sábado, agosto 01, 2026

Prosa Poética de 30 de junho de 2026

Objeto provocador



Epílogo


Então aconteceu o inevitável: o ser humano alcançou os limites do Universo. Ultrapassou a Via Láctea. Em seguida, cruzou todas as galáxias no caminho. Incontáveis anos-luz foram finalmente contados, pois a distância foi vencida.

No Planeta-Mãe, que havia eras deixara de se chamar “Terra”, trilhões de pessoas aguardavam a transmissão do momento em que o Fim do Universo seria alcançado. Não havia pessoa humana que não tivesse os olhos colados em seu transmissor virtual. “Olhos” é forma de expressão, uma vez que, com os implantes cibernéticos, as telas surgiam dentro da mente do espectador, em seu campo de visão. Já aqueles que haviam contratado a cobertura premium poderiam curtir uma simulação em tempo real, como se fossem parte da corajosa tripulação. Ou poderiam ser um corpo celeste próximo do evento, ou até mesmo o próprio módulo espacial.

As colônias humanas, tão numerosas quanto os corpos celestes, tamém acompanhavam o resultado da expedição. Ninguém falava de outra coisa. O limite final havia sido por fim alcançado. O módulo, ironicamente batizado de “Babel”, iria concluir um mito antigo, unindo os seres humanos em um só coração, uma só alma, uma só mente. 

Então, o módulo enfim chegou. Era ali, o limite. O final. A fronteira. Era lisa. Impenetrável. Invisível. O veículo espacial só não colidiu e foi estraçalhado porque os sensores captaram a misteriosa energia da barreira a tempo.

O ultra computador de bordo analisou a composição da barreira. Constatou ser ela feita de uma partícula nunca antes identificada. Prosseguiu a análise e buscou projetar o formato da barreira, que de fato não era reta, mas curva. Apesar das dimensões astronômicas, foi possível ao ultra computador valer-se da capacidade de processamento via léptons, compartilhada por outros computadores espalhados pelas colônias e também no Planeta-Mãe.

Ao fim de uma década, foi possível concluir os cálculos necessários e criar um modelo da barreira. Era côncava. Para dentro. E propagava-se por todo o Universo, até fechar-se em si mesma, encerrando toda a matéria.

O Governo Universal tentou ocultar a verdade, mas já era tarde. A hiperconectividade impediu o abafamento e logo os remanescentes da Mídia Livre alardeavam a Manchete, dando ao Universo a alcunha de Mônada

As tentativas de romper a barreira foram várias. Um modelo teórico apresentou a hipótese de que a energia necessária para realizar um furo de meio centímetro na barreira seria equivalente àquela usada para manter unida toda a massa presente no Universo. Para romper a barreira, seria necessário detonar em fissão nuclear todos os átomos presentes em seu interior. 

Esse foi o princípio do fim. Bastou saber-se aprisionado, o ser humano sucumbiu. A claustrofobia espalhou-se qual epidemia. Mundos inteiros detonaram suas ogivas, pulverizando-se. Guerras sobre guerras coroaram a angustiante insânia. A Vida em todo o Universo acabou. 

Do lado de fora da Mônada, A esfera que ela de fato era repousava em uma estrutura, junto com muitas outras. Esta estrutura de dimensões impossíveis girava, movida por uma alavanca. E os Eternos aguardavam qual esfera seria por fim tirada no sorteio. 


Perfeita 


A Face lisa 

e fria 

Ovo 

Núcleo 

Fato 

Fausto 

É impossível 

haver Vida 

nela. 

Apenas promessa. 

Ao abandonar 

enfim 

a perfeição 

Será quando 

poderá 

de uma vez por 

todas 

Viver. 


Prosa Poética da Tarde 


Lampejo 


Superfícies oníricas 

evocam reflexos 

diáfanos. 

Aturdido estou. 

Ofuscado. 

A luz era muita 

refratada 

em múltiplas faces 

prismáticas. 

Mundos inteiros 

surgiram assim. 

Depois, deixaram 

de existir. 

Eu apenas continuei:

Desejo.


Fato


Aquela colina 

já abrigou um Castelo.

Nuvens passaram 

ventos 

chuvas. 

Hoje nada resta 

do que um dia 

foi 

agremiação de pedras 

a acolher 

amores e 

intrigas. 

O Senhor Castelão 

possuía 

dois olhos de vidro. 

“Para ver longe”, dizia. 

Espiava o futuro 

distante 

e via apenas pradaria. 

Não compreendia. 

Foi incapaz de enxergar 

a própria 

Ruína. 


Ode


Faltam vinte minutos 

para o Fim do Mundo. 

Num canto escuro, 

as crianças se encolhem. 

Abraçam os joelhos e 

tremem. 

A cozinha está 

só poeira. 

As janelas 

exibem vidros 

quebrados. 

Mãos pequenas 

se cortaram 

nos cacos. 

O tempo 

mordeu os anos. 

Rasgou pele 

moeu ossos. 

Ninguém 

foi capaz 

de impedir. 

Apenas um único 

observador 

Testemunhou 

E, resignado, 

compôs uma ode. 


Lamentação 


Aquela 

era a casa 

mais sozinha 

do mundo. 

Num mundo 

mais sozinho 

que todos 

os outros 

do universo. 

Por mais 

estrelado 

que seja o 

céu 

cada estrela 

vaga solitária no 

Vazio. 

Triste. 

Lúgubre. 

Melancólico. 

É o olhar 

de quem escreveu 

este poema. 


Traste


Começar de um jeito 

e terminar de outro 

é algo demasiadamente 

humano. 

Ainda assim, 

tremo. 

O desprezo 

que sinto 

diante do espelho 

embrulha meu 

estômago 

Faz a bile dançar 

em meu 

esôfago. 

Preciso de afago. 

Mas nada espero. 

Um cão vadio 

vale mais. 

Ainda que seja 

hidrófobo. 

Sabe aquele cuspe 

que em breve 

vai secar? 

Pois é 

Sou eu. 


Alerta 


Depois deste poema 

o mundo terá acabado. 

O último deverá 

apagar a luz 

fechar a porta 

e desaparecer 

para sempre. 

Deus acordou 

do sonho que chamou 

“humanidade” 

e convenceu-se 

de que era 

pesadelo. 

Em vingança, 

quis existir 

no coração dos homens 

para aí fazer habitar 

o horror e o pesadelo. 

Foi assim que nasceu 

o Mal. 

Esse mesmo que vai 

devorar a carcaça do 

Mundo 

Agora 

que ele acabou.

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