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segunda-feira, outubro 01, 2012

O Andarilho - Parte II de II

Ir para O Andarilho - Parte I de II


Seridath arregalou os olhos, surpreso com a declaração do velho. Teria que aceitar as suas condições se quisesse lutar. Deu um gole no copo de cerveja e engasgou. Por fim, pigarreou e voltou a falar, resignado:
– Velho, me inscreva essa "força". O rapaz aqui ao lado também irá participar. Ele é um excelente arqueiro.
Seridath vira Aldreth usar seu arco enquanto caçavam, durante a viagem a Dhar.
– Transmitirei teus interesses aos meus superiores – respondeu o velho, com um suspiro. – Estou ignorando o protocolo por tua causa... Amanhã terás tua resposta. Se admitido, deverás passar pela prova de habilidade. Será necessário conferir se conheces as vozes de comando.
Dando a conversa por encerrada e sem esperar a concordância de Seridath, Urso Pardo levantou-se. Parecia cansado e saiu da taverna com um andar vagaroso, apoiado em seu rústico bordão. Seridath dispensou Aldreth, deixando com o garoto duas moedas de cobre, para que ele desse um jeito de arranjar o jantar, mesmo com aquela quantia miserável. Enquanto o cavaleiro se acomodava em seu cubículo, para mais uma noite sob os cobertores, seu pajem enfrentava o clima outonal no estábulo.
No dia seguinte, quando a noite caía, Urso Pardo compareceu ao novo encontro, como prometido. Dessa vez, não havia cerveja e Aldreth estava silencioso ao lado de seu amo.
– E então? – perguntou Seridath, enquanto o velho tomava seu lugar na mesa.
– O Conselho decidiu encerrar o recrutamento.
Seridath não escondeu sua consternação.
– Não entendo – disse. – Já falei que tenho experiência. Não haverá necessidade de gastar tempo comigo em treino. Apenas com o rapaz, e ele aprende rápido.
– Mas já é muito para arriscarmos – advertiu o velho. – A situação mudou. Recebemos hoje um mensageiro. Há rumores de ameaças maiores, correm boatos de que Quiriath-Mon está sendo reerguida. Deveremos partir o quanto antes.
– Vocês, dessa "Companhia", sempre correndo atrás de rumores e boatos! Pelo que eu sei, caro andarilho – Seridath fitou Urso Pardo com raiva. – Essas histórias não passam de lendas. Sei muito bem o que a palavra Quirite-Mon faz o populacho daqui estremecer. Mas para mim, os Ascos podem nunca ter existido, bem como Helena e seu Império de Gridsmar!
O velho andarilho ergueu os olhos em censura na direção de Seridath, como se o jovem cavaleiro tivesse proferido uma grande blasfêmia.
– Cautela, rapaz, cautela! – advertiu em voz baixa. – Estamos longe do reino de Renandart, mas mesmo aqui neste país os homens veneram Helena como uma deusa!
– E alguns também veneram os Ascos – rebateu Seridath.
– Por pura loucura, meu jovem, ou imprudência. As forças da Luz já provaram seu poder sobre as hordas das Trevas.
– Mas, se os boatos sobre essas "hordas das Trevas" estiverem certos, não serão burros para desperdiçar uma espada que seja.
– Não zombes de minha paciência, estrangeiro – o olhar antes amigável do velho deu lugar a uma expressão implacável. – Tua impertinente acidez me irrita. É loucura zombar de quem carrega o Orgulho em seu nome. Lembra-te disso.
Seridath calou-se, empertigado. Olhou para ambos os lados. Nem mesmo ele conseguia entender o porquê de tanta obstinação por fazer parte daquele grupo de lunáticos.
– Olha, velho – retornou o cavaleiro, inclinando-se levemente sobre a mesa –, eu só quero um lugar no exército e um uniforme. Não me importa se vocês querem andar na campina caçando fantasmas ou o quê. Quero apenas lutar. Peço que ao menos não me negue isso.
O andarilho inclinou o corpo para trás, apertando mais as sobrancelhas, seu rosto cada vez mais sério. Por fim ele suspirou.
– Tudo bem, rapaz. Procurarei mais uma vez ir contra o protocolo e convencer os membros do Conselho. Advirto contudo que não há como contrariar o Grande Andarilho, Serpente Flamejante. Caso ele permita, tu e teu pagem serão membros da Companhia, mas não haverá espaço para essa tua altivez. Aceitarás o mais humilde posto que o Conselho delegar-te.
– Quando o exército partirá? – perguntou Seridath, como se já fosse um empregado da Companhia.
– Em breve. Estamos nos preparativos finais. Creio que no dia 19 estaremos prontos, no mais tardar dia 20. Caso sejas admitido, é bom estares pronto em nossos alojamentos antes da data.
Ao ouvir as últimas palavras do andarilho, Seridath assentiu, taciturno. Era verdade que o pagamento era escasso, mas o rapaz tinha toda certeza que aquele iria ser dinheiro fácil. O negócio, afinal, teria que valer a pena. Para todos os efeitos, ele era agora um dos guerreiros da Companhia.


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