcool, que seguiu o autor como um atavismo, bem como as ameaças e surras que o pai dava na mãe e nos filhos.

Ninguém escapa da crueldade do pai. Nem a cachorra Princesa, que foi levada para ser abandonada em um bairro distante. Os dois meninos, levados para acompanhar a operação, podiam, inclusive, imaginar o perigo de sofrerem fim semelhante.

Nesse livro, toda a beleza é desconstruída, seja pela fome que se torna uma urgência, seja pelo piolho passeando livremente pela orelha da amada. As fealdades, porém, são destacadas, também pela fome, pela situação indigna dos personagens, na doença personificada pelo câncer, que tudo corrói.

Não há lugar para otimismos. Mesmo momentos de vitória, como a leitura de uma crônica em Frankfurt, se torna episódio de melancolia e da constatação de uma derrota pessoal, íntima e intransferível.

Todos os mortos são vasculhados, dissecados e expostos. Seja a mãe, com sua boca sem dentes e o furo da traqueostomia, seja a irmã, com seu silêncio, seu corpo franzino e as surras que levava. Até  alguns colegas mortos são evocados, através das travessuras provocadas pela forme e escassez, ou também pelos sonhos compartilhados em comum, de alcançar o estrelato em algum campo de futebol.

E por falar em sonhos, eles aparecem justamente para serem destroçados. Numa escrita poética e profundamente visceral, as crônicas nos falam desses sonhos frustrados numa narrativa que nos envolve e comove.

Com um emaranhado de memórias, uma narrativa de uma escrita primorosa, Toda cicatriz desaparece é um mergulho em lembranças dolorosas, escritas com apuro, uma jornada íntima ao passado de um homem que, a despeito de suas conquistas, nunca deixou de sentir cada uma de suas dores. 


Ficha Técnica

Toda cicatriz desaparece

Rogério Pereira

ISBN-13: 9786557982549

ISBN-10: 6557982540

Ano: 2022 

Páginas: 208

Idioma: português

Editora: Maralto


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/toda-cicatriz-desaparece-122245025ed122251461.html

quarta-feira, outubro 18, 2023

Devaneios sobre um guarda-chuva

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Quando criança, usava o guarda-chuva mais como brinquedo do que proteção para a chuva. Por vezes era espada, influência dos sabres de luz jedi ou dos filmes de cavalaria. Em outras ocasiões, era espingarda, com a qual combatia vietcongues, mafiosos e bandidos.

Em períodos chuvosos, quando precisava do guarda-chuva em sua função para o qual foi fabricado, imaginava-o como cobertura de um veículo sofisticado, fosse terrestre, aquático ou aéreo.

Hoje, com o esfarelamento da minha infância e da ludicidade inerente a ela, quase não uso guarda-chuva. Prefiro as capas, que por mais que me façam suar, cobrem minha vergonha.

Nunca brinquei com o guarda-chuva como um objeto vivo. Bem, já o imaginei como um bastão mágico, objeto onírico, com o qual fazia valer minha suposta vontade. Isso, porém, era mais delírio que brincadeira. 

Em minha juventude, nunca dividi o guarda-chuva com uma amada platônica ou uma paixão não declarada. Minhas chuvas sempre foram solitárias e melancólicas. Tanto que suspiro sempre que vejo a chuva. Sinto meu corpo todo arrepiado. 

Existe um mistério na chuva. A água que cai do céu, por mais que o fenômeno seja explicado, é sempre um milagre.

Por isso talvez não goste tanto de guarda-chuvas. Sentir a água em meu corpo é uma forma de também viver essa magia. Esse milagre tão singelo e gratuito.

domingo, julho 31, 2022

Em DVD




Uma turminha da treze crianças entre quatro e cinco anos fez a festa hoje na Biblioteca. Uma das crianças, o Davi, não perdia oportunidade de fazer perguntas ou dar alguma contribuição. Levantava a mão e aguardava que lhe dessem a palavra. Em dado momento, vi que ele estava aflito para  dizer algo, mas pedi que esperasse terminar a explicação e ele se acalmou e educadamente esperou. 

Depois da leitura, quando as crianças atravessavam a Biblioteca em busca de suas próprias histórias, Davi pedia por livros de tubarões e dinossauros. E sentenciava: o mais terrível dinossauro era o "Tio" Rex.

Após a despedida, Davi prometeu para mim e para a Luana, estagiária que fazia comigo a visita, um tubarão de presente para cada um. Mas esclareceu, para não dar entendermos errado: seria em DVD.

23 de novembro de 2017

terça-feira, março 15, 2022

Pequena coreografia do adeus - Uma dança de palavras e silêncios


A autora de O peso do pássaro morto, Aline Bei, está de volta para nos aniquilar através das palavras. Seu romance mais recente, Pequena coreografia do adeus, vem para virar nossas leituras pelo avesso. Mas luminoso que o livro anterior, este não deixa de trazer um texto carregado de melancolia e repleto de sombras.

A protagonista e narradora é agora Júlia Terra, uma náufraga do divórcio dos pais e da animosidade da mãe. Numa narrativa coloquial e disposta em versos, Júlia nos guia pelos destroços de sua vida, mostrando que é, antes de tudo, uma sobrevivente. Apesar da constante violência da mãe e do distanciamento do pai, Júlia vai criando resistência e florescendo. Descobre na palavra uma trincheira e um ponto de apoio. Assim, ela parte do diário rumo a voos mais altos, quando decide escrever ficção.

O romance de Aline Bei é triste, pungente, mesclando o desprezo e descuido da família com o afeto de amizades de pessoas de fora. E com essa acolhida, Júlia vai fazendo seu caminho e se descobrindo potência. O texto de Aline Bei é forte, doído, como a ponta de uma agulha, mas carrega um poder enorme de atração. Na sua força somos tragados e levados a dançar.

A vida de Júlia vai se desdobrando na criação do conto que ela vai escrevendo ao longo do romance. Um conto de tragédia e abandono, dor e perda, sendo também uma narrativa de liberdade através da Arte. E nessa liberdade a escrita de Júlia se encontra, para ser algo mais.

Pequena coreografia do adeus é um romance sobre dor e perda, mas também sobre como se encontrar, nas palavras, nos movimentos e passos de dança, nas notas musicais. Enfim, na Arte, que nos faz humanos e plenos, apesar de todos os nossos destroços.

Ficha Técnica

Pequena coreografia do adeus

Aline Bei

ISBN-13: 9786559210497

ISBN-10: 6559210499

Ano: 2021 

Páginas: 282

Idioma: português

Editora: Companhia das Letras

quarta-feira, setembro 01, 2021

Camadas



Meditou tão profundamente que visitou suas memórias com total vivacidade.  Era como se estivesse mesmo lá, revivendo seu passado, sentindo com precisão tudo que antes havia sentido. Ao retornar da meditação, passou a desconfiar. O que experimentava agora era de fato a realidade ou mais uma memória?


quarta-feira, julho 14, 2021

O que é felicidade

Imagem de Free-Photos por Pixabay

O menino tinha um amigão. Era um amigo do peito. Especial. Eles estudavam na mesma escola, na mesma sala. Um dia, a professora deu um dever para a sala. Era para responder: O que é felicidade? O menino ficou aflito. Espremeu a cabeça um montão de vezes, mas a folha continuava em branco. Uma menina já de primeira falou, alegre: "Felicidade é quando minha mãe chega em casa". O menino gostou daquela resposta. Que pena que ele não tinha pensado naquilo.

O amigão chamou o menino para dormir na casa dele. Foi muito legal. Comeram sanduíches, tomaram sorvete, jogaram videogame até tarde. Seria aquilo a felicidade? O menino ficou pensando, antes de dormir.

No dia seguinte, foram tomar café com a família do amigo. O pai do amigo não estava, mas chegou ainda no meio do café da manhã. Ele passou a mão na cabeça do amigo, fazendo um cafuné nos cabelos bagunçados dele. Chamou o amigo de "filhão".

O menino sentiu uma coisa estranha no peito. Um tipo de buraco. Não conseguia se lembrar do seu pai. Nem sabia se tinha pai. Ficou na dúvida, perguntando para si mesmo se ele tinha ou não tinha pai. E se ele não tivesse pai? O que ele teria feito de errado para não merecer um pai?

E foi nessa hora que o menino entendeu. Foi nessa hora que ele descobriu que felicidade era ter um carinho como aquele. Felicidade era ter um pai pra chamar a gente de "filhão".

segunda-feira, maio 03, 2021

Da ponta de areia ao expresso polar



Dois corpos de metal

Serpentes esfumaçadas

Delas 

O que se aproxima

a canção 

vozes de infância

a saudade da inocência abandonada

ausência dos trilhos

E o eterno

Silêncio...

domingo, maio 02, 2021

Nosso namoro


"Em uma semana completaremos  5 anos de namoro. 


Sigo amando você, Samuel. Hoje, certamente, te amo mais do que há 5 anos. Te amo melhor. Te amo mais bonitamente. Confio na gente, na história que estamos construindo, na força do que sentimos e na sinceridade do que vivemos. Sonhamos tanto e realizamos tanto. Quero filhas e filhos com você. Quero casa com quintal pra gente plantar horta. Quero mais gatos e mais cachorros pra gente amar e cuidar. Quero netas e netos pra encher a nossa casa. Quero mais beijos, abraços, acolhimentos e brigas épicas, para depois fazermos as pazes épicas. Quero mais acordos e diálogos. Quero mais acertos do que erros, mas também quero erros pra gente aprender juntos. Quero aprender a viver melhor e envelhecer com saúde pertinho de você. Quero nossas individualidades que equilibram nossa relação e que, por vezes, também a desequilibram. Quero a emoção dos desencontros que fazem a gente sentir a falta do outro. E depois, quero correr pro seu abraço melhor do mundo. Quero escolher você de novo e de novo, e que nosso amor seja generoso e bom para nós dois. Quero que nosso amor sempre nos faça bem. E que a gente sempre faça bem ao nosso amor. Para que possamos conhecer o futuro bom que tanto desejamos para nós e para quem amamos e amaremos. Quero que você seja somente seu e eu seja somente minha porque fará mais sentido a escolha de estarmos juntos nessa jornada da vida. Quero que a gente sempre se queira. Mas ainda mais que isso,  desejo que você seja feliz e eu também, mesmo que em algum momento a gente perceba a felicidade no distanciamento, porque saberei que dessa forma, nosso amor é suficientemente respeitoso e generoso. 

"Bem te quero. 

Te quero bem, meu bem!" (Poema escrevi pra você antes de começarmos a namorar). 


De sua maior admiradora, amiga, namorada, companheira e amante (porque foi assim a sequência da construção do nosso relacionamento). 

Feliz 4 anos, 11 meses e 23 dias de Namoro!"

Pâmela, no dia 25 de abril de 2021.


Minha resposta: 

Sou daqueles que celebram o amor todo dia, a cada instante, nas pequenas coisas. Suas palavras de amor sempre me arrebatam e assim vou vivendo com a certeza de que a felicidade, pra mim, tem seu rosto estampado nela.

Hoje, folheando o meu diário, encontrei um poema que escrevi pra você e que ficou guardado:


Inebriado


Penso em você

e tantos sentidos

vêm à tona.

Sou sempre tomado

pela memória

do seu cheiro

E nela eu me

afundo.

Posso viver para sempre

alimentado

pelo doce aroma

de sua

pele.


Te amo, Pâmela Bastos!

sexta-feira, dezembro 18, 2020

Quarto de despejo - A genialidade em meio ao abandono


Quando prestei o vestibular para a UFMG em 2001, havia entre as obras escolhidas o livro Quarto de despejo. Pouco sabia dessa obra autobiográfica, de uma autora vista como semianalfabeta. Ouvia que a obra era quase impossível de ser lida, por conta da quantidade de erros de português. E naquela época, quando eu ainda não havia desconstruído tantos dos preconceitos que ainda carrego, deixei de lado qualquer senso de obrigação em ler esse livro. Logicamente, não passei no vestibular. 

Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.

Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.

Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.

Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina. 

Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.

Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.


Ficha Técnica:

Quarto de Despejo

Carolina Maria de Jesus

ISBN-13: 9780451529107

ISBN-10: 0451529103

Ano: 1993 

Páginas: 173

Idioma: português

Editora: Francisco Alves


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html

segunda-feira, outubro 12, 2020

A lesma


Minhas mãos desfolhavam um molho de alface. Invadido pelo verde, meu olhar se decantava na cascata que a água da torneira fazia, envolvendo como um véu a hortaliça. Sentia uma serenidade perene. O tempo se estendia, líquido como a própria água que eu usava para lavar a alface.

Depois de separar cada folha, observei algo cinzento escapar pelas bordas verdes das menores folhas e escorrer para o ralo. Terminei de colocar as folhas na vasilha de plástico para desinfetá-las e voltei minha atenção para o centro da pia. Presos na malha de metal que protegia o ralo, alguns pedaços de alface, pequenos resquícios que não resistiram ao meu toque e à força da água, jaziam como vítimas anônimas de uma batalha.

Observei com mais atenção, enquanto mexia com cuidado no ralo, até encontrar a coisa cinzenta e cilíndrica que se escondia entre os pedaços de verde. Ela se aderiu com facilidade ao meu indicador esquerdo, de forma que ergui-a até os olhos. 

Era uma lesma. Devia ter menos de um centímetro de comprimento. Tímida, deixava seus olhos-antenas escondidos para logo em seguida estendê-los, tentando perceber o mundo alienígena onde se encontrava. Seu dorso cinza contrastava com o ventre esbranquiçado. 

Fiquei a ponderar o que fazer com ela. Fui lançado ao passado, nas férias em um quintal com uma enorme área coberta por ardósia. Lá, várias lesmas encontravam a morte após serem bombardeadas por pitadas de sal que eu e minha irmã cruelmente lançávamos nelas. Nossa crueldade se misturava à ingenuidade de acreditar que destruir algo diferente seria uma coisa boa a se fazer. Se era diferente, era mau. Ainda mais se fosse nojento, gosmento e tivesse olhos-antenas.

O absurdo de minhas ações infantis atingiu-me com toda a força. Afinal, por que matar uma lesma com sal? Por que torturar um ser várias vezes menor e mais fraco? Apenas por ser diferente? Apenas por ser mais fraco? Apenas por ter o poder para fazer isso? 

Enquanto a cena se repetia infinitamente em minha cabeça, deixei o apartamento. Tinha o dedo indicador da mão esquerda estendido. Na ponta, essa inusitada intrusa que eu descobrira quando lavava a alface. Desci as escadas com a atenção dividida entre os degraus e a minha "tripulante".

Fui até o pequeno canteiro que existe diante do meu prédio. Estendi o indicador até tocar a tenra folha de uma das plantas. Escolhi com cuidado. Escolhi uma folha que se aproximasse, ainda que vagamente, de uma alface, fosse pelo verde vivo, fosse pela fragilidade de sua textura. Demorou um pouco para que minha companheira entendesse que deveria desembarcar. A princípio, ela encolheu-se toda. Temi que estivesse sentindo alguma agressão, alguma violência. Era apenas estranhamento. 

Por fim, ela deixou meu dedo e ganhou a superfície verde. No seu ritmo lento como o próprio tempo, ela seguiu seu trajeto. Não sei para onde se dirigia. Talvez para a minha infância, para o meu passado, para a chance de uma outra história, em que lesmas não precisam sofrer pela cruel ignorância de um menino.

sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca