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sexta-feira, março 06, 2026

Fim da campanha e eventos literários


Sábado passado, dia 28 de fevereiro, foi o último dia da campanha de pré-venda do meu livro Convergência. Alcançamos R$ 3.793, 00 e a página informa 47 apoiadores. 

Considero esses números uma vitória. 47 leitores! Sim, tenho 12 anos desde a primeira publicação. O sonho era ter milhares de leitores a essa altura. Bem, o fato é que "Convergência" é um sonho antigo, um dos meus projetos literários primordiais. Publicar esse livro é uma realização e ao mesmo tempo um retorno às origens. 

Eu quero agradecer profundamente às pessoas que tiveram a generosidade de apoiar este projeto. Algumas não tiveram condição de adquirir o exemplar físico e, ainda assim, apoiaram. Minha gratidão é enorme!

Sábado também foi dia do Festival Sempre Um Papo. Nele, encontrei pessoas amigas e vendi alguns exemplares. Fiz novas amizades. Também comprei alguns livros, com direito a autógrafos. Foi bem legal.

Já o domingo foi o dia da Vívian, minha namorada, que brilhou no lançamento do seu livro, Versos Roubados. Tive a honra de participar de um bate-papo com a autora, que compartilhou conosco seu processo criativo, os bastidores de sua escrita, sua intencionalidade e vivência. Tivemos também os versos na voz da autora, o que acho lindo. 

A amiga Norma de Souza Lopes fez uma participação, refletindo sobre o livro com muita profundidade. Outras pessoas ficaram animadas para ler as poesias da Vívian. 


Quem quiser adquirir o livro Versos Roubados, basta acessar a loja da Editora Polifonia, ou entrar em contato diretamente com a autora, Vívian Marchezini, no perfil profissional que ela tem no Instagram.

O domingo terminou com um encontro com a amiga escritora Jadna Alana, vencedora do Prêmio Kindle de Literatura 2026, com seu livro Barquinho de papel.

Abaixo, deixo alguns também registros do Festival Sempre Um Papo.











Finalizo com a lista de pessoas que apoiaram meu sonho:

Vívian Marchezini ❤️

Marison Eustáquio Lacerda Parreiras

Arnaldo dos Santos

Vandernailen Medina

João Emílio Medina R. Lages

Pâmela Bastos Machado

Bianca Pontes

Emanoel Ferreira

Jadna Alana 

Érica Lima 

Guilherme Soares

Thaís Campolina 

Mírian Freitas

Audrey Cristiane Macedo Rocha

Patrícia Renó

Isabella Albuquerque

Felipe Diógenes

Arthur Medina 

Vânia Bonadio 

Gau Laet

Maria do Carmo Rocha (Cacá)

Fernando Junio Santos Silva

Pri Varella

Liel Mangaraviti

Rodrigo de Freitas Teixeira

Aline Cântia 

Vitor Américo

Val Armanelli

Alycia Moreira 

Evelyn Medina (Tia Beve)

Fabiano da Mata

Monique de Magalhães

Gislayne Matos

Marcos Coelho Bissoli

Norma De Souza Lopes

Manu Patente

Paul Berssey

Lilia Martins 

Servos Cardoso

Áurea L. Leite

Margareth Cordeiro Santana

Marli Mariani

Rosi Amaral

Andrea Paula Leal e Silva

Soraia Magalhães

Juliana Daher

Maria Célia Nunes

Daniela Costa de Queiroz

Brenda Linda Medina Lages

Marly com y

Silvia Maria Lacerda Cançado

Wander Ferreira

Katia Edilene Ferreira

Fabíola Ribeiro Farias

A vocês meu muito obrigado! 

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Fim da campanha de pré-venda, Festival Sempre Um Papo e um convite especial


No dia 28 de fevereiro deste ano, daqui a 3 dias, a campanha de pré-venda do meu livro Convergência chegará ao fim. Foi uma jornada cheia de altos e baixos emocionais para mim. Tive apoios de muita gente. A maioria foi de amigos e pessoas queridas. É uma felicidade isso. Além de ter batido a meta mínima necessária para a viabilização do projeto, consegui alcançar as metas 2 e 3. Para um escritor como eu, pequeno e de pouca visibilidade, é um resultado além de satisfatório. 

Ainda é possível, porém, fazer seu apoio e garantir seu exemplar autografado. A campanha pode ser acessada através do link: https://benfeitoria.com/projeto/convergencia.

Nesse mesmo dia, vou participar de um evento bem legal aqui na minha cidade. Será o Festival Sempre Um Papo. Ele será um enorme encontro de escritores e livros e vai acontecer na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais (Praça da Liberdade, 21 – Centro. BH/MG). Então, se você quiser conhecer meu trabalho, bater um papo e, quem sabe comprar um livro, estarei lá de 19h às 20h.


Fechando o final de semana e dando início a uma nova, quero fazer um convite especial. Mina namorada, Vívian Marchezini, vai lançar seu livro Versos Roubados no café Tons de Verde. A gente se aproximou pela poesia e por isso estar nesse lançamento com ela é algo muito significativo para mim.  Foi a partir do poema "Feliciteza" que me encantei pela escrita da Vívian e, posteriormente, pela pessoa que ela é. Uma poeta poderosa, que alia a suavidade da flor com a potência das raízes e troncos para criar uma poesia que é cálida e, ao mesmo tempo, contundente. 

Fica então o convite para a gente papear e ler poesia! Além de boa companhia e, é claro, um delicioso café! 

Lançamento do livro Versos Roubados, de Vívian Marchezini 

Data: 01 de março de 2026, domingo

Hora: 15h às 18h

Local: Tons de Verde Café (R. Mario Mendes Campos, 65 – Castelo. BH/MG)




segunda-feira, maio 05, 2025

Entre livros e amizades em Poços de Caldas

Um relato sobre minha viagem para curtir o Festival Literário Internacional de Poços de Caldas


Um registro da minha câmera maravilhosa. 


Enquanto escrevo, o ônibus balança um pouco, fazendo trepidar a tela do aparelho celular em minhas mãos. Estou retornando para Belo Horizonte. Saí de Poços de Caldas no início da tarde. Estive na cidade para curtir mais uma edição do Festival Literário Internacional Poços de Caldas - Flipoços. Estive nos dias 1 a 3 de maio assistindo a debates, passeando entre livros e revendo amizades. Além de ter feito novos contatos. 

Quando cheguei já era noite do dia primeiro. Com isso, visitei a feira sem participar da programação. Saí do Lux Hotel, onde estava hospedado, e fui caminhando até o Parque José Affonso Junqueira, onde o evento estava montado.

Já de início fiz contato com a escritora Bianca Pontes, colega no Clube de Escritores BH. Combinamos de nos encontrar já na feira. Também contatei a Mírian Freitas, que estava em companhia do Pedro Gontijo e da Gilberta Kis.

Era uma profusão de acontecimentos. A programação ainda acontecia. Um fluxo intenso de pessoas transitava pelas barracas e também pela chocolateria Lascaux, famosa por seus chocolates artesanais, inspirados em minerais da região. Encontrei a Gil e a Mírian no corredor de acesso do Lascaux Fomos até a entrada da feira e eu avisei que tinha uma outra amiga no evento. Fui em sua busca.

Ao encontrar a Bianca, ela me apresentou a escritora Cibele Laurentino. Tratei de apresentá-las às outras duas amigas. Logo chegou o Pedro Gontijo e nos juntamos como um grupo. Saímos juntos, trocamos ideias, reflexões e opiniões literárias e sobre a vida também. Nessa primeira noite em Poços de Caldas, atravessamos o centro da cidade, saindo do local da vila literária e indo até uma pizzaria chamada Caos, pertinho do meu hotel. 

No segundo dia, vasculhei um pouco a feira. Procurei a tenda do movimento Neomarginal, em especial a pessoa do Wesley Barbosa. Conversei um pouco com ele, explicando que trabalho em biblioteca pública e estou em contato com coletivos literários da periferia da Grande BH. Comprei dois livros dele e o cumprimentei pelo trabalho. Eu havia ficado sabendo do trabalho literário do Wesley a partir de um episódio lamentável ocorrido no evento, sobre o qual prefiro não entrar em detalhes. A mídia nacional cobriu amplamente o acontecido. Por isso, estaria só repetindo o que todo mundo já sabe. Apesar desse episódio execrável, pude por meio dele conhecer o trabalho do Wesley, que tem uma editora chamada Barraco Editorial. Os livros do Wesley que adquiri foram “Viela ensanguentada” e “O diabo na mesa dos fundos”.


Com o escritor Wesley Barbosa. 


Almocei com Bianca e Cibele. Na saída, adquiri o livro “Nobelina”, da Cibele. Depois do almoço, nos separamos para uma passada no hotel. Mais tarde, nos reunimos para assistir à mesa “Gaza: A Tragédia Silenciada – Reflexões sobre o Genocídio e suas Vozes”, que contou com a presença da Mírian Freitas, além da Soraya Misleh, Jornalista palestino-brasileira, Salem H. Nasser, professor da FGV e estudioso do Oriente Médio, do mundo Árabe e Mulçumano e a Laura Di Pietro, co-fundadora da editora Tabla. Quem mediou a mesa foi o Pedro Gontijo, que é escritor e jornalista. 

A mesa foi forte, urgente, com falas contundentes e necessárias, denunciando o genocídio em curso promovido pelo Estado de Israel contra o povo palestino. Uma atrocidade sem tamanho, em que milhares de crianças foram e continuam sendo assassinadas. A Soraya foi incisiva em sua fala, com uma revolta quase explosiva, conclamando todas as pessoas a lutarem em prol da causa palestina. Ela falou da colonização por ocupação, que visa substituir a população nativa por uma outra, de fora, e que o plano sionista não é novo, assim como os massacres de Israel contra aldeias palestinas.

O professor Nasser teve uma fala reflexiva sobre os disparates do silenciamento das narrativas palestinas e imposição de uma história única, elaborada como propaganda para colocar toda a comunidade mundial contra o povo palestino. 

A Laura abordou a riqueza da literatura produzida por palestinos. Não apenas como relato documental, algo importante para o registro histórico do que está ocorrendo, mas também como resistência e principalmente como sobrevivência da cultura palestina.

Mírian então fez sua fala a partir da experiência de escrita e publicação de seu livro “Damascos Feridos – poemas sobre Gaza”. Uma obra poética que atua como um grito de dor e protesto, nascido da empatia pelo sofrimento das mães, suas crianças e demais pessoas da Palestina.

A mediação do Pedro foi brilhante. Equilibrada, incisiva e reflexiva, procurou explorar o que havia de fundamental nas falas das convidadas e do convidado.

Dessa mesa, dois pontos eu gostaria de destacar: um é a palavra “Sumud”, que é rica em significados, uma palara-semente, que encerra em si a resistência e a esperança do povo palestino. A segunda é a frase da Soraya: “Somos todos palestinos.” Enquanto não percebermos a dimensão dessa frase, continuaremos inertes diante da escalada do terror que ocorre na Palestina.


Mesa sobre o Genocídio em Gaza.


Depois dessa mesa tão potente, precisei retornar ao hotel para descansar um pouco, pois foi uma mesa que mexeu muito com a gente. Retornei mais tarde para encontrar os amigos, que estavam em um bar na companhia da Laura e da Ana, ambas da editora Tabla. Conversamos bastante sobre literatura. 

Mais tarde, depois que Ana e Laura haviam ido embora, saímos do bar e fomos caminhando ao longo das bordas do parque, até encontrarmos um quiosque que vendia pizzas e massas, chamado Picolin. De lá, ainda passamos em uma loja de conveniência, onde compramos picolés e nos despedimos com muita alegria.


A galera reunida.


No dia seguinte, 3 de maio, cheguei a tempo de pegar a mesa “Prêmios Literários: Reconhecimento, Impacto e o Futuro da Literatura Brasileira” com a presença da autora Izabella Cristo e mediação do Henrique Rodrigues, curador do Prêmio Caminhos da Literatura. Izabella venceu o 1º. Prêmio Caminhos da Literatura e estava lançando o livro “Mãezinha”, pela Editora Dublinense. Durante a mesa, ela falou sobre a experiência da escrita do livro, que passa pela vivência da maternidade da UTI e também do exercício da profissão de médica cirurgiã.

Aproveitei para perguntar sobre a importância da cadeia de mediação para o fortalecimento da literatura. Henrique respondeu que é fundamental profissionalizar a mediação, inclusive criando leis que estruturem a mediação como política pública, atrelada à compra de livros, para que não aconteça de o livro acabar parado na estante ou dentro de um armário de uma biblioteca escolar ou pública. 


Com Izabella Cristo. 


Logo em seguida começou a mesa “Literatura e Família – Maternidade, Paternidade e dramas familiares na literatura contemporânea” com Karine Asth, Cibele Laurentino, Guilherme Marchi e Jaqueline Lima. Bianca Pontes foi a mediadora. Com um domínio impecável, ela conduziu tanto o tempo de fala quanto as reflexões, demonstrando um grau enorme de comprometimento com o tema da mesa e com as obras das convidadas e do convidado. Logo de início ela fez uma provocação ao dizer que estava mudando o nome da mesa, trocando “Maternidade” e “Paternidade” por “Parentalidade”, argumentando a partir da fala da Izabella Cristo na mesa anterior, que mãe nem sempre é quem gera e que o ato de criar, educar uma criança, muitas vezes foge do padrão de família convencional. Ela também convidou as pessoas integrantes da mesa a refletirem sobre como essas relações surgem não apenas em suas obras, mas em seus processos de escrita.

Mais uma vez em quis contribuir e, no momento das perguntas do público, perguntei às pessoas da mesa como elas viam a biblioteca pública e se ela ainda é relevante em nossa sociedade atual, em que a informação e a literatura migram cada vez mais para o suporte digital. Todos afirmaram que a biblioteca é fundamental na vida de quem lê e escreve. Karine foi mais longe ao ressaltar que é imprescindível que mães e pais se envolvam no incentivo à leitura, levando suas crianças à biblioteca pública. Ela fez um encantador relato pessoal sobre a visita que fez com seu filho à Biblioteca Pública de Recife. 

Ao final da mesa, aproveitando que tanto a Jaqueline quanto o Guilherme são de Belo Horizonte, falei da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH, convidando-os para conhecerem nosso espaço. Os dois pareceram interessados em visitá-la um dia. Aproveitei para comprar o livro da Cibele “Eu, inútil” e pegar um autógrafo. Em seguida, fui com Bianca, Cibele e Karine a um café que funciona dentro do parque. Porém, logo nos separamos.


Com a Cibele Laurentino. 


Já no início da noite ocorreu a mesa “Territórios da Palavra: A Literatura de Itamar Vieira Junior”. Eu cheguei quando estava começando e ouvi alguém mencionar no alto-falante “O caso da borboleta Atíria”. Meu alarme apitou. Era o Itamar, contando como esse livro foi crucial para que ele se tornasse escritor. Fui conquistado naquele momento, pois me senti conectado ao Itamar. Afinal, esse livro me encantou de tantas maneiras que ele realmente é a razão de eu ter me comprometido com a leitura e a escrita. Comentei isso com o Pedro, que estava do meu lado. Ele riu e disse que com ele foi a mesma coisa. “Foi o primeiro livro da Série Vaga-lume que eu li!” Ele falou. “Somos irmãos de livro!” Declarei, também rindo.

Um pouco mais tarde, ficamos sabendo de uma mesa nascida “de improviso” sobre o Movimento Neomarginal e fomos assistir. No palco estavam o Wesley Barbosa e o Vitor Miranda. Ambos falaram sobre suas trajetórias como escritores. Wesley revelou como encheu o Ferréz de contos e recebeu dele o retorno positivo. Sobre sua escrita refletir sua realidade e sua admiração por contistas clássicos russos.

Autor de “Os ratos vão para o céu?”, Vitor falou sobre a ironia no nome do Movimento Neomarginal, que dialoga com a literatura marginal de 1970. Falou também sobre seu gosto por brincar com leitores e personagens, visando o inusitado. Após a mesa, aconteceu o sarau do Movimento Neomarginal, com participações de autoras e autores com seus textos de prosa e poesia.

Ainda naquela noite, fomos jantar no Ibis. Lá, reencontrei o Henrique Rodrigues. Ele me reconheceu e perguntou se tinha sido eu a fazer a pergunta sobre mediação. Respondi que sim. Conversamos um bocado sobre prêmios literários e políticas públicas para livro e leitura. 

Ainda esticamos um pouco mais a noite, indo parar em uma lanchonete especializada em batatas fritas. Lá, nós falamos sobre experiências com editoras, mercado literário e projetos afins. Dado o avançar da hora, nos despedimos por lá e eu segui a pé para o meu hotel.

Bem, esse foi o fim da aventura na 20ª edição do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas - O Flipoços. Dias de encontros inspiradores, nascimento de novas amizades e fortalecimento de parcerias. Acredito que um evento desse porte é extremamente necessário, dada sua potência. O evento também revelou uma necessidade urgente do engajamento no combate ao racismo e a outras várias formas de violência. 

É o terceiro ano seguido que vou a Poços de Caldas em ocasião do festival. Ano passado, fui para expor um dos meus livros na tenda dos autores independentes. Desta vez, porém, estive lá como parte do público e pude curtir mais o festival. Espero que em 2026 eu compareça novamente, fazendo novas amizades e fortalecendo as atuais. Por isso, termino este texto saudando as pessoas da Bianca Pontes, da Cibele Laurentino, da Gil Kis, da Mírian Freitas e do Pedro Gontijo. Muito obrigado por tornarem esta experiência inesquecível.


Gratidão!

quarta-feira, novembro 27, 2024

Ainda estou aqui - Um brado por justiça



Vinte de janeiro de 1971. Seria um feriado como outro qualquer, não fosse a prisão clandestina, o sequestro e desaparecimento de um homem. E o crime foi perpetrado por agentes do Estado Brasileiro. Rubens Beyrodt Paiva, ex-deputado cassado, engenheiro, foi rendido em sua casa por militares da aeronáutica e conduzido para interrogatório. A família não imaginava que nunca mais o veria.

Esse é o fato sobre o qual gira o livro Ainda estou aqui. Um acontecimento histórico, investigado e documentado. O que mais assusta é que, décadas depois, o caso está longe de ser solucionado. Afinal, ele atesta crimes realizados por agentes do Estado, com a convivência do regime vigente. O que se sabe do caso é que Rubens Paiva morreu em decorrência das torturas sofridas. Seu torturador e assassino, já falecido, foi devidamente identificado. A localização do corpo, porém, ainda é um mistério.

O livro, escrito por Marcelo Rubens Paiva, renomado e premiado escritor, filho de Rubens Beyrodt Paiva, nos guia por memórias pessoais, registros históricos e depoimentos, de forma que o autor busca montar um quebra-cabeças em que há peças faltando, praticamente impossíveis de serem recuperadas. Outro ponto importante da narrativa é a luta de Eunice Paiva, viúva da vítima. Uma mulher forte, assertiva, que aos 41 anos se viu sem o marido, com cinco filhos para cuidar. Decide então batalhar duro, estudar Direito. Torna-se uma referência no Direito dos Povos Indígenas, com contatos como Ailton Krenak.

Por fim, apresentado de forma entrecortada, está o doloroso processo do surgimento e evolução do Alzheimer de Eunice Paiva. O autor narra o adoecimento dessa mãe que sempre foi referência de mulher forte e decidida. Uma mulher prática. Não é sem pesar que ele descreve os sintomas e estágios de evolução da doença.

É um livro sobre memória mas também sobre esquecimento. Uma narrativa que busca, de forma contundente e encarnecida, reconstituir todo o cenário e contexto do desaparecimento de Rubens Paiva. É também uma obra sobre os melhores anos de um menino, e como sua vida foi arrancada desse ambiente idílico e lançada rumo a uma nova realidade. E a crueldade da vida é tão grande que além de ter perdido o pai no início da adolescência, o autor tem que testemunhar também o definhamento da mãe, seu desaparecimento em vida. Apesar disso, Eunice declara, de tempos em tempos: Ainda estou aqui. É um brado de protesto contra o próprio sumiço dentro de si. Uma declaração de vida e resiliência.

Trata-se, portanto, de um intrincado emaranhado de narrativas, guiadas magistralmente por um artífice da palavra. Marcelo Rubens Paiva tem uma prosa cativante, um misto de confidência com testemunho, narrado na melhor forma. Seria um livro árido, não fosse o trabalho excelente que o autor faz da linguagem, relacionando acontecimentos, lembranças, notícias e depoimentos. Uma obra que busca lançar luz a um evento sombrio e também procura ainda que um mínimo senso de justiça.

Como apêndices, estão a denúncia do crime contra Rubens Paiva e seu acolhimento judicial. Realizei a leitura de ambos com grande pesar. É de fundamental importância que esses apêndices sejam de conhecimento geral, por um mínimo de reparação histórica. Esses documentos expandem a experiência de leitura e tornam o caso ainda mais palpável, ao oferecer detalhes do que já foi apurado sobre o acontecimento, o que contribui para a sua memória histórica

Por fim, uma nota que aponta que o caso está suspenso pelo STF. O que mostra que o brado por justiça continua a morrer na boca de todos aqueles afetados pelos crimes hediondos contra a humanidade promovidos pela sanguinária ditadura iniciada em 1964.


quarta-feira, novembro 20, 2024

Reencontros literários e novas amizades em Carmo da Mata

Autoras e autores em Carmo da Mata

Era uma quinta-feira. O dia estava nublado e a temperatura amena. Um ônibus com destino a Lavras, vindo de Divinópolis, parou diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, em Carmo da Mata, Minas Gerais. Dela desceu um escritor esbaforido e entusiasmado. Essa pessoa era eu.

Estávamos no início de novembro. Dia 7, para ser mais preciso. Meus olhos esbanjavam encantamento por estar mais uma vez nessa cidade onde tantas coisas boas aconteceram, um ano atrás. Estava lá para mais uma edição da Flicar - Festa Literária de Carmo da Mata. Criado e organizado por Júnia Paixão, o evento é uma celebração da Literatura, com diversas atividades propiciando a reunião de autoras e autores com o público leitor. É um momento também de renovar amizades e formar novos laços de companheirismo. 

E foi isso mesmo que aconteceu. Revi muita gente que conheci na última Flicar: Mírian Freitas, Júnia Paixão, Servos Cardoso, Luiz Eduardo de Carvalho, Pedro Gontijo, Thaís Campolina, Hércules Toledo Corrêa e seu marido, Fred. Reencontrei a Gilberta Kis, companheira do Pedro Gontijo, que ele me apresentou no Flipoços, em Poços de Caldas. Tive também o privilégio de encontrar a professora Carla Coscarelli, que me deu aula há mais de vinte anos no curso de Letras da UFMG, e a professora Ana Elisa Ribeiro, premiadíssima, que também me deu aula na UFMG e hoje é professora titular do curso de Letras no CEFET-MG. Reencontrei a escritora e poeta Ana Paula Dacota, com quem pude estreitar os laços de amizade. Esteve lá tamém a Ilma Pereira, que conheço de eventos anteriores e da Liga de Autores Mineiros. Pude rever a Marcela Fassy e a Carla Andrade, que eu já admirava e pude conhecer pessoalmente no lançamento do livro Damascos feridos, da Mírian Freitas, ocorrido em Belo Horizonte. Conheci a escritora Mara Senna e a professora pesquisadora Débora D'ávila Reis. 

Fui apresentado a outras pessoas, como a autora Amanda Ribeiro, que realiza incríveis vídeo-poemas. Além disso, havia uma galera incrível da graduação e da pós-graduação em Letras do CEFET-MG. 

A programação foi rica e diversificada. A abertura, ainda na quinta-feira, contou com um sarau e uma apresentação teatral. Em seguida, foi o lançamento conjunto de várias pessoas, eu entre elas. Lancei meu livro de poesia Cicatriz com muita alegria. Aproveitei para descobrir os livros das pessoas que estavam lançando comigo. Foi maravilhoso.

Na sexta de manhã, realizei na Escola Estadual Joaquim Afonso Rodrigues uma oficina chamada "Meu Primeiro Livro". Os estudantes se envolveram e participaram ativamente, ficando encantados com a proposta. Em seguida, participei da oficina de criação de zine da Carol Vasconcellos. 

Nessa mesma sexta, às 17h, tive o privilégio de participar da mesa "O lugar da Poesia na Contemporaneidade", juntamente com Alex Zani, Mírian Freitas, Mara Senna e Thaís Campolina. A mediação coube a Alícia Teodoro, que fez uma primorosa condução. 

A Festa continuou linda com outras mesas de debate e apresentações literárias. A programação completa pode ser conferida aqui: @filcar_carmodamata. O encerramento aconteceu no sábado, à noite. Porém, eu ainda aproveitei o domingo para curtir Carmo da Mata com algumas pessoas amigas. Foram momentos descontraídos de relaxamento, após as intensas atividades da Festa. Voltei para casa na segunda-feira, com a mente cheia de boas memórias e a mala repleta de livros!

Livros de autoras e autores da Flicar.

Fica registrada aqui minha gratidão à pessoa da Júnia Paixão por mais uma vez acreditar no meu trabalho e ter me permitido participar da programação de um evento tão incrível. E também a Carmo da Mata, pela acolhida sempre tão generosa!


Domingo em Carmo da Mata


Para homenagear a Flicar, fiz um poema, que transcrevo abaixo:

Celebração 


Entre badaladas e anúncios fúnebres, 

a Palavra era celebrada.

Gotas fortes de chuva molhavam 

os caminhos dos livros abertos. 

Os corpos se encantavam 

em meio a tanta água.

Linhas cruzadas, papel e caneta, 

furiosa busca. 

Histórias se derramando, líquidas, 

sobre ouvidos e olhos atentos. 

Na melodia das gotas sobre a lona 

a valsa literária embalava os presentes. 

Não havia tempo. Nem memória. 

Tudo era força e beleza. 

Potência decantada 

e luz.

Carmo da Mata, 11 de novembro de 2024

sexta-feira, outubro 25, 2024

Cicatriz - Meus versos ganham páginas impressas

 

Quem acompanha este blog sabe dos meus experimentos poéticos. Há anos eu publico aqui um ou outro poema. Ando meio parado, é verdade, mas não deixei de correr atrás do meu fazer literário. Continuo escrevendo - inclusive poesia. Portanto, é com muita alegria que anuncio a publicação do meu livro Cicatriz. Trata-se de uma seleção de poemas, muitos deles publicados aqui no blog. 

Este é um livro em que a memória é abordada de forma dolorosa, bem como o aturdimento diante do absurdo que é viver. Sim, viver muitas vezes parece arbitrário e absurdo e o eu poético em Cicatriz questiona-se diante da vida e do mundo. Há também poemas políticos, homenagens e poemas de amor. 

O livro é publicado pela editora Litteralux (antiga Penalux) e conta com a orelha de Mírian Gomes de Freitas. Ele será lançado nas seguintes datas e locais:

Dia 31 de outubro de 2024, às 20h, no FLITABIRA.



Dia 6 de novembro de 2024, às 19h no bar O Boêmio. Av. dos Andradas, 367 - Lj 236C 1º andar - Centro, Belo Horizonte - MG


No dia 7 de novembro, às 19h30, estarei no lançamento coletivo da Flicar - Festa Literária de Carmo da Mata.



Dia 23 de novembro de 2024, às 10h30, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH. 



quarta-feira, setembro 04, 2024

Nos desvãos das palavras - Nuvens


Até onde uma palavra pode ser explorada? Felipe Diógenes, com seu livro Nuvens, explora os limites do uso não-utilitário das palavras, procurando combinações das mais inusitadas, elaborando assim elementos fantásticos em imagens oníricas e metáforas inventivas.

Há algumas palavras recorrentes. Uma delas é catacrese; a outra, talisca. Os sentidos das palavras são esgarçados, não importa o sentido, o que mais importa é a sua sonoridade e a composição onírica das construções metafóricas.

Claro discípulo de Manoel de Barros, Felipe Diógenes procura explorar os sentidos simples das palavras, mas também seu esvaziamento. Cria novas possibilidades de sentido e não-sentido. A memória e sua fugacidade também é abordada nos poemas. A brincadeira de confundir olvido com ouvido é primorosa e bem-humorada. 

A palavra se afasta totalmente de seu viés utilitário, levada a alçar voos, inaugurando sentidos oníricos. “mas pedra é igual equivalência de nuvem”. Nesse verso, presente no primeiro poema do livro, Felipe dá o tom da sua obra, em que os sentidos se entrelaçam. Pedra e nuvem se aproximam e um universo maravilhoso é criado como numa tela surrealista. 

Mas antes mesmo do primeiro poema há uma epígrafe de Manoel de Barros: 

“Repetir repetir – até ficar diferente./Repetir é um dom do estilo.”

E para seguir os versos de seu mestre, Felipe Diógenes repete até ficar diferente. Suas ideias são recorrentes, como a exploração imagética e sonora das palavras. Criando novas fronteiras, o poeta lança mão de sua genialidade para produzir poemas que nos cativam por sua sonoridade e pelas construções inusitadas.

Outra sacada genial de Felipe Diógenes é usar a palavra quase, desconstruindo as palavras colocadas ao lado desta: “quase rua”, “quase todo”, “quase peixe”, “quase fogo”. Numa sanha de desconstrução, Felipe devassa a língua, tornando-a algo mais, como que inaugura uma outra língua, um código secreto, reservado apenas aos iniciados.

A poesia de Felipe Diógenes é incômoda, como toda boa poesia. Como toda poesia genial. Ele nos toma pela mão e nos guia por um caminho caleidoscópico, em que sons e sentidos se misturam, num verdadeiro emaranhado onírico de imagens.


Ficha Técnica:

Nuvens

Felipe Diógenes

Editora Patuá

2024

54 páginas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/nuvens-122497045ed122497523.html

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

Aprendiz da imperfeição - Alcançando o inalcançável



O menino busca em um velho pintor o mestre que precisa. O pintor reluta em aceitá-lo como aprendiz e, mesmo após fazê-lo, não lhe dá aulas, deixa apenas que o garoto cumpra tarefas domésticas e lixe as telas até ficarem lisas o bastante. Mas nunca é o bastante.

Um dia, o pintor ordena ao aprendiz que se ausente por um  certo tempo. Quando retorna, o garoto vê que o mestre terminou a obra da sua vida, uma tela perfeita, que atrai muitos admiradores. Mas a perfeição é insuportável para o velho mestre. Nem vendê-la ele consegue. Como seguir com sua vida, agora?

O livro Aprendiz da imperfeição, de Pieter van Oudheusden e Stefanie De Graef, carrega uma narrativa profunda que se constitui numa fábula sobre a enganosa busca pela perfeição, que é intangível. Não que essa busca não seja importante, mas o fundamental é o processo e não o resultado; o caminho e não o fim. 

É curioso que quando vai executar a obra-prima, o ancião manda o aprendiz se ausentar, como se fosse necessário que cada um buscasse seu próprio caminho de perfeição. Esse caminho não pode ser copiado, é íntimo e secreto. Sem questionar, o menino obedece. Outra questão interessante é o aprendizado pela observação. As lições tomadas pelo aprendiz foram longas e silenciosas caminhadas. Nelas, o mestre parava para contemplar e era também contemplado pelo aprendiz, que buscava capturar o olhar do velho pintor.

Por fim, ressalto que produzir a obra prima poderia ter causado um efeito no mestre de forma a concluyir que não haveria mais nada a ser feito. Po´rem, não é isso que o velho pintor quer. Ele não quer se aposentar, não quer descansar, não quer viver no luxo e na riqueza. Ele quer continuar procurando. E creio que sua conclusão foi que a busca pela imperfeição calculada, deliberada, é tão desafiadora quanto a busca pela tão alardeada perfeição.

Observei que foi escolhida a ilustração digital como técnica para os desenhos. Essa escolha a princípio me incomodou, mas então percebi que os desenhos dialogam como essa idiea de perfeição, com um elemento figurativo quase perfeito, mas cores brutas, marcantes. Não são desenhos com texturas suaves, mas cores chapadas, o que a proxima a ilustração da ideia de imperfeição. Há um certo diálogo estético com as ilustrações orientais antigas, mas como uma sutil referência.

Quanto à linguagem, o texto é leve, poético e repleto de pausas. É um texto maduro, difícil mas igualmente compensador. Senti-me comovido por vários momentos enquanto eu lia.

Talvez, entender a imperfeição como seu novo e verdadeiro ideal, o velho pintor tenha alcançado uma certa paz; uma paz que o fez ver para além da aparência. Ou não. Talvez o tenha percebido que a perfeição é mesmo insuportável e que escapar dela também pode ser uma dádiva.


Ficha Técnica

Aprendiz da imperfeição

Pieter van Oudheusden, Stefanie De Graef

Tradução de Cristiano Swiesele do Amaral

ISBN-13: 9788564974630

ISBN-10: 8564974630

Ano:2015 

Páginas:32 

Idioma: português

Editora: Pulo do Gato


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segunda-feira, janeiro 22, 2024

O Lobo da Estepe - As existências e transformações de Harry Haller



Harry Haller é alguém dividido. Em seu interior, homem e fera combatem entre si. Os ideais civilizatórios e burgueses vivem em conflito com a imagem de um lobo, selvagem e feroz. É o Lobo da Estepe, que ao mesmo tempo que orienta a personalidade de Harry, também o assombra e aterroriza. 

Romance escrito por Hermann Hesse, esta é uma obra profunda e enigmática. Conta sobre esse indivíduo inteligente e culto, em crise consigo e com o meio em que vive, a burguesia. Harry sente angústias atrozes, a ponto de querer acabar com a própria vida. 

Por conta dessa agonia e da insistente vontade de se matar, Harry sai à rua para caminhadas longas e angustiadas. Em uma delas, o protagonista se vê diante de um letreiro onde está escrito "O Teatro Mágico" e tem contato com um livreto que misteriosamente fala de sua vida, "Tratado do Lobo da Estepe". É um texto que não apenas traça um perfil dele mesmo, mas também procura desconstruir a dicotomia em que este se encontra. 

Harry costuma falar de si mesmo como o Lobo da Estepe. E ao ler o livreto, ele vê o quanto essa divisão interna é enganosa. O texto defende que dentro de cada homem vivem vários, inúmeros. E essas existências várias vão moldando o ser na sua suposta individualidade.

Além disso, Harry deseja conhecer "O Teatro Mágico". Interessado em adentrar nesse recinto, ele tem seu acesso impedido, uma vez que a entrada é garantida "apenas para raros". Ou seja, apenas indivíduos excepcionais poderiam adentrar o misterioso recinto. Ou seriam loucos? Essa ideia chega a flertar com Harry.

E então sua vida passa por uma reviravolta quando ele conhece Hermínia. Inteligente, perspicaz, bonita e talentosa, ela se torna uma espécie de tutora de Harry e o ensinará a "viver", a partir das aulas de dança que irá ministrar-lhe. Ela o introduzirá na vida dos bailes e festas. Além disso, através de Hermínia, Harry conhecerá Maria, com quem terá um romance ardente e transformador.

Outro indivíduo importante no percurso de Harry será Pablo, um músico de jazz. A princípio, ele surge como uma pessoa superficial e inócua. Contudo, Pablo assumirá em certo momento o papel de mentor de Harry, através da experimentação de drogas psicodélicas e experiências sinestésicas, dentro do enigmático Teatro Mágico.

O Lobo da Estepe é antes de tudo uma obra densa. Um texto repleto de digressões e especulações filosóficas do narrador-protagonista, o livro conta também com um longo prefácio, o qual procura apresentar esse mesmo protagonista como alguém real, que teria sido inquilino da casa em que Hermann Hesse morava. Assim, temos dessa forma um perfil psicológico do narrador-protagonista, numa introdução que busca preparar o leitor para a longa e enigmática de autodescoberta de Harry Haller.

Com um texto profundo, repleto de referências culturais e que busca apresentar camadas filosóficas ao enredo, O Lobo da Estepe é uma obra instigante, incômoda e, sobretudo, transformadora. Um livro para ser visitado pelo leitor de tempos em tempos, com a certeza de que, a cada leitura, um novo ser humano surgirá dessa experiência.


Ficha Técnica

O Lobo da Estepe

Hermann Hesse

ISBN-13: 9788577991075

ISBN-10: 8577991075

Ano: 2009 

Páginas: 252

Idioma: português

Tradutor: Ivo Barroso

Editora: BestBolso


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segunda-feira, janeiro 15, 2024

Balada de amor ao vento - Uma vida inteira de amor



A linda Sarnau está apaixonada. Seu coração foi capturado pelo belo Mwando. Há, porém, muitas dificuldades esperando esse possível romance. Mwando está estudando para ser padre. O amor dos dois será mais forte que a suposta vocação do rapaz? Este é um dos muitos percalços que Sarnau irá enfrentar para viver este amor.

Balada de amor ao vento, romance de estreia de Paulina Chiziane, é uma narrativa poética e melancólica, repleta de saudade e tristeza. No primeiro capítulo, Sarnau já se aproxima do fim de sua vida e começa a se lembrar dos encontros e desencontros que teve com Mwando. Como narradora, ela vai desfiando essas memórias. O amor se realiza, com Mwando correspondendo aos sentimentos de Sarnau e sendo por isso expulso da escola de padres. Os dois se entregam a esse amor, mas logo Mwando é prometido a outra mulher.

Sarnau pouco tempo tem para sofrer essa desilusão amorosa, pois ela é logo escolhida para ser a primeira esposa do príncipe herdeiro de Mambone. O casamento, porém, não será dos mais perfeitos. Nguila, o herdeiro do trono, além de mulherengo é violento e isso tornará a vida de Sarnau terrível.

A narrativa então se desdobra em duas, contando para nós, leitoras e leitores, a vida tanto de Sarnau quanto de Mwando, de forma intercalada.

A narrativa de Paulina Chiziane é maravilhosamente profunda e repleta de reflexões. As descrições resultam em imagens poéticas lindas, com elementos pitorescos e naturais. Nas digressões que Sarnau faz como narradora, ela denuncia todo o machismo da sociedade em que está incluída, em especial os efeitos funestos da poligamia. O sofrimento da mulher é evidenciado nesse processo.

Mwando também tem sua cota de tristezas. Em seus encontros e desencontros com o amor, ele também sofrerá e não será pouco. Porém, diferentemente de Sarnau, Mwando será o maior responsável por seus próprios sofrimentos. Ele não deixa, porém, de ser também uma vítima do sistema em que vive, sendo assim um homem de contradições.

Com uma prosa poética e de certa forma idílica, além das denúncias que carrega e o enredo repleto de percalços, Balada de amor ao vento é um livro belo e triste. Mas daquelas tristezas que não podemos deixar de evitar. Um livro que, como a vida, é feita de encontros e despedidas.


Ficha Técnica

Balada de amor ao vento

Paulina Chiziane

ISBN-13: 9789722115575

ISBN-10: 972211557X

Ano: 2003 

Páginas: 149

Idioma: português de Portugal 

Editora: Editorial Caminho


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quarta-feira, janeiro 10, 2024

Ler é um ato de amor

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Para Thuya

Eu amo ler. E acho que ler é um ato de amor. De autoamor, principalmente. Mas também um ato de amor para com alguém desconhecido. Um amor clandestino e estranho. Afinal, a gente está dando um pouco do nosso tempo, que é algo que a gente tem de mais precioso, para ler as palavras dessa pessoa. Para entrar em contato com o seus ensinamentos e ideias. E por mais que a gente tenha o nome dessa pessoa, conheça a sua biografia e tal, ela é uma estranha. A não ser no caso de cartas. Aí esse amor não é clandestino ou estranho. Isso, geralmente. Pode ser que o seja mesmo assim. 

Mas por que ler é um ato de autoamor? Porque quando a gente lê, está investindo tempo de qualidade em si mesmo. Ler não é se distrair, mas inaugurar um espaço íntimo de encontro consigo. Através da leitura, a gente está investindo em nossa imaginação, enriquecendo nossa criatividade. Através da leitura, estamos criando conexões neurais que são fundamentais para a nossa saúde mental. Além disso, é através da leitura que a gente entra em contato com experiências que muitas vezes seria impossível ter. Nossa mente é reconfigurada quando lemos. Ainda mais quando é literatura.

Voltando à questão da leitura como um ato de amor, considero que a escrita também o seja. Não há leitura sem escrita, apesar de existir a leitura do mundo, tão defendida por Paulo Freire. Não questiono o grande mestre e educador. Porém, quando falamos de leitura literária, não tem como considerá-la sem o gesto de escrever. E esse é também um ato de amor. É só a gente pensar nos grandes filósofos, nos grandes professores, naqueles que buscam investigar o mundo e não apenas adquirir conhecimento, mas compartilhá-lo através de palavras, sentenças, cadeias textuais discursivas.

E quando penso em literatura, penso naquelas pessoas que separam seu tempo para escrever a um destinatário ignorado um poema, um conto, uma crônica. Essa pessoa está demonstrando um profundo amor à humanidade. Como o escritor Tiago Novaes disse, existem várias formas de demonstrar esse amor na escrita. Penso que toda escrita é um ato de sedução, pois é um amor que espera ser correspondido. A Literatura quer ser lida, acima de tudo.

segunda-feira, janeiro 08, 2024

Sidarta - O longo caminho para a iluminação



Sidarta, de Hermann Hesse, é uma leitura profunda, reflexiva, interessante e repleta de sabedoria. Hesse cria um personagem que faz um percurso acidentado e sinuoso para chegar ao tão buscado Brama, ao aconchego do Om, ao Nirvana.

Sidarta é um jovem bonito e inteligente. Essa inteligência o afasta dos seres humanos comuns a ponto de desprezá-los. Seu talento permite que aprenda com espantosa rapidez e facilidade conceitos complexos e técnicas de meditação desafiadoras. Além disso, ele tem uma beleza ímpar e um físico invejável, de forma a sempre atrair a atenção de todas as pessoas ao redor.

"Infelizmente", esse mesmo talento o lança em uma longa e tortuosa jornada em busca da santidade, da iluminação. O caminho não é fácil, é cheio de percalços e o jovem, inicialmente acompanhado por um fiel amigo de infância, logo descobre que deverá trilhar sozinho essa senda.

Ele irá buscar até mesmo junto ao comércio e à vida material essa tão desejada iluminação. Será iniciado nas artes do amor e aprenderá o valor do corpo físico, além da vida espiritual. E seu caminho não se encerrará nisso. É de fato uma senda muito tortuosa, uma jornada solitária e muitas vezes inglória. 

Hermann Hesse cria com Sidarta uma primorosa obra que funciona como alegoria para nossa própria busca espiritual. Sidarta é um e vários ao mesmo tempo. Afastando-se do caminho religioso e se lançando no mundo, o protagonista é cada um de nós. Assim, Hesse nos convida a vestir a pele de Sidarta e degustar as delícias e dores que ele atravessa.

Muito se poderia dizer desse romance relativamente. Porém, quanto mais eu escrevo, sinto que mais me afasto do enredo em si. Portanto, cabe a você, leitora ou leitor, vocês leitores, trilhar o caminho e tomar Sidarta pela mão.


Ficha Técnica

Sidarta

Hermann Hesse

ISBN-13: 9788501118295

ISBN-10: 850111829X

Ano: 2019 

Páginas: 176

Idioma: português

Editora: Editora Record

Tradutor: Herbert Caro

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/sidarta-1814ed1008204.html

quarta-feira, janeiro 03, 2024

Vontades e intenções para o ano novo

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Então um ano novo se inicia.  Há muito o que fazer. Sempre há. No campo da blogosfera, então, nem se fala. Há quem diga que ela morreu. Quem somos nós, então, que heroicamente atualizamos nossos blogs com frequente tenacidade? Somos zumbis? Somos guerreiros? Somos heróis?

De mim, sei apenas que sou um escritor em eterno processo de formação. E este blog é o meu ateliê aberto, onde compartilho meu percurso literário e falo de meus projetos. E nada mais natural que falar deles aqui, neste texto que serve como um balanço do ano passado e ao mesmo tempo um manifesto de intenções para este que se inicia.

Em 2024, desejo publicar mais. A ideia é ter três textos por semana, sendo uma resenha na segunda, um texto livre na quarta (relato, crônica ou conto) e um poema na sexta. Tenho seguido esse padrão há um tempo, mas anda assim, em 2023 não mantive essa regularidade.

Levando em consideração que o ano tem aproximadamente 52 semanas, a meta é chegar a pelo menos 156 postagens. Mesmo assim, não terei alcançado o ano de 2021, quando publiquei 166 vezes. A gente sabe, porém, que qualidade e quantidade nem sempre cainham juntas. Por isso, não pretendo a princípio bater esse recorde.

Tenho planos também para a minha carreira literária, não apenas para o blog. Estou com um texto infantil em processo de publicação em uma editora. Vou finalmente publicar com o Rodrigo Teixeira uma coletânea de contos sortidos. O livro se chama Achei que você fosse o outro. E O Medalhão e a Adaga vai ser republicado por uma nova editora. 

Pretendo também terminar de escrever a sequência do livro O Viajante Cinzento. Aliás, há anos estou devendo a sequência de O Medalhão e a Adaga. Quero ter energia o suficiente para fazer isso em 2024. Pretendo terminar os vídeos em que leio A Cidade Suspensa. Retornar com os vídeos em meu canal é uma ideia ainda um pouco distante.

Há outras coisas que pretendo fazer, que é participar de mais eventos literários, principalmente feiras e bienais, ler mais livros sobre a formação do escritor, além de escrever aqui sobre essas leituras. Tenho como ambição ler 60 livros de literatura, sendo 40 romances e 20 livros de poesia. E quem sabe, 10 livros de teoria. Sim, é muita coisa. Mas acho que a ideia é puxar a meta pra cima, mesmo.

Enfim, como disse no início deste relato, tenho muito a fazer neste ano. E espero a companhia e os comentários de vocês, que têm testemunhado os percalços e peripécias deste escritor em constante processo de formação.

quarta-feira, dezembro 27, 2023

Oficina estimula as crianças a encararem seus medos e refletirem sobre empatia



No dia 11 de novembro compareci à Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH para oferecer a oficina "O medo que a gente tem". Na atividade, eu li o livro Lolô, de Gregoire Solotareff. A partir da leitura, eu discorria com as crianças sobre as palavras "medo" e "empatia". Os sentidos dessas palavras eram explorados. Perguntei para as crianças de que elas tinham medo. Algumas disseram ter medo de aranhas. Outras, de baratas. Em seguida, falei sobre se colocar no lugar do outro, sentir o que o outro sente. Convidei as crianças então a desenhar suas imagens de medo, como forma a enfrentá-lo. Um aspecto dessa oficina em especial foi que as crianças foram chegando e eu voltava a ler com elas o livro e as convidava para produzir desenhos.

 











No dia 23 de novembro, foi a vez de ir à Biblioteca do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Atendi a cerca de 75 crianças. Resolvi mexer um pouco na metodologia. Perguntei primeiramente sobre o que os lobos gostam de fazer. A resposta foi "caçar". Dei início então a uma leitura reflexiva e dialógica, apresentando os personagens Tom e Lolô, contando a história desses dois.

Após a leitura, comecei a explorar alguns aspectos do livro, falando sobre a diferença entre MEDO-DE-LOBO e MEDO-DE-COELHO. Falei do trauma que Tom sentiu ao ser profundamente assustado por Lolô. Além disso, discorri sobre as questões como o significado da palavra "empatia" como contraponto à "antipatia", que todos conhecem e cujo conceito compreendem intuitivamente.

Sendo assim, explorei um pouco a questão da desigualdade desencadear processos nem um pouco empáticos, gerando profundos traumas nas pessoas. Contei do meu medo de aranhas e a brincadeira durante a infância em que meu irmão, Arthur, junto com os amigos Áquila e Samuel, procuraram me assustar com uma enorme aranha fosforescente. E como o resultado foi desastroso, pois estávamos todos de hóspedes na casa desses amigos e os vizinhos comunicaram aos pais deles essa confusão gerada com meus gritos de susto. 

As crianças disseram ter se divertido muito. Aproveitei para contar a história "O caso do bolinho", seguida da Que bicho será que fez a coisa?

Também discorremos um pouco mais sobre medos e a importância de a gente se colocar no lugar do outro. Estava com meus cartões. Aproveitei para separar um cartão e deixei com uma das professoras. 

Por fim, fizemos algumas fotos para marcar a iniciativa.  





O último encontro da oficina "O medo que a gente tem" aconteceu no Centro Cultural Usina de Cultura. As crianças eram bem pequenas e estavam bastante inquietas. Elas faziam parte de uma creche parceira da PBH. Apesar da inquietação, pude observar que prestaram bastante atenção durante a leitura. Quando fui conversar sobre os aspectos "medo" e "empatia", elas começaram a ficar agitadas. 

Por conta do tempo curto e da agitação das crianças, considerei melhor encerrar a atividade. Também deixei meu cartão com uma das professoras, ficando assim a possibilidade de visitar a instituição parceira.


Por fim, considerei essa oficina muito interessante e com um potencial enorme. Uma atividade que apresenta uma obra diversa e de grande sensibilidade. 

Espero poder oferecer essa oficina nos centros culturais novamente. Ou realizá-la em outros espaços, como bibliotecas comunitárias, creches e escolas.

E você, o que achou? Já leu o livro indicado? Realizou alguma oficina de leitura literária? Deixe abaixo seu comentário, compartilhando sua experiência ou reflexão.