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sexta-feira, fevereiro 02, 2024

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Eterno pó dos astros que observo agora;

Qual meu pequenino peito, o firmamento chora.

Que vista tão suave, tão singela e pura!

É neste bom momento que almejo cura.


Sei que minh’alma é fraca, vil, pobre e escura;

Cercada de temores, repleta de fissuras.

Que por essas brechas penetre, eu espero,

O belo resplendor de um amor sincero


Que limpe finalmente as profundas chagas.

Sem descansar persisto buscando sobre as vagas

Desse mar tão duro e ácido que causa mais feridas

Reflexo doloroso de tantas despedidas.


E não desistirei, espero encontrar.

Em frente seguirei meu triste caminhar

Eterno caminheiro, cantando em seu caminho

O canto de esperança em não andar sozinho.


segunda-feira, março 23, 2020

Vontade, sentimento estrangeiro



Hoje quero andar pelas montanhas
desnudar minha alma sob o céu
desvelar meus olhos sobre as águas
Repousar à beira de um lago calmo

Hoje eu quero ver sorrir uma estrela
Abraçar teu corpo tão cinético
Balançar suavemente seus oblíquos cabelos
Ao som do vento a mover os galhos secos

Da árvore de nosso encontro
Planta plantada qual adaga em meu peito
Em minha memória dos dias em que juntos
olhamos pra frente como um só coração

E sentir frustração por ver tudo morto
Não saber se chorar, se gritar, se morrer
é melhor que a vida sem tua companhia
é melhor do que os dias sem poder te ver

quinta-feira, março 19, 2020

Tortura

Reflexo louco das horas mortas
poesia maldita pérfida e torta
navalha cega qual frio corta
o peito insone por trás das portas

Cálido vento vindo de terras
há muito já mortas a apodrecer
Inóspito sítio repleto de feras
nascidas do próprio anoitecer

A bruma é a forma de um grito nascido
Do sol que agoniza ao fim da tarde
Mesclado ao forte e intenso bramido
de um mar furioso que em fogo arde

O grito é silêncio dentro em meu peito
falar eu não posso ainda que tento
dessa dor aguda ferida sem jeito
A sina que assina todo meu tormento

segunda-feira, março 16, 2020

Auto-abismo

Rasgo o meu peito
com palavras sem sorte
Eu sei, não sou forte,
sou um pouco sem jeito.

É um grave defeito
gostar tanto da morte
qual um corpo que aborte
o seu bem mais perfeito.

E deitado em meu leito
perco o rumo, o norte.
Faço um profundo corte
do mal que está feito.

sábado, março 14, 2020

Gargalhada



Gárgula
Gargalha
larga garganta
aberta entre a galha

Gargalhada
do Gárgula
grotesca
grota escura

Noite pura
escura
secura d’alma
alma se cura?

Escura grota
Gárgula arrota
geme
aurora teme

canta e dança
balança

foge da sorte
é a morte

surte no peito
efeito

surge a aurora
agora

teme a luz
lá fora

se enrijece
e desce

a terras ermas
enfermas

a alma some
disforme

o corpo é rocha
a alma é palha
a mente é eco

quinta-feira, março 12, 2020

Mistérios

No domínio dos esquecidos
estão os arcanos valiosos
ditos de sabedoria
ocultos sob a folha seca
que a brisa leve sopra
e no severo olhar
de quem quer esconder
o segredo que ignora.
As Leis da Vida 
e da Sorte
nunca nos foram pronunciadas.
Somente uma corda bamba,
fundamento quase sólido
para nossos passos trôpegos.
Nada sabemos 
e é este nosso maior tesouro
o maior trunfo e
enquanto o sangue jorra
vivo como a esperança
vemos tudo perder a cor
mas então pra salvar o mundo
nós o colorimos novamente
com outros embotamentos.

terça-feira, março 10, 2020

Meu Ostracismo



Fiquei pensando em você
Mais em mim se quer saber
No jeito que eu queria
Na forma que te aceitaria

E senti o agudo espinho
De minha própria patologia
Pois abri mão de te amar
Em busca de um ideal

Deixa estar... nada mais serve
Pra quebrar esse vil ciclo.
O muro que me cerca
Edifiquei com aço e bronze

Pra deixar você bem longe
Me privando de te ver
Não sofrendo a tua imagem
Só a falta de te ter

sábado, março 07, 2020

Circunstâncias


É isso mesmo
não importa qual seja tua pergunta
constato que me consta
o asco que repulsa
meu desejo de responder
com a mesma coerência
que esperas de minhas palavras
Infeliz situação
Ficarás no desfavor
de minha sinceridade

quinta-feira, março 05, 2020

Sangramento



Beijo a face da Palavra
sangrenta e de ordinárias formas
letras vis
sujas
Da sofrida labuta do eu
inventado
Sangra de novo
mas não quero não vou
Pode ser um pesadelo cômico
mas é pesadelo
Sonho trágico
mas é trágico
Não quero saber de tuas sangrias
deixa-me, Poesia.

Poesia

É força
É fato
Energia vital
que arrebenta os recipientes da forma
Não à banana na poesia
Não à poesia de banana
banana para a poesia
Negue-se o ludo
o vaivém das palavras oceânicas
decante-se a arte
desencante-se a arte
Fragmente-se estilhace-se
cicie-se, silencie-se
E no final
matem todos os poetas.

quarta-feira, março 04, 2020

Contraponto 3

Era para ver
mas não viu
Quem foi que disse?
É o mulambo jogado na porta
Tira esse mulambo daí sô!
Só quero ver quando chegar
Se alguém vai ter algo a dizer

terça-feira, março 03, 2020

Violência

Dias mais alegres
e todas as inferências
que eles possam trazer

Desejo aspirado suspirado
suplicado ardentemente
almejado

Flores em um pasto
sol sereno
e riachos cantantes

Mas o que vejo?
Dá pra dizer?
Não! Quero esconder!

O que sou? Bicho-pensamento, boi mecânico
atropelo as flores e o campo
mancho as águas com meus “por quês?”

E sinto o esvair da vida... que desperdício
de um amanhecer
que nada mais tem pra banhar

As flores suicidas estão tão pálidas
no campo cinzento
em meio aos gritantes riachos de sangue.

segunda-feira, março 02, 2020

A cor do medo é

Faltou-me caneta para escrever
alguma poesia
mas, o que é poesia
senão o esboço pálido
de uma existência?
que passa
como as horas irregulares
da espera
de que o fim 
chegue lentamente
sem dor, sem pesar
pois tememos e com amargo desespero
que o cessar venha e,
como foice sobre o trigo,
nos ceife num momento

domingo, março 01, 2020

Contraponto 2

Irônica criança
presa em seu caminho
vaga sem destino
ou no destino dos outros quer vagar
sem saber
sabe da sorte
a morte
da pureza
o início
do amálgama
do contraste de si mesma
mundo
não-mundo
e o enxergar lá dentro
Quer saber?
Nem eu!
Pelo menos tudo fica como está
mas...
de outro jeito

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

A mão do poeta

É branca a mão do poeta
branda?
Há um poeta de mão transparente
e grandes visões
E o poeta de mão opaca não entende
Criação?
Magia?
Ou então simples loucura seria?
Não se sabe, nem mesmo este poema
quando nasce não quer saber
pois o está feito deste poema
é mais preocupado em existir
do que responder à existência
E ao poeta opaco
Suas próprias indagações.

quarta-feira, setembro 18, 2019

Profusão

Solidão profunda
me inunda
arregaça o peito
não me aceito
É a minha sorte
de ser forte
Perdedor contudo
pobre e mudo.

Sigo o meu caminho
vou sozinho
E me endureço
Pago o preço
de ser diferente
sigo em frente
Sem chegar porém
Sou ninguém

Olho à minha volta
Medo volta
E engulo em seco
Eu me perco
No vazio triste
que persiste
E que todavia
Me alivia

domingo, setembro 15, 2019

Picadeiro

Apresento-me aqui
Senhor leitor
Neste picadeiro iluminado,
tua cuca tão pós-moderna!
Não reflitas tanto, caro amigo,
pois hás de enlouquecer
e darás uma pirueta
como a que dou agora
em tua desamparada caixola
caio
não caio
me equilibro, por um triz,
na ponta do teu nariz.
Quero risos, gargalhadas
quero caretas.
Nem que sejam
de mais puro desespero
e que a comédia
seja já sem graça
piada de mau gosto
bolo de mel amargo
estragando as expectativas
imitação mórbida
quase idêntica
da nossa vida.

sábado, setembro 14, 2019

Necessidades

Precisa-se de sorrisos
raios de sol esparsos
despertas sonolências
relampejos de felicidade

Precisa-se de lágrimas
decantadas pedras preciosas
diamantes, cristais oblíquos
efêmeros tesouros de nostalgia

Agora, mais que desesperadamente
precisa-se de sangue
gotas e mais gotas, chuvosas
mares eternos em tom escarlate

E suor, por Deus, não se esqueça dele
correndo salgado por um corpo forte, rijo
voluptuosamente ativo, imponente
a preencher despropositadamente o vazio.

quinta-feira, setembro 12, 2019

Exilado

Habito em outro mundo
longe de mim
Lá a vida é mais simples
e luminosa também
Uma princesa ali existe
me esperando libertá-la.
Um castelo subsiste
Ainda que de nuvens
com um trono de jasmim
e uma coroa de cristais
Mas não vivo nem lá
nem cá
Pois nos melhores momentos
sou despertado pelos barulhos do trânsito
das notícias econômicas
da filosofia vã
e das batidas do meu próprio coração